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Historicamente, o catolicismo, as igrejas evangélicas e o espiritismo propagaram a crença de que alguém que se mata sofre algum tipo de punição em outro plano.
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00:03Foi a primeira pergunta que eu gritei, literalmente, quando eu encontrei o corpo dela.
00:11Pra onde ela foi?
00:14Meu Deus, pra onde ela foi?
00:17A minha família, apesar de muito católica, nós não tivemos direito de celebrar missa de corpo presente,
00:24nem missa de sétimo dia, nem missa de mês, nem missa de ano.
00:27Porque a igreja católica, naquela época, dizia que as almas das pessoas que se matavam iam direto pro inferno.
00:35A gente sabe que, quando você desencarna, existe um momento em que você passa por uma certa confusão.
00:44É normal, mas existe um resgate.
00:48Existem espíritos benfeitores que vêm auxiliar nesse momento.
00:58O suicídio era, e em muitos casos ainda é, um tabu nas religiões.
01:03Diversas crenças pelo mundo pregaram ao longo da história a existência de uma grave punição para a pessoa que tira
01:09a própria vida.
01:10Para os que acreditam em vida após a morte, isso muitas vezes representa uma grande fonte de angústia.
01:15Eu conversei com seguidores das três maiores religiões do Brasil que perderam familiares para o suicídio.
01:22Católicos, evangélicos e espíritas, os grupos mais numerosos, relatam como o luto foi impactado pela ideia de que entes queridos
01:29estariam em sofrimento,
01:31mesmo depois do fim da vida.
01:33Eu conversei também com religiosos que tentam mudar essas crenças e se esforçam para oferecer conforto a quem perdeu alguém
01:40por conta de um suicídio.
02:04A tradutora paulista Maria Cecília Sensini vem de uma família católica e se aproximou do espiritismo
02:10a 15 anos.
02:12Por um lado, ela diz que a fé serviu como acolhimento na perda do filho, que tirou a vida quando
02:17estava prestes a completar 32 anos.
02:20Eu acho que esse período foi um período de preparação para mim, porque a espiritualidade pensa em tudo, né?
02:30E te acolhe da melhor forma possível, principalmente nas suas dificuldades, naquilo que você vai ter que viver de difícil,
02:40de ruim.
02:44O filho de Maria Cecília era ilustrador e tomava antidepressivos.
02:49Ela relata que na pandemia, com isolamento, a condição do filho piorou.
02:54Foi Maria Cecília quem encontrou o corpo do filho no quarto onde ela atualmente trabalha.
03:00Ela acredita que os espíritos ajudaram para que ela não se entregasse à dor da perda.
03:06E é esse quadro que me faz companhia aqui.
03:11Você fala com ele, né?
03:12Falo.
03:13Às vezes até peço a ajuda dele para alguma coisa.
03:17Pô, quebra esse galho aí para mim.
03:21Eu vim trabalhar aqui dentro.
03:23Um ambiente que poderia ser um ambiente triste da casa, um quarto que poderia até ficar para sempre com a
03:32porta fechada,
03:33sem que eu quisesse entrar aqui.
03:36Eu renovei, fiz questão de renovar e de abrir, né?
03:42Essa obra, né, que foi a última obra dele, eu não sabia muito onde colocar, né?
03:46Eu falei, é, por que não colocar o quadro no cavalete e deixar ele aqui?
03:52Dentro desse espaço, criar um espaço de beleza e de vida, né?
03:59Porque ele era isso aqui, né?
04:01O Henrique não era o que aconteceu com ele.
04:06O Henrique era a arte dele também.
04:09Obras fundamentais do espiritismo organizadas pelo francês Allan Kardec
04:14diziam que os suicidas sofrerão temporariamente alguma punição até atingir a evolução.
04:20Um trecho do livro O Céu e o Inferno, por exemplo,
04:23afirma ser comum que espíritos de suicidas sintam vermes corroendo o corpo.
04:29Uma outra parte da obra diz que as consequências do suicídio variam, entre aspas,
04:34em duração e intensidade de acordo com as circunstâncias agravantes ou atenuantes do erro.
04:40Já no livro dos espíritos, afirma-se que o louco que se mata não sabe o que faz.
04:47Alguns seguidores do espiritismo, como Maria Cecília,
04:50interpretam esse trecho como uma indicação de que suicídios causados por transtornos mentais
04:56não seriam punidos.
04:57Como, com base num Deus amoroso e infinitamente bom, como diz uma das obras de Kardec,
05:08como ele poderia não ser misericordioso?
05:12Como poderia julgar e condenar alguém que atentasse contra a própria vida?
05:19Existem atenuantes, como se diz, numa das obras.
05:25E uma das atenuantes, por exemplo, pode ser a bondade que a pessoa traz no coração.
05:31Mas Maria Cecília preferiu se manter distante de uma obra muito popular da literatura espírita brasileira.
05:37O livro Memórias de um Suicida, da médium Ivone do Amaral Pereira,
05:41foi lançado em 1956 e já teve 27 edições publicadas.
05:47A obra popularizou a crença em um vale dos suicidas,
05:51um lugar onde a alma de quem se mata passaria por um período de punição e sofrimento.
05:56Você já leu essa obra?
05:58Olha, eu tentei.
06:01Para mim foi um pouco pesado.
06:03E essa tentativa foi bem antes do que me aconteceu.
06:08E eu não levei essa leitura ao término.
06:13Eu não consegui acabar.
06:14E imagino que não pretende...
06:17Não, não.
06:19Não, principalmente agora.
06:21Tem outras, muitas outras obras do Espiritismo que podem me trazer aquilo que eu preciso, na verdade, que é a
06:29esperança.
06:30O Vale dos Suicidas também foi retratado na TV brasileira na novela A Viagem.
06:35O personagem Alexandre sofre, nesse lugar, as consequências de seu suicídio,
06:40onde se escuta gritos, o fogo arde e ele é torturado.
06:44Rosana Gaspar é membro da Federação Espírita Brasileira, que publicou Memórias de um Suicida.
06:50Ela argumenta que o livro não indica que esse é o destino de todos os suicidas.
06:55Mas isso não quer dizer que todo mundo que desencarna através do suicídio vai para esse lugar.
07:02Então as pessoas ficam amedrontadas, mas ele está contando o quê?
07:07A história de um grupo de espíritos que estão ali naquela região.
07:13Aquele que não se suicidou ainda, ele pode se persuadir através de uma leitura desse livro.
07:19Porque ele é importante também.
07:21A pessoa que está pensando no suicídio lê uma obra dessa.
07:26Ele fala assim, puxa vida, esse grupo teve essa experiência ruim.
07:31Então eu não vou ter essa mesma experiência.
07:35Esse Memórias de um Suicida é interessante também porque ele tem uma continuidade
07:40de que quando ele realmente se arrepende, sai daquela situação, ele conta com a misericórdia divina.
07:49A socióloga Célia Ribas pesquisa o Espiritismo.
07:52Na vida pessoal, ela perdeu a mãe e o irmão por suicídio.
07:57Ela afirma que a visão espírita sobre esse assunto tem influência do catolicismo,
08:01que por séculos tem sido a religião predominante no Brasil.
08:05Há um olhar ainda muito carregado e negativo,
08:09que tem a ver sim com uma tradição católica de pensamento,
08:15e que o Espiritismo em alguma medida vai reproduzir também,
08:18no sentido de pensar que os suicidas vão merecer algum tipo de castigo.
08:25Do século VI ao final do século XX, a orientação oficial da Igreja Católica Apostólica Romana
08:31era não fazer os rituais funerários normais para alguém que se suicidasse.
08:36Missas de sétimo dia, por exemplo, não deveriam ser realizadas.
08:40Em 1917, o Código de Direito Canônico reforçou que suicidas não devem receber um sepultamento eclesiástico,
08:48a menos que, entre aspas, tenham dado sinal de arrependimento antes da morte.
08:53Uma das origens da histórica posição católica sobre o suicídio está no Não Matarás, um dos Dez Mandamentos.
09:00O suicídio seria uma violação desse princípio.
09:03A pesquisadora americana Hanana Dain afirma que o Vaticano mudou a sua abordagem
09:09conforme o conhecimento sobre os transtornos mentais evoluiu.
09:12Ela avalia que a Igreja Católica ainda considera o suicídio um pecado,
09:16mas não um pecado mortal, aquele em que não há qualquer esperança de salvação da alma.
09:23O suicídio era visto como um ato intencional de uma pessoa indo contra Deus e o domínio dele sobre a
09:30vida.
09:31O contexto externo, especialmente na Igreja Católica, é sempre uma mistura de fatores,
09:37mas foi mais ou menos no começo da era moderna que a depressão,
09:41outros problemas de saúde mental e transtornos psiquiátricos
09:44começaram a ser vistos de forma parecida com as doenças físicas,
09:49não mais como algo que seja culpa do indivíduo.
09:54Em 1983, o trecho sobre o suicídio foi retirado do Código de Direito Canônico.
10:00Desde então, documentos da Igreja Católica têm mostrado uma visão mais empática.
10:05Em um discurso de outubro de 2021, no Dia Mundial da Saúde Mental,
10:10o Papa Francisco defendeu o acolhimento a pessoas que se suicidaram e as suas famílias.
10:36A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, a principal organização católica do país,
10:41não quis comentar sobre o tema para essa reportagem.
10:59A gente veio conversar com o Padre Lício aqui na Paróquia Sagrada Família,
11:08na Zona Leste da cidade de São Paulo.
11:10Além de padre, o Lício trabalha há anos com a prevenção ao suicídio
11:14e fez cursos de especialização sobre isso.
11:17Mas o Lício também tem uma história pessoal envolvendo o suicídio.
11:20O pai dele se matou quando ele tinha 13 anos.
11:24Eu estava no início da adolescência,
11:27aquela fase em que o homem se identifica com a figura do pai e tal,
11:32e o suicídio dele para mim soou como abandono.
11:36Eu me senti abandonado.
11:38Foram 30 anos uma vez por semana no divã para elaborar o estrago emocional
11:43que o suicídio dele provocou na minha vida pessoal.
11:48O pai de Lício enfrentava depressão e alcoolismo e se matou em 1970.
11:54Por conta da regra do Vaticano para suicidas na época, não houve missas fúnebres.
11:59Lício conta que a morte do pai não teve influência na sua decisão de ser padre.
12:04Ele diz que foi algo que sempre quis, desde criança.
12:08Já a morte do pai o levou a fazer uma pós-graduação em suicidologia,
12:12uma área de estudos que aborda as causas e consequências dos suicídios.
12:17Mas como ressoa hoje essa morte para você?
12:20Essa morte hoje ressoa, assim, como uma grande graça, como uma grande bênção.
12:27Tem um texto da Bíblia, São Paulo diz que tudo concorre para o bem daqueles que amam a Deus.
12:34Todo o meu trabalho hoje como suicidologista, eu fui fazer a especialização em suicidologia,
12:41quer dizer, me tornei especialista pela Universidade Federal de Santa Catarina em suicidologia
12:47por causa da morte dele.
12:50Lício separa três dias na semana para receber na sua paróquia pessoas que estão pensando em suicídio
12:56ou que perderam alguém que se matou.
12:59Ele conta que sacerdotes de vários bairros de São Paulo encaminham pessoas para lá,
13:04mesmo aquelas que não são católicas.
13:07Lício costuma fazer cerca de três encontros com uma pessoa
13:10e se achar que é necessário, recomenda que ela busque a ajuda de psicólogos ou psiquiatras.
13:16Ainda existe esta cultura errônea de que quem se mata vai para o inferno.
13:23Ainda existe, e eu repito, acho que isso ainda vai persistir na religiosidade,
13:30na cultura brasileira e, sobretudo, na cultura popular, ainda por um bom tempo.
13:37Por isso que é importante que a gente fale que não é mais assim,
13:42que a igreja não pensa mais assim, que a doutrina...
13:46Não é que a doutrina mudou.
13:48Ninguém pode se matar.
13:50Para nós católicos, ninguém pode atentar contra a própria vida porque ela é dom de Deus.
13:55O senhor acha que a igreja tem uma responsabilidade de correr atrás desse prejuízo,
14:00digamos assim, dessa doutrina anterior e dessa consequência do que está na boca do povo?
14:05Eu acho que sim, correr atrás sim, eu acho que sim, eu acho que todos nós temos que correr atrás,
14:10né?
14:11Eu acho que não é só a igreja, não.
14:15Nas igrejas evangélicas também existe a percepção de que o mandamento não matarás é violado no caso de um suicídio.
14:22Apesar de haver muitas divisões internas no mundo evangélico,
14:26a interpretação geral das igrejas é de que o suicídio é um pecado.
14:30E uma parte considerável dos fiéis acredita que um suicida não tem salvação e que sua alma vai para o
14:36inferno.
14:37A gente procurou representantes oficiais das três maiores denominações evangélicas no Brasil.
14:42A Assembleia de Deus, as igrejas batistas e a Congregação Cristã no Brasil.
14:47Mas elas não atenderam a reportagem ou preferiram não comentar o assunto.
14:51Mas em tese, atentar contra a vida sua ou de quem quer que seja, de fato é pecado.
14:57É uma quebra de um princípio da relação saudável com Deus.
15:02A compreensão é, na tradição evangélica e batista, a vida pertence a Deus.
15:07Isso é um postulado importante que é dito.
15:10A vida pertence a Deus.
15:11Ele deu e só ele pode tirar.
15:14Eles entendem, claro, que a pessoa que se suicida não tem salvação.
15:19Isso é muito claro.
15:20Só não fala isso.
15:22Mas eles acreditam.
15:24Então não existe nenhuma igreja cristã que diz assim, suicídio não é pecado.
15:27Não existe.
15:28Pode procurar que você não vai achar.
15:29Você vai encontrar pastores presbiterianos falando contra isso.
15:33Pastores batistas, pastores assinlayanos, pastores das igrejas neopentecostais.
15:37Todos eles, aqueles que falarem sobre isso, eles vão dizer que isso não tem perdão.
15:43Que bom que você está aqui.
15:52Fernando também, que bom que vocês estão aqui.
15:55Vamos orar as suas mãos para eles?
15:58Pai, que o senhor possa usar a tua filha, a tua serva, o teu esposo, para poder trazer luz para
16:05nós.
16:06Luz da sua palavra, luz da que o senhor preparou no coração dela.
16:12A Kézia Mesquita é formada em letras, mas em 2012 a vida pessoal e profissional dela mudou completamente com o
16:20suicídio da irmã mais nova, a Débora.
16:22Depois da morte, Kézia teve depressão e também dificuldade de conciliar o luto com a fé.
16:28Ela cresceu frequentando a Assembleia de Deus com a família em Teresina.
16:32Após muita dor e reflexões, Kézia resolveu se dedicar à conscientização sobre a saúde mental e à prevenção ao suicídio,
16:41principalmente no contexto religioso.
16:43Nós viemos acompanhando a palestra dela aqui na Igreja Batista da Lagoinha, em Campinas.
16:49Eu precisei passar por toda essa situação para entender que sim, que uma pessoa que crê em Deus, uma pessoa
16:55que tem fé, uma pessoa que está alimentando, inclusive, a sua vida espiritual, fazendo o bem, amando,
17:06que ela pode adoecer como ela adoece de qualquer outra enfermidade.
17:11E para você, a morte da sua irmã abalou a sua fé?
17:16Não.
17:18Não mesmo.
17:19Foram mais questões, assim, teológicas mesmo, dessa questão de entender.
17:29Será que toda pessoa que cometeu o suicídio, ela está condenada?
17:36A irmã de Kézia foi diagnosticada em 2011 com transtorno bipolar e não escondia que pensava em se matar.
17:44Um dia, Débora saiu de repente de casa e a tragédia aconteceu.
17:48Já nas primeiras horas de luto, Kézia teve que não só encarar a perda, mas também enfrentar palavras indelicadas vindas
17:56de pessoas da sua comunidade.
17:57Nós tivemos uma pessoa que fez uso da palavra e praticamente disse que o filho havia passado por situações emocionais
18:10graves, mas que eles haviam orado.
18:13Então, deu a entender que nós não tínhamos feito a nossa parte como pessoas que creem em Deus.
18:19Muitas pessoas ligarem para mim e dizerem assim, ah, que pena que ela foi para o inferno.
18:24Juro.
18:26Assim, na lata.
18:28E você acha que as igrejas evangélicas, por exemplo, estão melhorando nisso?
18:32Os pastores em ter talvez menos tabu com o suicídio?
18:37Uma porcentagem pequena, mas já conseguimos ver uma luz no fim do túnel.
18:43Eu, nesses últimos dez anos, praticamente, tenho tido a oportunidade de falar em muitas igrejas
18:51e sempre tenho visto a preocupação que muitos líderes têm em entender do assunto para acolher melhor.
19:00E outra, por que muitos líderes estão vendo a necessidade de se falar sobre isso?
19:06Porque essa realidade já chegou tanto nos espaços religiosos quanto nas famílias dos próprios líderes.
19:16Medicação, psiquiatra, psicólogo, eles realmente vão te ajudar, mas eles só são a primeira parte.
19:25É o comer, é o beber e isso é importante.
19:29Só que se você ficar só nisso, você vai ficar estagnado.
19:33Porque o que traz de volta a alegria para a alma, o sentido da vida, é o Espírito Santo de
19:40Deus.
19:40Como disse a Kézia, os suicídios estão chegando às casas de mais e mais famílias,
19:45às vezes até dos próprios pastores.
19:47Um estudo calculou que a taxa de suicídios cresceu 3,7% ao ano no Brasil entre 2011 e 2022.
19:55Segundo a Organização Mundial da Saúde, a ligação entre suicídio e distúrbios mentais,
20:00como depressão e alcoolismo, já foi amplamente comprovada.
20:03Mas esse tipo de morte também pode ocorrer após uma pessoa enfrentar crises mais pontuais,
20:07como términos de relacionamentos e problemas financeiros.
20:10Querendo ou não, as religiões estão sendo forçadas a lidar com esse assunto.
20:15Para a psicóloga Karen Scavassini, ao lidar com o tema como um tabu,
20:19a religião deixa de contribuir para a prevenção ao suicídio.
20:23A religião, no geral, é um fator de proteção, que a gente chama.
20:27Ou seja, ela ajuda muitas pessoas a não morrerem por suicídio.
20:31Em alguns casos, a religião pode ser um fator de risco,
20:36especialmente se ela traz para a pessoa vergonha, exclusão,
20:40se ela fala, por exemplo, que alguém está no inferno, está no umbral,
20:45e traz esse valor de que foi algo errado, de algo moral, e isso vai trazer dor.
20:54E quando a gente olha para as pessoas que perderam alguém para os familiares,
20:58para os sobreviventes, a religião pode trazer muito mais dor.
21:02Desde as perguntas que vêm como se fossem perguntas simples ou curiosas,
21:10mas que trazem uma dor imensurável de
21:12você não percebeu, você não perguntou, por que você não levou mais na igreja?
21:18Ou você sabe que agora ele está sofrendo no inferno?
21:22Esse tipo de frase é dita ainda?
21:24Esse tipo de frase é dita no velório,
21:26porque a gente escuta casos onde as pessoas vêm contar.
21:32Kezia e Débora eram muito próximas.
21:34Em homenagem à irmã, Kezia fundou o Centro Débora Mesquita,
21:37que funcionou entre 2013 e 2020 em Teresina,
21:41na prevenção e pós-venção, ou seja, o cuidado com enlutados.
21:45Hoje, ela dá palestra sobre o assunto junto com o marido,
21:49Fernando Gutmann, e eles já publicaram livros a respeito.
21:52As pessoas às vezes me perguntam, você acha que a Débora foi salva?
21:58E o que você acha?
22:00Eu não tenho essa resposta.
22:02Eu não tenho.
22:04Mas por que eu me tranquilizo?
22:06Porque o justo juiz de toda a Terra conhece e sabe o que ela passou na última semana.
22:17Porque o assunto salvação, ele é exclusivo de Deus.
22:23E eu quero dizer, pra você que está aqui hoje,
22:27mas que também está dentro de uma caverna fina e escura,
22:31a luz do Senhor vai resplandecer
22:34sobre a tua vida, sobre a tua mente e o teu coração.
22:39Comendo o pão da vida, bebe do sangue que derrumei,
22:47o plano maior já venci, na cruz por ti eu conquistei.
22:55Eu te entendo bem e já sofri também
23:02Sai da caverna, eu restaurarei tua vida
23:09E sentimentos também
23:17E sentimentos também
23:22Tua vida e sentimentos também
23:30Aleluia
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