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Neste ano, mais de mil casos de estupro já foram registrados no ES.
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00:00Estou recebendo no estúdio a delegada doutora Michele Meira, da Gerência de Proteção à Mulher da SESP
00:05e também a psicóloga e educadora parental, Nanda Perim.
00:10Boa tarde, bem-vindas.
00:11Pediu para vocês pegarem o microfone que está logo ali ao lado.
00:14Bem-vindas ao Fala Espírito Santo.
00:16A gente vai falar aqui daqui a pouco também, fazer um alerta para o estupro.
00:19Em tempo dessas meninas sofrerem algum tipo de abuso, né doutora Michele?
00:23Exatamente, é um perigo, as crianças, já é um perigo para os adultos, as mulheres,
00:29infelizmente é difícil a gente falar isso, mas já é um perigo você acabar transitando em determinados locais.
00:36Imagine para as crianças de 9 a 12 anos poderiam até ser raptadas ou então sofrer algum assédio sexual.
00:44E tem um momento, um vídeo, eu não sei se está aí no ponto, se o diretor consegue colocar,
00:48que elas são abordadas por um veículo, ou seja, elas param, elas falam com uma pessoa dentro de um carro,
00:54então está aí o polê, por exemplo, poderia essa pessoa ter colocado as meninas dentro do carro,
00:59olha só, ela aparece bem rápido ali, esse momento que tem um carro,
01:03a gente vai tentar colocar no ponto a imagem, porque tem um carro que elas param e falam, conversam com
01:09alguém.
01:10Se a gente for puxar um pouco na memória...
01:13Olha só a imagem aí, gente.
01:15Agora já foi para a imagem da praia, porque aí, ó, esse trecho aí, ó.
01:19Tá vendo? Entrega uma água para elas, né? Mas a gente não sabe quem que está ali dentro.
01:24Quem lá? Nos lembra muito o caso da Tainá, que aconteceu em Viana,
01:28que foi abordada também por um veículo e acabou levando ela, e ela acabou vindo à morte, né?
01:34Depois, sofreu o abuso.
01:36É triste demais. Agora, tem uma questão que chamou a atenção também,
01:40por isso o Conselho Tutelar, como a Thalita falou, já vai investigar,
01:44é o motivo dessas meninas terem saído de casa, porque a gente não exibiu,
01:48porque são crianças, 9, 11 anos, elas fizeram vídeos falando,
01:52olha, isso aqui que a gente está levando, a gente vai embora, a gente vai tirar a própria vida.
01:56Elas ameaçaram atentar contra a própria vida no vídeo, ou seja,
02:02não é normal, doutora Ananda, que crianças pensem e ajam dessa forma, né?
02:09Então, recentemente, eu tenho feito um apelo muito grande nas minhas redes sociais,
02:15inclusive no Setembro Amarelo, porque eu criei uma rede social lá,
02:20que está famosa agora das dancinhas, e falando, né, eu falo sobre educação não violenta,
02:25e começou a chover comentário de crianças, muitos comentários, assim, centenas,
02:32dizendo, poxa, eu sofro isso todos os dias na minha casa, eu sou muito destratada na minha casa,
02:38na minha casa não pode chorar, na minha casa eu apoio por tudo.
02:40Então, assim, eu fiquei muito assustada com aquilo, comecei a pedir ajuda das mães
02:45na rede social dos pais para irem lá responder essas crianças,
02:48e eu fiquei muito impressionada, porque, poxa, olha o ponto,
02:52e ainda mais durante uma quarentena, né, que as crianças não estão podendo sair,
02:55não estão tendo refúgio da escola, então, eu acredito que elas estavam denunciando isso,
03:00essa insatisfação pela forma como são tratadas, né, essa falta de segurança dentro da própria casa.
03:06Pois é, isso que tem que ser apurado para ver exatamente o que aconteceu, né,
03:10o Conselho Tutelar está nessa história, vai continuar acompanhando, e a gente também, viu?
03:15Agora, vamos falar aqui dos estupros?
03:17Tem mais um caso, um caso horrível, uma menina de 12 anos que foi estuprada e com autorização do pai
03:25dela.
03:26Essa história aconteceu em Linhares, de acordo com o delegado que investigou o caso,
03:30doutor Fabrício Lucindo, dois homens, o suspeito de 29 anos e o pai da vítima de 34,
03:36estavam presos, foram beneficiados pela saidinha do dia da independência e não voltaram mais para a cadeia.
03:42O pai, então, pediu para ver a filha, de 12 anos.
03:46Durante o período em que ficou com a menina, ele liberou que o amigo tivesse relações sexuais com ela.
03:52Quando a criança voltou para casa, a mãe percebeu um comportamento estranho e a filha acabou contando o que tinha
03:59acontecido.
04:00A mãe procurou um médico e descobriu que a menina estava grávida.
04:04A criança passou por um processo abortivo autorizado pela justiça.
04:08A mãe procurou a delegacia e a polícia conseguiu localizar e prender os suspeitos.
04:13Eles confessaram o crime e foram indiciados por estupro de vulnerável.
04:17Se condenados, podem pegar de 8 a 15 anos de prisão.
04:21Foram uma condenação, né? Além daqueles que os dois já têm, né?
04:25Agora, infelizmente, essa é mais uma história, tá?
04:28Vocês sabiam que cerca de quatro registros de estupro são feitos por dia aqui no nosso estado?
04:34Só esse ano já foram mais de 1.100 casos e a gente tá aqui batendo papo.
04:39Vamos fazer aqui um alerta com a doutora Michelle Meira, da Gerência de Proteção à Mulher da SESP,
04:44e também com a psicóloga Nanda Perim.
04:47Vamos falar sobre esses casos de supo que chamam a atenção.
04:49São pelo menos quatro todos os dias, doutora.
04:54Exatamente, e é bom a gente fazer o alerta que esses crimes, né, sexuais, eles são extremamente subnotificados.
05:02Principalmente por conta da vergonha que a mulher tem de comparecer, né, e fazer a denúncia.
05:07Porque muitas vezes ela se sente culpada, porque a sociedade joga, né, muito a culpa,
05:12como se a roupa que ela vestisse, o comportamento ou a ação dela justificasse qualquer tipo de ato.
05:19Então, a gente tem uma subnotificação enorme dos estupros e também dos estupros de vulneráveis,
05:26que é aquele estupro que está ligado a crianças menores de 14 anos, pessoas com deficiência mental,
05:33ou então alguém que tá com a sua capacidade de resistência diminuída.
05:36Por que isso?
05:38Principalmente no caso das crianças, os abusadores são aqueles que são parentes próximos,
05:44ou, né, os pais, tios, primos, ou alguém que a família tenha confiança em deixar aquela criança.
05:53Então, são crimes, apesar do dado já ser bastante alarmante, a gente entende ainda que tem uma subnotificação.
06:00Ou seja, muitos casos aí nem chegam a ser denunciados, né?
06:05Exatamente. A gente tem, assim, é comum na delegacia, quando a gente, né, acaba conseguindo concluir um inquérito de estupro
06:15e que a gente chega a esse autor e que a gente divulga, né, a imagem aparecer novos casos de
06:22mulheres
06:22que não tinham coragem de ir à delegacia e, após assistir, acabam indo e fazendo a denúncia.
06:30O que é de extrema importância porque isso aumenta, né, a pena do autor e, consequentemente, a quantidade de tempo
06:39que ele vai ficar preso.
06:40Olha, falamos sobre esse caso aí que revolta a gente, né?
06:43Já é revoltante uma situação por si só de estupro.
06:45Ou muito mais revoltante é a gente ver um pai autorizar que uma outra pessoa estupre a própria filha, né,
06:52doutora Ananda?
06:53Assim, como é que, como entender isso, né? Como é que isso é possível?
06:57Há uma desconexão, né, e acredito que não somente, mas também toda essa construção patriarcal, machista que existe aqui no
07:05Brasil, né,
07:07da mulher enquanto um objeto, né, os corpos extremamente objetificados.
07:12A gente tem também uma noção muito tradicional aqui no Brasil de que os pais são donos dos filhos, né,
07:19de que pode fazer o que quiser porque é filho.
07:21Tanto que a gente tem ainda, gente que ainda defende que se possa bater numa criança, né, que se possa
07:26dar palmadas e tudo.
07:27Você fala de ser contrapalmada, as pessoas acham um absurdo.
07:30E é essa visão de que a violência, você não é, né, todo mundo entende que é errado bater em
07:37qualquer outra pessoa.
07:38Você não vai bater no seu vizinho, você não vai bater na sua esposa porque discordou de você.
07:41Mas bater numa criança porque fez uma coisa que você não gostou é naturalizado.
07:45Então, infelizmente, a nossa cultura acaba trazendo alguns padrões que naturalizam a infância contra a criança,
07:53que naturalizam que a criança é dos pais, é uma propriedade.
07:57E aí, né, acaba que para as pessoas mais desconectadas, infelizmente, né, com uma, vamos dizer assim, uma questão a
08:07mais aí, né,
08:08acabam achando que isso faz, que é direito deles, né.
08:11E, ó, a gente mostrou o caso, a história dessa menina e aí já me fez lembrar de um outro
08:17caso que chamou muito a atenção,
08:19tanto aqui no Espírito Santo, teve uma repercussão nacional que foi da menina de 10 anos,
08:23que era estuprada pelo tio em São Mateus, também norte do estado.
08:27Ela engravidou e teve a gestação interrompida.
08:31O aborto aconteceu por ordem judicial no Hospital do Recife, em Pernambuco, foi em agosto desse ano.
08:37A menina estava grávida de três meses.
08:39A família descobriu, depois dela passar mal e ser levada a um hospital de São Mateus.
08:45Os enfermeiros perceberam que a criança estava com uma barriga estufada e aí pediram exames e descobriram que ela estava,
08:52na verdade, grávida.
08:54Em conversa com os médicos e com a tia que a acompanha, a menina relatou que o tio a estuprava
08:59desde os seis anos de idade.
09:02Ela disse que não havia contado aos familiares porque tinha medo.
09:05Ele a ameaçava. A polícia foi acionada e dias depois o suspeito foi encontrado em Minas Gerais.
09:12Bem, na época, o secretário de Segurança do Estado, Alexandre Ramalho, esclareceu que a mãe da menina já é falecida,
09:18o pai está preso, a criança vivia com a avó e a família tem muita dificuldade financeira.
09:24E essa acaba sendo uma realidade de muitos lares, doutora Michelle, essa violência que acontece dentro mesmo do ambiente familiar.
09:31Exatamente. A gente vê nesses casos de violência, seja ele da própria violência doméstica, como a gente chama, e violência
09:42sexual, muitas famílias desestruturadas.
09:46E muitos casos também que a gente percebe que dentro de casa aquele homem cresceu assistindo determinadas cenas.
09:55Então, ele acha que aquilo ali agora é normal e vai repetindo padrões.
10:00Então, infelizmente, isso é muito comum e acho que a gente precisa mudar essa cultura, principalmente da criança, crescer num
10:10ambiente violento e desestruturado.
10:14E o trauma que ela vai carregar, né?
10:17É muito trauma. E a gente percebe, assim, como que há necessidade, uma necessidade muito grande de ter um suporte
10:27na sociedade, por exemplo, dentro das escolas, né?
10:30De ter uma educação. Eu até falo assim, gente, vamos esquecer desse nome, educação sexual, vamos dar um outro nome,
10:35educação, não sei, educação da saúde, educação de alguma coisa,
10:39que não é nada relacionado ao sexual, mas sim quais são as partes do corpo que pode mexer, as partes
10:43do corpo que não pode mexer, não pode ter segredo, né?
10:47Assim, entender o que é o errado e o que é o certo que alguém não pode fazer com você,
10:52porque muitas vezes a escola, infelizmente, a escola é o único recurso que essas crianças têm, né?
10:59A escola, eu penso muito que dentro da escola poderia ter uma educação de dizer que a criança pode ligar
11:06para o 181, por exemplo.
11:07Ela pode dizer, não estou gostando disso que meu tio está fazendo comigo, vamos supor.
11:12Então, muitas crianças, elas acabam só tendo a diretor, o professor da escola para recorrer e durante a pandemia, nem
11:18isso elas tinham, né?
11:20Então, eu acredito que esse pode ter sido um dos fatores que fizeram, durante a pandemia, os casos aumentarem tanto
11:25mais.
11:26Pois é, e já que você falou de pandemia, a gente vai falar exatamente sobre os dados, tá? Que estão
11:30aumentando.
11:31Eu pedi para vocês continuarem aqui com a gente, o nosso bate-papo vai continuar daqui a pouco alerta e
11:35também a gente saber o que fazer.
11:37Doutora Michelle explicar para a gente qual o caminho, né? Se você suspeita, se você foi vítima, o que fazer,
11:43tá?
11:43Vamos voltar aqui a falar sobre a violência sexual. Os dados são alarmantes e, ó, não é de hoje não,
11:49tá?
11:49Em 2015, a cada 11 minutos, uma pessoa era estuprada no Brasil.
11:53Em 2019, essa estatística mudou e, para pior, a cada 8 minutos, alguém sofre algum tipo de abuso.
12:0066.123 casos de estupro foram registrados no país só no ano passado.
12:07Os dados são da 14ª edição do Anuário de Segurança.
12:10No Espírito Santo, em 2020, esse ano, foram registrados 1.117 casos de estupro.
12:17Na maioria deles, o criminoso conhecia a vítima, a família ou pessoas de confiança dessa vítima.
12:25E, batendo um papo com a gente aqui hoje no estúdio, estão a delegada Michelle Meira e também a psicóloga
12:32Nanda Perim.
12:34Bem, vamos falar um pouquinho mais sobre esses casos.
12:37São muitos, são repetidos.
12:39Infelizmente, os números, doutora Michelle, a senhora falava que devem ser maiores do que a gente tem registrado, né?
12:46Exatamente. Como eu havia falado, existe uma subnotificação enorme desses números de estupro.
12:54As mulheres, elas se sentem muito envergonhadas, às vezes, de procurar a delegacia para fazer denúncia.
13:02Mas aqui a gente faz o alerta da importância que ela vá à delegacia, faça a denúncia.
13:08E também que é importante que ela procure o serviço de saúde, porque existe um programa chamado Pavives,
13:15que é um programa que atende essa mulher na saúde, que foi vítima de violência sexual.
13:20E ela tem todo, passa por uma profilaxia de medicamentos, para que ela não adquira doenças sexualmente transmissíveis,
13:30evite uma gravidez desejada também e o acompanhamento psicológico.
13:35E olha, vamos falar exatamente sobre esse ponto também, porque assim, a gente tem ouvido muitos casos aí de estupro,
13:42daqui a pouco eu vou lembrar de outras histórias também, que nós ouvimos aí nas últimas semanas, nos últimos meses.
13:48Mas qual a orientação para uma mulher que é vítima de violência?
13:52Ou seja, cuidado, Ney, você guarda a roupa que você estava usando,
13:57você, se puder, nem tome banho, vai logo fazer um exame para comprovar, porque a mulher também tem que comprovar
14:02que foi abusada.
14:04Exatamente. O que a gente pede é que se a mulher possa comparecer logo após a ocorrência do fato à
14:13delegacia,
14:14é melhor para que a gente possa encaminhá-la à perícia, para que a gente possa coletar nas vestes dela
14:22também,
14:23por isso que a gente pede para ela que não se desfaça das vestes que ela estava utilizando no momento
14:27do crime,
14:27para que isso possa nos ajudar a identificar o autor do delito, por isso essa importância.
14:35Muitas vezes a vontade, assim, aconteceu, a violência é você se lavar, você queimar aquela roupa, jogar fora,
14:45e esse desejo, porque até é uma sensação, aquela coisa assim, vou eliminar o que aconteceu comigo,
14:49mas aí é exatamente isso que não deve ser feito.
14:52Exatamente, é o contrário. É plenamente compreensível essa atitude da mulher, realmente a gente dá uma repugnância,
15:00quando a gente recebe essas vítimas na delegacia, elas estão extremamente abaladas com o que aconteceu,
15:07então muitas vezes elas querem tomar banho para se sentir limpa daquela agressão ali que ela sofreu,
15:13mas é importante que ela não tome banho, que ela não se desfaça das vestes,
15:17que ela compareça à delegacia para a gente encaminhá-la à perícia.
15:21O que, assim, psicologicamente falando, é muito difícil, né, Nanda?
15:26Porque é uma violência, a gente, como a Michelle falou, a gente quer se limpar do que aconteceu, né?
15:31É tentar, é como se o banho fosse uma tentativa de apagar o que ela viveu, né?
15:36Sim, talvez uma forma legal da gente tentar ressignificar isso aqui é que ela lembre a motivação principal,
15:44que é conseguir que se descubra quem foi, que conseguir colocar essa pessoa na cadeia,
15:50que ninguém mais, né, seja, passe por aquilo com aquela pessoa, graças a ela, que ela tem esse poder,
15:57ela tem o poder de ir lá e ela vai se limpar depois, ela vai se livrar disso depois,
16:02mas que ela tem o poder de entregar todo o material necessário, né,
16:06para que se busque esse suspeito, né, o agressor.
16:13E a punição, né, você falou no ponto da punição, teve um caso que teve uma grande repercussão aqui no
16:19país,
16:20que é o da blogueira, modelo Mariana Ferreira.
16:22A jovem acusa o empresário André Camargo Aranha de tê-la estuprado em dezembro de 2018,
16:29durante uma festa em Santa Catarina.
16:30Na época, ela tinha 21 anos e era virgem.
16:33Semana passada, esse caso ganhou uma repercussão até internacional,
16:37após a polêmica decisão por parte do juiz,
16:41que inocentou o empresário ao aceitar a tese de estupro culposo,
16:46crime que nem é previsto em lei.
16:49O que chamou muito a atenção foi a forma como a vítima foi tratada durante a audiência,
16:54que era uma audiência online.
16:55Ela precisou pedir respeito várias vezes, chorando por algumas vezes também aos prantos.
17:01E o advogado do acusado estava humilhando a jovem durante a audiência.
17:06Esse advogado se pronunciou, disse ter atuado dentro dos limites legais e profissionais durante a audiência.
17:13Esse caso continua porque ele não foi encerrado.
17:16E a gente também segue acompanhando essa história,
17:19mas isso gerou também uma grande revolta e uma comoção popular.
17:22Porque como é que pode a vítima ser tratada dessa jeito?
17:26A vítima acabou sendo acusada ali numa audiência, né, Nanda?
17:30Exatamente.
17:31E a gente...
17:31É como se ela tivesse sofrido uma outra violência, né?
17:36E não só sofrida essa outra violência, como de uma forma pública.
17:41Ela estava ali tentando, buscando justiça e foi tratada como uma acusada.
17:46E aí, o que se enxerga é uma violência além da violência.
17:52Ela sofre violência, ela busca ajuda.
17:54E a gente também defende muito que, além disso ser um outro trauma para ela,
18:00porque é, é um trauma coletivo.
18:03Porque as outras mulheres passam a ter medo de passar por isso e medo de denunciar.
18:09Pois é, agora, quando se denuncia e aí a pessoa não vai presa.
18:14Tem um caso que aconteceu, a gente até mostrou na semana passada em Cariacica.
18:18Uma vítima denunciou, tem vídeo que comprova o ato,
18:21inclusive mostra o agressor tentando, ele perseguindo a mulher, tentando estuprá-la.
18:28E mesmo assim, não está preso, não.
18:31O vídeo mostra um homem seguindo essa mulher pelas ruas.
18:35Nesse ponto, ele avança, derruba a vítima e sobe em cima dela.
18:38Pessoas presenciaram a cena e tentaram ajudar.
18:41O homem corre.
18:42Apesar da violência, a mulher não registrou a ocorrência.
18:46E o acusado voltou a persegui-la.
18:49Ele chegou a entrar na igreja, só que ninguém sabia que ele era uma pessoa.
18:54Aí, foi que eu reconheci e ele já veio obcecado.
18:59Aí, liguei para o meu tio e meu tio apareceu.
19:03Aí, depois as polícias, aí fizemos a ocorrência.
19:09No meio da confusão, apareceu outra vítima do mesmo homem.
19:13Ele veio contra a minha direção, com a dona normal, parecendo morador de rua e eu não estranhei.
19:18Só que ele tentou me dar um susto de reflexo, deu dois passos depois de mim.
19:22E aí, eu olhei para trás e vi que ele estava meio que me olhando estranho.
19:26Ele começou a me seguir.
19:27Eu adiantei os passos, ele adiantou em seguida, na mesma velocidade que eu.
19:31Eu percebi que ele estava me seguindo e comecei a correr em direção para cá, nessa mesma avenida.
19:36Ele correu na mesma velocidade que eu estava de mim, quase caiu, inclusive, porque ele estava meio estranho.
19:40Eu atravessei a rua e me joguei na frente do carro.
19:43E aqui, eu encontrei um carro da Força Nacional.
19:45Tinha três policiais, eles que me prestaram ajuda, socorro na hora.
19:50Com isso, o acusado foi preso, mas foi solto em seguida.
19:54Eu não sei mais o que fazer, eu só quero que ele seja detido, só isso, e sai das ruas.
19:59Realmente, agora eu estou com medo, né?
20:03Porque ele tentou novamente me perseguir.
20:08Ele não teve, ele...
20:09Para ele, a primeira vez, não foi o suficiente.
20:12Ele veio a segunda vez, então ele pode tentar a terceira.
20:17Está aí um grande medo, né?
20:19Porque o cara não ficou preso, o juiz, depois de uma audiência, acabou liberando esse suspeito.
20:24Ele está em casa, vai responder a um processo, mas está em casa, ele está solto, né?
20:29Exatamente.
20:30Acho que uma das grandes críticas que os operadores de direito fazem é quanto mesmo a nossa legislação que permite.
20:38Então, é difícil a gente até criticar o profissional que está ali atuando, porque muitas vezes nós somos obrigados a
20:44seguir a legislação.
20:46Hoje, a gente tem uma legislação muito frouxa, digamos assim, não somente para esses casos.
20:51A gente vê diariamente os noticiários passando casos de pessoas que são presas, roubando, furtando,
20:57e elas são colocadas em liberdade, repetindo os mesmos atos.
21:02Então, acho que a gente precisa rever a nossa legislação, que é muito complacente com o criminoso.
21:11Pois é, e olha, gente, a defensora pública, a doutora Fernanda Prugner, mandou um vídeo para a gente explicando os
21:17direitos da vítima de estupro
21:19e que ela deve agir assim que sofrer a violência.
21:23Vamos ouvir.
21:24A Defensoria Pública do Estado, ela integra a rede de atendimento às mulheres em situação de violência.
21:33Ocorrendo violência sexual, a Defensoria Pública poderá ser acionada a qualquer momento.
21:40Entretanto, orientamos as mulheres que sofreram violência sexual a procurar imediatamente o serviço de saúde,
21:48a fim de que seja iniciado um protocolo médico para evitar doenças sexualmente transmissíveis,
21:57gravidez indesejada e realizar a coleta de materiais necessários.
22:03Existe no Brasil a lei denominada Lei do Menudo Seguinte,
22:08que garante às vítimas de violência sexual um atendimento emergencial, integral e multidisciplinar
22:18pelo Sistema Único de Saúde, de forma a atenuar os agravos físicos e psicológicos decorrentes dessa violência.
22:29Se a violência sexual for praticada no âmbito da família, no âmbito doméstico ou numa relação íntima de afeto,
22:41a Defensoria Pública, ela possui no site da instituição um formulário online para requerimento das medidas protetivas de urgência.
22:52Nesse caso, a vítima poderá preencher um formulário que é recebido imediatamente pela instituição.
23:02Na sequência, uma Defensora Pública irá realizar o atendimento e encaminhar o pedido de medidas protetivas de urgência ao juízo
23:14competente.
23:15Então, está aí orientações para mulheres que forem vítimas desta violência.
23:20Se é importante denunciar, né, doutora?
23:23Sim, é extremamente importante denunciar e ali a Defensora Pública, a doutora Fernanda, fez um alerta
23:29sobre também o estupro que pode acontecer nas relações entre namorados, maridos e mulheres,
23:35que é importante dizer que não é porque você mantém uma relação estável ou não com uma pessoa
23:41que você é obrigada a ter relações sexuais com ela.
23:45Então, é importante esse alerta também.
23:48E acho que é bom a gente fazer aqui um alerta também, Nanda, que a gente estava falando sobre o
23:53caso de crianças também.
23:54Crianças, adolescentes que acabam sendo vítimas.
23:57É importante observar comportamento.
24:00É isso que vai chamar a atenção dos pais?
24:03Sim, são duas coisas.
24:05A prevenção, né, que é você conversar com a criança, você explicar para a criança as partes do corpo que
24:10podem ser tocadas por outras pessoas
24:12e as que não podem.
24:14Você fazer um combinado com a criança que não tem segredo com você, né, e mais do que isso ainda,
24:19você ter uma relação com a sua criança,
24:21um relacionamento que ela não tenha medo de você, né.
24:24Porque crianças que sofrem castigos e palmadas, elas, em geral, tendem a denunciar menos para os pais, porque eles têm
24:33medo de serem culpados.
24:36Em geral, esses abusadores também ameaçam essas crianças.
24:40Então, é importante que a gente esteja alerta aos sinais, porque às vezes a criança não vai contar, não é
24:45porque ela não confia em você,
24:46mas pelas ameaças que foram feitas.
24:48Então, essa criança, geralmente, ela vai começar a agir diferente, você vai sentir uma mudança, como a mãe da criança
24:54relatada hoje disse,
24:55a criança estava diferente, né, então, a criança se comportar diferente, a criança está mais retraída, né,
25:03ou, se você perceber sinais, a criança, por exemplo, com dificuldade de fazer xixi ou cocô, sentindo dor, né,
25:10mas é muito importante, o principal de tudo, seja por isso ou por qualquer outro motivo, você sempre conversar muito
25:16com a sua criança.
25:17Tenha uma relação muito legal com ela, converse, troque, bate-a-papo, assim, esteja sempre muito conectado com seus filhos,
25:23porque as chances são muito maiores de você prevenir e também de você estar em contato com qualquer coisa que
25:30esteja acontecendo na vida dessa criança,
25:32se você tiver uma relação muito boa com ela.
25:34Isso já faz toda a diferença, né, doutora Michelle, que atende vários casos, já conversou, acredito, que com crianças, com
25:41adolescentes,
25:43e mulheres também vítimas desta violência toda.
25:45É, com certeza, faz toda a diferença essa manutenção de relacionamento de confiança,
25:52porque quando não é na escola, muitas vezes que ela acaba falando, ela atrai aquilo ali para os pais,
25:59que é quem ela enxerga ali como aquela pessoa que vai proteger, né, ela de qualquer mal que possa acontecer,
26:06então é extremamente importante essa conexão entre pais e filhos.
26:10Agora, para a gente encerrar aqui, que já estamos, ó, a gente vai batendo papo aqui, vai passar um tempo,
26:15para a gente encerrar, ajuda, onde buscar, se a gente desconfia de alguma relação,
26:21alguma situação de abuso com crianças ou com qualquer outra pessoa, onde denunciar, o que fazer, doutora?
26:28Qual o caminho?
26:28Então, desconfiou de qualquer situação estranha e não quer se envolver, que eu digo assim, aparecer fisicamente,
26:35faça a denúncia através do Disque 181, é possível fazer pelo telefone, é possível fazer também pelo site a denúncia,
26:44não há qualquer tipo de identificação.
26:46O que aconteceu ali no ato e a pessoa vai, quer acionar a Polícia Militar, aciona o 190,
26:55tanto nos casos de estupro de menores ou de mulheres, que a Polícia Militar vai até o local,
27:01vai fazer um encaminhamento ao hospital dessa mulher, caso também seja necessário,
27:06vai conduzir depois essa mulher até a unidade policial.
27:09É importante dizer que todas as unidades policiais do Estado, elas estão aptas a receber mulheres,
27:17denúncias de violência sexual.
27:20A gente pede que dê preferência à Delegacia da Mulher ou então à Delegacia de Proteção à Criança e Adolescente
27:28para ter um atendimento mais específico, mas não significa que se ela for em outra delegacia,
27:33ela não será atendida.
27:35Então, estão aí os canais disponíveis para toda a população.
27:39Muito obrigada pelo bate-papo, doutora Michelle, doutora Ananda, também um prazer receber as duas aqui.
27:44Uma ótima tarde.