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  • há 4 meses
Confira imagens inéditas sobre o motim em episódio marcante no sistema prisional capixaba

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Transcrição
00:00Você continua ameaçando a execução a partir das três horas?
00:02Continuam ameaçando. A gente pede muita calma. Por favor, levem a sério as reivindicações, sabe?
00:09Porque a situação é muito séria, é muito grave.
00:128 de janeiro de 1990. Uma tentativa frustrada de fuga provoca uma rebelião na casa de detenção de Vila Velha.
00:20O secretário de justiça da época decide entrar no local com a imprensa.
00:24O que ele não esperava é que ele e mais 17 pessoas ficariam presas lá.
00:29Eu sou Vinícius Agoto e essa é a Capixapédia.
00:48Meu nome é Thelma Scarpini, fui repórter aqui da TV Gazeta
00:53e um dos jornalistas reféns naquela rebelião do dia 8 de fevereiro de 1990.
01:02Meu nome é Antônio Moreira, eu estava naquela rebelião como cinegrafista.
01:06Meu nome é Edgar Ferreira, eu fui assistente cinegrafista.
01:10Eu fazia o Bom Dia Espírito Santo e depois, em seguida, fazia o Primeira Edição.
01:145 horas da manhã eu estava todo dia na TV Gazeta para fazer o Bom Dia Espírito Santo.
01:20Eu era assistente de estúdio.
01:22Eu tinha acabado de chegar da pauta do Bom Dia, quando chego na redação, o chefe de reportagem na época
01:28falou
01:28olha, está tendo uma rebelião lá na casa de detenção, você vai para lá.
01:32A rebelião começou quando a segurança do presídio frustrou uma tentativa de fuga dos internos.
01:38Na volta às celas, eles se rebelaram colocando fogo nos colchões e destruindo o presídio.
01:43No dia, Marisa Sampaio recebeu uma ligação que tinha uma rebelião na detenção.
01:48Começou a ficar desesperado porque o assistente de Moreira não estava chegando.
01:52Desde a madrugada, quando começou a rebelião, eles ligavam para a TV Gazeta pedindo que fosse
01:59uma equipe lá para mostrar que eles estavam em situação difícil.
02:04Aí Marisa chegou e olha, Edgar, você vai com Moreira.
02:09Aí eu falei, vou.
02:11A rebelião aconteceu nas galerias A, B e C que foram isoladas.
02:16As marcas da destruição ficaram por toda a parte.
02:19Celas e corredores incendiados, grades arrancadas e paredes quebradas.
02:30Eu me lembro que a gente chegou lá na detenção mais ou menos, era umas 5h40.
02:35Quando nós chegamos lá, nós encontramos um clima de muita tensão, com os presos amotinados,
02:42fazendo reivindicações de condições insalubres.
02:48E mais ou menos às 7h40, umas 2 horas depois...
02:54Foi quando chegou o secretário de Justiça na época, doutor Sandro Chamondo Carmo, e também
03:00acompanhado da chefe, na época, do Conselho Penitenciário do Estado.
03:04O nome dela era Terezinha.
03:06E eles pedindo que a gente entrasse.
03:07A gente gravou de fora e o chefe que estava lá, na portaria, pediu que a gente não entrasse
03:12não, que não podia confiar.
03:13E aí foi a grande ingenuidade, tanto da parte do secretário, quanto da parte de nós, profissionais
03:22da imprensa.
03:22A gente acabou entrando.
03:24É isso mesmo, a gente está querendo justiça, não está querendo mais nada, a gente quer
03:27justiça, não quer modomia não, sabe como é que é?
03:31Se a gente erra não está certo, a gente tem que pagar, mas pagar com os direitos da gente
03:34que a gente não está tendo.
03:35Precura aí na cadeia, procura um aí, vê se tem algum rico aí.
03:39Só tem próprio rico aí.
03:41Quando chegamos, mais ou menos já tinha gravado um tanto, já quase na hora de ir embora.
03:47Eles simplesmente falaram, agora vocês são nossos reféns, vocês só vão ser liberados
03:52quando o governo do Estado, na época o governador era o Max Mauro, atender as nossas exigências.
03:59Aí o bicho pegou.
04:00As discussões com o secretário de Justiça não evoluíram.
04:04Os ânimos se exaltaram e os detentos resolveram tomar o secretário como refém, inclusive nós
04:09da imprensa, aqui neste canto do pavilhão C.
04:14Ficamos lá como refém e ali foi minha última intervenção como jornalista.
04:19Ainda deu tempo de gravar uma passagem.
04:22Tomaram o secretário como refém e trazê-lo aqui para essa cela.
04:26Inclusive decidiram também trazer toda a imprensa junto.
04:36E pronto, a partir dali, né, eu acabei virando notícia.
04:41O repórter Thelma Scarpini documentou o fato de dentro do presídio.
04:46Em um momento de extrema tensão, os presos colocaram os reféns em fila.
04:50Os ameaçaram e passaram a fazer exigências.
04:54Armas, veículos para fuga e coletes à prova de bala.
04:59A situação aí em cima está tranquila no momento?
05:02Está razoável agora.
05:04A cada momento que não há avanço nas negociações, eles ameaçam matar alguns de nós jornalistas.
05:10No início da tarde, a tensão aumentou no presídio.
05:13As negociações não evoluíram.
05:15E os reféns já começaram a demonstrar desespero.
05:18Eu colocaria como se eu tivesse vivido, eu e também os meus colegas de outras emissoras,
05:25situações, assim, limites.
05:27A qualquer momento nós poderíamos ser mortos.
05:30Deixa eu a vaca forzada aqui!
05:33Pelo amor de Deus!
05:36Se me derrubou!
05:37Para morrer, Jesus está de casa, Deus!
05:40Teve um momento dramático também de uma colega, a Mariângela Siqueira, da TV Capixaba,
05:45que estava amamentando, né?
05:47Fizeram uma Tereza para descer com ela.
05:49A maioria dos presos, eles concordaram.
05:52Mariângela desceu do segundo andar do pavilhão através de uma corda envolvida num colchão.
05:57Amparada pelo marido, ela fez um apelo dramático às autoridades.
06:01Eles vivem em condições subhumanas aqui dentro.
06:07E no momento eles decidiram, ó, a gente tem que fazer a coisa, vamos fazer um sorteio e nesse sorteio
06:14a gente tem que matar alguém para poder mostrar que a gente não está de brincadeira.
06:21Pegaram eu e o Moreira e nos separaram.
06:24Fomos sorteados para morrer.
06:26Nos levaram para uma outra ala lá no presídio e nos colocaram numa cela com mais ou menos uns 10
06:32detentos.
06:33Capixado, que eram os matadores, né?
06:36Nós ficamos ali por algumas horas.
06:39Claro, teve algum episódio de encostarem a arma, né?
06:42A pessoa que sofreu as piores coisas ali, que viu, que eu não vi, foi o repórter Thelma Escarpilha.
07:12A violência psicológica realmente era todo momento.
07:16Eu, na época, era muito novo, né?
07:18Eu tinha 24 anos.
07:20E aí eu contei muito com a ajuda do Moreira, que já era um veterano, uma pessoa com muita experiência.
07:26Eu posso dizer que o Moreira foi um verdadeiro pai para mim naquele momento.
07:30Eu conversava muito.
07:31Você conversa, você tenta convencer alguém, tirar aquela atenção da pessoa.
07:36Isso foi ajudando com que o ambiente ficasse mais descontraído.
07:40Quando esse olhou para mim e disse assim, que hora é essa?
07:45Eu falei, 15 para 6.
07:47Aí ele olhou para mim e disse, começa a rezar e entregar o satanás.
07:50Está vencendo o prazo dado pelos presidiários.
07:52A situação aqui no momento é muito tensa.
07:54O carro forte prometido pelo juiz não chegou.
07:57Os presos estão revoltados, estão jogando pedras pela janela.
08:01E a impressão que a gente tem aqui é que a polícia está entrando nas celas.
08:04A polícia militar começou a negociar com uma outra facção lá dentro do presídio.
08:12E falando para eles, ou vocês acabam com essa rebelião dos colegas de vocês,
08:19ou nós vamos entrar e vamos matar todo mundo.
08:23Aí salve-se quem puder.
08:25Era 6h50.
08:26Com alguns reféns já liberados, a polícia decidiu invadir o presídio.
08:35A confusão no interior da casa de detenção aumentou.
08:38O Marcela pegou fogo e alguns presos pularam.
08:42Tem cana lá, calma, porque tem gente lá, pelo amor de Deus.
08:46Um preso me pegou de refém como escudo, me levou para um banheiro.
08:51Era uma espécie de um cubico.
08:53Botaram a perna na porta.
08:55E aí foi uma coisa horrível, porque eles arrebentaram a porta.
09:02E começaram a matar os dois, apauladas, em cima da gente.
09:07Até que um preso falou assim, para, para de bater, porque você vai matar o jornalista e a senhora.
09:13E aí esse preso foi comigo e falou, olha, eu vou te levar até um ponto para você sair.
09:19Surgiu na mente a ideia que eu cheguei e falei,
09:22ó, lá vem Dom Silvestre com a arma, com as armas e os coletes.
09:25Aí ele tirou as mãos de mim.
09:26Quando ele fez isso, eu vou.
09:28Falei.
09:30Pula!
09:32Pula!
09:37Segura aí, mãe.
09:39Pensa aí, gente.
09:42Calma, calma, calma.
09:45Arruma um milhão, para a minha altura.
09:47Aqui, arruma.
09:47Ali, ali, abaixo.
09:52Tem cana lá, calma, porque já tem gente lá, pelo amor de Deus.
09:55Aí foi mais ou menos às 17 horas, 30 minutos, que eles falaram, ó, a gente tem que matar
10:00alguém e jogar lá fora.
10:01E a polícia militar já estava lá dentro.
10:04Me penduraram de cabeça para baixo, naquele poço.
10:07Não tinha onde se segurar.
10:10Me segurando pela calça.
10:11E a polícia militar, se vocês matar ele e jogar, a gente sobe atirando.
10:16E naquele momento eu comecei a passar mal.
10:21Não vi mais nada.
10:23Passou.
10:25É de cá, vim, mas é de cá, pô.
10:27Ei, ei.
10:28O cara que levantou aquilo ali?
10:30É de cá, é de cá.
10:33É de cá, é de cá.
10:34É de cá, pô.
10:36É de cá, pô.
10:36É de cá, pô.
10:39É de cá.
10:40Puta!
10:48Tinha botado fogo nos colchões, então tinha chamas, muita fumaça.
10:53Ele falou, ó, é por ali, você tem que seguir e correr.
10:57Aí eu fechei o olho e falei, bom, vou ter que passar por aquela cortina de fumaça e de fogo.
11:03Aí eu passei.
11:03Quando eu cheguei do outro lado, a polícia já estava lá, né?
11:06Aí o PM falou, opa, pera, é o jornalista, é o jornalista.
11:09Aí pronto, aí eu fui retirado do presídio.
11:13Foram dez horas que eu pensei que eu não sairia vivo, não.
11:17Quem libertou a gente daquilo ali foram os próprios presos através da polícia militar.
11:23Eu voltei um dia depois e encontrei com esse preso.
11:27Fui até agradecer, porque foi ele que falou para eles pararem de matar aqueles dois detentos
11:34para poder me tirar dali.
11:36E tirou também, né, um outro tirou a chefe do conselho penitenciário.
11:40O repórter de TV, Telmo Scarpini, foi conhecer o preso que salvou a sua vida.
11:45O que você sentiu quando você estava aqui na janela com uma faca espetando você?
11:49Eu senti que eu podia morrer a qualquer momento, uma vez que os policiais não recuavam, né,
11:54diante dos nossos apelos, né, continuavam sempre próximos aqui à detenção,
11:58inclusive jogando gás lacrimogêneo.
12:00Então, senti que aquela seria a minha hora.
12:03Foram 21 horas de rebelião.
12:06As ameaças de morte, a indecisão da polícia e as fugas desesperadas marcaram o motim.
12:12Por um buraco no teto, os presos que eram contra a rebelião desceram para ajudar a salvar os reféns.
12:21Nós, jornalistas, não temos limites.
12:25Jornalista não é super-homem.
12:27É muito bom para a gente e, ao mesmo tempo, ruim.
12:30Nada vale a pena se for colocar sua vida em risco.
12:36Jornalista é um servidor público que tem a função de levar informação com qualidade, com credibilidade para a população.
12:47Ele não é policial, ele não é juiz, ele não é nada.
12:52Ele é simplesmente um contador de histórias, um contador de histórias da vida real.
12:57Mas nunca um herói.
13:00Hoje de manhã, a situação já estava tranquila aqui na casa de detenção.
13:04Mas nessa madrugada, os presos fizeram um novo acerto de contas.
13:07E na briga, mais um deles morreu e um outro ficou ferido.
13:11Com isso, não resta mais aqui nenhum dos sete líderes da rebelião.
13:15Já que dois tinham morrido no final do movimento de ontem e três foram transferidos.
13:19A rebelião terminou com dois detentos mortos e 18 pessoas feitas reféns.
13:24Entre elas, 16 profissionais da imprensa, o secretário de justiça da época e a coordenadora de serviços penitenciários.
13:31O episódio espincarou falhas na segurança do presídio e levantou questionamentos sobre o controle do sistema penitenciário.
13:58Os detentos resolveram tomar o secretário como refém, inclusive nós da imprensa.
14:18Eles vivem em condições sub-humanas aqui dentro.
14:22Eles vivem em condições sub-humanas aqui dentro.
14:24Eles vivem em condições sub-humanas aqui dentro.
14:24Mas eles vivem em condições sub-humanas aqui dentro.
14:26Pelo amor de Deus!
14:29Ele viveu!
14:31Ele viveu!
14:32Ele viveu!
14:35Vamos lá, vamos lá, vamos lá, vamos lá.

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