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  • há 5 semanas

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Transcrição
00:00Nós estávamos mandando todos para o hospital, mesmo que já tivesse uma aparência de óbito,
00:04a gente estava mandando para o hospital, para não cometer uma falha de avaliação.
00:09Mas foram muitas pessoas que foram salvas, muitas.
00:14Mas, infelizmente, também foram muitos óbitos.
00:16Tanto que a Polícia Civil teve que pedir um apoio a algumas funerárias,
00:23porque eles não tinham viatura suficiente para transporte dos óbitos.
00:29Foi muito doído, muito dolorido ver essas pessoas, nessa condição, essas pessoas, os seus corpos.
00:42Olha, escuridão total.
00:45Algumas pedras que rolavam que eu tive ainda aqui, em desviar dela.
00:52E as pedras que continuavam rolando, que foi a primeira vítima em cima,
00:57as pedras que continuavam rolando e os gritos das pessoas.
01:03Eu tive uma luta muito grande para abafar esse som da minha cabeça,
01:08porque era algo extremamente perturbador.
01:14As pessoas gritando, gritando, e o barulho das pedras descendo.
01:19Eu vi tudo.
01:19Eu não tive, eu não fiquei inconsciente em momento algum.
01:25Então, é...
01:28Eu consegui, de alguma forma, bloquear esse barulho, né?
01:31Esses gritos, esse...
01:34Da minha cabeça, e...
01:40Eu perdi os meus pais.
01:43O meu pai, a minha mãe e os meus três irmãos.
01:47E isso é uma dor, né?
01:49Que a gente não consegue apagar do nosso peito, do nosso coração,
01:54porque foi uma perda muito grande.
01:59Eu fico pensando assim, tudo Deus escreve certo.
02:03Não tem, né?
02:05Eu acho que ele tem um propósito comigo muito grande, né?
02:10E eu sempre levo esse propósito à frente de sempre ajudar o meu próximo,
02:15de fazer aquilo que eu posso, né?
02:21E naquele momento ali foi de angústia e também tristeza.
02:27Que você ficava assim, como é que eu vou fazer?
02:31Será que eu fotografo?
02:32Aí você fica assim, automaticamente, né?
02:35Até você pegar e entrar naquele ritmo dali
02:40e ver o propósito seu que você está naquele momento
02:45foi duro pra caramba pra gente.
02:50Nós todos fomos chamados, fomos chamados pra participar.
02:54Foi um evento totalmente adverso.
02:58O bombeiro não tinha esse preparo que tem hoje,
03:01nem os equipamentos que tem hoje,
03:03nem a tecnologia que tem hoje,
03:04a disposição dos profissionais, né?
03:09Não tinha o conhecimento técnico ainda
03:12que capacitasse a gente a fazer esse socorro com mais presteza.
03:22Enfim, era muita transpiração, né?
03:24Muita transpiração, muito trabalho e muito pouca técnica.
03:29Na verdade, muita vontade e pouca técnica.
03:31E foi uma ocorrência atípica
03:36porque uma precipitação muito grande,
03:43quer dizer, muita chuva.
03:47O que me chamou a atenção era o desespero das pessoas
03:50e a nossa impotência, né?
03:52A nossa capacidade, a nossa incapacidade, eu diria,
03:58de responder à altura àquela ocorrência
04:01que foi bem maior do que a nossa capacidade de resposta.
04:09Naquela época, tinham muitos desses praças e oficiais
04:14que colocavam a própria vida em risco
04:17para, às vezes, nem salvar mais pessoas,
04:22retirar pessoas já mortas de escondos.
04:26E foi o que aconteceu naquela época.
04:30O mais marcante para mim
04:32foi saber que estava perdendo muitos amigos.
04:39Meu nome é Rutileia Soares da Silva Mello.
04:43Tenho 53 anos.
04:46Minha profissão é mexer com salgados e bolo.
04:50Rutileia, você falou que era criança naquela época,
04:52ainda tinha 13 anos, né?
04:5413 anos de idade.
04:55Mas me conta como foi aquele dia para você
04:57que você se lembra.
04:59Olha, à noite, a gente acordou assustado, tá?
05:05A gente morava numa casa de barraco,
05:08tremia, tremeu, tá?
05:10Tremeu a casa.
05:12E a gente acordou assustado.
05:15Meu pai foi lá na rua, né?
05:18E viu que tinha aquele movimento, tá?
05:22E, assim, eu não tenho tanta coisa assim
05:27para contar que no outro dia a gente ficou assustado
05:30porque descobriu que um amigo de meu pai,
05:33que era amigo...
05:34A família dele tinha morrido quase todos.
05:38Só sobreviveu o sol, o Natanael e o filho dele.
05:46Começou a chover em novembro.
05:48Foi novembro, dezembro...
05:50Em janeiro aconteceu essa tragédia.
05:56Teve mar, teve muito sangue.
05:59As pessoas estavam lá debaixo da terra.
06:01Ninguém sabia onde estava pisando e nem cavando, né?
06:04Tentando salvar alguns e outros que nem foram salvos.
06:09E trouxeram aquele monte de gente para ali.
06:11Foi a hora quando eu vi a meninazinha do Pimpom.
06:13Dentro do Pimpom.
06:14Aquele ali me chocou muito.
06:15Eu vejo ela até hoje, assim.
06:17Se eu fechar o olho, eu vejo, né?
06:19Foi um pensamento...
06:20Uma coisa muito triste.
06:21Uma bebezinha, acho que ela não tinha mais...
06:23Não tinha um ano.
06:24E ela estava inteirinha, limpinha.
06:26A roupinha limpinha, era um Pimpom rosa.
06:28E o bombeiro pegou ela e falou assim...
06:30Se ela fica viva, eu pego ela para me criar.
06:32Porque os pais da última vida.
06:35Então, aquilo ali foi só tristeza.
06:39Eu lembro das pessoas gritando.
06:42E a gente foi lá olhar, mas não podia entrar.
06:44Porque os bombeiros cercaram tudo, né?
06:47Aí a gente foi mais ou menos olhar.
06:49Mas, Deus me livre, era muita coisa ruim.
06:53E estava escorregando muito o carro da lama.
06:56Até os bombeiros estavam caindo.
07:02Aquela correria.
07:04Todo mundo olhando para cima.
07:06Não via nada, porque a escuridão apagou tudo, né?
07:09Com aquele breu.
07:11E você só via aquela gritaria chegando.
07:14O cachorro latindo.
07:15E o pessoal correndo.
07:17Foi quando todo mundo começou a subir em direção ao morro.
07:23Sem saber com clareza o que tinha acontecido, né?
07:28Lá, a maioria daquelas pessoas que estavam lá.
07:31Eram todas pessoas super conhecidas da gente.
07:35Os pais, né?
07:38Mais coisa.
07:39Mas os filhos eram praticamente todos que estudavam na mesma escola.
07:43Que jogavam no mesmo campo.
07:46Que tinham a mesma rotina de vida.
07:49Cara, a cena mais impactante foi no momento que eu cheguei, né?
07:56Quando você entra naquele cenário.
07:59Que você não...
08:00Um cenário totalmente escuro.
08:02Chuva.
08:03Excesso.
08:05Logo que nós chegamos tinha um barraco.
08:08Né?
08:10Que vinha aquele eco.
08:12Você só ouvia o eco chegando para você.
08:15E foi a primeira local onde realmente nós escavamos.
08:21Eu lembro que eu tinha mais umas quatro ou cinco amigos.
08:25Todos da mesma base de idade.
08:29Entendeu?
08:30E nessa onde nós escavamos, foi retirado uma senhora.
08:36Ela estava totalmente ensanguentada.
08:40Né?
08:40Coisa.
08:41Mas estava com vida.
08:44E nós conseguimos tirar ela.
08:46E arrastamos para fora daquelas taubas.
08:52E ela gritando que tinha mais gente com ela.
08:56Embaixo.
08:57Mas você não conseguia acessar o local.
09:03Aquele momento volta sempre.
09:05Todas as vezes que você...
09:07Começa a...
09:09A reviver, né?
09:10Aquele momento.
09:11O sentimento de angústia de coisas que vem sempre...
09:15A mais.
09:17Você fica imaginando o que poderia ter feito a mais.
09:24Quem viveu, tentou fazer.
09:27Dentro dos limites, né?
09:30Foi feito.
09:33Isso pode ter certeza.
09:35Vários...
09:35Que das pessoas que conseguiram sobreviver.
09:39Que vivendo.
09:41Conseguiram ter uma nova chance.
09:44Foi graças a muitas pessoas que se arriscaram naquele dia.
09:48Para estar lá naquele momento.
09:54Nós estávamos todo mundo dentro de casa.
09:57E deu aquele trovão muito grande.
10:00Está entendendo?
10:01Foi um raio que partiu a pedra lá em cima.
10:04E desceu.
10:05Uma pedra do tamanho de uma Kombi.
10:07Ficou dentro do nosso lado.
10:09Dentro da casa.
10:10Dentro da casa, sim.
10:11A casa já tinha destruído todinha.
10:13Só estava o piso.
10:15Ficou só no piso.
10:18E dali em diante, a gente ficou todo mundo soterrado.
10:23Um dos meus filhos parou numa faixa de uns 50 metros.
10:27Debaixo de uma pedra também.
10:29No tamanho de um...
10:30Uma Kombi também.
10:35Teve família vizinha meu nos fundos da minha casa.
10:39Mais ou menos de uns 15 metros.
10:42Fazia divisa no meu lote.
10:44Que a família ficou toda soterrada.
10:46Até hoje está lá ainda.
10:48Não conseguiram tirar.
10:49Está entendendo?
10:50Porque a casa ficou debaixo da...
10:52Da pedra.
10:56Nos chamaram em casa.
10:58Dizendo que havia ocorrido uma tragédia no Morro do Macaco.
11:02Mas ninguém sabia exatamente ao certo do que se tratava.
11:06Fomos correndo para lá.
11:07E o que encontramos foi uma destruição total.
11:10Uma pedra avaliada em 150 toneladas.
11:15Não sei se agora o Corpo de Bombeiros fez essa avaliação.
11:18Ou se algum geólogo.
11:20Essa pedra deslizou com o excesso de chuva que ocorreu naquela madrugada.
11:26Deslizou morro abaixo e foi levando os barracos.
11:32Era uma comunidade com muitos barracos.
11:37Construções bem frágeis.
11:39E foi levando tudo morro abaixo e tal.
11:43E muita gente morreu nessa história e nesse acontecimento.
11:52Dois fatos chamaram a atenção.
11:56Um...
11:57Embaixo, eles fizeram, embaixo do morro,
12:00tinha um gramado.
12:01Uma área gramada, me lembro bem.
12:04E eles fizeram uma espécie de necrotério ali, vamos dizer assim.
12:10Onde os policiais, os bombeiros levavam os cadáveres lá para baixo.
12:16E eles formaram uma...
12:19Uma espécie de um terreiro, vamos dizer assim.
12:21Um cadáver ao lado do outro.
12:24E você olhava aquilo, quase só criança ali.
12:27Um ou outro adulto.
12:29Tinha também, é claro, vários adultos.
12:31Mas a maioria é criança.
12:33Então, um negócio assim muito feio.
12:38Muito triste, vamos dizer assim.
12:44O que eu posso dizer é que é o tipo da cobertura
12:47que nenhum jornalista quer fazer.
12:48É claro, isso é importante.
12:48Obrigado.
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