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  • há 20 horas
Trazido ao Brasil por africanos na condição de escravizados, o feijão-sopinha é símbolo de resistência, da lavoura à cozinha. Cultivado por povos tradicionais no litoral sul gaúcho, o alimento está no cardápio de um dos restaurantes mais premiados do Rio Grande do Sul, o Capincho.

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Transcrição
00:00Quem vê o prato na alta gastronomia talvez não saiba que da panela salta um caldo rico da história cultural
00:07e agrícola do Rio Grande do Sul.
00:13Trazido ao Brasil por africanos na condição de escravizados, o feijão sopinha é símbolo de resistência da lavoura à cozinha.
00:23O grão está no cardápio do restaurante Capincho, um dos mais premiados da culinária gaúcha.
00:30Quando a gente conheceu, quando a gente teve a oportunidade de conhecer a região de mostardas, a gente ficou muito
00:36encantado com a paisagem e a gente teve a oportunidade de conhecer os produtos dessa região.
00:41E um dos produtos que mais chama a atenção é o feijão sopinha, pela história que ele tem, de toda
00:50a história quilombola dessa região para nós, no Capincho,
00:54onde a gente faz todo esse trabalho de contar um pouco sobre o que é o Rio Grande do Sul.
01:00Faz muito sentido a gente trazer esse produto, que tem uma escala muito pequena, é um produto muito exclusivo, no
01:08sentido de...
01:08É uma produção muito pequena, né?
01:10Então é uma alegria para nós poder colocar no cardápio esse feijão sopinha e que, enfim, tem todo esse...
01:21Carrega toda essa resistência, né?
01:24Dos...
01:24Dos povos quilombolas, né?
01:27E...
01:28Para nós está sendo muito interessante poder estar conversando com produtores e conhecendo não só o feijão sopinha,
01:35mas também entendendo quais são outros produtos que eles mantêm, né?
01:39Porque fazem parte da sua história e da história do Rio Grande do Sul.
01:46Conta a história que, para chegar ao Brasil, a semente atravessou o oceano escondida de todas as formas,
01:53nos turbantes, nos cabelos ou costurado em patoás carregados pelas crianças.
02:02O feijão sopinha veio no cabelo das mulheres escravizadas e em amuletinhos com as crianças,
02:11porque esse feijão, ele seria uma certeza de que eles teriam alimento.
02:17Então, essa história, né?
02:20Apesar dela ter uma parte muito triste, ela tem algo muito significativo, né?
02:27Que é dessa reconstrução e do alimento sendo um potencial de vida, né?
02:34No prato que vai à mesa, a versão assinada combina o caldo do feijão sopinha com peixe, abobrinha e outros
02:42ingredientes especiais.
02:44A gente faz uma caldeirada com esse feijão.
02:47Então, ele é cozido num caldo base de colágeno.
02:51Entra presunto curatelo da Zampa Grigia, então é um caldo bem potente, né?
02:56Com bastante colágeno, então é uma base que esquenta bastante.
03:02Daí a gente serve ele com salicórnio e alecrim do mar, que são plantas alófitas, plantas que crescem em solo
03:08salgado, né?
03:08Crescem na beira da praia.
03:11Abobrinha e o peixe, o peixe grelhado.
03:13A gente tá usando o peixe namorado, que é um peixe que tem na região aqui sul.
03:18Então, foi isso, foi essa mistura da história da antiga receita com a do capincho e trazendo essa ideia também
03:29de um prato mais de inverno.
03:30Cada garfada tem o sabor da história e da regionalidade do Rio Grande do Sul.
03:36A primeira vez que eu usei esse feijão foi no meu antigo restaurante, no Barbieri, e isso já faz 10
03:42anos.
03:43E depois daquela única vez que eu consegui usar, eu nunca mais achei.
03:46Então, acho que tem um resgate também meu, da minha cozinha, de usar um ingrediente que representa a região sul
03:55do estado,
03:55que é uma região que às vezes não é tão lembrada.
03:58Acho que a gente tem a região da Serra, Porto Alegre, que são lugares que têm a história gastronômica muito
04:07mais clara, muito mais falada.
04:10Então, também usar essa região, que também não é tão falada, usar essa história pra dentro do restaurante,
04:18acho que é a forma como a gente cozinha aqui no restaurante, é justamente tentar resgatar histórias através da comida.
04:24O cultivo do feijão sopinha no Rio Grande do Sul é feito atualmente pela Cooperativa dos Povos Tradicionais de Mostardas.
04:32Cerca de seis famílias ainda preservam o seu plantio no litoral gaúcho.
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