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  • há 5 minutos
Médico especialista em dependência química explica quais são os possíveis tratamentos para pessoas com dependência química

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Transcrição
00:00Agora, aqui no estúdio, eu recebo o médico psiquiatra, especialista em independência química,
00:05doutor Valdir Campos. Boa tarde, doutor Valdir. Bem-vindo ao Fala Espírito Santo.
00:09Boa tarde. Prazer.
00:11Bem, a gente está vendo aí histórias, né? Mostramos agora uma mãe relatando a dificuldade que ela passa
00:16com um filho que agrediu, ameaçou com vergalhão e ameaçou de morte ela. A filha conversava aqui
00:23agora há pouco com a dona Domingas, que tem um filho que há 16 anos é usuário de drogas,
00:27mas hoje está preso justamente porque roubava para alimentar esse vício. E aí a dona Domingas
00:33falou uma coisa que eu acho que é bom o senhor falar pra gente. A dependência química, né?
00:39O consumo de drogas, isso é uma doença?
00:42Sim, a dependência química é uma doença crônica, caracterizada principalmente por períodos
00:49de recaídas.
00:52E aí a gente tem que tratar como tal, não é só ele está querendo curtição, não é
00:56uma pessoa que só quer curtir a vida e fazer as coisas, não. Ele é um vício e é preciso
01:02de um tratamento.
01:03Sim, é uma doença do cérebro. Então, uma vez instalada essa doença, ela é instalada
01:10como? Com o uso constante daquela substância, ela vai atuando no cérebro até que chega um
01:17determinado ponto que o cérebro já se acostumou com aquela droga e a pessoa não consegue mais
01:24largar o vício da droga. Então, é uma doença crônica, exatamente porque existe um período
01:32até a instalação da doença. É importante isso ficar claro porque a gente cai naquela
01:40crença, sim, de que todas as pessoas que estão por aí e que fazem uso eventual recreativo
01:47de drogas são dependentes e necessitam de tratamento. Eles estão num estágio ainda
01:52de usuário, de uso recreacional, mas eles são um grupo de risco para chegar a se tornar
02:00dependente químico, que é uma doença, que aí sim precisa de tratamento médico e geralmente
02:06é com equipe multiprofissional. Ou seja, o que hoje está ali é uma diversão, um lazer aí com os
02:13amigos, não é toda hora, não é todo dia, mas para frente pode sim se tornar toda hora, pode sim
02:20se
02:20tornar todo dia e aí uma situação muito pior, uma dependência mesmo, como a gente está vendo aí
02:26que acontece com muita gente, né? Sim, a dona Domingas, uma senhora muito bem esclarecida, ela colocou
02:34que o filho dela iniciou aos 13 anos. Realmente isso vai de encontro a todas as estatísticas que a gente
02:41tem, que geralmente no Brasil, né? Os jovens começam a usar drogas, principalmente as drogas
02:48legalizadas, álcool e tabaco, por volta de 12 anos e meio. Aos 13 anos, uma boa parte deles já estão
02:55usando as drogas não legalizadas, né? A primeira dela, a maconha, lá pelos 14 anos, uma boa parte
03:02deles já estão usando, então, cocaína e crack e outras drogas a mais. Então, nesse
03:08período crítico, que é o período da adolescência, né? Que a pessoa, né? Está ainda em formação
03:14do cérebro dela, da personalidade dela, essa substância, então, vai interferir nessa
03:20formação e pode fazer com que esse cérebro seja desconfigurado e se instale a dependência
03:27química, que é uma doença.
03:29E olha, o senhor falou aí da idade, né? Do consumo das drogas. A gente não tem números
03:33aqui do Estado, não. Mas tem uma pesquisa que foi feita pela Fiocruz e essa pesquisa
03:38identificou que a substância ilícita mais consumida no Brasil é exatamente a maconha.
03:43Cerca de 8% dos brasileiros, entre 12 e 65 anos, assumiram já ter consumido a droga pelo
03:49menos uma vez na vida. Aí, em segundo lugar, vem a cocaína. Aproximadamente um milhão
03:55e meio de pessoas relataram ter feito uso de crack e substâncias similares alguma vez
04:00na vida. Essa pesquisa também analisou o consumo de álcool, que é considerado também
04:05uma droga lícita. Mais da metade da população brasileira, de 12 a 65 anos, declarou ter consumido
04:14bebida alcoólica alguma vez na vida e aproximadamente 3 milhões de pessoas apresentaram critérios
04:20para dependência de álcool. Então, tá aí. O álcool é uma droga lícita, né? Uma
04:24droga liberada. E tem as outras drogas, que são aí como maconha, cocaína, o crack, que
04:30são drogas ilícitas e trazendo aí a cidade, né? A partir dos 12 anos, a pesquisa já aponta
04:36dos 12 aos 65 anos, né?
04:38Exato. Começa com as drogas legalizadas, né? O lícitas, as drogas, tipo o álcool, né?
04:45O tabaco. Então, é importante também que as pessoas entendam que álcool e tabaco são
04:51drogas. São drogas legalizadas. Nós estamos até num momento desse debate sobre a legalização
04:58da terceira droga, que seria a maconha, né? Então, altamente prejudicial, desencadeia
05:03inúmeros casos de esquizofrenia, quadros psicóticos, né? O abandono escolar é altíssimo
05:10nas pessoas que fazem o consumo de maconha. Então, a maconha não é uma... Simplesmente
05:14porque vem de uma planta, ela não é maléfica, né? É uma droga que causa muitos prejuízos.
05:22Então, as pessoas começam, de fato, usando as drogas legalizadas e quando elas usam drogas
05:27legalizadas, por exemplo, quem anda com alguém que fuma, que bebe, geralmente conhece alguém
05:33que usa maconha. Quem anda com quem usa maconha, geralmente, quem usa maconha, às vezes usa
05:41cocaína e outras drogas. Ou conhece alguém que faz uso, né?
05:45Então, isso é importante porque não é o fato da pessoa usar álcool e tabaco que vai
05:51dizer que ela vai se tornar, que ela vai procurar outras drogas ilícitas. Mas é o conjunto,
05:57né? A influência dos pais.
05:59Luiz, adulto, agora vamos pontuar aqui até para uma orientação para os pais, porque
06:03imagina, com o filho da dona Domingas, aos 13 anos, começou a consumir drogas. Essa outra
06:09mãe que nós mostramos aqui na reportagem hoje, que foi agredida pelo filho, um adolescente,
06:13ela não sabe, ela disse que não sabe em que momento que o filho consumiu drogas. Como
06:18que a gente percebe isso? Se a gente, olha, vê, olha, meu filho tem alguma coisa errada
06:23aqui. Eu acho que a dona Domingas, ela colocou pontos bem importantes, né? Isso é bom porque
06:30vem de uma pessoa que vive em si mesmo. Ela percebeu que o filho dela começou, muitas
06:35vezes, a faltar escola, ou chegar mais tarde em casa, ou não acompanhar a família, né?
06:41Nas confraternizações familiares. Então, começa a haver um certo afastamento, uma certa
06:47mudança de comportamento, onde essa pessoa pode ficar, às vezes, mais arredia ou mesmo,
06:53às vezes, agressiva também. Com faltas inicialmente, né? Aos estudos, se trabalha,
06:59começa a ter faltas também ao trabalho. Então, há uma percepção de quem convive com
07:05essa pessoa de que houve uma mudança de comportamento, né? Então, no caso de drogas
07:12mais graves, né? Assim, gera dependência mais rápida, como a cocaína e o crack, então
07:18a família começa a perceber a venda de objetos, pertences, né? Acho que, se eu não me engano,
07:24a dona Domingas informou isso, de que, às vezes, chegava na casa dela mesmo, nem a
07:29lâmpada, né? Tinha porque... Sumia coisas, né? Sumia porque o filho havia pego aquela
07:34lâmpada para poder vender e para ter dinheiro para sustentar o vício dele, porque bate uma
07:41fissura, que é a vontade imensa de usar drogas, principalmente quando para, fica
07:47sem, aí tem a fissura e isso faz com que a pessoa tenha um comportamento de busca, de
07:52querer usar essa substância. E isso é extremamente forte, foge ao controle da
07:59pessoa. Vamos falar agora sobre a internação, doutor. Como é que funciona? O que os médicos
08:05acreditam? Porque existe essa internação compulsória, né? Quando a pessoa mesmo, sem
08:09querer, ela é internada. Ela funciona? É ideal para o tratamento do dependente?
08:15Sim. A internação é uma estratégia dentro de vários recursos para o tratamento, né?
08:21Existe o tratamento ambulatorial, que é de escolha até hoje no serviço público, existe
08:27o Centro de Atenção Psicossocial Alcidrogas, CAPS-AD. E, em casos mais graves, né? Aí,
08:34o recurso da internação. A internação pode ser voluntária, involuntária e compulsória.
08:42Esses três tipos de internação, eles já existem da Lei 10.216, que protege os direitos
08:48e deveres dos portadores de doença mental. Sofreu essa alteração, como foi dito pelo
08:54doutor, né? O doutor advogado. E, atualmente, para evitar essa dúvida que tinha antes da internação
09:04involuntária e compulsória ser única e exclusivamente pela justiça, hoje é possível que a pessoa
09:11seja internada involuntariamente por solicitação do familiar ou de algum profissional da área
09:19de saúde ou algum responsável também pelo paciente. Então, essa internação pode transcorrer
09:27livremente. Não há diferença entre a internação involuntária e voluntária em relação à resposta
09:38terapêutica. Pois era, essa resposta aí que era a questão, porque a gente sempre escuta,
09:43né? Igual, por exemplo, o cigarro, né? Quando a pessoa fuma cigarro e não consegue largar,
09:48que aí a gente sempre escuta, olha, você só vai conseguir largar se você quiser
09:51de verdade. Não adianta tomar remédio, não adianta fazer as coisas se você realmente
09:55não quiser. Isso não se aplicaria, por exemplo, para as drogas, para o álcool? Se a pessoa
09:59realmente não quiser largar o vício, ela vai conseguir?
10:04Inicialmente, as pessoas que são dependentes de drogas, elas não querem largar, porque,
10:09assim, convenhamos, né? Usar drogas, para quem usa, é muito bom. Então, ela não quer sair
10:15daquela situação. Então, existem hoje recursos para que a gente faça com que essa pessoa queira
10:23se tratar. Então, existem técnicas hoje, uma técnica que nós chamamos de entrevista motivacional,
10:30onde nós trabalhamos com o paciente que não quer tratamento para que ele queira o tratamento,
10:36mas para que isso aconteça, realmente há necessidade de um período de internação e durante esse
10:44período de internação é feito, então, esse trabalho de entrevista motivacional, de motivação,
10:51até que ele, como se diz assim, até que a ficha caia e ele realmente...
10:55Diz a importância, né?
10:56Mas, inicialmente, os pacientes não querem e é usado o recurso da internação involuntária.
11:03O Instituto Nacional de Drogas nos Estados Unidos, ele já fez essa comparação e chegou
11:11à conclusão que não existe essa diferença entre a internação, o resultado da internação
11:17voluntária e involuntária. O que vai diferenciar são os recursos terapêuticos. Então, depende
11:26de onde você vai alocar o indivíduo para que ele possa ter uma melhor resposta terapêutica.
11:32Bem, olha, a gente conseguiu restabelecer o contato com o doutor Rivelino Amaral, que é
11:36advogado, criminalista, está explicando para a gente aqui a legislação.
11:40Doutor Rivelino, está me ouvindo bem?
11:42Estou te ouvindo muito bem e quero aproveitar e parabenizar. O seu programa está muito rico.
11:48O doutor Valdir está dando uma aula aí. A dona do micro trouxe informações muito
11:53importantes. Eu estou te ouvindo muito bem e estou gostando muito do programa.
11:57Que bom, viu? É um prazer ter o senhor aqui participando com a gente, doutor Rivelino.
12:01Vamos reforçar aqui essa questão da internação. O senhor explicou para a gente pouco antes
12:05que ela é possível, né? Internação compulsória, ela é possível, desde que seja consultado
12:10o médico. O médico fala, olha, a gente tem que internar. Agora, na prática, a gente vê
12:15muita reclamação de mães que querem internar os filhos e não conseguem, porque o sistema
12:21público não fornece o serviço.
12:26É, é verdade. Bom, então, qual é a orientação que a gente daria para essas pessoas sofridas
12:32tanto que já estão? Que procurem um advogado ou, se não tiver condições, que procurem a
12:37defensoria pública para que ela dê os caminhos. Na verdade, como eu disse anteriormente, hoje
12:44não é mais necessária uma decisão judicial para internar as pessoas compulsoriamente.
12:51Quer dizer, o Estado colocou em vigor uma nova lei, 13.840 de 2019, que entrou em vigor no
13:00ano passado, possibilitando essas internações com o impulso da família, de alguém da família
13:06e com um laudo médico atestando a necessidade. É bom que se frise que a internação compulsória
13:13é a última opção. Quer dizer, não é qualquer caso que é suscetível de uma internação
13:20compulsória mesmo, porque é uma medida muito ácida, uma medida muito séria, que pode
13:25ter, inclusive, interesses outros por trás de uma internação compulsória. Então, a internação
13:32compulsória é a última opção e a internação compulsória hoje foi facilitada, então, como eu
13:39disse, com a possibilidade de ocorrer tão somente com o laudo médico dando conta da necessidade
13:45de internação daquela pessoa. Bom, e respondendo a sua pergunta, o Estado tem condições de acolher
13:52a todas as pessoas que, inevitavelmente, precisam de uma internação compulsória? Não, não tem
14:00condições. O Estado não consegue alcançar a todas as pessoas que precisam ser internadas
14:06para se verem livres dessa doença, porque é uma doença, um caso de saúde pública, o vício
14:12da droga, mas o Estado não tem condições. E aí ele faz, Juliana, ele faz contratos, parcerias
14:20com clínicas particulares e aí ele custeia essas internações. Ele tem os próprios hospitais
14:26do Estado para atenderem também de forma muito mitigada, muito pequena, mas tem, mas
14:32especial e notadamente os contratos de parceria do Estado com clínicas particulares e o Estado
14:39custeando essa internação para que possa atender a população aí tão sofrida com essa
14:46droga que está em todos os cantos, inclusive nas cidades do interior. Pasme vocês, assim,
14:52a gente acha que, ah, não, a droga é um problema só da capital. Não, a droga alcançou
14:58a todos os rincões do nosso país, do mundo todo, melhor dizendo, né? No Espírito Santo
15:04a gente vê as cidades do interior estão todas manifestadas pela droga. E isso é uma
15:08grande tristeza, né? E aí o Estado, ele fica tentando acolher a essas pessoas, mas ele
15:14não tem o alcance que nós gostaríamos que ele tivesse.
15:18Doutor Revilino, muito obrigada, viu, pelas orientações, pelo bate-papo. Agradeço
15:24a sua participação aqui com a gente. Está uma ótima tarde.
15:27Eu que agradeço e o programa estava excepcional. Parabéns.
15:32Obrigada, doutor Revilino. Um beijo para o senhor.
15:34Bem, a gente está vendo aí, o doutor Revilino puxou um negócio que acho importante a gente
15:38falar. Essas drogas, elas estão em todos os lugares, na Grande Vitória, no interior e em
15:45todas as classes sociais também, né? Porque não vem marginalizar, dizer, ah, quem consome
15:50drogas é o pobre. Não. Todo mundo, né? Pobre, rico, existe esse problema.
15:57Isso, por isso que é importante a prevenção, né? Assim, como a gente disse, no uso inicial
16:04de drogas legalizadas, né? E depois desse certo monitoramento, acompanhamento dos pais
16:12em relação ao desenvolvimento dos filhos, né? Para que eles não possam entrar nesse
16:17caminho. Porque uma vez que entre, às vezes pode ser difícil de sair. A dona Domingas
16:24colocou, eu só gostaria de fazer uma diferenciação entre o que é uma clínica e uma comunidade
16:31terapêutica. Muitas vezes é oferecido um tratamento que geralmente as pessoas entendem
16:37como clínica e que são comunidades terapêuticas, né? São locais onde as pessoas são internadas
16:43voluntariamente e elas têm uma assistência nesse campo mesmo de... porque foram criados
16:51por pessoas ex-usuários ou pessoas de religião. Então, elas têm esse enfoque, que é um modelo
16:59que era usado na década ainda, no século 20, que é um modelo que nós chamamos modelo
17:05médico, ainda centrado nessa questão, assim, de uma força superior para tirar a pessoa
17:11do uso de drogas. Atualmente, existem, então, as clínicas, onde, então, tem atendimento
17:18médico, psicológico, com profissionais da área de saúde, né? Enfermeiro, terapeuta ocupacional
17:24e é feito, então, esse processo de desintoxicação, então, usa-se medicamentos e essa abordagem
17:33multiprofissional no modelo mais novo, que é o modelo biopsicossocial.
17:38Tá certo. Olha, eu queria continuar nosso bate-papo, mas, infelizmente, acabou. A gente
17:42vai voltar a falar sobre o tema, viu, doutor Wald? Muito obrigada por ter vindo aqui, viu?
17:46Ok. Uma ótima tarde.

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