00:00Ele foi réu do julgamento social, foi condenado por moradores que se diziam justiceiros e precipitadamente deram a sentença.
00:10Saquearam a casa de Hélio e botaram fogo na residência.
00:14Ali eu já vi que eu estava assim, a merced da sociedade, né?
00:18O que eles decidissem fazer, decidissem fazer, eles iam fazer, porque eu estava sem proteção nenhuma.
00:23Hélio Felipe é marceneiro, tem 26 anos.
00:26Jesus é casado. Ele e a esposa esperam um bebê, previsto para nascer daqui a um mês.
00:33O morador de Nova Esperança, Cariacica, teve a casa invadida por mais de 10 bandidos na última quinta-feira.
00:40Do local, levaram todos os eletrodomésticos e móveis e incendiaram o quarto da bebê.
00:47Fogo que se alastrou pela casa.
00:50Eu só pedi ajuda, porque eu estava de longe e não podia fazer nada.
00:53Só falei, eu estou perdendo tudo que eu tive conquistando, trabalhando todos esses anos.
00:58E assim, aquilo ali para mim, a minha casa não estava a ponto do jeito que eu queria, mas sempre
01:04foi um sonho.
01:05Eu planejei durante muito tempo, com muito esforço de trabalho, trabalhando dia e noite, às vezes, domingo a domingo.
01:12Tudo aconteceu após a morte de Ricardo Coelho Rodrigues, de 7 anos.
01:17A criança era vizinha de Hélio. Morreu vítima de um disparo de arma de fogo, poucas horas antes de invadirem
01:25a casa dele.
01:26Ainda sem saber quem matou a criança, os boatos, na época, foram se espalhando na comunidade, apontando Hélio como assassino.
01:35Um amigo foi e me mandou uma mensagem e falou, cara, eu espero que onde você esteja, que você tenha
01:43como provar que está aí, que você tenha batido seu cartão de manhã, de tarde e na hora de sair.
01:48Aí eu já liguei os fatos, falei, não, aconteceu alguma coisa e eu estou sendo responsabilizado por isso, estão me
01:53acusando por isso.
01:54Hélio confirma que já discutiu com o pai do pequeno Ricardo no mês passado, depois de ter a vidraça da
02:01casa quebrada por algumas crianças.
02:03Eu procurei, assim, os pais, né, que estavam por perto das crianças e tal, a princípio, é, não parecia que
02:12ia passar daquilo ali, parecia que seria só uma conversa, conversei com o pai, com o outro, não, a gente
02:17vai resolver isso aí e tudo mais.
02:19Mas assim, mas esse rapaz, né, que fez essa acusação, ele, ele alongou as coisas, alongou, é, falou que não
02:28tinha nada a ver com aquilo, que não ia pagar e tudo mais.
02:32Mas assim, eu também não fiz muita questão.
02:34Ele chegou a registrar um boletim de ocorrência contra o homem após ser agredido.
02:40Um dia, é, eu parei, parei na rua, ele perguntou o que foi que estava acontecendo, falei, o que que
02:45está acontecendo?
02:47Aí, dali, surgiu uma discussão, não, você estava me olhando, o que é que você tem aí pra mim?
02:53Falei, rapaz, não sei o que você está falando.
02:57E até que quando eu fui parar a minha moto, ele me agrediu.
03:00Mas acontece que um dia depois da morte de Ricardo, a polícia revelou a principal linha investigativa,
03:07a de que o irmão da criança, de apenas 11 anos, teria pegado a arma dentro de casa e disparado
03:14acidentalmente contra o menino.
03:16Fato que inocenta Hélio.
03:18Estamos trabalhando numa nova linha de um acidente, acidente, ou o crime aconteceu dentro de casa.
03:28Então, a gente ainda vai preservar as pessoas envolvidas, porque a gente não percebeu que adiantar as coisas é prejudicial
03:38e pode colocar em risco a vida de outras pessoas inocentes.
03:41Hélio, inclusive, afirma que na data da morte da criança, estava trabalhando em Alto Castelinho, em Vargem Alta,
03:48a mais de 110 quilômetros de casa.
03:51Esse é o ponto da empresa em que ele trabalha.
03:55Veja que na data do crime, ele bateu o ponto às 19h37, na localização de Vargem Alta.
04:02O crime aconteceu por volta das 5h da tarde daquele mesmo dia.
04:07Ainda assim, ele alega que algumas pessoas chegaram a inventar, que o viram na cena do crime.
04:14Ele chegou a ser contactado pela polícia civil.
04:17Eles pediram para que eu comparecesse à delegacia da Reta da Penha, Barro Vermelho.
04:24Só que eu falei que eu estava longe, que eu não conseguia chegar.
04:27Eles perguntaram quanto estava previsto a minha volta.
04:29Eu falei, ó, estava previsto para eu voltar amanhã cedo.
04:34E aí ele falou, ó, você tem que vir o mais rápido possível.
04:38Depois do posicionamento da polícia que inocenta Hélio,
04:43em que é investigado um disparo acidental que teria sido realizado pelo próprio irmão da criança,
04:50aí ele começou a receber diversas informações de moradores do bairro,
04:56que começaram a prometer que vão devolver as coisas que furtaram.
05:02Devolveram um forno, um forninho elétrico que foi levado da casa.
05:06Tem pessoas que comentam, ó, estão falando que vão devolver alguma coisa, vão devolver televisões,
05:11mas a gente até agora, a gente não...
05:14Nada foi concretizado.
05:15Não, não. E a moto, né, a moto que foi recuperada já no primeiro dia de busca lá por perto,
05:20que eles pegaram de volta.
05:23Prestes a receber a filha que está para vir ao mundo, Hélio perdeu tudo.
05:27O quarto da bebê já estava todo montado e agora virou cinza.
05:32A casa que ele montou durante anos, assim como a residência da irmã, no primeiro andar,
05:37está tudo perdido.
05:38Ele não pretende voltar a morar no local que nasceu e cresceu.
05:44Estou tentando manter o controle até porque eu tenho uma pessoa comigo,
05:49numa situação delicada.
05:50Para ser sincero, eu nem sei ainda por onde começar.
05:53Eu não tive coragem ainda de voltar lá na casa para ver tudo que foi embora,
05:57para ver tudo que foi perdido,
05:59mas desde já eu não tenho condições de nenhuma, nem emocionalmente,
06:06nem financeiramente de voltar para lá agora.
06:08Eu entendo o seguinte, se você está em meio a pessoas que você não pode contar com elas nem para...
06:15Não, eu conheço, eu conheço desde criança, ele não faria isso.
06:20Ligar para a polícia, pô, estão querendo fazer isso na casa do rapaz.
06:24Então eu não me sinto seguro, entendeu?