00:03As mãos que já estão acostumadas com o movimento, a concentração de quem não perde um pedacinho do siri, descasca,
00:13separa, dispensa o que não será usado.
00:16Um trabalho passado de mãe para filha, desfiadeiras de siri, uma profissão que dá orgulho ao nosso estado, que guarda
00:25a memória deste cantinho chamado Ilha das Caieiras.
00:34Para quem já viu a ilha cheia, é difícil se acostumar com esse novo normal.
00:39A Ilha das Caieiras é um lugar perfeito, né gente? Infelizmente, a gente está aqui vendo tudo vazio, tudo abandonado,
00:48vamos dizer assim, né?
00:52A Ilha das Caieiras começou a ser povoada no século XX e ganhou fama por causa da comida típica deliciosa
00:59e esse cenário charmoso.
01:01Por aqui são quase 150 desfiadeiras que sobrevivem do que vem do mar, fora todos os outros profissionais, pescadores, marisqueiras,
01:10donos de restaurante.
01:12O pescador, ele pesca, entrega para a desfiadeira, a desfiadeira desfia, entrega para os restaurantes. É uma rede, um ajuda
01:20o outro.
01:25Logo no início da pandemia, nossa equipe mostrou que a vida para elas não estava fácil.
01:30A gente está desfiando menos porque está muito ruim de vender e o cliente também tem medo de comprar com
01:37essa pandemia de Covid e então caiu muito, né?
01:46Hoje, diante do novo fechamento imediato anunciado pelo governo, Sirlene, desfiadora há quase 20 anos, conta a dificuldade que algumas
01:54amigas passam em casa.
01:56Tem desfiadeira que não tem, não tem nada, às vezes não tem nada dentro de casa.
02:00Esses dias mesmo chegou uma aqui que eu chorei com ela, ela virou para mim e falou bem assim, o
02:07que você tem para mim hoje?
02:09É de dúvida, porque eu tenho. E ela?
02:16Esses dias chegou uma senhora que ela me pediu um pouco de farinha para ela almoçar, porque ela tinha conseguido
02:23um pão para o neto dela tomar café, que era a primeira refeição que eles iam fazer naquele dia.
02:31A situação das desfiadeiras aqui da Ilha das Caieiras não está fácil.
02:37Tem profissionais que não tem o que comer em casa.
02:39Nós escutamos aqui relatos de profissionais, de desfiadeiras e marisqueiras com cinco filhos e que as crianças pedem, por exemplo,
02:48um copo de leite.
02:49E a mãe não tem o que dar.
02:58Esse é o caso da Kelly, marisqueira há sete anos.
03:02Cheguei a passar muita necessidade, porque meus filhos tomam leite e a gente consegue a cesta, muitas vezes doada,
03:09mas não tem o leite, não tem o biscoito.
03:12Para mães que têm seus filhos pequenos, está difícil.
03:16Seu filho já pediu leite, mas você não tinha?
03:18Já pediu leite, já pediu pão e não tem de onde tirar.
03:24Kelly tem cinco filhos e vive de doação.
03:27As pessoas têm me ajudado muito, então, tipo assim, eu não posso falar que eu não tenho nada.
03:32Eu ainda tenho alguma coisa, mas tem muitas pessoas que estão sem nada dentro das suas casas.
03:42As desfiadeiras, marisqueiras e os pescadores aqui da Ilha das Caieiras tinham uma expectativa.
03:49O Festival da Torta Capixaba, que acontece sempre no início de abril, um pouquinho antes da Semana Santa.
03:57Mas, com a determinação do Governo do Estado, decretando o fechamento total das atividades,
04:03esse PIR, que em dias normais estaria cheio de mesa, de cadeira, cheio de clientes, vai continuar com esse mesmo
04:13cenário vazio.
04:15Agora, a expectativa, então, é para o serviço de delivery.
04:20Os trabalhadores aqui da Ilha das Caieiras têm a expectativa de que o movimento não caia tanto.
04:26Na Semana Santa vai funcionar o delivery, com a empresa Chip, com a parceria com a prefeitura,
04:32para a gente poder estar vendendo a torta capixaba, entregando o nosso produto.
04:36Tanto as barracas, quanto os restaurantes.
04:40E no dia a dia, o cliente, ele liga, ele liga e vem buscar na porta, né?
04:48Vanderson não para. O camarão já está sendo preparado para as encomendas da Semana Santa.
04:53Minha expectativa é para poder vender tudo na Semana Santa, né?
04:56É delivery. E vamos ver como é que vai ser.
05:02Ele é dono de restaurante e afirma que o delivery não é o melhor do mundo, mas é a única
05:09alternativa, por enquanto.
05:10Quando estava aberto, você tirava em torno de quanto?
05:13De 3 a 4 mil.
05:15Delivery.
05:16Delivery, delivery não. Delivery mil, máximo, máximo, máximo, máximo.
05:23Diante de todas as dificuldades, as desfiadeiras e marisqueiras se uniram, criaram uma associação.
05:29A gente formou um grupo, a gente está com um grupo forte, graças a Deus,
05:33que é mulheres ajudando outras mulheres, uma ajuda a outra, né?
05:40As doações vêm de toda parte.
05:42Nós ganhamos biscoito, a gente já ganhou cesta básica, cesta farta, graças a Deus, do Banco de Alimento.
05:50Tem uma professora, Elô, elas fizeram um grupo também, elas são professora da Escola Elza Lemos.
05:56Elas também doaram cesta.
05:58Tem clientes nossos também que vêm aqui e se oferecem para estar nos ajudando, né?
06:02Que vê a nossa luta.
06:07Apesar de todas as dificuldades com a falta de movimento e, consequentemente, a queda das vendas,
06:14Ju, que é dona de um restaurante da região, está consciente que, neste momento, o importante é ficar em casa.
06:21Todo mundo tem que se conscientizar e, realmente, fechar.
06:25Tem que fechar mesmo, poder ver se esse vírus estabiliza aí, né?
06:29É difícil, é, mas é necessário.
06:31E aí
06:38Legenda por Sônia Ruberti