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  • há 5 semanas
Mulher trans e uma das beldades que reina na agremiação mais tradicional de Vitória, Michelly falou sobre representatividade, amor pelo carnaval e luta em busca de respeito da sociedade

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Transcrição
00:00Eu sou Michelle Nascimento, sou madrinha de bateria da Unidas da Piedade,
00:04madrinha da bateria de Tito Montes, sou uma mulher trans.
00:09A minha relação com o carnaval, ela começa desde a infância, né?
00:13Eu assistia na TV o carnaval do Rio de Janeiro,
00:16até alguns takes do carnaval de Vitória também,
00:18e eu achava lindas aquelas mulheres, sambando, cheias de representatividade,
00:23e eu sonhava em estar naquele lugar um dia.
00:25Aí em 2018 a Piedade me convidou para desfilar como musa,
00:29eu, tipo assim, busquei esse sonho de infância, né?
00:33Mas ao mesmo tempo tive um pouco de medo,
00:35porque era algo que eu não tinha tanto conhecimento técnico.
00:39Busquei algumas aulas, mas não dispensei a oportunidade,
00:42aceitei e desfilei como musa no Abre Aulas da Escola em 2018.
00:47A escola fez uma análise, né?
00:49Nesse último ano, onde a antiga rainha se desligou do cargo,
00:53para escolher uma pessoa competente para ocupar o cargo.
00:56Eles viram em mim uma pessoa com competência e representatividade
01:01para ocupar esse posto, aliado a uma rainha de bateria,
01:05que seria uma menina da comunidade.
01:07A questão de representatividade veio em uma conversa com o meu presidente,
01:12com o Juscelino, né?
01:13Ele falou,
01:13Michelle, eu vejo em você a competência que qualquer outra mulher biológica teria
01:18para ocupar o cargo a essa altura na frente da minha bateria.
01:22Então, eu quero te dar essa oportunidade.
01:24Foi onde veio o convite para estar à frente da bateria Ritmo Forte.
01:27Aos três anos de idade, a minha irmã nasceu,
01:31e tudo que era dela era muito mais interessante aos meus olhos
01:34do que as minhas coisas, os meus brinquedos, as minhas roupas.
01:37Então, dali eu percebi que eu não era um menino.
01:41Eu era uma menina porque eu me identificava muito mais com as questões de menina.
01:44Eu sou filha de pais maravilhosos,
01:46que sempre foram muito apoiadores de mim como pessoa.
01:51Eles deixavam o gênero em segundo plano e colocavam o filho em primeiro plano.
01:56Então, isso sempre me encorajou a correr atrás dos meus sonhos, né?
01:59E eu acredito que todo mundo nasce predestinado a uma história.
02:03Ser uma mulher trans era a minha história e superar ela era o meu desafio.
02:08Então, eu fui buscando bons exemplos, né?
02:11E fui me respeitando como ser humano,
02:14como qualquer pessoa pode lutar e idealizar e conquistar os seus sonhos.
02:18Eu me vi nessa possibilidade também.
02:20E aí, eu fui driblando as adversidades, os nãos.
02:26Eu não via mulheres trans ocupando determinados cargos,
02:28como o que eu ocupo hoje, por exemplo, de madrinha de bateria.
02:32Eu não via mulheres trans ingressadas e fazendo sucesso no mercado de trabalho.
02:36E eu me perguntava por quê.
02:38E eu percebia que elas tinham medo com base na opressão das pessoas, entendeu?
02:43E aí, eu identifiquei que eu não precisava de uma violência para ocupar esse espaço.
02:49Era simplesmente eu fazer o correto e automaticamente a vida ia abrir essas possibilidades e oportunidades para mim.
02:56A escola é composta por muitos etimistas homens, a maioria, né?
03:01Então, ali eu imaginava que talvez houvesse alguma repressão.
03:04E pelo contrário, os meninos, eles são muito solícitos comigo.
03:08Eles são muito queridos, muito carinosos e me recebeu de uma forma muito tranquila, sem preconceito.
03:13Então, num contexto geral, o mundo do samba me abraçou sim.
03:16E eu me senti muito confortável lá dentro.
03:19A gente vive sim ainda num universo muito preconceituoso, né?
03:23Numa sociedade muito preconceituosa.
03:24Mas eu percebo que vem avançando ao longo do tempo, né?
03:29O que a gente tem que fazer é ter resistência.
03:32É ocupar o nosso lugar sem necessariamente sentir culpa de estar ocupando esse lugar.
03:38Porque é um lugar seu de direito, assim.
03:40Sendo uma mulher trans ou não sendo...
03:43O mesmo direito que uma mulher cis tem, você como uma mulher trans também tem.
03:46E eu acho que a base disso tudo é você entender e esclarecer isso dentro da sua cabeça.
03:52Quando isso fica claro pra você, você consegue externar pras pessoas
03:56e naturalmente identificar...
03:58Fazer elas identificar que você merece respeito, entendeu?
04:01Eu sonho com uma sociedade ainda menos preconceituosa.
04:05Como eu falei, a gente vem avançando, mas ainda tem muito a avançar, entendeu?
04:09O que eu tenho pra dizer pra outras mulheres trans como eu é pra se empoderar
04:14sem abrir mão de respeitar determinados limites e a sociedade como um todo.
04:19Porque um lema que eu levo pra minha vida é o seguinte.
04:22Não é porque a sociedade me desrespeita que eu tenho que responder
04:25ou gritar com desrespeito também.
04:28Eu vou atrair o respeito das pessoas na medida que eu me posicionar da forma correta.
04:33A classe LGBTQIA+, eu acredito que tem até algumas siglas que talvez não estejam me lembrando.
04:39Mas elas gritam, elas imploram por igualdade, né?
04:43E uma deficiência que eu vejo acontecendo muito é que quando elas alcançam esse lugar de igualdade,
04:49elas não conseguem respeitar, elas se passam.
04:51Elas querem ultrapassar esse lugar de igualdade.
04:54Mas eu acho que quando você chega num lugar de respeito,
04:58é interessante você também olhar pra você e respeitar o outro.
05:01Porque aí o outro naturalmente vai se ver no dever de te respeitar também.
05:06A gente precisa ocupar os nossos lugares, respeitando o limite dos outros, né?
05:10Porque como ao longo da vida inteira a gente foi rejeitado por uma sociedade hétero,
05:14hoje em dia que a gente ocupa um determinado espaço,
05:17a gente quer usufruir, a gente quer gritar de alguma forma aquilo ali.
05:20Só que não é por aí.
05:22Eu acho que é você se colocar no lugar que você merece,
05:25mas respeitar que o outro também merece.
05:28E a gente tá aqui pra viver numa sociedade igualitária,
05:31onde todo mundo tem o mesmo direito, né?
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