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  • há 4 semanas
Relação entre Brasil e Venezuela passa por um de seus momentos mais tensos, em meio disputas em relação ao resultado da eleição presidencial venezuelana e sobre a custódia da embaixada da Argentina no país.

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Transcrição
00:00A relação entre Brasil e Venezuela passa por um de seus momentos mais delicados.
00:04No centro disso estão disputas quanto ao resultado da eleição presidencial
00:08e, mais recentemente, em torno da custódia da embaixada da Argentina em Caracas.
00:13Mas até agora, o presidente Lula rejeita romper as relações diplomáticas com o governo de Nicolás Maduro.
00:19A gente não aceitou o resultado das eleições, mas não vou romper relações
00:24e também não concordo com a punição unilateral, o bloqueio.
00:28Porque o bloqueio não prejudica o Maduro, o bloqueio prejudica o povo.
00:33E eu acho que o povo não deve ser vítima disso.
00:36A posição de Lula vai na contramão da de alguns líderes sul-americanos,
00:40como o presidente de esquerda do Chile, Gabriel Boric.
00:43Eu sou Júlia Brown, da BBC News Brasil, e neste vídeo explico em cinco pontos
00:48por que o governo brasileiro mantém laços com o venezuelano e rejeita romper com o Maduro.
00:53Antes, um pouco de contexto.
00:55Desde que o Conselho Nacional Eleitoral Venezuelano declarou Nicolás Maduro
01:00como vencedor das eleições presidenciais de 28 de julho,
01:04a oposição questiona os resultados e afirma que o ganhador foi, na verdade, Edmundo Gonzalez.
01:10O Brasil, assim como diversos outros países, tem insistido no pedido
01:14para que a Venezuela divulgue as atas da eleição,
01:17com dados detalhados que permitam a checagem dos resultados.
01:21Mas enquanto Lula afirma que só reconhecerá um ganhador após ter acesso aos dados,
01:27os governos de Estados Unidos, União Europeia e alguns países da América Latina
01:31se posicionaram de forma mais enfática e rejeitaram o resultado.
01:36Em resposta a essas acusações de fraude,
01:38o governo Maduro expulsou as equipes diplomáticas de pelo menos sete países,
01:43incluindo a da Argentina.
01:45Só que a Embaixada Argentina está abrigando pelo menos seis opositores a Maduro
01:50e assessores de Maria Corina Machado, a principal líder da oposição venezuelana.
01:55Para não deixar o local sem tutela,
01:57o corpo diplomático brasileiro assumiu a custódia da embaixada,
02:01até que o governo venezuelano retirou a autorização dada ao Brasil
02:04e acirrou ainda mais os ânimos.
02:07É nesse contexto que aumentaram os questionamentos e cobranças
02:10por uma posição mais enfática do governo brasileiro,
02:14algo que, por enquanto, não parece estar nos planos de Lula.
02:18Vamos entender o porquê dessa posição.
02:20Diplomatas e especialistas que eu entrevistei explicam
02:23que uma questão central para o governo brasileiro
02:26é facilitar o diálogo com a Venezuela,
02:28até para resolver questões práticas do dia a dia.
02:31E são várias, já que o país compartilha 2.200 quilômetros de fronteira com o Brasil.
02:36Um diplomata da Cúpula do Itamaraty
02:39explicou para o meu colega Leandro Prazeres, de Brasília,
02:42que a avaliação do órgão é de que a tentativa de isolar a Venezuela
02:46durante o governo Jair Bolsonaro não surtiu o resultado esperado.
02:50Segundo essa linha de raciocínio,
02:52o isolamento também trouxe problemas ao Brasil,
02:55que teve de lidar com um aumento massivo da imigração venezuelana,
02:59tendo pouca ou nenhuma interlocução com autoridades do país vizinho.
03:03Foi isso que me explicou o professor Oliver Stunkel, da FGV.
03:06A avaliação é que o rompimento com um país vizinho,
03:12além de produzir poucos benefícios,
03:15ela gera uma série de dificuldades no dia a dia da gestão da relação,
03:22que tem pouco a ver com questões políticas,
03:24mas é sobre facilitar o trabalho dos consulados.
03:29Tem brasileiro casado com um venezuelano,
03:33tem filhos deles que vivem na Venezuela,
03:36tem toda a questão migratória,
03:38tem a gestão das fronteiras,
03:41tem coisas muito concretas, né?
03:46Animais não vacinados da Venezuela cruzando para dentro do território brasileiro,
03:50que pode ter um impacto na agricultura,
03:53questões que ficam todas mais fáceis se tiver uma relação, entre aspas, normal.
03:59Laura Weissbich, da Universidade de Oxford,
04:02acha que a fragilidade política venezuelana não interessa ao Brasil.
04:06E isso não só pelo aumento no fluxo de imigrantes,
04:10mas também por criar condições favoráveis
04:12para que organizações criminosas ampliem a presença na região amazônica ao longo da fronteira.
04:18Outro fator apontado pelos especialistas é o histórico conciliatório da diplomacia brasileira.
04:24Tradicionalmente, o Brasil não rompe relações diplomáticas com facilidade
04:28e só usa esse recurso quando realmente não existe mais diálogo.
04:32A diplomacia brasileira também preza muito pelo cumprimento do princípio
04:36de não interferência na política interna de outros países.
04:39E existe ainda uma prática diplomática comum na América Latina nos últimos anos
04:44que se apoia na ideia de que os problemas da região devem ser resolvidos internamente
04:49para evitar a influência de atores externos.
04:51O que nos leva ao terceiro ponto do vídeo,
04:54que é justamente o temor do governo Lula
04:56de envolvimento de outros países na América do Sul.
04:59Outro diplomata brasileiro afirmou à BBC
05:01que o Itamaraty avalia que isolar ainda mais a Venezuela
05:05não só não garantirá avanços democráticos ali,
05:08como pode ter o efeito colateral de aumentar a dependência do governo de Maduro
05:13em relação às superpotências que o apoiam, que são a China e a Rússia.
05:17Não por acaso, os dois países foram alguns dos poucos
05:20que rapidamente reconheceram como legítimos os resultados das eleições presidenciais de julho.
05:26Carolina Pedroso, professora da Unesp, me explicou que o conflito interno da Venezuela
05:31incorpora diversas outras disputas geopolíticas globais.
05:35Segundo ela, se de um lado Maduro se alinha com China, Rússia, Irã, Turquia e Cuba,
05:40do outro, a oposição é muito próxima dos Estados Unidos e da União Europeia em termos ideológicos
05:45e também de empresas que desejam explorar o petróleo venezuelano.
05:50Outro ponto é que a estratégia do Brasil até agora, ao lado da Colômbia,
05:54tem sido apostar no diálogo com Maduro.
05:57Na prática, além de fazer consultas com o governo e a oposição venezuelanos,
06:01os dois países lançaram um pacote de propostas para tentar resolver a crise política no país vizinho.
06:07Os esforços não parecem ter dado resultado até o momento,
06:10mas diplomatas que a gente consultou afirmam que o governo brasileiro deseja manter a posição de mediador
06:15caso a situação venezuelana se agrave.
06:18O argumento é o de que romper com a Venezuela pioraria uma situação que já é ruim
06:23e dificultaria ainda mais qualquer tentativa de influenciar Maduro.
06:27Em resumo, a tese é, se mesmo próximo o Brasil enfrenta dificuldades para influenciar o regime venezuelano,
06:34ao ficar distante, essa missão poderia se tornar impossível.
06:37Essa posição já rendeu muitas críticas ao petista, inclusive de figuras da esquerda sul-americana.
06:43Veja o que disse o presidente chileno Gabriel Boric em maio de 2023,
06:48quando Lula declarou que a imagem do autoritarismo da Venezuela era, entre aspas, uma narrativa.
06:55E aí eu manifestei, respetuosamente, que tinha uma discrepancia com o que señalou o presidente Lula o dia de ayer,
07:01no sentido em que a situação de direitos humanos na Venezuela era uma construção narrativa.
07:07Não é uma construção narrativa, é uma realidade, é seria,
07:10e eu tive a oportunidade de ver ela nos olhos e no dolor de cientos de miles de venezuelanos
07:16que hoje em dia estão em nossa pátria e que exigem também uma posição firme e clara
07:24respeito a que os direitos humanos devem ser respeitados sempre e em todo lugar,
07:30independente do color político do governante de turno.
07:34Para Lula, existe ainda o desafio de se equilibrar entre a posição adotada pelo seu governo oficialmente,
07:39por meio do Itamaraty, e o elo histórico do Partido dos Trabalhadores com o chavismo.
07:45O PT, inclusive, reconheceu a vitória de Maduro no dia seguinte à eleição.
07:49O próprio Lula, historicamente, nutriu relações cordiais com Hugo Chávez
07:53e outros representantes da esquerda latino-americana ao longo dos seus mandatos.
07:58Segundo analistas, esses antecedentes também tornam improvável um rompimento total de relações com a Venezuela.
08:05Carolina Pedroso, da Unesp, me explicou que uma ala do PT enxerga os problemas venezuelanos
08:10como fruto do que chamam de gerência do imperialismo norte-americano,
08:15uma tese que ignora os problemas endógenos do chavismo.
08:18Lula expressou apoio claro ao atual presidente venezuelano publicamente em diversas ocasiões.
08:24Mas o tom mudou bastante às vésperas das eleições venezuelanas.
08:27Naquela ocasião, Lula disse ter ficado assustado com declarações de Maduro
08:32sobre um eventual banho de sangue, caso não vencesse a disputa.
08:36O venezuelano respondeu com um recado ríspido para Lula.
08:39Abre aspas.
08:40A quem se assustou, que tome chá de camomila.
08:43Fecha aspas.
08:44Carolina Pedroso disse não acreditar que a posição mais radical de algumas alas do PT
08:49em relação ao chavismo seja compartilhada por Lula ou pelo assessor Celso Amorim.
08:54Mas afirma que definitivamente existe pressão interna no partido.
08:58O diplomata que a nossa reportagem ouviu diz também que a atual postura do Brasil
09:02pode sofrer uma mudança a partir de 10 de janeiro de 2025.
09:06Esta é a data prevista para o começo do novo mandato de Maduro.
09:10Até agora, o presidente está no legítimo cumprimento de seu atual mandato, diz a fonte.
09:15Mas o que acontece após Maduro assumir um novo mandato por meio de eleições cujo resultado o Brasil não reconhece?
09:21Nós da BBC News Brasil vamos continuar acompanhando esse capítulo da política externa brasileira de perto.
09:27Siga nosso site, nossas redes sociais e canais no YouTube e no WhatsApp para se manter informado.
09:32Obrigada pela audiência e até a próxima.
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