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  • há 5 semanas
Os patamares recordes alcançados pelo dólar em dezembro de 2024 trouxeram um clima amargo para o fechamento da primeira metade do governo de Luiz Inácio Lula da Silva. Neste vídeo, nossa jornalista Camilla Veras Mota explora o cenário que explica a disparada da moeda americana.

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Transcrição
00:00O dólar engatou numa escalada em 2024 e atingiu o patamar recorde em dezembro.
00:05Chegou a valer R$ 6,30. Foi um dos assuntos mais comentados nesse fim de ano,
00:11ofuscando bons resultados que vieram de outras frentes da economia, como o crescimento acima
00:15do esperado, a redução do desemprego e a aprovação da reforma tributária.
00:19Eu sou Camila Varesmota, da BBC News Brasil, e exploro nesse vídeo o que está por trás do
00:24dólar a R$ 6,00. Começando pelo básico. Muita coisa influencia
00:29é a cotação de uma moeda em relação à outra. A diferença do patamar de juros entre os países
00:33das moedas que a gente está comparando, por exemplo, taxa de inflação, percepção de risco.
00:38É nesse último ponto que alguns economistas têm batido. O enfraquecimento do real seria reflexo
00:44da saída de investidores do Brasil que estariam reagindo a um aumento do risco fiscal, ou seja,
00:50a deterioração da capacidade do governo de honrar a dívida pública. E a gente fala disso daqui a pouco.
00:55Entre janeiro e outubro de 2024, 56,2 bilhões de dólares deixaram o país pela via financeira,
01:03a maior saída líquida de moeda americana para esse período desde 1982, quando começa a série
01:08histórica do Banco Central. Na prática, a saída de investimento estrangeiro reduz a oferta de dólar
01:12no país. E aí entra a lei da oferta e demanda. Se a disponibilidade de moeda americana aqui no Brasil
01:17diminui, a tendência é que o preço aumente. E dólar caro não é só um problema para quem viaja para
01:23o exterior.
01:23Muitos setores da indústria usam insumos importados, o agro compra muito fertilizante fora,
01:29as commodities são todas cotadas em dólar. E é por isso que a valorização do dólar alimenta a
01:34inflação, porque tudo que é importado fica mais caro em real. E a alta da inflação costuma impelir
01:39o Banco Central a subir juros, o que torna os empréstimos mais caros e esfria a atividade econômica.
01:45Você talvez lembre que o marco inicial desse salto do dólar foi a proposta do ministro Fernando
01:49do Haddad de isentar do imposto de renda quem ganha até R$ 5 mil. Pois é,
01:54esse episódio está diretamente ligado a essa discussão em torno da sustentabilidade da
01:58trajetória da dívida. A medida foi anunciada no meio de um pacote de corte de gastos que o
02:02governo estava há semanas para soltar e sobre o qual havia muita expectativa.
02:06A nova medida não trará impacto fiscal, ou seja, não aumentará os gastos do governo.
02:14O ministro argumentou que o impacto do aumento da isenção de IR seria nulo do ponto de vista das
02:18contas públicas, porque seria compensado por uma taxação de quem ganha mais de R$ 50 mil por mês.
02:23Mas o anúncio decepcionou o mercado, que esperava um foco maior nas despesas.
02:28Está todo mundo esperando um pacote de contenção de gastos e o governo vem e anuncia uma isenção de
02:34impostos. Além das medidas insuficientes, alguns especialistas avaliam que o governo Lula também
02:38errou em não implementar mais cedo um ajuste nas contas públicas. Ou seja,
02:42propôs logo no início do mandato um pacote de corte de gastos.
02:46No ritmo atual, a expectativa é de aumento de quase 10 pontos percentuais na dívida líquida do
02:51setor público nos próximos três anos, de 63% do PIB em 2024 para 74% em 2027, conforme
02:58as projeções colhidas pelo Banco Central com instituições financeiras.
03:02Mesmo com receita recorde, o governo gastou mais do que arrecadou em 2024, conforme os
03:07dados divulgados até setembro pelo Tesouro. E deve fechar o ano no vermelho, o segundo ano
03:11consecutivo de déficit primário. Em 2023, os gastos superaram as receitas em R$ 230 bilhões,
03:17em parte por conta da regularização do pagamento de precatórios que tinha sido aprovada na gestão
03:23anterior. Aliás, também houve muita discussão sobre gasto público sobre Jair Bolsonaro,
03:27especialmente em torno da chamada PEC das Bondades, uma proposta de emenda constitucional que permitiu
03:32ao então presidente driblar as restrições do período eleitoral e distribuir R$ 41 bilhões em
03:38benefícios sociais em 2022. O Supremo recentemente considerou essa PEC inconstitucional. O governo Lula
03:44elevou as despesas no início do mandato com a PEC da transição, ampliando o valor do Bolsa Família,
03:50retomando políticas como farmácia popular e corrigindo o valor do salário mínimo acima da inflação.
03:55Esse último ponto, aliás, é considerado fundamental pela gestão petista para melhorar a renda dos
04:00mais pobres. Mas é uma medida com forte impacto nas contas públicas, já que despesas grandes,
04:05como aposentadorias do INSS e benefícios de prestação continuada, são atreladas ao salário mínimo.
04:10Agora, uma das medidas do novo pacote fiscal é justamente conter o reajuste do mínimo.
04:15Segundo as novas regras aprovadas no Congresso, ele vai continuar sendo reajustado acima da
04:20inflação, mas o ganho real não vai poder passar de 2,5%.
04:25De volta ao dólar, o que dá para fazer, então, para conter a moeda americana?
04:29Os economistas que apontam a trajetória de aumento dos gastos públicos como problema afirmam
04:33que a solução passaria por equilibrar as contas públicas.
04:36Nesse sentido, o ministro Fernando Haddad defende a revisão das isenções tributárias, ou seja,
04:41os descontos de impostos que beneficiam determinados setores da economia e que ele considera em alguns
04:46casos indevidos.
04:47Mas isso é algo que enfrenta resistência no Congresso, já que alguns dos setores beneficiados
04:52têm forte poder de lobby entre os parlamentares.
04:54Para se ter uma ideia, esses benefícios fiscais vão somar R$ 544 bilhões em 2025.
05:00Haddad disse recentemente que a revisão de gastos será uma constante no governo, mas
05:05não detalhou o que está no radar para 2025.
05:08Sobre o valor do dólar, o ministro afirmou, abre aspas,
05:11Temos de corrigir essa escorregada do dólar aqui.
05:14Não no sentido de buscar o nível do dólar, de mirar uma meta.
05:17O nível que o BC deveria atuar é buscar o equilíbrio, fecha aspas.
05:21O ministro se refere às intervenções que o Banco Central fez para tentar conter a volatilidade
05:25do dólar em dezembro, injetando quase US$ 17 bilhões no mercado de câmbio no intervalo
05:30de dez dias.
05:31E para além do governo federal, tem também as cobranças sobre o que os demais poderes
05:36podem fazer.
05:36O Poder Judiciário, por exemplo, resiste em reduzir os super salários e penduricalhos
05:41do setor.
05:41E o Congresso atua para ampliar cada vez mais o valor das emendas parlamentares, que são
05:46aqueles recursos que deputados e senadores podem direcionar para obras e programas em seus
05:51redutos eleitorais.
05:52Para o Congresso, o problema nem existe, porque o problema do Congresso está resolvido.
05:57E qual é o problema do Congresso?
05:58O problema do Congresso é ter fundo partidário, fundo eleitoral e emenda orçamentária.
06:03Tem um desarranjo institucional que vai criando uma conjuntura que é muito desfavorável.
06:11O cenário para a economia em 2025 é ainda mais complexo, com o início do governo de Donald
06:16Trump em 20 de janeiro e a expectativa de implementação de promessas de campanha com grande potencial
06:22para pressionar ainda mais o dólar, com o aumento generalizado das tarifas de importação
06:27nos Estados Unidos.
06:28A gente tem feito vários vídeos sobre diferentes assuntos de economia, dá uma olhada na nossa
06:32lista e vamos, claro, continuar acompanhando.
06:34Obrigada pela audiência e até a próxima.
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