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  • há 5 semanas
Diretor e elenco de Grande Sertão revelam detalhes dos bastidores

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Transcrição
00:00Onde que surgiu essa ideia de transformar uma história escrita há quase 70 anos
00:04em uma história de guerra ao tráfico, em cenário futurístico e de favela?
00:09O Jorge Portado e eu, que escrevemos o roteiro, a gente se deu conta,
00:16a gente já era amante do nosso livro preferido,
00:20O Grande Sertão Veredas, do Guimarães Rosa, né?
00:23E sempre sonhava em adaptá-lo sem saber muito para onde.
00:26E a gente, paralelamente a isso, a gente achava que um assunto que poderia ser abordado
00:34de um outro ponto de vista era a guerra urbana no Brasil,
00:36que é um assunto, sei lá, um dos três assuntos mais importantes do Brasil hoje em dia.
00:40E a gente tinha muita dificuldade, porque já existe todo um gênero, né?
00:45Que chama-se o favela movie, né?
00:48Tem muitas séries hoje em dia, né?
00:50Sobre essa questão e tal.
00:52Mas a gente achava que tinha que achar um ponto de vista novo,
00:57tinha que ver os dois lados, tinha que ver o bandido e a polícia,
01:00tinha que achar algo.
01:01E a gente tinha muita dificuldade de analisar,
01:04porque não é claro hoje, no Brasil hoje.
01:08Os políticos não têm uma visão clara, os sociólogos têm uma visão parcial.
01:12Então isso os artistas ficam muito perdidos como abordar.
01:15E o Guimarães, que trata no livro dele sobre uma guerra de jagunços,
01:20cangaceiros, contra a polícia, há mais de 100 anos atrás,
01:23ele conseguiu dar essa visão múltipla.
01:26Ela é vista pelo lado dos bandidos, é vista pelo lado da polícia.
01:29Ela é vista de um ponto de vista humano, não sociológico,
01:33não jornalístico, como é visto a guerra urbana hoje.
01:37A gente achou que isso seria...
01:40Essa visão caberia, cabe perfeitamente na guerra.
01:44Então a gente poderia tratar de um assunto atual,
01:47de uma maneira original, através da visão de Guimarães,
01:52da visão dramatúrgica, da história e da visão poética que ele dá.
01:58Legal. E como que foi o processo de adaptação do roteiro
02:02para que permanecesse essa linguagem poética?
02:04A primeira ideia foi trazer para os dias de hoje.
02:08Imediatamente a gente decidiu não mexer na prosódia de Guimarães.
02:12E aí, porque é mais da metade da potência do livro,
02:18é a poesia das falas de Guimarães, da narração de Guimarães.
02:22Então, a partir daí, a gente achou que tinha que crescer tudo no tamanho.
02:27Então a gente imaginou que isso não caberia numa comunidade realista,
02:32numa favela realista.
02:33Então a gente imaginou que se essa guerra continuar daqui a muitos anos,
02:37continuar muitos anos, as ruas estarão em ruínas,
02:40o Estado teria cercado essa comunidade por um muro gigante,
02:45já não haveria mais espaço para construir,
02:48porque o muro impediria de sair dali.
02:50Então as casas começam a crescer para cima,
02:52começam a virar em vários andares.
02:59As obras que tinham sido começadas,
03:02viadutos ficam incompletos,
03:04o metrô nunca termina.
03:06Então dentro daí,
03:08aí tudo fica meio grande,
03:10tudo fica meio superlativo,
03:13e aí cabe essa poesia do Guimarães.
03:15Caio, como que foi essa preparação do personagem?
03:19Porque você interpretou o mesmo personagem em duas épocas diferentes, né?
03:24Dois períodos da vida diferentes.
03:26Então como que foi essa preparação para esses dois personagens, em um só?
03:30É, isso é muito legal, essas duas camadas, né?
03:32Você tem o Reobaldo jovem,
03:34vivendo a guerra,
03:36sendo tomado pela guerra,
03:38a vida dele é totalmente transformada pela guerra.
03:42Chega um momento que ele encontra com essa figura,
03:44que é Diadurim,
03:45que é esse bandido que ele conhecia desde criança,
03:48e pelo qual o Reobaldo fica completamente fascinado,
03:51completamente apaixonado,
03:52e ele precisa ajudar Diadurim a sair de uma enrascada,
03:57e nesse momento o Reobaldo vai embora com Diadurim,
04:00porque ele não pode mais voltar para a vida dele anterior, né?
04:02Então a frase do Guimarães muito bonita,
04:04que é,
04:05será que existe um ponto certo dele,
04:07a gente não podendo mais voltar atrás, né?
04:10A partir do momento que o Reobaldo encontra com Diadurim,
04:12ajuda ele a escapar de uma emboscada policial,
04:15e o Reobaldo não pode mais voltar para a sua vida anterior.
04:18Aí a vida dele se torna a tentar solucionar e viver essa guerra do sertão,
04:22que é essa guerra conflagração do Brasil,
04:25essa guerra interminável,
04:26essa disputa de territórios,
04:28essa tentativa de ocupar lugares precários onde o Estado não chega,
04:32onde a educação não chega, né?
04:34Lembrando que Reobaldo era um professor de crianças,
04:36que teve seus alunos metidos em meio de tiroteios,
04:40bala perdida.
04:41Então no meio dessa precariedade do Brasil,
04:44dessa pobreza,
04:47de repente surge um amor incontornável,
04:51um amor arrebatador,
04:52e Reobaldo passa a viver o amor dentro da guerra, né?
04:56E é muito lindo porque o Reobaldo carrega isso durante muitas décadas, né?
05:00Ele é como se fosse um contador dessa história do sertão.
05:03Ele é como se ele carregasse todos os personagens,
05:05todas as dores e todos os amores dessa guerra dentro dele, né?
05:09Então ele se torna esse poeta,
05:10ele se torna esse profeta,
05:12esse cara que durante décadas sofre,
05:15sente todas as dores e carrega com ele essa história, né?
05:18Então é muito bonito ver o Reobaldo jovem,
05:20depois ver o Reobaldo maduro voltando nesse lugar, né?
05:24O filme começa com o Reobaldo voltando nesse lugar
05:26e relembrando de tudo que ele viveu ali,
05:28de toda essa guerra, de todos esses personagens.
05:30Eu queria saber de vocês, né?
05:33Se vocês acreditam que foram os personagens mais complexos da carreira de vocês,
05:37e por quê, né?
05:38Se cada um puder me responder.
05:41Pra mim, com certeza foi,
05:44porque, primeiro, eu sou ator de teatro,
05:47então não foi complicado fazer algo com uma linguagem mais teatral,
05:52pra mim.
05:53Mas teve uma coisa que era muito engraçada,
05:57de tensa,
05:59que é na direção do Guel,
06:00que ele chegava e falava assim,
06:01eu quero que vocês façam como se estivesse fazendo pro Maracanã.
06:06Foi um desafio, mas foi um grande barato,
06:08de conseguir chegar nesse lugar,
06:10de fazer uma coisa cinematográfica, né?
06:13Com calma,
06:14mas ao mesmo tempo dessa forma,
06:17essa ópera, assim.
06:19E o Guel tem uma coisa muito específica,
06:21que como o Guel é um cara que ele já vai editando na cabeça dele um filme que ele tem,
06:27ele vai propondo umas coisas que aparentemente parecem esdrúxula e louca,
06:31mas que tá na cabeça dele,
06:33e que a gente tem que comprar,
06:34porque se você não compra também,
06:36você tá fora da proposta do que é ser dirigido por um cara como o Guel, né?
06:40Então eu acho que isso que os tablets falam é bem desafiador, sim.
06:44Eu acho que, eu sempre acredito que o personagem mais louco
06:49é aquele que ainda está por vir,
06:51porque a gente nunca sabe o dia de amanhã.
06:52Mas nesse momento da carreira agora,
06:55fazer um personagem como esse,
06:56por ser Guimarães, né?
06:58Um personagem que foi lá,
07:00enfim, é uma construção épica de personagens,
07:04que talvez a gente nem faça mais,
07:05porque o cinema tá mudando tanto, né?
07:07A gente não tem mais a possibilidade de ficar
07:10traduzindo essas grandes obras cinematograficamente,
07:11porque é difícil a gente conseguir,
07:14inclusive financiamento pra poder fazer isso, né?
07:18Hoje a coisa é muito mais fast food.
07:20Então fazer isso, nessa possibilidade, em 2024,
07:25e contar uma obra de Guimarães Rosa,
07:27ou Guimarães, por esse olhar moderno do Guel,
07:31e com esses personagens tão complexos,
07:33é por si só já um desafio bem inquietador,
07:37que eu acho que vai ficar marcado pra mim,
07:39e com essa galera toda.
07:41Primeiro entender, esmiuçar a obra,
07:43não é só pra você entender,
07:45é como é que eu vou passar pra que o espectador entenda?
07:48Como é que a gente vai deixar isso de uma maneira,
07:52sem mudar nada,
07:54deixar ele popular?
07:55Então a gente tem que ir pelo entendimento,
07:57pra que a coisa flua de uma maneira natural.
08:02E aí você entende a obra de Guimarães,
08:04que é uma obra sobre o tempo,
08:06sobre o som do silêncio,
08:07e sobre aquele vazio existencial.
08:13E aí pega e põe na mão de um diretor que é rock'n'roll pra caramba.
08:17Brasileiraço.
08:19Brasileiraço, trazendo aquele calor,
08:21aquela temperatura,
08:22aquele suor no set,
08:24e sem microfone,
08:26porque a gente gravou sem som direto.
08:29Então a gente botou tudo que tinha,
08:32e depois teve que se dublar,
08:33depois de um ano.
08:35Então essas dificuldades impostas no processo,
08:39eu acho que foram extremamente enriquecedoras pro filme.
08:44Ah, ah, ah, ah, ah, ah, ah, ah, ah, ah, ah, ah, ah, ah, ah, ah, ah, ah, ah, ah,
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