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00:00Acesso liberado.
00:10A principal busca do jornalismo é o bem comum.
00:14Não é, meninas?
00:15A proteção da democracia, a proteção das pessoas,
00:19fazer com que a justiça se dê para todos.
00:22Justiça para poucos não é justiça.
00:27Eu sempre defendo que o jornalismo não é protagonista.
00:32O jornalista ilumina o palco onde as coisas estão acontecendo.
00:42Que bonito.
00:45Este painel te traz muitas memórias?
00:48Muitas.
00:49Muitas, muitas.
01:02Meu nome é Ávido Schäcker, tenho 46 anos de Gazeta
01:05e essa é a minha história.
01:07Isso é 1979.
01:09Eu estava lá na redação,
01:11eu ainda não tinha sido efetivado como repórter de vídeo.
01:16E o Zé Maria Batista, que era o diretor lá, o chefe de reportagem,
01:20ele falou, você vai lá na despotia ferroviária cobrir o treino.
01:23É o troço mais fácil que tem, você vai lá e faz isso.
01:26Essa foi a primeira matéria, com o cinegrafista Antônio Moreira.
01:30Eu estava naquele dia com uma camisa de manga comprida,
01:33a camisa era até bonita,
01:35listras branca, azul, claro e azul escuro.
01:38Fiz a passagem segurando o microfone com as duas mãos.
01:43À noite eu liguei para a Terezinha, minha namorada,
01:45e falei, ó, fiz a primeira reportagem, vai sair hoje.
01:48Morava em Vila Velha, pegava o ônibus para ir para a casa de Terezinha.
01:52Eu falei, vou perder a matéria, vou perder a matéria.
01:54Eu pedi para parar o ônibus, desci onde eu vi uma loja com televisão.
01:58Quando entrou, eu falei, Deus me livre, que coisa horrorosa.
02:02Porque as câmaras eram em preto e branco.
02:05A camisa virou uma camisa de manga comprida,
02:08parecia camisa de presidiário.
02:09Eu falei, ah, eles vão me demitir amanhã mesmo.
02:12Não me demitiram.
02:14E eu fui continuando a fazer outras reportagens.
02:17Vitória é uma cidade onde os bairros sofrem com problemas de infraestrutura.
02:20Desta vez é o bairro de Santa Cecília.
02:22Uma outra atração em Meiaíbe são as Rendeiras.
02:25A presidente da Comissão Executiva Nacional das Assistentes Sociais
02:29veio ao Espírito Santo para falar sobre a organização da categoria.
02:33Passou um ano, eu creio, já me colocaram para editar alguma coisa
02:37e continuar a fazer reportagem.
02:38Cari Lindenberg, que eu só chamo de doutor Carlos,
02:41ele falou, nós estamos com muito calhau.
02:43Calhau é o comercial não vendido.
02:45Eu acho melhor a gente fazer jornalismo.
02:48Junta todos os calhau.
02:51Aí dava três minutos de calhau entre o Jornal Nacional e o Jornal da Globo.
02:56Aí elaboramos um jornal, por sugestão dele.
02:59Esse jornal entrava às dez da noite.
03:01E eu editei e apresentei esse jornal.
03:03Em 1982, final de 82, falaram, vai ter bom dia, Espírito Santo.
03:12Bira, que era o nosso chefe de operações e programação da época,
03:17ah, você vai fazer esse bom dia.
03:18Eu falei, de jeito nenhum, vou fazer bom dia.
03:21Alguém vai levantar às sete horas da manhã para ver jornal?
03:23Eu tinha vinte e poucos anos, vinte e seis anos.
03:27Aí ele chega para mim um dia, ó, falei com um tal de Cariê.
03:30E ele disse que é você que vai fazer.
03:31Você não gosta de jornal grande?
03:33Aí eu falei, então me dá um tempo para eu ver como é que é esse negócio.
03:36Aí eu vou fazer bom dia.
03:38Mas com uma condição.
03:40Mas eu quero Marisa Sampaio, de editora comigo.
03:54E são muitas histórias, muitas, muitas histórias.
03:58O debate foi muito interessante, porque eu era muito jovem.
04:01Eu tinha vinte e seis anos.
04:03E Vladimir Godoy, que era o chefe do jornalismo, ele, hábito, nós vamos fazer esse debate.
04:09E ele me bancou, porque eu era muito garoto.
04:12O nome aventado para fazer o debate eram de colegas repórteres de política do jornal.
04:18E Vladimir me bancou, não, quem vai fazer o debate é hábito.
04:21Eu falei, então tá bom, agora como é que é isso, né?
04:23Eu tinha a habilidade de fazer entrevista, mas eu não tinha nada a ver com o debate.
04:30Eu tinha vinte e seis anos.
04:32O primeiro debate pós-ditadura militar.
04:35Quando os assessores dos candidatos foram chegando, todos, o dobro da minha idade,
04:42eu comecei a ter um medo, uma tremedeira.
04:45Falei, meu Deus, onde é que eu fui?
04:46Para que eu fui aceitar esse negócio?
04:49Não devia ter aceitado isso nunca.
04:54Mas fiz o primeiro debate.
04:56Bem, a próxima pergunta é para o candidato do PMDB, Gerson Camata,
05:00e vem do servidor aposentado, Francisco Carneiro.
05:03Teve com o Zé Inácio também, em uma entrevista, eu recebi de uma fonte,
05:07que até hoje ninguém sabe quem é, ele me chama na casa dele, num domingo.
05:11Abdel tem um material impressionante aqui, do governo do Zé Inácio.
05:15Eu pego aquele calhamaço, era um negócio grosso, um monte de papel, e vou estudar aquilo.
05:19Ele já me apontou os pontos principais.
05:22Agora, isso precisa de uma investigação.
05:24Então, tá bom, eu trouxe isso para casa e eu chamei alguns colegas para olharem aquilo e investigar.
05:31Tem dinheiro para lá, dinheiro para cá.
05:33E todas as investigações paravam no sigilo bancário.
05:36Aí, o deputado Ferraço, que tinha a imunidade parlamentar, numa sexta-feira, faz a denúncia.
05:44E nós ligamos para o governo.
05:46Olha, quem é que vai falar pelo governo?
05:48Não, ninguém vai falar, vai falar, não vai falar.
05:50Até que, olha, o deputado Zé Tasso era o chefe da Casa Civil, ele vai falar pelo governo.
05:56E estávamos ali prontos para a entrevista, sentado, eu ia começar a entrevista com o Zé Tasso logo depois.
06:02Abre a porta do estúdio e entra o governador, Zé Inácio, que não viria.
06:06Eu vim para dar a entrevista.
06:07Pode?
06:08Eu falei, lógico que pode, né?
06:09Mas como eu tinha lido aquilo muito bem, eu fui fazendo a entrevista.
06:13E ele foi perdendo a calma e começou a falar coisas inimagináveis, né?
06:19Eu estou sofrendo um linchamento.
06:21Não, governador.
06:22Agora a opinião pública vai saber disso.
06:24Eu não vou cair de joelho perante a Gazeta, não.
06:27Eu sou altivo demais, eu represento bem o povo do Espírito Santo, sou digno e não aceito esse linchamento que
06:35vocês têm feito comigo.
06:36Até porque...
06:36Não, não, governador, não.
06:38Eu não esperava isso de um jornal que, desde a primeira semana do meu governo, venha atazanando a minha vida.
06:45O que é isso?
06:46De onde vocês querem chegar?
06:48A que ponto vocês querem chegar?
06:50Querem destruir o Espírito Santo?
06:52Chega disso!
06:53Ou vocês prossigam assumindo uma posição de facção?
06:57Só gostaria de falar aqui como jornalista e diretor de jornalismo da TV Gazeta,
07:00que nós não temos lado, nós não temos facção.
07:02Eu espero.
07:03E nós ouvimos sempre os dois lados.
07:04A gente era muito ativo, sabe?
07:06Era muito interessante, era um jornalismo de muita cobrança.
07:09A primeira denúncia que chegou contra grátis, documentada, chegou para mim.
07:13Um juiz manda um emissário me telefonar.
07:17Tem uma denúncia, um documento contra grátis.
07:20Passa em tal lugar que eu vou te entregar a denúncia.
07:22Peguei a denúncia e levei num advogado.
07:25E falei, e aqui, tem fundamento?
07:27O advogado leu e falou assim, tem muito fundamento.
07:31Mas não publica agora.
07:32Mas por que que não agora?
07:35Porque isso aqui está numa instância do Tribunal de Justiça.
07:40Que se você publicar agora, eles vão saber quem é a sua fonte.
07:44Eu falei, então como é que eu faço?
07:46Me espera.
07:47Quando isso aqui subir de andar, eu te telefono.
07:51Espere aí, um dia ele me falou, ó.
07:53Pode mandar ver.
07:54Pode soltar a denúncia, porque agora tem muita gente que sabe dela dentro do tribunal.
07:59O papel da Gazeta foi não ter medo.
08:02Nós éramos uma voz muito forte, forte para mostrar as denúncias que vinham.
08:09Os documentos que tinham de Ministério Público Estadual, Ministério Público Federal.
08:13Nós éramos muito importantes nesse combate ao crime organizado.
08:18Eu nunca senti medo.
08:19Mas minha mãe sentia.
08:20Um dia acontece de eu receber um papel lá na minha mesa.
08:24O papel estava escrito.
08:26Chega, você vai terminar como Maria Nilce.
08:29Maria Nilce tinha sido assassinada.
08:31Isso foi numa época que Caco Barcelos veio para cá fazer reportagens pelo crime organizado para a Globo.
08:37Aí eu brinquei, eu olhei aquilo e achei engraçado, né?
08:40Falei, olha só o que eu recebi.
08:42Ele falou assim, não acho engraçado não.
08:44Pode ser uma brincadeira, mas pode não ser.
08:46Leva para o secretário de segurança.
08:47Aí um dia eu mostrei para o secretário de segurança.
08:49Ele falou assim, olha, não creio que ninguém vai fazer nada contra você.
08:52Toma só cuidado na hora de atravessar a rua.
08:55Falei, tá bom.
08:56Tá certo.
08:57Teve a morte do juiz Alexandre.
09:00Anunciar aquela morte foi muito difícil.
09:03Gente corajosa, sabe?
09:04Gente destemida que ia contra.
09:07Ah, se você tem essa construção hoje que nós temos no Espírito Santo, deve-se muito a essas pessoas.
09:12Muito.
09:13Nosso trabalho foi de iluminar, botar luz para essas pessoas.
09:17Eles foram protagonistas de um momento espetacular.
09:20Morte de Hamilton de Almeida.
09:21Foi muito difícil eu anunciar aquela morte.
09:24Ainda hoje eu me emociono.
09:26Hamilton era muito bom.
09:28Um ser humano muito bom.
09:31Era muito inteligente.
09:33Muito culto.
09:34Quando eu dei a notícia da morte de Hamilton foi duro.
09:37Foi muito difícil.
09:38Muito difícil.
09:39Me salvou numa seguinte situação.
09:41Estávamos aqui eu e Marisa esperando o governador Gerson Camata.
09:45Eram 7h10, 7h15.
09:47E o governador não chegava nisso.
09:49Eram 7h15, 7h20.
09:51Abre o portão.
09:52Uma coisa rara.
09:54Às 7h20 da manhã.
09:567h20 da manhã.
09:57Hamilton de Almeida entrando.
09:58Eu falei, Marisa, Hamilton.
10:00Ele está acabando de produzir o lugar de toda a pobreza.
10:03Vai começar a editar.
10:04Pega ele lá.
10:05Ele chega correndo assustado da redação.
10:07O que foi?
10:08Você vai na entrevista.
10:09Eu?
10:10Da entrevista?
10:11Vai.
10:11Ah, eu não consigo dar entrevista não.
10:13Consegue.
10:14Vamos embora.
10:14Porque não tem outro jeito.
10:15Então, botamos ele no estúdio.
10:16E ele deu a entrevista sobre o lugar de toda a pobreza.
10:21Fabuloso documentário que ele produziu.
10:23Então, eu...
10:24Quando eu dei a notícia da morte de Hamilton, foi duro.
10:28Foi muito difícil.
10:29Muito difícil.
10:30A outra morte foi a de Carier.
10:32Que essa foi...
10:34Eu vim para cá para dar um depoimento sobre ele.
10:38E...
10:55Muito difícil.
10:56Porque aí fui uma pessoa muito, muito forte, muito grande, muito majestoso, sabe?
11:03Ele era simples demais.
11:09E amava isso aqui.
11:10Estava sempre na redação com a gente.
11:13Então, eu vim falar sobre a morte dele.
11:15Ainda bem que eu não chorei aquele dia no estúdio.
11:18Mas é muito...
11:21Momentos...
11:21Sei lá.
11:22Marca uma vida da gente, né?
11:23Foi aprovado num teste para ser repórter da Gazeta.
11:28Esse período eu não conhecia o doutor Carlos.
11:31Eu não lidava com ele.
11:34Ele pouco ia na TV nessa época.
11:36Depois, quando apareceu o Bom Dia...
11:38De vez em quando ele vinha na redação, conversava, dava ideias.
11:42Foi assim que eu comecei a lidar com ele.
11:44E esse lidar foi de 1983 até o fim da vida dele.
11:49Os conselhos mais importantes dele...
11:51Eu disse, meu filho, você pode fazer o que você quiser, mas tem que ser certo.
11:54Você tem que fazer com correção.
11:56Não pode ter erro.
11:57E eu dialogava demais com ele.
11:59Principalmente depois que eu virei o chefe.
12:01Em 1987.
12:04Era comum.
12:05Mas o que ele ensinava para a gente era correção.
12:07Ele era um homem de um senso de justiça.
12:10E tinha muito bom senso.
12:12Eu chegava preocupado com uma coisa.
12:14E ele sempre era capaz de dar um conselho.
12:17Que iluminava para nós todo o caminho a seguir.
12:21Você perdia o medo quando eu estava com ele.
12:24Ele era muito bom.
12:25Muito bom.
12:26Ele adquiriu um conceito público de jornalista com bastante envergadura, com bastante seriedade.
12:35E principalmente com honestidade, Guilherme Paguliar.
12:37Parece que foi ontem.
12:40Minha mãe que me ajudou.
12:41Minha mãe que me dizia, você tem que ser sempre firme, honesto.
12:46Mas você nunca pode falar uma mentira.
12:48Nunca.
12:48Você não faz nada sozinho.
12:50O mais difícil na posição de um chefe é você fazer com justiça o noticiário que
12:56você tem que fazer.
12:57Fazer corretamente.
12:58Eu acho que no começo eu era muito duro, sabe?
13:01Eu era muito rigoroso com as pessoas.
13:03Mas você exagera às vezes na crítica aos colegas, né?
13:06Se eu pudesse fazer diferente, voltar no tempo, eu teria sido mais paciente, mais generoso,
13:13mais colaborador.
13:16Nem todo mundo tem as mesmas ferramentas que você tem, né?
13:20O jornalismo é uma pedra preciosa para as pessoas que precisam do jornalismo.
13:27O jornalismo é a água para quem tem sede.
13:31O jornalismo, ele é uma maneira de você dar voz a quem não tem voz.
13:37Então, o jornalismo é um sustentáculo da democracia.
13:40Por quê?
13:40Porque dá voz às pessoas.
13:41Não existe democracia sem povo.
13:44Mas se o povo não tem voz, que democracia é essa?
13:46Eu sou uma pessoa muito tranquila.
13:50Gosto muito de ler.
13:51Leio muito.
13:53Vejo bons filmes.
13:55Gosto muito de música clássica.
13:56Eu acho que a quinta sinfonia de Beethoven, que eu gosto muito, é a sinfonia do destino.
14:02E a sinfonia número nove do Beethoven também.
14:06Adoro.
14:07Essa fala muito do amor.
14:08Meu Deus, como é bom.
14:10Você olhar e sentir amor para as pessoas.
14:13Você querer para os seus colegas o que você quer para os seus netos.
14:18O que você ama.
14:20Quando eu vejo um colega meu brilhando, gente, aquilo vai uma realização.
14:25Eu sinto muito o amor.
14:26Eu acho que o amor é a condição que te leva para cima, para frente, para abraçar os outros.
14:33Eu acho barato.
14:40Eu acho que o amor está aqui.
14:43Eu acho que o amor é a condição que te levar para você.
14:45Eu acho que o amor é o amor.
15:01Eu acho que o amor é o amor.
15:31No fim, como diz o poeta,
15:35o amor que você tem é igual ao amor que você deu.
15:39Aplausos
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