00:01Meu nome é Gisele, tenho 49 anos. Desses 49 anos, 26 são dedicados à Boa Vista.
00:07Hoje eu trabalho com as vendas da fantasia e fazendo uma aula em casa.
00:12Meu primeiro contato com a escola, indiretamente, eu via as pessoas desfilando,
00:18chegando em casa de madrugada, com as roupas, e nunca me empolguei.
00:22Só que aos 23 anos eu resolvi desfilar. E nasceu o grande amor, né?
00:28De lá pra cá eu não parei. Desfilei em aula, depois puxei uma aula na avenida
00:34e fui convidada a trabalhar na diretoria da escola.
00:38Como a escola é a comunidade, eu comecei a trabalhar com um amigo meu,
00:42ele pegava as fantasias e a gente confeccionava.
00:45Até que eu fui convidada pelo presidente a tomar conta do barracão de fantasia.
00:50Além de eu pegar uma aula pra fazer, eu trabalhava dentro do barracão,
00:53despachava o material, conferia a matéria e as vendas da escola.
00:58E eu trabalhava na quadra também, eu trabalhava na bilheteria da quadra pra ajudar, né?
01:03E lá eu conheci meu esposo.
01:05Oito anos de casada eu tenho hoje, e ele também passou a me ajudar,
01:09passou a se apaixonar pela Boa Vista.
01:11E hoje a gente trabalha junto.
01:13Teve um ano, que foi 2018,
01:17eu passei por muitas tribulações.
01:20Eu...
01:20Ai, eu vou chorar.
01:27Eu trabalhava aqui,
01:29e eu tinha um pai,
01:31que não era doente,
01:32se me deu a cama.
01:34E eu tinha que subir pra dar o gosto ao meu pai.
01:38E em 2018 eu engravidei.
01:40Eu tava com cinco meses, ele faleceu.
01:44E faleceu, e...
01:47E eu tinha que vir trabalhar no barracão.
01:49E eu vim com as pernas muito cansadas,
01:51as pessoas me ajudaram muito.
01:54E o meu médico falou que não era pra me desfilar, né?
01:56Tava já com certinho de dilatação,
01:58e não podia desfilar.
01:59Só que eu fugi.
02:00Eu fugi e desfilei,
02:02e só me viram,
02:03minha família só me viu quando tava na avenida.
02:05Mas foi muito gratificante,
02:06que a gente foi campeão,
02:07meu filho Santiago, ele nasceu campeão, né?
02:09Aí eu ganhei o neném na segunda-feira de carnaval.
02:13Depois do nascimento do meu filho,
02:14minha vida ficou um pouco limitada.
02:16Minha mãe também adoeceu,
02:17e eu não pude me dedicar.
02:19Mas aqui é o barracão.
02:22Aí nós achamos melhor
02:24eu ficar só nas vendas.
02:25Aí hoje eu só vendo as fantasias,
02:27o emprego, né?
02:28E ainda pego uma ala pra confeccionar.
02:32Na minha casa é uma bagunça.
02:34Na época de carnaval é uma bagunça, né?
02:35Porque eu e meu esposo, a gente tem que cortar matéria-prima,
02:39a gente tem que montar as fantasias.
02:41Então, eu e ele, né?
02:43Às vezes, vem meus irmãos, ajudam a cortar.
02:46Todo mundo se envolve, acaba se envolvendo.
02:48A gente leva isso tudo, é...
02:50Muita alegria.
02:51Você vê seu trabalho na avenida, feito.
02:54Aquele material que você entregou pra pessoa costurar.
02:57Nós que estamos de fora,
02:58que a gente trabalhou pra que ele tá pronto,
03:00é muito gratificante.
03:01Eu tenho uma tatuagem de representação do carnaval, né?
03:05Que pra mim é minha paixão.
03:06É um amor que a gente não sabe explicar.
03:13Às vezes a gente tem muitos desafios por trás.
03:16Às vezes é falta de dinheiro
03:18pra comprar o material pra poder terminar uma ala.
03:21Às vezes é...
03:22Várias coisas dão errado.
03:24Você compra uma matéria-prima,
03:25mas não consegue comprar igual
03:27pra poder acabar de confeccionar aquilo
03:29que você tinha começado a fazer.
03:32Eu quero estar envolvida até onde eu conseguir.
03:35Seja nas vendas,
03:36que seja pra ajudar a fazer uma ala.
03:39E eu espero que o futuro seja da comunidade,
03:42que as pessoas da comunidade,
03:43elas se invistam mais em ajudar,
03:47em estar participando.
03:49Nos olhos da Águia Alcaneira,
03:52registra o seu sorriso para a carreira.
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