00:04E aí, gente, adivinha o que eu tenho nas mãos aqui, ó, uma panela de barro, símbolo da cultura
00:12capixaba. Eu tô aqui no Galpão das Paneleiras, em Goiabeiras, Vitória, pra comemorar. É isso
00:17mesmo, o galpão foi reaberto depois de quatro meses fechado por causa da pandemia do novo
00:26coronavírus. Sim, elas estão de volta, as legítimas paneleiras. Olha aí, ó, a dona Eronildes
00:32com a mão no barro, dando vida a um símbolo da cultura capixaba. Nós não estamos fazendo
00:37aquela vendagem, né, como a gente fazia antes, mas só de a gente retornar, já é uma grande
00:45vitória. Em março, o galpão fechou. A área externa onde fica o forno foi isolada e elas
00:53tiveram que se adaptar. Fazer panela em casa não é a mesma coisa.
00:56Mesmo a gente trabalhando em casa, tinha muita dificuldade, a gente passa dificuldade, porque
01:02é tanto pra levar o material, pra trazer, aquela luta, porque em casa a gente faz, mas
01:08não é igual aqui que a gente sai, amanhã a gente termina, é um cansaço.
01:15O trabalho foi retomado, mas o espaço está bem vazio ainda, dentro e fora do galpão, cercado
01:21pelo manguezal. Só algumas paneleiras mexem no barro e os três homens ajudam na queima
01:27da panela, que dá essa cor preta aí, ó. Muita gente ainda não voltou.
01:32A maioria delas não voltaram, igualmente a mim, não voltei pra trabalhar ainda, porque
01:36nós somos um grupo de risco. Vê que você chega num galpão hoje, você encontra o quê?
01:41Umas 15 pessoas só trabalhando. Que a maioria são todos de risco, não tem como voltar pra
01:46trabalhar, porque é um perigo, né?
01:51Mesmo com todo o cuidado, o coronavírus fez três vítimas na comunidade, entre elas,
01:56a tia Nequinha, 83 anos, paneleira das antigas.
02:00Depois ela adoeceu, ela adoeceu, a filha, a filha dela faleceu com a Covid, passado, acho
02:05que uns quatro dias, ela veio a falecer também. Aí quando ia fazer uns dez dias que faleceu
02:11as duas, faleceu um sobrinho, tudo da mesma família. Aliás, são tudo primo meu, tudo
02:15parente meu.
02:16Que tristeza, hein?
02:18Muito triste e a gente trabalha aqui, mas trabalha com sentimento, porque a gente sente falta
02:23da pessoa. Ela precisa de uma senhorinha de 83 anos, era pessoa boa, pessoa trabalhadeira,
02:29era guerreira.
02:32O espaço NEM de longe lembra os velhos tempos. Isso aqui vivia cheio. 86 famílias foram cadastradas
02:39na associação, que ganhou fama e prestígio, quando a panela de barro foi tombada pelo
02:44IPHAN, como patrimônio imaterial do Brasil. Mais de 3 mil panelas eram vendidas todos os
02:51meses. Para a retomada, elas investiram nos cuidados. Só quem mexe com o fogo está liberado
02:58de usar a máscara. Os outros têm que seguir as regras. A ideia agora é atrair de novo
03:03a clientela, porque não está fácil.
03:05O galpão abriu, mas nós não temos ainda aqueles clientes que vêm que dá para suprir
03:10o tanto de paneleira que tem para vender a panela.
03:13Porque não tem turista, né?
03:14Não tem turista.
03:19As paneleiras passam dificuldade. Durante a pandemia, receberam cestas básicas de amigos,
03:25prefeitura, governo, mas como o trabalho voltou, as cestas foram suspensas. Ou seja, tem
03:30que vender para faturar.
03:31Eu acho que deveria continuar nos ajudando na cesta básica, porque está difícil e tem
03:39umas paneleiras também que não podem trabalhar. Como que elas vão viver?
03:45Coragem e esperança não faltam. Sorriso também não, mesmo que esteja debaixo da máscara.
03:51Eu tenho 45 anos que eu faço panela. Eu comecei aos 8 anos de idade. Entendeu?
03:57E é prazeroso, né? O cliente diz, ei, ironia, tudo bem? Ah, eu fico toda aí.
04:04E quando elogia o seu trabalho?
04:05Ah, mais ainda.
04:06Fica toda boa.
04:08Ah, volte sempre. Ele volta mesmo.
04:15Então, bote sua máscara, se proteja, venha com cuidado. Evite a aglomeração. E aí, aproveite
04:22a paisagem. Conheça como é feita a panela de barro. Elas estão te esperando, ó. Vem, gente!
04:28Turista que estiver aqui em Vitória, ou pessoal aqui mesmo de Vitória, venham comprar panela.
04:36O galpão já reabriu, está funcionando de 10h às 17h, de segunda a sexta, só não abre
04:42o sábado e domingo. Mas venham comprar panela, venham ajudar as paneleiras, que elas precisam
04:48muito, porque são 86 famílias que sobrevivem da panela de barro.
04:53E aí