- há 11 horas
Motorista é acusado de beber, dirigir e provocar a morte de pai e filha.
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NotíciasTranscrição
00:00Um pai e filha que morreram em um acidente no norte do estado, isso aconteceu na noite de ontem.
00:06Eles estavam de moto e foram atingidos por um carro.
00:11José Idalino Nepel tinha 44 anos e a filha, gente, Maria Caroline Nepel, apenas 23.
00:17Olha aí que moça jovem, linda.
00:20O motorista que dirigia o carro foi preso por embriaguez.
00:24E detalhe, tá? Segundo a polícia, essa não é a primeira vez que ele foi preso por dirigir embriagado.
00:31E agora provoca essa tragédia aí pra essa família, né?
00:35Nossos sentimentos a todos os amigos e parentes do seu José e da Maria Caroline.
00:41Bom, e a gente vai repercutir agora esse assunto aqui no nosso programa, porque a Lei Seca acaba de completar
00:4713 anos.
00:48É verdade que ela trouxe muitos avanços, mas a gente também sabe que não são raros os casos de motoristas
00:55que provocam acidentes depois de bebê e que continuam como, gente?
00:59Ó, em liberdade.
01:01Então, bora falar sobre esse assunto?
01:03Aqui no estúdio eu recebo mais uma vez o advogado criminalista Rivelino Amaral.
01:08Muito obrigada pela sua presença, boa tarde.
01:10Boa tarde, obrigado pelo convite.
01:12Obrigada a você.
01:12E a gente também recebe, gente, o senhor Isaías.
01:15Ele perdeu a filha Sâmia, de 24 anos.
01:19Aconteceu em um acidente na Rodossol, isso foi em 2014.
01:25Ou seja, sete anos se passaram.
01:28Qual é o sentimento do senhor hoje, após sete anos de tudo o que aconteceu com sua filha e, principalmente,
01:36que até agora nada aconteceu com o autor do crime, não é isso?
01:41O sentimento não é nem tanto hoje, pelo caso da minha filha, que é um caso que já tem sete
01:48anos e eu não acredito que a justiça faça alguma coisa.
01:53Nós fazemos um trabalho para tentar amenizar a dor de outras famílias e chamar a atenção da sociedade para que
02:01isso não venha a ocorrer.
02:02Mas o que nós vemos é o seguinte, que todo dia quase nós temos esse tipo de problema, que eu
02:09nem chamo de acidente, eu chamo de assassinato.
02:13São assassinos que estão no trânsito de manhã, de noite, final de semana e que não tem como.
02:21Eu não vejo perspectiva de que de melhora.
02:24Nesses sete anos nós fizemos muitas palestras, nós tivemos com os governadores, tanto o Paulo Artugue como o Casagrande, nós
02:31tivemos na Assembleia.
02:34E nós nunca tivemos um respaldo político de que pudesse mudar alguma coisa.
02:41Então, eu não acredito.
02:43Às vezes as pessoas me ligam, está certo, sobre o problema da família deles e a gente fica impotente, porque
02:49você vai fazer o quê?
02:50E se a justiça que devia fazer algo, não faz, como é que a gente vai? Qual a medida que
02:56a gente toma?
02:56Entendeu?
02:57O que a gente pode fazer é dar um apoio de esperança, um apoio de que as coisas podem sim
03:06acontecer, mas que a gente não coloque expectativa de que vai acontecer.
03:11Lamentavelmente, eu não vejo essa perspectiva.
03:14Só vou até fazer uma correção aqui, não se trata do autor e sim do suspeito, no caso aí da
03:19Sâmia, fazendo essa correção.
03:21Mas aconteceu com a Sâmia, aconteceu com a Caroline, com o pai dela na noite de ontem, aconteceu com a
03:27Amanda há cerca de três meses.
03:30Ivelino, por que as pessoas ainda insistem nessa mistura que a gente sabe que não dá certo, de direção e
03:38álcool? Por quê?
03:39Então, Roberta, na verdade, precisa haver uma mudança cultural.
03:44As pessoas precisam entender que dirigir sobre o efeito de álcool é um risco muito grande.
03:51O que a lei fala acerca disso?
03:54Em primeiro lugar, é importante esclarecer assim, existem duas formas de cometimento de crime.
03:58Quem comete crime de forma dolosa, que a gente chama tecnicamente, que é quando a pessoa tem a intenção de
04:03cometer o crime, ou de forma culposa.
04:06O homicídio, de forma culposa, na direção de veículo automotor, tem uma pena de até quatro anos.
04:13Isso quer dizer que essa pessoa não fica presa, ela é julgada pelo juiz e ela não fica presa, pena
04:20de até quatro anos.
04:22O entendimento dos tribunais superiores de STJ e STF é no sentido de que, não como soma matemática, mas via
04:31de regra,
04:31quem dirige sobre o efeito de álcool e tira a vida de alguém, comete homicídio doloso, porque ele assume o
04:38risco de produzir o resultado.
04:40Então, essa pessoa vai a júri e aí a pena pode chegar até a 30 anos de reclusão.
04:46Então, essa é uma grande diferença.
04:48No homicídio culposo, a pena de até quatro anos, no dolo eventual, que a gente chama tecnicamente,
04:53que é o entendimento dos tribunais, não é a lei que diz, é entendimento dos tribunais, pode chegar até 30
04:59anos.
05:00O que tem que haver?
05:01Na verdade, em primeiro lugar, uma conscientização, para as pessoas entenderem que o risco é muito grande,
05:07tirar a vida de outra pessoa é uma coisa muito séria, é o bem mais precioso que a gente tem,
05:12é a vida.
05:13E, em segundo lugar, alteração da lei, porque, quer dizer, o homicídio culposo na direção de veículo automotor,
05:19a pena de quatro anos, é uma pena que não traz resultado positivo.
05:25Em contrapartida, também, a gente não pode comparar uma pessoa que dirige um carro e tira a vida de alguém,
05:32sobre o efeito de álcool, com aquele que pega uma arma, por exemplo, e atira na cara do outro.
05:36Quer dizer, então, a gente está fazendo uma distorção da lei, porque a lei, ela precisa ser alterada.
05:43Eu costumo dizer sempre assim, a sociedade vai evoluindo, os crimes vão evoluindo,
05:48e a forma de cometimento dos crimes vão evoluindo, e a lei não alcança.
05:53Por quê? Porque os legisladores não alteram a lei da forma que precisa ser, com a agilidade que precisa ser
05:58alterada.
05:58Então, hoje, a gente tem uma deficiência.
06:00É um processo muito burocrático, muito moroso.
06:02Não, não é. É falta de interesse, a meu sentir.
06:05Então, quer dizer, a gente tem um homicídio culposo, que é a pena de até quatro anos,
06:08e a gente tem uma distorção da interpretação para submeter essas pessoas a júri, uma pena de até 30 anos.
06:15E que, muitas das vezes, essas penas de até 30 anos, pessoas que cometem esse tipo de crime,
06:22não chegam até 30 anos também na cadeia, né?
06:24Tem a progressão dos regimes que varia de um sexto, dois quintos ou três quintos.
06:29E, na verdade, assim, bom que se diga também que ninguém nunca mais vai reparar a dor das pessoas que
06:35perderam, né?
06:35Quer dizer, e o objetivo da lei são três, punir, ressocializar e prevenir.
06:40Agora, esse sofrimento, ele é incalculável e não vai deixar de existir.
06:44Então, a gente tem uma distorção hoje na lei, os tribunais superiores têm entendido nesse sentido.
06:51Dirigiu, sobre efeito de álcool, tirou a vida de alguém.
06:53Ou, acelerou demais, tirou a vida de alguém, também vai a júri.
06:58E, infelizmente, a gente noticia essas tragédias aqui, sabe por quê, gente?
07:03Porque as pessoas ainda não têm responsabilidade.
07:06Olha só isso, mais de 500 motoristas foram flagrados dirigindo, embriagados aqui no Estado.
07:13Sabe em qual período? Olha só, calcula aí, ó, mais de 500 motoristas entre janeiro, fevereiro, março, abril e maio.
07:21Olha isso!
07:21O que aumenta ainda mais o risco de acidentes.
07:25Acompanhe.
07:26A gente segue de luto, sofrendo com a saudade, com essa dor, com a raiva, né?
07:32De ver que eu não tenho mais ela e ele está livre.
07:39O desabafo é de uma mãe que perdeu a filha há quase um ano e três meses em um grave
07:45acidente de trânsito na Avenida Carlos Lindenberg, em Vila Velha.
07:49Mas, até hoje, ainda sente a dor e a revolta de saber que quem causou a morte da filha não
07:56está preso.
07:57O Ilker Vailante, segundo a polícia, estava embriagado quando veio na contramão e acertou em cheio a moto em que
08:05estava estudante de fisioterapia Ramona Bergamini Toledo, de 20 anos.
08:10Se você bebe, se você mata, se você dirige em alta velocidade, você atua o risco, né?
08:17Não pode ficar livre, não pode ficar solto.
08:21Imprudência que tira a vida de pessoas ou que causa ferimentos graves.
08:26De acordo com o Detran, somente de janeiro a maio deste ano, mais de 500 motoristas foram flagrados dirigindo sobre
08:34efeito de álcool pelas ruas do Espírito Santo.
08:37Flagrantes como esse, registrado por um agente da Guarda Municipal de Vila Velha, em plena terceira ponte na capital.
08:46O motorista do carro branco faz zigue-zague na pista. Ele chega a bater na mureta de proteção.
08:53Tá bêbado? Tá bêbado? Que isso, mano!
08:58Quem conduzia o veículo, segundo os agentes, era um policial civil aposentado que acabou detido e levado para a delegacia.
09:06Ele teria confessado que consumiu bebida alcoólica e foi autuado em flagrante por embriaguez ao volante.
09:14Pagou fiança e foi liberado.
09:16O fato da pessoa pagar uma fiança não significa que ela está livre do crime.
09:21Ela apenas responde solta.
09:23Mas é uma consequência muito grave.
09:25A pessoa está com uma ficha criminal por ter cometido um crime.
09:29Então o que a gente orienta para essas pessoas é que tenham consciência.
09:33Esse policial civil aposentado que foi pego dirigindo embriagado pagou fiança e foi liberado.
09:41Ele não causou nenhum acidente, não feriu ninguém.
09:44Mas agora aquele que causar acidente, que resulte na morte ou em alguma lesão corporal grave em alguém, vai ser
09:53preso imediatamente.
09:54Isso com a nova lei 14.071.
09:59Porque agora ele não poderá mais pagar fiança e responder o processo em liberdade.
10:05O motorista vai ser preso e vai responder o processo em regime fechado.
10:11Este agente do Batalhão de Trânsito da Polícia Militar também explica que com a mudança na lei de trânsito,
10:18mesmo que o crime cometido por um motorista embriagado seja considerado homicídio culposo,
10:24quando não há intenção de matar, o condutor do veículo não vai mais se beneficiar com pagamento de fiança,
10:32como garante o artigo 44 do Código Penal.
10:36Mais rigor na lei para quem mata ou fere alguém gravemente no trânsito,
10:42que, segundo o capitão, pode ajudar a diminuir números expressivos.
10:47Nós verificamos que muitas pessoas, muitas famílias estão sendo mutiladas,
10:53muito nos pés a ver o que tem acontecido constantemente no nosso trânsito.
10:59São mais de 30 mil acidentes, mortes registradas no trânsito brasileiro.
11:04Isso é uma guerra civil.
11:08É muito triste, né, gente?
11:09Sr. Isaías, o senhor acha, estava aqui, eu percebi a sua expressão.
11:13O senhor acredita que essa alteração vai trazer um pouco mais de sensação de justiça para as famílias?
11:19O maior problema que a gente enfrenta, eu falei isso quando do acidente da minha filha,
11:23porque é o seguinte,
11:23se você for compor um processo dessa espécie, você depende do resgate,
11:33você depende da polícia civil, você depende da polícia militar, você depende da polícia de trânsito,
11:40você depende do delegado, você depende do promotor, depois você depende do juiz.
11:45Se algum desses falharem, a brecha está tomada para a pessoa sair livre e sair impune.
11:52Hoje, o que nós mais sentimos, é, você fala assim, ah, dá dor da minha filha,
11:57realmente é uma dor que não acaba nunca, mas você administra.
12:01Agora, o que nos deixa muito mais derrotados é você ver que outras famílias também são destruídas por isso,
12:08entendeu?
12:09E você não pode fazer nada.
12:10No início, eu sentia muito, hoje eu já sinto menos, porque nós fazemos um trabalho de conscientização de trânsito.
12:17Eu coloquei a imagem da minha filha de exposição do Detran, em 2016, para fazer campanhas,
12:23e foi feito, foram feitas muitas campanhas, foram feitas palestras.
12:28Então, quer dizer, a gente tenta fazer algo para poder amenizar a nossa dor.
12:33Como é que a gente diminui a nossa dor?
12:35Fazendo algo em favor de alguém.
12:37Mas, eu, sinceramente, eu não acredito.
12:42É, por exemplo, agora houve uma alteração no código.
12:44Passou de quatro a oito anos.
12:46Só que tirou o doloso.
12:48Só ficou o culposo.
12:51Entendeu?
12:52Então, quer dizer, são medidas, né, porque você, que dá uma chance das pessoas saírem impunes.
12:59Porque o que fica é a dor.
13:02Não adianta.
13:03Eu, você vê, eu vejo mães destruídas.
13:07Pais, o pai, às vezes, tem mais um pouco de resistência, porque ele sai, ele vai à luta, ele está
13:11na rua, ele está discutindo, ele está conversando.
13:14Mas a mãe que fica em casa, né, que perdeu um pedaço daquele espaço que tinha ocupado, essa não tem
13:21como recuperar.
13:22Está certo?
13:23E você não vê, você não vê nenhuma punição.
13:27Agora, com essa nova posição, de repente, melhora, lógico, a tendência é melhorar.
13:32Antigamente, a fiança era avisada pelo delegado.
13:36Agora, é pelo juiz.
13:37Quer dizer, o rapaz que atropelou lá a Amanda, por exemplo, o juiz que pegou um juiz meio linha dura,
13:43pô, e jogou pesado com ele.
13:46Parece que ele ainda está preso.
13:48Mas, a maioria das vezes, até quando, a gente não sabe.
13:52Entendeu?
13:53Porque você vê que tem pessoas que foram condenadas há 10, 15 anos e estão soltas.
13:59Continuam soltas.
14:00Continuam bebendo.
14:02Continuam participando de racha.
14:04Continuam embriagados no trânsito.
14:07Insistindo na bebida e na direção.
14:09Então, esse acidente que foi, né, que aconteceu nessa noite próximo lá com a Latina, já era a segunda vez,
14:17né?
14:17Esse motorista já tinha...
14:19Mas você pode ver que a maioria dos acidentes são reincidência.
14:22A maioria dos acidentes...
14:23São pessoas que ainda insistem.
14:24Insistem, pô, tá certo?
14:26Então, o rapaz que foi ali, esse policial civil, tem que ser tomada a carteira, você não vai dirigir nunca
14:31mais.
14:32Acabou.
14:33Por quê?
14:34Porque o cara não tem poder de poder se livrar da bebida.
14:38Então, como ele não tem essa possibilidade de se livrar disso, ele tem que ser punido.
14:43Não tem jeito.
14:44E sobre esse acidente que aconteceu em Colatina, vamos agora, então, ouvir o que disse o delegado.
14:50Acompanhe.
14:56Só fazendo uma correção.
14:57Os militares constataram no local da ocorrência que o indivíduo aparentava estar com sintomas, né, de embriaguez,
15:05onde foi submetido ao teste do etilômetro, ele aceitou e ficou constatada essa embriaguez.
15:12Também foi verificado que o indivíduo, ele já possuía o envolvimento num acidente de trânsito no ano de 2018.
15:23Está fazendo a correção aí, a policial civil, e aí, tira uma dúvida, policial militar, perdão.
15:29Rivelino, tira uma dúvida.
15:31Ele já havia sido atuado numa outra situação e agora vem acontecer essa tragédia com essa família lá de Colatina,
15:39né,
15:39em que ele matou o pai, matou a filha.
15:42O que aconteceu anteriormente pode ser somado também?
15:45Isso pesa na decisão judicial?
15:47Exatamente. Nada é como soma matemática, né?
15:50Na verdade, o juiz, quem arbitra fiança, o delegado continua podendo arbitrar fiança
15:56nos crimes que a pena máxima seja menor ou igual a quatro anos.
16:01Nas penas dos crimes que sejam maiores que quatro anos, só o juiz pode arbitrar fiança, ok?
16:07O juiz, como você perguntou, Roberta, leva em consideração absolutamente tudo.
16:12Os antecedentes criminais do agente, em que lugar que foi, a que horas que foi, o exame etílico, por óbvio,
16:20é levado em consideração.
16:21Então, o juiz pode ou não arbitrar fiança.
16:25É um critério dele de arbitrar ou não fiança, porque se ele entender, por exemplo, que aquela pessoa precisa ficar
16:30presa,
16:31ele pode decretar a prisão preventiva daquela pessoa.
16:34Ou, se ele entender que aquela pessoa não precisa ficar presa, ele pode arbitrar fiança.
16:39Vale dizer o seguinte, não quer dizer que os juízes são bonzinhos ou mauzinhos.
16:44Quer dizer o seguinte, a Constituição Federal fala que a regra é a liberdade.
16:50As pessoas têm o direito constitucional de responderem aos processos em liberdade.
16:56Mesmo matando?
16:57Mesmo matando, mesmo traficando, mesmo cometendo lesão corporal, qualquer crime.
17:03A regra da Constituição não é culpa do juiz, não é culpa do promotor, não é culpa do delegado.
17:07A Constituição Federal fala o seguinte, todas as pessoas, antes do trânsito em julgado, de sentença penal condenatória,
17:14está lá no artigo 5º, inciso 57, têm o direito constitucional de responderem aos processos em liberdade.
17:19Se isso está certo ou se isso está errado, nós temos que nos curvarmos ao que diz a Constituição ou
17:26mudar a Constituição.
17:29Então, assim, a Constituição que fala isso, é o direito constitucional de todo brasileiro.
17:34Por óbvio que os juízes exercem um papel muito importante nesse momento.
17:40Eles podem decretar a prisão preventiva também, como você perguntou,
17:44para quem cometeu o crime de homicídio, de roubo, de furto, de qualquer crime,
17:48se ele entender que aquela pessoa, por exemplo, representa risco para a sociedade,
17:53ou seja, ele bebe, não para de beber, toda hora atropela alguém, bate na mulher, enfim,
17:57ele pode decretar a prisão preventiva dessa pessoa.
18:00Se ele entender que não, ele pode responder ao processo em liberdade.
18:04Então, o juiz exerce um papel muito importante, mas a Constituição Federal,
18:09que dá o direito das pessoas de responderem aos processos em liberdade.
18:13Então, a gente não pode também carregar toda a culpa no juiz, toda a culpa no delegado, enfim, por quê?
18:19Porque a lei fala assim, o que é que precisa ser feito?
18:22Ah, estamos insatisfeitos? Precisamos mudar a lei.
18:25Enquanto não mudamos...
18:25E como que muda a lei?
18:26É a pergunta que todo mundo se faz.
18:28É, isso é muito sério, né?
18:30Isso reflete, assim, eu não estou protegendo absolutamente ninguém,
18:33porque eu também estou suscetível de ser vítima de qualquer crime, como qualquer um, né?
18:38Mas eu tenho que cumprir a lei, né?
18:41Eu sou professor de direito, eu tenho que cumprir a lei, você tem que cumprir a lei,
18:44todo mundo tem que cumprir a lei.
18:46Como que faz a alteração na Constituição?
18:48Com os nossos legisladores, com o deputado, com o senador, que vão alterar.
18:52Eles são eleitos justamente para isso.
18:54Eles são representantes do povo, eles estão exercendo um cargo eleitos por nós, né?
19:00Então, na verdade, a gente precisa, se for o caso, mudar a Constituição Federal.
19:03O delegado também disse ali, o doutor Marcelo Nolasco, colocou também outro aspecto muito interessante.
19:08O fato da pessoa, por exemplo, responder ao processo em liberdade,
19:12de ser alcançado, por exemplo, com o arbitramento de fiança,
19:16não quer dizer que aquela pessoa está fora daquele problema.
19:20Não, o processo continua, os processos demoram longos anos, por N motivos.
19:26Isso é isso que eu digo, né?
19:27Por falta de serventuário, por um número muito expressivo de crimes,
19:31a sociedade cometendo cada vez mais crimes, tráfico de droga, roubo, furto, enfim.
19:37Inclusive, a crise social e econômica reflete nisso.
19:41Os processos demoram muito, mas os resultados vêm.
19:45Como a gente fala, a justiça tarda, mas não fala.
19:48Os resultados vêm, os julgamentos vêm, né?
19:51Mas os processos, de fato, são muito demorados.
19:53O senhor acredita que o resultado vem depois de sete anos?
19:55Não, pode até vir, pode até vir, tá certo?
19:58Mas você tem que levar em consideração, a sociedade também tem a grande parcela de culpa nisso.
20:04Por quê?
20:05Você vê, vamos botar o caso da minha filha, que eu não vou falar do crime dos outros.
20:10A minha filha, por exemplo, está 24 anos, morreu estudando engenharia, por tal,
20:15tinha vida toda pela frente, está presa em definitivo.
20:19Agora, vamos supor que o rapaz vai a julgamento.
20:24Sete, dez anos, doze anos.
20:25Você sabe o que acontece?
20:27Até lá, o advogado vai fazer, arrumar suas brechas, ele vai tentar manipular,
20:34é o que está acontecendo no caso nosso.
20:37Você chama a testemunha um mês, daqui a três anos chama ela de novo,
20:42qualquer vírgula colocada fora de lugar, já cria já um ponto.
20:46São brechas, né, que se criam.
20:48Já cria um ponto, porco, de suscetível de você, de ser derrubada daquela testemunha.
20:53E aí acontece o seguinte, a testemunha desiste.
20:56Sete, oito anos depois, ela desiste, ela não vai mais, acabou, você não tem mais testemunha.
20:59E quem também está sofrendo, o que o senhor está passando na pele,
21:02é o caso aí da mãe da Ramona, gente.
21:05E ela perdeu a filha dela há um ano e quatro meses.
21:08A Kelly Bergamini vai falar com a gente agora aí também ao vivo pelo Skype.
21:13Boa tarde, Kelly.
21:14Obrigada pela sua participação.
21:17Boa tarde.
21:18Boa tarde.
21:19O acidente que levou a vida da sua filha aconteceu em março do ano passado.
21:25Qual é o sentimento que você tem ao participar dessa entrevista aqui com a gente?
21:29Desse debate.
21:30Qual é a sensação que você tem aí do outro lado aí na sua casa?
21:35É, assim como vocês, os convidados aí, eu também há um ano e quatro meses.
21:43Infelizmente, perdemos a conexão com a Kelly.
21:46Daqui a pouquinho a gente tenta retomar.
21:48Mas, mais um caso, né?
21:49Você sabe que a morosidade dos processos, ela traz insatisfação para a sociedade como um todo,
21:55para todo mundo, né?
21:55Quer dizer, e traz sensação de insegurança também.
21:59Porque se você tem um crime e o Estado, porque o Estado que trouxe para ele a responsabilidade
22:04de dar as respostas.
22:06Condenando ou absolvendo, ele precisa dar as respostas.
22:08Se ele demora a dar as respostas, ele gera insegurança para todo mundo.
22:12Porque se você imagina assim, ah, um processo demora 10 anos, 12 anos, 15 anos, é muito,
22:17é demais, né?
22:18E a culpa é de quem?
22:20A culpa é do Estado como um todo.
22:23Por quê?
22:23Porque falta juiz, falta promotor, falta defensor, falta serventuário, falta estrutura,
22:29falta o próprio espaço físico, é tudo muito precário.
22:32E, por óbvio, que isso vai atrapalhando os processos.
22:35Os processos que chegam nos tribunais superiores também.
22:38Nós temos 11 ministros no STF para julgar processos do país inteiro.
22:43Tudo isso contribui para o processo demorar e, consequentemente, para a insatisfação de
22:48todos, inclusive dos advogados.
22:51Bora voltar a falar então com a Kelly, que é a mãe da Ramona, está ao vivo com a gente
22:54pela internet.
22:56E aí, Kelly, fala para a gente sobre esse sentimento ao participar desse debate aqui
23:01com a gente.
23:03Eu estou escutando você e, na verdade, eu fico triste, né?
23:09Você escutar que a lei dá o direito a quem mata a ficar em liberdade, a esperar em liberdade,
23:16que é o caso do assassino da minha filha.
23:19Ele está há um ano e quatro meses, sua promotoria entrou com um pedido de prisão, a juíza
23:25negou, o Ministério Público recorreu, agora a gente está esperando respostas de novo.
23:32Eu fico triste aí ver que tem alguém há sete anos também esperando.
23:38É muito tempo, é demorado.
23:41E essa espera mata a gente um pouco a cada dia.
23:46A cada dia, que é um sofrimento.
23:48Tudo que a gente quer é que a justiça seja feita e não é o que a gente vê, não
23:54é o que acontece.
23:54O acidente da Ramona foi um pouco antes dessa pequena mudança da lei.
24:02Então, ele já ficou dez dias preso, treze dias e ganhou a liberdade.
24:09E vai ficar por isso mesmo, né?
24:12Eu sei que é demorado, eu sei que...
24:16Mas eu queria muito, muito, muito ver ele preso.
24:19Me daria um pouquinho de alívio.
24:22Não traz o que ele perdeu de volta, né?
24:25Não vai trazer a minha filha.
24:27Mas o que é justo, o que é certo a ser feito foi uma irresponsabilidade.
24:32Ele tinha o poder de não fazer isso.
24:34E eu como decidir não matar ela?
24:36Ela não teve nem defesa, nem como correr, nem pedir ajuda.
24:41E ele tirou isso dela.
24:43Quem mata no trânsito, por bebida, por velocidade, tira do outro o direito de resposta, de desistir, se defender.
24:53Eu acho muito covardia e um crime muito bárbaro para não se ver acontecer nada.
25:02Eu gostaria muito que a Ramona tivesse sido a última, mas veio a menina Amanda, veio agora a Carol.
25:09E não para, porque ninguém tem medo de causar a morte no trânsito, né?
25:15E Kelly, o motorista que causou esse acidente, ele estava embriagado?
25:20Tem laudos que comprovam isso?
25:22Tudo, temos tudo.
25:24Estava embriagado, em alta velocidade.
25:27Ele bateu na minha filha a 140 por hora, numa pista, num dia de sereno, meio chuvoso.
25:37Ele estava bebendo, ele vinha bebendo o dia inteiro.
25:40Nós temos todas essas informações, laudo médico, de tudo, temos tudo.
25:46Mesmo assim, ele não ficou preso.
25:49Não adianta, concederam a liberdade e agora nem a ação da promotoria de pedir a prisão não conseguimos.
26:01Foi negado e ele segue solto.
26:04E, Rivelina, a gente vê muitos casos que a pessoa se recusa a fazer o teste do bafômetro.
26:11E você sabe por quê?
26:13Porque a Constituição Federal também permite isso, né?
26:16E por quê? Porque, na verdade, a Constituição não é culpa do advogado, não é culpa do juiz, não é
26:22culpa do delegado.
26:24A Constituição Federal dá a possibilidade da pessoa de não promover prova contra si.
26:30O ônus da prova é de quem acusa.
26:33No nosso caso, no Brasil, o ônus da prova é do Ministério Público.
26:37Então, a Constituição Federal que permite a todo brasileiro a não soprar o bafômetro,
26:41a não retirar sangue, a, inclusive, permanecer calado.
26:46Então, a pessoa é convidada, intimada, chamada a prestar depoimento.
26:52Réu, chegou na frente do juiz, se ele quiser exercer o direito ao silêncio, ele vai exercer o direito ao
26:57silêncio.
26:57Por quê?
26:58Porque ele é bonzinho, porque o juiz é bonzinho?
27:00Não, porque a Constituição Federal fala que ele tem o direito de permanecer calado.
27:06Fala que ele tem o direito de não soprar o bafômetro.
27:08Fala que ele tem o direito de não, por exemplo, se submeter a um exame de grafotécnico, enfim.
27:15Então, a Constituição Federal que dá essa possibilidade para as pessoas não soprarem o bafômetro.
27:20Tem um detalhe.
27:22Levando em consideração que a Constituição fala isso, o legislador também tentou adequar.
27:26Aí ele foi e deu autonomia para os policiais que fazem a ocorrência fazerem um boletim, dando conta, por exemplo,
27:34do andar trôpego do condutor do veículo, olhos vermelhos, hálito etílico, quer dizer, cheiro de álcool, a roupa toda solta,
27:45enfim, a forma dele falar.
27:47E aí ele consegue fazer um laudo nesse sentido e o juiz leva isso também em consideração.
27:52E só para fazer um parênteses, o juiz que faz a análise da necessidade ou desnecessidade das pessoas responderem os
28:01processos em liberdade.
28:02A Constituição fala que a regra é que as pessoas respondam os processos em liberdade, que não quer dizer impunidade,
28:08porque lá na frente ele pode ser condenado e vai ser preso, ok?
28:11Mas o juiz que faz a análise da necessidade ou desnecessidade de alguém responder um processo solto ou preso.
28:19Olha, as pessoas aqui no Facebook estão todas se solidarizando com as famílias que são vítimas desse tipo de acidente.
28:27A Maria de Lourdes está falando, enquanto tiver brecha de pagar a fiança e o criminoso ficar livre para matar
28:35novamente, vai continuar matando.
28:37A gente também tem a Olga Valéria que está falando, e quem está preso é quem morreu.
28:48É como o seu Isaías colocou, a filha dele está presa eternamente.
28:52Quer dizer, o sofrimento é incalculável para ele, para a família, para a esposa e não vai deixar de existir.
28:57No aniversário dela ela não vai estar, no Natal ela não vai estar, no Ano Novo ela não vai estar,
29:01enfim, é uma perda incalculável.
29:03E para o senhor agora?
29:05Olha, sete anos se passaram, o que você ainda, quais são suas esperanças?
29:10Olha, a minha posição, a minha posição desde o início, você sabe por quê?
29:15Porque eu não vejo ninguém sendo punido.
29:18Punido assim, mas punido com verdade, né?
29:22Punido pelo rigor da lei, entendeu?
29:25Eu não vejo.
29:26E eu estive na Assembleia e eu falei para os deputados lá, eu falei assim, sabe por que vocês fazem
29:31leis fracas e de brechas, principalmente de trânsito?
29:36Por quê?
29:3740% do leitoral de vocês bebe socialmente, mas é passivo de ser pego na lei seca.
29:4430% são aqueles que bebem só final de semana, de segunda até domingo, mas são eleitoral de vocês.
29:5420% é o alcoólico que bebe de segunda até segunda.
29:57E 10% é aquele que não bebe e aquele que também está pouco se lixando de quem está morrendo.
30:03Deixa uma estratégia, né?
30:04Então, quer dizer, então não existe.
30:06Então, quer dizer, se uns homens desses, desses legisladores, fizeram uma lei dando autonomia para um menino de 12 anos,
30:14por ter licença para matar um pai de família, vai fazer o quê pelas nossas vítimas de trânsito?
30:20Nada.
30:22Nada.
30:23Nada.
30:23Simplesmente nada.
30:24Então, eu sempre falo com as pessoas que me procuram, não coloque expectativa de justiça, porque justiça não existe.
30:32E, como o doutor que falou, a Constituição diz para nós o seguinte, não saiam de casa que vocês podem
30:39morrer,
30:40porque quem matar pode ficar livre e você ser preso para sempre.
30:45Uma triste realidade, né?
30:47Lamentável.
30:48Deixa eu agradecer aqui a participação da Kelly.
30:51Obrigada, viu?
30:52Obrigada por, principalmente, você abrir a sua vida, estar aqui alertando essas pessoas que também estão do outro lado da
31:01televisão, em casa,
31:02acompanhando o Fala Espírito Santo, sobre essa importância e essa dor de mãe, como é que é viver todos esses
31:09anos, assim como o senhor Isaías, assim como a mãe da Amanda,
31:13assim como a família também, muitas outras famílias, essa de Colatina, por exemplo, essa dor que essas pessoas sentem.
31:20Eu sou mãe, eu não consigo nem imaginar o tamanho desse sentimento.
31:25Obrigada, viu, Kelly?
31:26Obrigada por participar aqui com a gente.
31:28Obrigada, obrigada.
31:30Obrigada pela oportunidade, sempre o que precisar.
31:33Eu acredito nisso que a gente tem que estar falando, conscientizando, para que ninguém mais passe o que eu estou
31:39passando, o que o senhor Isaías está passando, né?
31:43Então, muito obrigada pelo espaço.
31:45Tá certo. Obrigada a vocês também, senhor Isaías e Rivelino também, sempre explicando para a gente com muita clareza, né?
31:52Obrigado.
31:52Por que que acontecem tantas brechas? Por que de tudo isso, esse sentimento de impunidade que a gente acaba tendo?
31:59Se eu estou sentada nessa cadeira como apresentadora, eu me sinto impune, imagino o senhor, a sua esposa, a sua
32:06família.
32:07Isso, a gente fica, assim, muito triste, né? Porque não é só o nosso caso.
32:13São casos de todos os dias que acontecem e a gente sabe que aquela mãe perdeu um pedaço do coração
32:21e que não vai ter retorno e de que ela vai sofrer eternamente, porque não tem jeito.
32:27Isso é que é, hoje, o maior sofrimento que a gente tem é quando você liga uma televisão e você
32:34vê uma mãe que vai ficar desesperada porque perdeu uma filha.
32:38Você abre o jornal e você vê um filho coberto de pano e uma mãe dobrada em cima, pedindo, pelo
32:44amor de Deus, que aquilo seja verdade.
32:46Essa é a realidade que acontece e é isso que nos deixa mais tristes, além da perda dos nossos entes
32:52queridos.
32:52Tá certo. Gente, obrigada pela presença de vocês.