00:00O mundo é um lugar mais violento hoje do que no começo deste século.
00:03Há pelo menos oito grandes guerras sendo travadas no momento,
00:07além de dezenas de conflitos armados em busca de territórios ou governos.
00:11Junto à guerra entre Israel e o grupo palestino Hamas, na faixa de Gaza,
00:15que desde 7 de outubro acumula milhares de mortos,
00:18e a invasão russa da Ucrânia, que completará dois anos em fevereiro de 2024,
00:23conflitos em grande escala estão ocorrendo em sete países.
00:26Eu sou Julia Granck, da BBC News Brasil em Londres,
00:29e neste vídeo vou te contar quais são essas guerras
00:31e por que muitos desses conflitos não ganham tanta atenção ao redor do mundo,
00:36mesmo com índices altos de mortos e destruição.
00:39Para começar, vamos falar sobre o que exatamente pode ser chamado de guerra ou conflito.
00:43Existem diferentes interpretações sobre a definição.
00:46Uma das mais adotadas por grupos internacionais de estudo tem o número de mortos como parâmetro,
00:52definindo como guerras os confrontos que atingem pelo menos mil mortes no período de um ano.
00:57Já conflitos armados são as disputas por territórios ou governos que resultam em pelo menos 25 mortes durante um ano.
01:04Várias organizações têm alertado para um aumento de conflitos armados nos últimos anos,
01:09depois de décadas em níveis historicamente abaixo da média.
01:12Existem várias razões para isso, como explicou ao meu colega Ricardo Senra,
01:16o professor Paul B. Stairs, do Council of Foreign Relations,
01:19um grupo de pesquisa nos Estados Unidos que mapeia os conflitos globais.
01:23Segundo Stairs, entre os fatores para o aumento de conflitos estão as crescentes tensões econômicas e sociais
01:29sobre estados mais frágeis, a rivalidade mais exacerbada entre as grandes potências
01:34e até mesmo aos efeitos iniciais das mudanças climáticas.
01:38Um projeto sueco que publica dados verificados sobre conflitos e é usado como referência por órgãos da ONU,
01:45pelo Banco Mundial e outras entidades internacionais,
01:48estima que o número de mortes relacionadas a combates armados no ano passado
01:52foi mais do que cinco vezes o verificado no início deste século.
01:56A segunda questão é, por que alguns conflitos ganham mais visibilidade internacional do que outros?
02:01Segundo os professores ouvidos pelo repórter Ricardo Senra,
02:04há também muitos fatores que influenciam nisso.
02:06As duas guerras mais discutidas do momento, Israel e Hamas,
02:10e Rússia contra a Ucrânia, ganham mais destaque pelo risco de acabar envolvendo outros países,
02:15inclusive grandes potências com armas nucleares.
02:18Entre outros elementos com influência na visibilidade do conflito,
02:22estão a proximidade com grandes centros populacionais,
02:25restrições ou não à circulação de jornalistas e ONGs,
02:28a disponibilidade de registros, como fotos, vídeos e relatos circulando em redes sociais,
02:34e a familiaridade geográfica e cultural do grande público consumidor de notícias
02:39com os países envolvidos na crise.
02:41A falta de destaque para um determinado conflito, segundo os especialistas,
02:46pode afetar diretamente o desenrolar dos combates e a pressão por cessar fogo e corredores humanitários.
02:52Na avaliação de Paul B. Stairs, níveis elevados de preocupação ou indignação
02:57nas populações de grandes potências econômicas e militares
03:00influenciam a disposição destes países em dedicar atenção e recursos pela paz.
03:05Ele observa também que, quando uma determinada disputa está longe dos holofotes,
03:09as partes envolvidas percebem que podem agir com impunidade
03:12pela sensação de que a comunidade internacional, num certo sentido,
03:16não se importa com aquela situação.
03:18O professor Magnus Oberg, diretor do Uppsala Conflict Data Program,
03:22lembra que a visibilidade pode ser crucial para o envio de ajuda humanitária.
03:26Mas, por outro lado, ele adverte também que há possíveis efeitos colaterais dessa visibilidade.
03:31Nas palavras dele, isso pode complicar a busca por soluções ou redução de tensões,
03:36porque atores ou subgrupos mais extremistas podem usar ou gerar a atenção dos meios de comunicação
03:42para incitar a opinião pública, tornando mais difícil, por vezes quase impossível,
03:48que se chegue a acordos ou se evite uma escalada.
03:50Chegamos aqui ao nosso terceiro ponto.
03:52Quais são as outras principais guerras em curso no mundo,
03:55além das que envolvem Israel e Hamas e Ucrânia e Rússia?
03:59O ano passado é considerado o mais mortal por conflitos desde o genocídio de Ruanda, em 1994,
04:05com um total de 237 mil mortes, de acordo com informações do Journal of Peace Research,
04:12publicado na Noruega.
04:13O aumento brusco em 2022 foi puxado principalmente por duas guerras particularmente violentas.
04:19Rússia e Ucrânia, com mais de 81 mil e 500 mortos,
04:22e a da Etiópia contra a frente da libertação do povo Tigray,
04:25com 101 mil vítimas fatais até o fim de 2022.
04:29Therese Patterson, coordenadora do Uppsala Conflict Data Program,
04:33estima que o fim do conflito sangrento na Etiópia
04:36deve fazer com que 2023 termine com um número de mortos em conflitos
04:40ligeiramente menor do que no ano anterior.
04:43Ainda assim, as estatísticas devem ser superiores aos da maioria dos anos do século XXI,
04:48incluindo 2021, com a prolongação de conflitos como o da Ucrânia
04:52e a guerra civil no Iêmen,
04:53que, segundo a ONU, já causou mais de 300 mil mortos desde seu início em 2014,
04:59além da guerra entre Israel e Hamas.
05:01A seguir, eu conto para vocês sobre as principais guerras que continuam sem muita atenção no mundo.
05:06A guerra em Burkina Faso é a parte mais violenta de um conflito armado mais amplo na região do Sahel,
05:11que fica no norte da África e inclui regiões de 10 países.
05:15Desde 2016, Burkina Faso é palco de confrontos violentos entre forças armadas do governo
05:20e grupos islâmicos e insurgentes como o Ansaru Islã, ligado à Al-Qaeda,
05:25e ao Estado Islâmico, no Sahel.
05:27A Anistia Internacional estima que pelo menos 46 locais em Burkina Faso
05:31estavam sob cerco de grupos armados em julho de 2023.
05:35Em 2022, ano mais mortal desde o início dos registros,
05:391.418 civis foram mortos.
05:44A guerra civil da Somália se intensificou na primeira década dos anos 2000
05:48com a ascensão do grupo islâmico Al-Shabaah, aliado da Al-Qaeda.
05:52O Al-Shabaah tenta derrubar o governo local, que é apoiado por países do Ocidente.
05:56O objetivo do grupo é estabelecer seu próprio governo baseado numa interpretação radical da lei islâmica.
06:02Segundo a ONG Human Rights Watch, o grupo armado islâmico Al-Shabaah
06:07conduz ataques indiscriminados e direcionados contra civis e recruta crianças à força.
06:12O nível de violência aumentou em 2022,
06:15atingindo o número mais alto de vítimas mortais desde o início da década de 1990,
06:21segundo o Uppsala Conflict Data Program.
06:25A Agência da ONU para os Refugiados disse que uma crise humanitária inimaginável está se desenrolando no Sudão.
06:32Quase 6 milhões de pessoas foram forçadas a abandonar as suas casas desde o início da guerra, em abril deste
06:37ano.
06:38Em seis meses, a guerra entre os militares do Sudão e um grupo paramilitar que tenta tomar o governo
06:43deixou até 9 mil pessoas mortas, segundo as Nações Unidas,
06:46e criou um dos piores pesadelos humanitários da história recente.
06:50Segundo a Agência de Migração da ONU, os combatentes deixaram 25 milhões de pessoas dependendo de ajuda humanitária,
06:57o que significa mais de metade da população.
07:03Um golpe militar em 2021 e a consequente repressão a manifestantes contrários ao novo regime
07:09foram o ponto de partida para a escalada da violência no país do Sudeste Asiático.
07:14Segundo pesquisadores independentes citados pela ONU,
07:17mais de 13 mil crianças morreram no país e 1 milhão e 300 mil pessoas foram deslocadas de suas casas.
07:23Diversos grupos insurgentes atuam no país desde os anos 1950.
07:28Muitos deles são armados e radicalizaram sua atuação tentando tomar o poder e derrubar o novo regime militar.
07:37No dia 8 de novembro, o governo dos Estados Unidos afirmou que um de seus drones militares
07:42foi derrubado na costa do Iêmen por rebeldes do grupo Houthi.
07:46O grupo é apoiado pelo Irã e segue uma corrente do islamismo chiíta, conhecida como zaidismo.
07:51A queda do drone americano foi a lembrança de um conflito que vem assolando o Iêmen desde 2014
07:57e que opõe principalmente os Houthi contra o governo iemenita,
08:01que é apoiado pela Arábia Saudita, rival do Irã.
08:04Em setembro daquele ano, os Houthi tomaram a capital iemenita, Sana, e expulsaram o governo oficial.
08:10Uma coalizão liderada pela Arábia Saudita e apoiada pelo Reino Unido e Estados Unidos reagiu.
08:16Mas oito anos e milhares de ataques aéreos depois, os rebeldes ainda controlam a capital.
08:21Uma diminuição da violência pode ser atribuída em parte a uma trégua de seis meses mediada pela ONU em 2022.
08:28Mas há informações de que as negociações entre sauditas e os Houthi pararam
08:32e que as facções envolvidas no conflito não têm participado das conversas.
08:37O país está cada vez mais fragmentado, e não apenas dividido pelos Houthi e pelo governo iemenita.
08:43Há, por exemplo, um movimento separatista apoiado pelos Emirados Árabes Unidos,
08:47que luta pela independência do Sul.
08:50Uma das facetas mais cruéis desse longo e confuso conflito é a morte e mutilação das crianças,
08:55vítima dos Houthi, dos ataques aéreos da coalizão liderada pela Arábia Saudita e das forças do governo oficial.
09:06Conflitos internos distintos na Nigéria e na Síria estão próximos de atingir a marca de mil mortos
09:11em combates cada um, alçando os dois à classificação de guerra.
09:15A Nigéria é palco de violência por grupos organizados desde sua independência, em 1960.
09:21O principal foco atualmente são batalhas entre forças do governo e grupos radicais islâmicos
09:26em diferentes estados que buscam controle dos territórios.
09:30Já a guerra civil na Síria, que tem origem em protestos contra o governo do presidente
09:34Bashar al-Assad, em março de 2011, envolve grupos rebeldes e grandes potências estrangeiras
09:40como a Rússia, a Turquia, o Catar, a Arábia Saudita e os Estados Unidos.
09:46Por hoje é isso.
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09:53Obrigada e até a próxima.
10:00Obrigada e até a próxima.
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