00:00A rotina do médico intensivista pode ser dividida entre antes e durante a pandemia.
00:06As doenças que ele trata nas UTIs dos hospitais também.
00:10Antes da pandemia, a gente tinha, por exemplo, o paciente vítima de infarto agudo do miocárdio em maior demanda,
00:15um paciente vítima de acidente vascular encefálico, o AVC, que a gente fala, tanto isquêmico quanto hemorrágico.
00:21A gente tinha o paciente vítima de infecção generalizada, a gente tinha o paciente vítima de traumatismo, o politraumatizado.
00:28E hoje em dia, grande parte das UTIs a nível estadual, tanto da rede pública quanto da rede privada,
00:35a gente tem elas muito mais direcionadas para o atendimento dos pacientes vítimas de Covid-19, os pacientes que evoluem
00:41de forma grave.
00:42Não é impressão de um médico.
00:44Em entrevista à Pan News Vitória nesta quarta-feira, o secretário estadual de saúde, Nézio Fernandes,
00:50afirmou que a ocupação de leitos de UTI para pacientes que não estão com o novo coronavírus está baixa.
00:57Segundo ele, há alguns dias não há nenhum paciente ortopédico e cardiovascular nas unidades de terapia intensiva do Estado.
01:05Nós, neste momento do Estado do Espírito Santo, não temos problema, por exemplo, com a ortopedia.
01:11Nós estamos, amanhecemos o final de semana com demanda zero de ortopedia no nosso Estado.
01:17A incidência de infartos e várias outras doenças que eram comuns, elas tiveram uma redução muito grande neste mesmo período
01:24também.
01:24Então, esse comportamento diferente das doenças no Estado tem também retirado uma pressão assistencial que era constante no sistema
01:35e permitido que eles se equilibrem nessa oferta.
01:38Questionamos a Secretaria de Saúde sobre o número de leitos de UTI ocupados por pacientes de outras doenças
01:44que não estão lutando contra a Covid-19.
01:48Não recebemos retorno.
01:49Não é que outras doenças simplesmente deixaram de existir?
01:53O fato é que o isolamento social reduziu as chances de acidentes de trânsito,
01:58que eram grandes provocadores de traumas e que levavam muita gente para a UTI.
02:04Outra explicação está no adiamento de cirurgias naqueles pacientes que podem esperar.
02:11É o que explica o coordenador do Comitê de Enfrentamento ao Coronavírus do Conselho Regional de Medicina.
02:17A baixa ocupação dos leitos de UTI, não Covid, deve-se ao distanciamento social,
02:25com a redução dos leitos ocupados pelos traumas, que foram bastante reduzidos.
02:31Outro motivo para a redução da ocupação desses leitos é a suspensão das cirurgias de grande porte,
02:38como neurocirurgias, cirurgias cardíacas, vasculares, torácicas e ortopédicas.
02:43A redução de acidentes fica evidente ao observar os números do batalhão de trânsito no Estado.
02:49Em abril de 2019, foram 1.563 acidentes.
02:54Em abril de 2020, 662, menos da metade.
02:59O número de vítimas também despencou, se comparados os dois períodos, de 548 para 313.
03:07O presidente da Sociedade Brasileira de Ortopedia do Estado confirma a redução ao observar os leitos do hospital onde trabalha.
03:16Isso se deu muito por diminuição do número de acidentes automobilísticos, envolvendo principalmente motocicletas,
03:26que é uma causa muito comum de internação na ortopedia dos hospitais públicos.
03:32E também a questão de menos prática esportiva, as pessoas saem menos, então acaba se acidentando menos.
03:43Mas o afrouxamento das medidas de isolamento social preocupa.
03:48Vítimas de traumas podem voltar a pressionar o Sistema Único de Saúde, provocando uma concorrência aos leitos de UTI.
03:55Tendo esse afrouxamento, com certeza leva a uma incidência maior de causas traumáticas de acidente.
04:06E, consequentemente, essas pessoas vão para o hospital, às vezes precisam de um leito hospitalar para se submeter a uma
04:13cirurgia.
04:13Então, sem dúvida, isso acaba ocupando os leitos hospitalares também.
04:18Outra preocupação é com a demanda reprimida. Pacientes que estão adiando cirurgias podem ter as doenças agravadas.
04:26A recomendação do Conselho, neste momento, é que as cirurgias eletivas que sejam realizadas,
04:34fiquem a cargo do julgamento do médico assistente, quanto à conveniência ou não da realização dessa cirurgia,
04:41da possibilidade de postergar ou não o procedimento cirúrgico proposto,
04:46sob o risco de agravamento de uma patologia operada eletivamente.
04:53Para driblar o acúmulo de cirurgias pós-pandemia, de acordo com o ortopedista,
04:58aos poucos as eletivas estão sendo retomadas, mas com cuidados redobrados.
05:04Preferencialmente, agora, nesse retorno, nós estamos dando mais ênfase para os pacientes mais jovens
05:11com lesões mais traumáticas, agudas.
05:15Se dá para esperar, a gente evita os pacientes que têm comorbidades, como diabetes, hipertensão.
05:21Então...