Pular para o playerIr para o conteúdo principal
  • há 6 horas
'Raiva enorme': colega comenta prisão de ator suspeito de estuprar criança em SP

Categoria

🗞
Notícias
Transcrição
00:00Eu demorei um tempo para conseguir falar sobre esse assunto.
00:05E não porque eu não soubesse o que pensar, muito pelo contrário,
00:09mas porque eu conhecia essa pessoa.
00:13Eu trabalhei com ela em três peças de teatro ao longo de quase 20 anos.
00:18Dividimos palco, camarim, festas, eventos.
00:21Não era um amigo íntimo, mas era alguém que dividiu a minha história,
00:26principalmente profissional, comigo.
00:27E quando a notícia veio, foi uma sensação estranha, quase como se fosse um luto.
00:33Mas depois eu entendi que não era um luto por uma pessoa,
00:36era o luto pela imagem que eu tinha dela.
00:39E logo depois veio a raiva, uma raiva enorme,
00:42porque não existe nenhuma justificativa para esse tipo de crime.
00:47E uma das perguntas que eu fiz para mim mesmo, muitas vezes foi
00:51você nunca percebeu nada?
00:52Minha resposta é não.
00:55E isso talvez seja uma das partes mais assustadoras dessa história toda.
01:00A gente cresce imaginando que esse tipo de pessoa tem uma aparência específica,
01:04um jeito específico, um comportamento que denuncia como ela é.
01:09Mas nem sempre é assim.
01:10A maioria das vezes não é assim.
01:12E é importante a gente ter isso em mente.
01:15A aparência de normalidade não é garantia de caráter.
01:18E isso me fez pensar muito sobre ele, sobre a minha trajetória com ele,
01:23e muito mais sobre nós, sobre como nós, homens, somos educados.
01:28Eu cresci ouvindo um monte de ideias sobre o que significa ser homem.
01:33Que o homem não chora, que o homem resolve tudo na base da força,
01:37que o homem precisa dominar, que o homem não pode demonstrar fragilidade.
01:41E tantas outras coisas.
01:42Eu passei anos tentando me desprender disso.
01:46Lendo sobre feminismo, ouvindo mulheres, assistindo documentários,
01:53estudando masculinidades, buscando informações que pudessem chacoalhar as minhas certezas.
01:59Eu percebi que todos nós somos educados dentro de uma cultura que muitas vezes
02:06associa a masculinidade ao poder, ao controle e à superioridade.
02:12E isso precisa mudar.
02:14Eu acho importante dizer uma coisa tentando ser muito claro.
02:17Ser machista não transforma alguém automaticamente em um criminoso.
02:22Pelo menos não neste tipo de crime.
02:25Já que a gente caminha para uma sociedade em que eu espero que de fato
02:27o comportamento machista seja criminalizado de alguma forma.
02:31Mas é uma sociedade que naturaliza a dominação,
02:35que ridiculariza a sensibilidade masculina
02:37e que ensina meninos a confundir força com poder.
02:41E cria um ambiente onde diferentes formas de violência passam a ser toleradas.
02:46E é justamente por isso que a gente precisa sempre falar sobre essa questão da masculinidade.
02:50Não para acusar todos os homens, né?
02:53Mas não esquecendo também da frase de nem todo homem, mas quase sempre um homem.
02:58Mas eu volto a afirmar, a imensa maioria dos homens talvez nunca cometa esse tipo de crime.
03:04Mas é também verdade que a maioria esmagadora das pessoas que cometem esse tipo de crime são homens.
03:10E isso, mais uma vez, não significa que o problema seja ser homem.
03:14Mas que tipo de homem nós estamos sendo?
03:17Isso significa que a gente precisa olhar com coragem para a forma que nós estamos educando
03:22nossos filhos, nossos meninos.
03:24E olhar para esse modelo de masculinidade que a gente continua reproduzindo.
03:28E a gente também sabe por inúmeras pesquisas
03:31que no Brasil e no mundo a imensa maioria desse tipo de crime
03:34é cometido por pessoas próximas da vítima, não por desconhecidos.
03:38E é justamente por isso que esses casos chocam tanto, né?
03:41Eles desmontam essa sensação de que o perigo tem facilmente um rosto reconhecido.
03:46Bom, e no fim, esse caso não fez me perder só confiança em nenhuma pessoa.
03:51Ele serviu para me lembrar, mais uma vez, da responsabilidade que todos nós temos
03:55enquanto pais, enquanto educadores, enquanto amigos e principalmente enquanto homens.
04:02E a pergunta é, não é o que a gente faz para identificar um criminoso como esse.
04:08A pergunta é, que tipo de homens nós estamos nos tornando?
04:12Porque eu sonho com uma geração de meninos que virem homens que não precisem provar
04:16que são homens diminuindo, violentando, dominando ninguém.
04:21E se essa tragédia servir para alguma coisa, que sirva para isso.
04:25Que ela nos obrigue a educar homens melhores do que nós fomos educados para ser.
04:30É isso.
04:31Me senti na obrigação de falar, porque ao invés de esconder esse meu passado com ele,
04:35eu prefiro revelar e compartilhar com vocês essa raiva, essa tristeza e que ele seja punido
04:42com o maior rigor possível da lei, para que sirva de exemplo, para que a gente escute
04:47sempre as vítimas e para que a gente lute para acabar com esse tipo de comportamento.
04:51É isso.
Comentários

Recomendado