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  • há 2 meses
A tendência é de um aumento importante nos casos de diversas doenças infecciosas, como diarreias, problemas respiratórios, leptospirose, hepatite A e dengue.

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Transcrição
00:00As chuvas e as inundações que arrasam o Rio Grande do Sul afetaram milhões de pessoas,
00:04deixaram centenas de milhares de desabrigados e causaram mais de 100 mortes.
00:08Mas, em termos de saúde pública, as consequências do evento climático continuarão por muito tempo.
00:13Isso porque o contato das pessoas com a água suja acumulada e o ambiente propício a mosquitos
00:18abrem caminho para doenças como leptospirose, sarna, dengue e pneumonia.
00:24Sou André Bernat, da BBC News Brasil, e neste vídeo te explico as três ondas de doenças infecciosas
00:28que devem acometer o Rio Grande do Sul. E como contê-las?
00:32Bom, essa linha do tempo começa a partir das chuvas e das inundações.
00:35Nessas ocasiões, as pessoas que vivem nas áreas afetadas têm o primeiro contato com a água.
00:40Muitas também precisaram sair de suas casas a nado e, nesse processo,
00:44tocaram ou ingeriram a matéria orgânica que subiu de bueiros, valas e esgotos.
00:49Esse contato se dá por meio da pele, das mucosas e da boca, pela ingestão acidental desse líquido.
00:54Além disso, algumas pessoas se feriram em pedaços de vidros, madeiras e outros materiais cortantes,
01:00o que também abre novas portas de entrada para patógenos no organismo.
01:04Essa água, como vocês podem imaginar, ela está nitidamente contaminada.
01:08Quem chega perto da água percebe que ela é fétida, ela é escura.
01:12Ela deve estar cheia de matéria orgânica, de excretas humanas, de animais.
01:17Então, é uma água imprópria para convívio com seres humanos.
01:20Então, as pessoas que acidentalmente ingerem essa água, que se afogam na água,
01:24elas têm risco de adoecimento.
01:26Claro, passando aqui a primeira etapa, que é as pessoas têm que sobreviver,
01:28elas têm que ir para um lugar seguro.
01:30É claro que, numa situação de emergência como a que muitos gaúchos passam nos últimos dias,
01:34a prioridade é salvar vidas e levar o máximo de pessoas a locais seguros.
01:39Além disso, é preciso lidar com as consequências imediatas do desastre,
01:43como traumas, fraturas, hipotermia, afogamentos e choques elétricos.
01:47Mas, passados os primeiros dias após o pico das inundações,
01:51é preciso se preocupar com as doenças infecciosas,
01:53que muitos contraíram durante esse processo, o que nos leva à onda número 1.
01:58Muito do conhecimento acumulado sobre as consequências da saúde de grandes enchentes
02:02vem de países asiáticos, como Índia, Paquistão e Indonésia,
02:05que historicamente lidam com problemas do tipo.
02:08Trabalhos publicados a partir da experiência desses lugares
02:10permitem encontrar uma espécie de padrão nas dinâmicas de doenças infecciosas após o desastre,
02:16além de saber o tempo que elas demoram a aparecer.
02:18Um trabalho de 2018, feito na Universidade de Queensland, na Austrália,
02:23destaca que as inundações são o desastre natural mais comum no mundo.
02:26Ao analisar diversos acontecimentos do tipo,
02:29os autores do estudo apontam que nos primeiros 10 dias após o evento climático,
02:32as doenças que mais aparecem são infecções de pele,
02:35pneumonia ou pneumonia por aspiração,
02:38infecções respiratórias virais e gastroenterites, a popular diarreia.
02:42Em todas as situações, as doenças infecciosas, doenças transmissíveis mais prevalentes,
02:49são doenças diarreicas, essa inclusive é a maior causa de morte por doença infecciosa após desastres hídricos.
02:57Os mais vulneráveis a essas infecções intestinais são as crianças muito pequenas ou os mais velhos,
03:02grupos que merecem uma atenção especial para evitar quadros extremos de desidratação.
03:07As infecções de pele também estão relacionadas a esse mesmo fenômeno,
03:10o contato com materiais contaminados das enxurradas.
03:13Já as infecções respiratórias costumam ser consequência das aglomerações.
03:18Isso porque dezenas de milhares de pessoas estão em abrigos, muito próximas umas das outras.
03:23E essa condição facilita a transmissão de vírus causadores de resfriados, gripe e covid-19.
03:29Os abrigos e as moradias improvisadas com higiene precária também reúnem as condições para dispersão de parasitas,
03:35como aqueles que provocam a escabiose, a sarna e a pediculose, a infestação por piolhos.
03:41Os especialistas com quem eu conversei apontam que o poder público deve estar preparado para lidar com esses cenários.
03:46No caso de escabiose e pediculose, por exemplo, é possível reforçar o estoque de drogas antiparasitárias.
03:52Para as diarreias, é necessário garantir acesso à água potável e remédios que aliviam os sintomas.
03:57Para as doenças respiratórias, pode-se pensar num reforço na vacinação,
04:01a doses disponíveis contra o influenza, o causador da gripe, o vírus cincial respiratório,
04:06um dos responsáveis por resfriados, o coronavírus, o causador da covid-19 e até contra alguns agentes por trás da
04:12pneumonia.
04:13Do ponto de vista individual, é possível também tomar alguns cuidados para diminuir o risco de contato com patógenos,
04:18como lavar bem as mãos, fazer a higiene adequada de frutas e verduras,
04:22não comer alimentos que tiveram contato com a enchente e tomar apenas água mineral,
04:26ou filtrar, ferver ou aplicar uma solução de hipoclorito de sódio na água que vem de outras fontes.
04:33Passados entre 7 e 10 dias das inundações, outras doenças ganham força e relevância.
04:38É aqui que começa a onda 2.
04:40A principal preocupação é a leptospirose, causada por uma bactéria transmitida a partir do contato com a urina de animais,
04:45principalmente ratos.
04:47Muitas vezes, esse micro-organismo invade o corpo de uma pessoa lá atrás,
04:50no momento em que ela tem contato com a água contaminada.
04:52Mas há um tempo de incubação, um período em que o patógeno não dá sinais de sua presença,
04:57até que os primeiros sintomas apareçam.
04:59Geralmente, esse tempo de incubação da leptospirose é de 7 a 14 dias,
05:03mas pode se estender por até um mês.
05:05O indivíduo com leptospirose geralmente apresenta febre, cansaço, dor muscular,
05:10principalmente nas panturrilhas, náusea, vômito, pele amarelada.
05:14Mas não é necessário o aparecimento de todos esses sintomas para gerar uma suspeita,
05:18ainda mais na situação de tantas cidades gaúchas no momento.
05:21Mesmo um quadro febril mais simples já é motivo para fazer uma avaliação com um médico.
05:25A partir da análise, o profissional da saúde pode levantar uma suspeita diagnóstica
05:29e iniciar um tratamento.
05:30No caso da leptospirose, a Sociedade Brasileira de Infectologia e outras entidades
05:35divulgaram um posicionamento em que defende o tratamento profilático a indivíduos com alto risco.
05:40Na prática, isso significa que pessoas que tiveram muito contato com material contaminado,
05:44como as equipes de socorristas de resgate e voluntários,
05:47além dos moradores que ficaram na água por um tempo prolongado,
05:51devem tomar um remédio preventivo, antes mesmo de apresentar qualquer sintoma.
05:55Esse tratamento pode ser feito com dois antibióticos,
05:58prescritos em dose única ou uma vez por semana no caso de socorristas e equipes de emergência.
06:03Ah, importante, esses fármacos devem obrigatoriamente ser indicados por um médico,
06:08nunca tomados por conta própria.
06:09Para as famílias que forem liberadas a retornar para casa, há um cuidado extra,
06:13o uso de equipamentos de proteção, como botas e luvas, na hora de limpar a lama e a água acumuladas,
06:19justamente para limitar o contato com o material contaminado.
06:22Além da leptospirose, os médicos também se preocupam com outras doenças infecciosas nessa segunda onda,
06:27como é o caso de tétano e hepatite A.
06:29Para ambas, existem vacinas disponíveis, e algumas pessoas podem precisar de um reforço nos próximos dias.
06:35Quando se fala de problemas transmitidos por água contaminada,
06:38algo que sempre vem à mente é a cólera.
06:41Mas essa condição não parece ser uma preocupação de momento no Rio Grande do Sul.
06:44Isso porque o vibrião colérico ou as bactérias causadoras do quadro não são detectadas no estado há décadas.
06:50Mas o Brasil voltou a identificar um caso de contaminação local por cólera
06:54em abril deste ano na cidade de Salvador, na Bahia.
06:57Ou seja, será necessário fazer uma vigilância laboratorial ativa sobre essa doença para evitar surpresas.
07:02Por fim, algo que históricamente como é o caso da dengue.
07:05Aqui começa a onda 3.
07:06Mas a situação no Rio Grande do Sul em relação a esse problema de saúde é incerta.
07:11Isso porque o mosquito transmissor, o Aedes aegypti, costuma ficar mais ativo quando a temperatura está elevada,
07:17durante o verão e a primavera.
07:18E em pleno outono, as cidades gaúchas começam a experimentar um clima frio,
07:22algo que o Aedes não curte tanto assim.
07:24Por um lado, esse cenário pode significar menos casos de dengue nas próximas semanas.
07:29Mas isso não permite que gestores e profissionais da saúde relaxem completamente em relação a essa doença.
07:34A dengue já estava sendo uma preocupação antes da vinda da enchente.
07:38Uma grande preocupação.
07:39Muitas mortes, inclusive, em áreas que não costumavam ter dengue, como aqui no sul.
07:43O clima está esquentando.
07:44Hoje, Porto Alegre vive um dia do sol.
07:46Então, a expectativa é que essa água lentamente comece a se abaixar.
07:49Mas à medida que esquente, e vai esquentar, porque os dias, em geral, que são de calor,
07:53as águas acumuladas tendem a ser foco de proliferação de mosquito.
07:57E a dengue voltará a ser uma preocupação muito importante.
07:59Se esse cenário se concretizar, será necessário pensar em estratégias para controlar o Aedes
08:04ou evitar que ele pique as pessoas, com a instalação de telas ou a distribuição de repelentes.
08:09Há também a vacina contra a dengue.
08:10Gestores podem pensar em campanhas dirigidas a algumas cidades gaúchas, por exemplo.
08:15É claro que as questões de saúde envolvidas num evento climático extremo como este
08:18superam a barreira de vírus, bactérias, parasitas e protozoários.
08:22O foco agora está em prestar o socorro emergencial às pessoas que mais precisam.
08:26Mas os médicos temem que a crise acabe criando um desbalanço no sistema de saúde,
08:30com uma situação parecida ao que aconteceu na pandemia de covid-19.
08:34Um exemplo são as pessoas que dependem de remédios para controlar o diabetes e a pressão alta.
08:38Sem o devido cuidado, essas doenças podem descompensar e gerar as mais diversas consequências,
08:43como quadros agudos de infarto e AVC.
08:46Quando a água baixar, também haverá necessidade de pensar em como lidar com as questões de saúde
08:50mental e todos os traumas acumulados nesse período.
08:53O trabalho da Universidade de Queensland, que citei no início do vídeo,
08:56lembra que transtornos como estresse pós-traumático e depressão
08:59são outras consequências de longo prazo das grandes inundações.
09:03E os médicos que entrevistei dizem que será necessário pensar em todas essas questões
09:07para garantir o acesso ao serviço de saúde a todos que precisarem.
09:11Bom, com isso eu fico por aqui.
09:12Deixe suas dúvidas e comentários aqui embaixo que a gente sempre fica de olho.
09:16Um abraço, se cuida e até a próxima.
09:18Um abraço, se inscreva, se inscreva, se inscreva, se inscreva, se inscreva,
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