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  • há 4 semanas
Após 46 anos dedicados ao jornalismo, Abdo se despede da Direção de Jornalismo da Rede Gazeta,

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Transcrição
00:00Acesso liberado.
00:10A principal busca do jornalismo é o bem comum.
00:14Não é, meninas?
00:15A proteção da democracia, a proteção das pessoas,
00:19fazer com que a justiça se dê para todos.
00:22Justiça para poucos não é justiça.
00:27Eu sempre defendo que o jornalismo não é protagonista.
00:32O jornalista ilumina o palco onde as coisas estão acontecendo.
00:42Que bonito.
00:45Este painel te traz muitas memórias?
00:48Muitas.
00:49Muitas, muitas.
01:02Meu nome é Ávido Schecker, tenho 46 anos de Gazeta e essa é a minha história.
01:07Isso é 1979.
01:09Eu estava lá na redação, eu ainda não tinha sido efetivado como repórter de vídeo.
01:16E o Zé Maria Batista, que era o diretor lá, o chefe de reportagem,
01:20ele falou, você vai lá na despotia ferroviária, cobri o treino.
01:23É o troço mais fácil que tem, você vai lá e faz isso.
01:26Essa foi a primeira matéria.
01:27Com o cinegrafista Antônio Moreira.
01:30Eu estava naquele dia com uma camisa de manga comprida,
01:34a camisa era até bonita,
01:35listas branca, azul, claro e azul escuro.
01:38Fiz a passagem segurando o microfone com as duas mãos.
01:43À noite eu liguei para a Terezinha, minha namorada,
01:45e falei, ó, fiz a primeira reportagem, vai sair hoje.
01:48Morava em Vila Velha, pegava o ônibus para ir para a casa de Terezinha.
01:52Eu falei, vou perder a matéria, vou perder a matéria.
01:54Eu pedi para parar o ônibus, desci onde eu vim, uma loja com televisão.
01:58Quando entrou, eu falei, Deus me livre, que coisa horrorosa.
02:02Porque as câmaras eram em preto e branco.
02:05A camisa virou uma camisa de manga comprida,
02:08parecia camisa de presidiário.
02:09Eu falei, ah, eles vão me demitir amanhã mesmo.
02:12Não me demitiram.
02:14E eu fui continuando a fazer outras reportagens.
02:17Vitória é uma cidade onde os bairros sofrem com problemas de infraestrutura.
02:20Desta vez é o bairro de Santa Cecília.
02:22Uma outra atração em Meiaíbe são as Rendeiras.
02:25A presidente da Comissão Executiva Nacional das Assistentes Sociais
02:29veio ao Espírito Santo para falar sobre a organização da categoria.
02:33Passou um ano, eu creio, já me colocaram para editar alguma coisa
02:37e continuar a fazer reportagem.
02:38Cari Lindenberg, que eu só chamo de doutor Carlos,
02:41ele falou, nós estamos com muito calhau.
02:43Calhau é o comercial não vendido.
02:45Eu acho melhor a gente fazer jornalismo.
02:48Junta todos os calhau.
02:51Aí dava três minutos de calhau entre o Jornal Nacional e o Jornal da Globo.
02:56Aí elaboramos um jornal, por sugestão dele.
02:59Esse jornal entrava às dez da noite.
03:01E eu editei e apresentei esse jornal.
03:03Em 1982, final de 82, falaram, vai ter bom dia, Espírito Santo.
03:12Bira, que era o nosso chefe de operações e programação da época,
03:17ah, você vai fazer esse bom dia.
03:18Eu falei, de jeito nenhum, vou fazer bom dia.
03:21Alguém vai levantar às sete horas da manhã para ver jornal?
03:23Eu tinha vinte e poucos anos, vinte e seis anos.
03:27Aí ele chega para mim um dia, ó, falei com um tal de Cariê.
03:30E ele disse que é você que vai fazer.
03:31Você não gosta de jornal grande?
03:33Aí eu falei, então me dá um tempo para eu ver como é que é esse negócio.
03:36Aí eu vou fazer bom dia.
03:38Mas com uma condição.
03:40Mas eu quero Marisa Sampaio, de editora comigo.
03:54E são muitas histórias, muitas, muitas histórias.
03:58Teve com o Zé Inácio também, em uma entrevista.
04:00Eu recebi de uma fonte, que até hoje ninguém sabe quem é.
04:03Ele me chama na casa dele, num domingo.
04:05Abdel tem um material impressionante aqui, do governo Zé Inácio.
04:10Eu pego aquele calhamaço, era um negócio grosso, um monte de papel.
04:13E vou estudar aquilo.
04:14Ele já me apontou os pontos principais.
04:16Agora, isso precisa de uma investigação.
04:19Então, tá bom.
04:20Eu trouxe isso para casa.
04:21E eu chamei alguns colegas para olharem aquilo e investigar o que tem.
04:26Dinheiro para lá, dinheiro para cá.
04:27E todas as investigações paravam no sigilo bancário.
04:31Aí o deputado Ferraço, que tinha a imunidade parlamentar, numa sexta-feira faz a denúncia.
04:39E nós ligamos para o governo.
04:40Olha, quem é que vai falar pelo governo?
04:42Não, ninguém vai falar.
04:44Vai falar, não vai falar.
04:44Olha, o deputado Zé Tasso, que era o chefe da Casa Civil, ele vai falar pelo governo.
04:51E estávamos ali prontos para a entrevista.
04:53Sentado, eu ia começar a entrevista com o Zé Tasso logo depois.
04:56Abre a porta do estúdio e entra o governador.
04:58Zé Inácio, que não viria.
05:01Eu vim para dar a entrevista.
05:02Pode?
05:02Eu falei, lógico que pode, né?
05:04Mas como eu tinha lido aquilo muito bem, eu fui fazendo a entrevista.
05:07E ele foi perdendo a calma e começou a falar coisas inimagináveis.
05:14Eu estou sofrendo um linchamento.
05:16Agora a opinião pública vai saber disso.
05:19Eu não vou cair de joelho perante a Gazeta, não.
05:22Eu sou altivo demais, eu represento bem o povo do Espírito Santo, sou digno e não aceito esse linchamento que
05:30vocês têm feito comigo.
05:31Não, não, governador, não.
05:33Eu não esperava isso de um jornal que, desde a primeira semana do meu governo, venha atazanando a minha vida.
05:40O que é isso?
05:41De onde vocês querem chegar?
05:43A que ponto vocês querem chegar?
05:45Querem destruir o Espírito Santo?
05:47Chega disso!
05:48Ou vocês prossigam assumindo uma posição de facção?
05:51Eu só gostaria de falar aqui como jornalista e diretor de jornalismo da TV Gazeta, que nós não temos lado,
05:56nós não temos facção.
05:57Eu espero.
05:57E nós ouvimos sempre os dois lados.
05:59A gente era muito ativo, sabe?
06:01Era muito interessante, era um jornalismo de muita cobrança.
06:04A primeira denúncia que chegou contra a Grátis, documentada, chegou para mim.
06:08Um juiz manda um emissário me telefonar.
06:12Tem uma denúncia, um documento contra a Grátis.
06:15Passa em tal lugar que eu vou te entregar a denúncia.
06:17Peguei a denúncia e levei no advogado.
06:20E falei, e aqui, tem fundamento?
06:22O advogado leu e falou assim, tem muito fundamento, mas não publica agora.
06:28Mas por que não agora?
06:30Porque isso aqui está numa instância do Tribunal de Justiça.
06:35Que se você publicar agora, eles vão saber quem é a sua fonte.
06:39Eu falei, então como é que eu faço?
06:41Me espera.
06:42Quando isso aqui subir de andar, eu te telefono.
06:46Espera aí, um dia ele me falou, ó.
06:47Pode mandar ver.
06:49Pode soltar a denúncia, porque agora tem muita gente que sabe dela dentro do tribunal.
06:54O papel da Gazeta foi não termido.
06:57Nós éramos uma voz muito forte para mostrar as denúncias que vinham.
07:03Os documentos que tinham de Ministério Público Estadual, Ministério Público Federal.
07:08Nós éramos muito importantes nesse combate ao crime organizado.
07:13Eu nunca senti medo, mas minha mãe sentia.
07:15Um dia acontece de eu receber um papel lá na minha mesa.
07:19O papel estava escrito, chega, você vai terminar como Maria Nilce.
07:24Maria Nilce tinha sido assassinada.
07:25Isso foi numa época que Caco Barcelos veio para cá fazer reportagens pelo crime organizado para a Globo.
07:31Aí eu brinquei, eu olhei aquilo e achei engraçado, né?
07:35Falei, olha só o que eu recebi.
07:37Ele falou assim, não acho engraçado não.
07:38Pode ser uma brincadeira, mas pode não ser.
07:41Leva para o secretário de segurança.
07:42Aí um dia eu mostrei para o secretário de segurança e ele falou assim, olha, não creio que ninguém vai
07:45fazer nada contra você.
07:47Toma só cuidado na hora de atravessar a rua.
07:49Eu falei, tá bom.
07:51Está certo.
07:51Teve a morte do juiz Alexandre.
07:54Anunciar aquela morte também foi muito difícil.
07:57É gente corajosa, sabe?
07:59Gente destemida que ia contra.
08:02Ah, se você tem essa construção hoje que nós temos no Espírito Santo, deve-se muito a essas pessoas.
08:07Muito.
08:08Nosso trabalho foi de iluminar, botar luz para essas pessoas.
08:12Eles foram protagonistas de um momento espetacular.
08:15A outra morte foi a de Carier.
08:17Que essa foi...
08:19Eu vim para cá para dar um depoimento sobre ele.
08:23Que é muito difícil.
08:29Carier foi uma pessoa muito, muito forte, muito grande, muito majestoso, sabe?
08:36Ele era simples demais.
08:41E amava isso aqui.
08:43Estava sempre na redação com a gente.
08:45Então eu vim falar sobre a morte dele.
08:48Ainda bem que eu não chorei aquele dia no estúdio.
08:50Mas é muito...
08:51Momentos muito importantes.
08:53Marca uma vida da gente, né?
08:55Os conselhos mais importantes dele.
08:57Eu disse, meu filho, você pode fazer o que você quiser, mas tem que ser certo.
09:00Você tem que fazer com correção.
09:01Não pode ter erro.
09:03E eu dialogava demais com ele.
09:05Principalmente depois que eu virei o chefe.
09:07Em 1987.
09:09Eu vou deixar a bancada aqui.
09:11Mas com esses preceitos, permaneço na direção de jornalismo da TV.
09:14A todos os colegas, telespectadores que me apoiaram, o meu mais profundo agradecimento, minha gratidão.
09:20E o jornalista Abdo Shecker se despede de uma história que começou em 10 de janeiro de 1983
09:27com seus seguidos Bom Dia, fazendo parte da vida de milhares de telespectadores.
09:33Bom dia.
09:34São 6 horas 31 minutos.
09:36Hoje, dia 7 de dezembro.
09:37Ele adquiriu um conceito público de jornalista com bastante envergadura, com bastante seriedade
09:46e, principalmente, com honestidade que deve peculiar.
09:49Minha mãe que me ajudou.
09:50Minha mãe que me dizia, você tem que ser sempre firme, honesto.
09:55Mas você nunca pode falar uma mentira.
09:57Nunca.
09:57Você não faz nada sozinho.
09:59O mais difícil na posição de um chefe é você fazer com justiça o noticiário que você tem que fazer.
10:06Fazer corretamente.
10:07Eu acho que no começo eu era muito duro, sabe?
10:10Eu era muito rigoroso com as pessoas.
10:12Mas você exagera às vezes na crítica aos colegas, né?
10:15Se eu pudesse fazer diferente, voltar no tempo, eu teria sido mais paciente, mais generoso, mais colaborador.
10:24Nem todo mundo tem as mesmas ferramentas que você tem, né?
10:29O jornalismo é uma pedra preciosa para as pessoas que precisam do jornalismo.
10:36O jornalismo é a água para quem tem sede.
10:41O jornalismo é uma maneira de você dar voz a quem não tem voz.
10:46O jornalismo é um sustentáculo da democracia.
10:49Por quê?
10:49Porque dá voz às pessoas.
10:51Não existe democracia sem povo.
10:53Mas se o povo não tem voz, que democracia é essa?
10:56Eu sou uma pessoa muito tranquila.
10:59Gosto muito de ler.
11:01Leio muito.
11:02Vejo bons filmes.
11:04Gosto muito de música clássica.
11:06Eu acho que a quinta sinfonia de Beethoven que eu gosto muito é a sinfonia do destino.
11:11E a sinfonia número nove do Beethoven também.
11:15Adoro.
11:16Essa fala muito do amor.
11:18Meu Deus, como é bom.
11:19Você olhar e sentir amor para as pessoas.
11:23Você querer para os seus colegas o que você quer para os seus netos.
11:28O que você ama.
11:30Quando eu vejo um colega meu brilhando, gente, aquilo vai uma realização.
11:34Eu sinto muito o amor.
11:35Eu acho que o amor é a condição que te leva para cima, para frente, para abraçar os outros.
11:42Eu acho maravilhoso.
11:44Eu acho que o amor é a condição que se leva.
12:41No fim, como diz o poeta,
12:44o amor que você tem é igual ao amor que você deu.
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