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  • há 5 horas
A Amazônia que ganha vida nas páginas das histórias em quadrinhos (HQ) produzidas na região não cabe em clichês nem em retratos exóticos. Das lendas urbanas e da cultura do brega em Belém às vivências de comunidades ribeirinhas; das cosmovisões indígenas ao cotidiano de imigrantes japoneses no interior do Amazonas, os quadrinistas locais provam que existem várias Amazônias dentro da Amazônia. Para eles, o quadrinho não é mero entretenimento: é um poderoso instrumento de autoidentificação, pertencimento e combate ao apagamento histórico vivido pela região.

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Transcrição
00:00O Norte em Quadrinhos foi criado pela Samela Hidalgo, que é uma editora, produtora de Manaus.
00:07E ela criou o Norte em Quadrinhos exatamente com o intuito de que a gente sabia que existiam muitos autores
00:13de quadrinhos no Norte,
00:14mas a gente não se conhecia.
00:16Então, a ideia dela foi exatamente unir a gente de modo coletivo e assim ela criou uma comunidade inicialmente virtual
00:24que depois passou para o físico.
00:26Então, o Norte em Quadrinhos começou a fazer uma mobilização dos artistas, principalmente porque a gente sabia que a gente
00:32tinha muitos talentos,
00:33mas esses talentos eram invisibilizados no mercado nacional.
00:37Então, como é que a gente conseguia incluir esses artistas dentro do mercado,
00:41sabendo que muitos deles têm dificuldade de locomoção para as cidades do sul do sudeste,
00:46que é onde concentram os eventos, que a gente sabe que o custo é elevado.
00:50Grande parte da nossa produção, a nossa produção artística amazônica, ela é uma produção periférica de origem,
00:56então a gente sabe que tudo isso são dificuldades.
00:59Então, com o Norte em Quadrinhos, ela não só colocou a gente para se conhecer,
01:02mas ela também possibilita organizações.
01:05Então, por exemplo, o Festival Internacional de Quadrinhos, que acontece pelo horizonte,
01:09ele é um dos maiores festivais que tem no Brasil e ele tem um estande do Norte em Quadrinhos,
01:15que é o único estande de região que existe e a única mobilização regional que existe hoje em dia no
01:22Brasil
01:23é por conta do Norte em Quadrinhos e dos quadrinhos dos nortistas.
01:26Então, a partir do momento que você junta todos eles dentro desse guarda-chuva,
01:31que é o Circuito Amazônico de Quadrinhos, e você cria esse evento itinerante,
01:34a gente não só se organizou para todos os eventos terem uma unidade visual,
01:39uma unidade de comunicação, terem pautas em comum,
01:42mas também a gente conseguiu criar um evento que une histórias em quadrinhos, turismo,
01:49consciência política no sentido do que é a Amazônia, do que é o Norte,
01:52da diversidade que existe do Norte,
01:54e a gente conseguiu entrar na agenda dos eventos nacionais.
01:58E agora, recentemente, o evento foi premiado no Troféu Ângelo Agostinho.
02:02A gente tem várias dificuldades, né?
02:04A gente tem uma dificuldade estrutural, que é no sentido de impressão e divulgação.
02:09Tudo é mais caro para o Norte.
02:11Então, o nosso problema já começa em como é que a gente vai colocar esse quadrinho
02:14para o público leitor.
02:16Então, o mercado daqui, ele é principalmente independente.
02:21Primeiro porque as grandes editoras raramente ou quase nunca publicam os quadrinistas, né?
02:27Quando eles publicam, são as pessoas da literatura, mas não os quadrinistas.
02:31Então, a gente não tem praticamente nenhum quadrinho, este aqui é publicado por editora.
02:35Isso faz com que a gente tenha desenvolvido uma capacidade muito grande
02:39dentro da publicação independente.
02:40Praticamente todas as premiações, tanto que Onde Habita o Medo, Saburó, né?
02:45Todos eles são publicações independentes.
02:48Quando a gente traz essas pessoas para cá também,
02:51por livre de vontade e à vontade, né?
02:52A gente fomenta comércio.
02:55É sabido, por exemplo, na Bienal do Livro de São Paulo,
02:57que foi mais de um milhão de reais, né?
03:00Que foi movimentado dentro daquele espaço.
03:04Então, assim, quando a gente traz essas pessoas também,
03:06a gente faz com que as pessoas daqui não precisam,
03:09precisem se deslocar para o eixo suíço-sudeste
03:12para terem seu trabalho reconhecido, né?
03:14Porque quando as pessoas vêm para cá,
03:16vem influenciador, vem outros quadrinistas,
03:19vem editores.
03:19Então, eles conhecem a nossa população estando aqui
03:23e, principalmente, eles começam a entender também
03:26por que a nossa construção de narrativa,
03:28ela é uma construção muito diferente do resto do Brasil, né?
03:32E isso é um impacto muito grande
03:35que a gente acaba causando, né?
03:38A nível nacional,
03:39de realmente dar esse protagonismo para as pessoas daqui
03:43e trabalhar essa autoestima desses artistas.
03:46Vou começar, então, fazendo um apanhado
03:48de como eu comecei a estudar com os coletivos,
03:49porque, assim, quando eu fazia o mestrado,
03:51eu estudava o quadrinho fazendo a análise,
03:54interpretação de quadrinhos, né?
03:57Quando eu ingressei no doutorado,
03:59a proposta era a mesma,
04:02fazendo a análise de outros quadrinhos,
04:04interpretando as histórias,
04:06relacionando com a cidade, enfim,
04:09tentando perceber como é que se comportavam
04:11essas figurações da Amazônia e de Belém nos quadrinhos.
04:14E aí foi quando eu comecei a participar
04:17mais frequentemente dos eventos que aconteciam em Belém,
04:20que sempre acontecem, principalmente em janeiro,
04:23com o Dia do Quadrinho Nacional.
04:24E, então, eu comecei a conversar com os quadrinistas,
04:27comecei a me aproximar,
04:29e aí perceber a presença de coletivos,
04:32de quadrinhos naquele local.
04:34E aí foi nesse contato, nesse diálogo,
04:36que eu comecei a perceber que
04:39eles não só publicavam quadrinhos,
04:42mas também estavam envolvidos com toda a cena
04:44que ocupava, que fazia esse movimento
04:47do quadrinho circular.
04:49Então, desde então, mudou o foco da pesquisa,
04:54a gente foi para esse,
04:55que era em diálogo com os quadrinistas,
04:58e aí nós elencamos,
05:00até o momento da finalização de início da pesquisa,
05:03nós conversamos com cinco,
05:05para nós conversarmos,
05:05para ser o corpo da pesquisa.
05:07Então, foi o coletivo Açaí Pesado,
05:09o coletivo Capivar Astronauta,
05:12o BRT,
05:13o Kitnet e o Serendip,
05:14que são grupos que já vêm há um certo tempo
05:17produzindo,
05:18o Kitnet é o mais recente,
05:20mas que começou juntamente com a pesquisa,
05:22e nós abarcamos elas,
05:24e aí durante o percurso
05:27surgiram outros coletivos,
05:28mas nós fechamos com esses cinco,
05:31para justamente não deixar de fora esses outros,
05:34mas para justamente focar
05:35na movimentação desses cinco coletivos.
05:37E aí, então,
05:39durante o período de levantamento bibliográfico,
05:42o que foi que a gente percebeu?
05:43Que desde os anos 90,
05:44que é quando se começa uma movimentação,
05:46não é quando inicia o quadrinho no Pará,
05:49mas é quando a gente começa a perceber
05:50que há uma movimentação mais intensa
05:52de quadrinhos em Belém, né?
05:53E aí tudo isso em decorrência de editais de artes,
05:56que foram lançados já na década de 80,
05:58que começou a movimentar a cena de quadrinhos,
06:00a gente começou a perceber
06:01que houve ali um crescimento de coletivos, né?
06:04A gente percebe que,
06:05para que alguns quadrinistas
06:06consigam ter destaque nacionalmente,
06:09eles precisam migrar para a região sudeste,
06:11eles precisam fazer outras conexões,
06:13até mesmo para produzir um quadrinho,
06:16publicar um quadrinho com uma qualidade gráfica, né?
06:19Então, eles têm que fazer essa ponte também.
06:21E aí, por isso que a gente percebe
06:23que há algumas dificuldades
06:25que esses quadrinistas têm
06:27de produzir quadrinhos aqui.
06:30Algumas coisas que eles apontam,
06:31que a gente percebe,
06:32é que não há editais de financiamento
06:35que contemplem fazer quadrinhos.
06:37Quando tem para a produção,
06:39eles acabam indo para outras áreas,
06:42eles têm que competir com as áreas de literatura,
06:45as áreas de artes visuais,
06:46de ilustrações,
06:47ou seja,
06:47que não contemplam
06:50as especificidades do quadrinho.
06:51O que é que falta
06:52para fazer essa cena,
06:53de fato, acontecer?
06:54O primeiro ponto também é o edital.
06:57A gente sabe que publicar um quadrinho
07:00requer e precisa de recursos, né?
07:02Então, assim,
07:03não é uma publicação tão simples de se fazer.
07:05Então, destinar um lugar específico
07:08para o quadrinho em editais de financiamento
07:11seria fundamental, né?
07:12Então, a gente também precisa
07:13de espaços adequados.
07:15Nós temos ali a Gibiteca,
07:18que é um espaço de exposição de quadrinhos.
07:20Nós temos ali alguns quadrinhos expostos,
07:23mas é preciso mais, né?
07:24Então, assim,
07:25que não seja uma necessidade
07:27apenas dos quadrinistas,
07:29mas que seja parte também do poder público
07:31em perceber que esses artistas
07:33estão produzindo, né?
07:34E abarcar esses produtores
07:36para promover exposições,
07:38promover oficinas, né?
07:40Estar à frente de planos
07:43que favoreçam os quadrinhos.

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