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  • há 23 horas
Cerca de dois terços da população adulta do mundo não consegue digerir leite sem sentir algum desconforto. Isso significa que a intolerância à lactose não é a exceção — ela é a regra biológica da nossa espécie. O que parece um problema de saúde é, na verdade, o estado natural do corpo humano adulto. A lactose é o açúcar presente no leite. Para digeri-la, o organismo precisa de uma enzima chamada lactase, produzida nas paredes do intestino delgado. Essa enzima quebra a lactose em dois açúcares menores, a glicose e a galactose, que então são absorvidos pela corrente sanguínea sem causar nenhum problema. Quase todos os mamíferos produzem lactase abundantemente quando filhotes, porque dependem do leite materno para sobreviver. Após o desmame, o gene responsável pela produção da enzima é gradualmente desativado. Do ponto de vista evolutivo, continuar gastando energia para produzir lactase sem ter acesso ao leite simplesmente não fazia sentido. Há cerca de dez mil anos, populações que domesticaram gado no Oriente Médio e na Europa desenvolveram uma mutação genética que mantinha a lactase ativa na vida adulta. Quem tinha essa mutação conseguia aproveitar o leite como fonte de calorias e sobreviveu melhor. A seleção natural fez o resto, espalhando essa característica por gerações. Quem não produz lactase suficiente tem a lactose fermentada por bactérias no intestino grosso. Esse processo libera gases e atrai água para o intestino, causando inchaço, cólicas e diarreia. A intensidade dos sintomas varia conforme a quantidade consumida, o tipo de laticínio e a composição da microbiota intestinal de cada pessoa. Pesquisadores estão desenvolvendo suplementos de lactase mais eficientes, laticínios com a enzima já incorporada e até terapias que modificam as bactérias intestinais para digerir a lactose naturalmente. A ciência caminha para um futuro em que a biologia individual vai determinar cada vez mais o que colocamos no prato.
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