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  • há 4 semanas
Sobrevivente do desabamento de um prédio em Vila Velha, a doceira Larissa Morassuti, de 37 anos, conta como está sendo o recomeço uma semana após a tragédia

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Notícias
Transcrição
00:03Boa noite gente, estou fazendo esse vídeo para dar uma satisfação a todo mundo que tem se
00:16preocupado comigo. Eu sou doceira há 7 anos e quem me acompanha nesses 7 anos sabe que eu nunca fiz
00:23um vídeo de divulgação do meu trabalho porque eu tinha vergonha de fazer, só que na circunstância eu tenho
00:33que fazer para dar uma satisfação para vocês, de todo mundo que orou, de todo mundo que se preocupou
00:38com essa tragédia terrível. Eu tive alta ontem, eu não dei uma satisfação antes porque eu não tinha celular,
00:50nem tinha acesso a nada. Eu fiquei na UTI, na UTI não tinha acesso a celular e a equipe médica
01:03era
01:03completamente proibida de me passar informações externas, então eu não sabia nada do que estava
01:10acontecendo. Então ontem mesmo quando eu tive alta eu fui comprar um celular, eu comprei, eu anotei aqui
01:19gente algumas coisas das coisas que eu vou passar para vocês, porque a minha cabeça não está muito boa,
01:25então eu precisei anotar aqui o básico, o básico do que eu vou conseguir passar para vocês nesse primeiro momento.
01:37O hospital não tinha dimensão nenhuma de como isso estava aqui fora, eu não tinha ninguém, minha família não me
01:48passava.
01:53Algumas pessoas me reconheceram na rua, me viram andando e tal e tipo, ah mas ficou na UTI, mas estava
02:01andando.
02:01Eu fiquei na UTI, eu vou explicar para vocês porque eu fiquei na UTI, eu fiquei na UTI porque com
02:09o impacto dos escombros
02:11que caíram em mim, subiu uma taxa lá que eu não sei explicar o nome e essa taxa alta poderia
02:18dar uma falência
02:19no meu rim. Ou seja, essa taxa precisava baixar porque o meu rim poderia parar de funcionar e aí ou
02:29eu poderia virar óbito ou eu teria que ficar fazendo
02:33hemodiálise o resto da minha vida. Então era por isso que eu estava na UTI, apesar de lúcida, eu estava
02:40na UTI por esse motivo,
02:42porque era tipo uma coisa interna, que não parece por fora que você está ruim, mas por dentro estava com
02:51problema.
02:57Gente, sete anos de mercado, eu trabalhei passando mal tantas vezes. Quando eu saí daquele buraco, eu estava tão...
03:09É tão surreal, é tão... É tão inacreditável que eu não tinha dimensão do que tinha acontecido.
03:21Eu saí do buraco, direto para a UTI móvel, falando das minhas clientes.
03:29Gente, as minhas clientes, as minhas clientes e a minha irmã, as clientes e a minha irmã, porque eu estava
03:41preocupada com isso.
03:43Não sei explicar para vocês, mas era a minha responsabilidade. Eu achava, o acidente aconteceu na quinta-feira,
03:51eu ainda estou meio desorientada da quantidade de dias do que aconteceu, porque no hospital eu não tinha celular, eu
03:58não tinha nada.
04:02Eu achava que eu ia ter alta e conseguia entregar os doces de sábado, para vocês terem uma noção.
04:10Então, assim, peço perdão para as minhas clientes. É uma coisa que não estava no meu controle.
04:22Eu não vou nem entrar no mérito desse vídeo, da questão da perda dos meus familiares, porque isso...
04:36Só a saudade. Só a saudade. Eu vim aqui prestar uma satisfação da minha sobrevivência, no caso, para vocês.
04:45Eu não dei satisfação para vocês antes. Não foi porque eu não quis, não foi porque eu estava rejeitando, não
04:51foi nada disso.
04:52É porque está um caos, está um caos, a vida está um caos. Parece um pesadelo que não vai acabar
04:58nunca.
05:00Eu não vi a minha família ainda.
05:03Minha irmã tinha duas filhas, uma que faleceu, que era como se fosse minha filha, tinha a idade da minha
05:09filha, era como se fosse minha filha.
05:11É como se eu tivesse perdido uma filha.
05:13E a minha irmã tinha outra filha, mais nova do que aquela, e eu ainda nem tive...
05:20Eu ainda nem vi a minha sobrinha, para vocês terem ideia.
05:24Eu não vi meu tio. Meu tio passou mal, meu tio quase faleceu, meu tio quase infartou.
05:31A minha tia está passando mal.
05:32Então, assim, foi esse o motivo de tanta demora de eu aparecer, apesar de eu ter saído de alta ontem.
05:45Eu não sei por onde recomeçar a minha vida.
05:51Eu sou uma... quem me conhece sabe que eu sou uma pessoa forte desde quando eu perdi a minha mãe
05:55há 15 anos atrás.
05:56Mas eu luto, né, basicamente assim, entre aspas, sozinha.
06:04Mas foi uma enxurrada de oração, foi uma enxurrada de ajuda.
06:09Mas mesmo com toda a ajuda do mundo, eu ainda não sei por onde recomeçar.
06:20Não tenho previsão de quando a minha vida vai voltar ao normal.
06:24E, na verdade, o normal, quando for normal, não vai ser normal.
06:30Porque perdi três pessoas que eu tinha convívio diário.
06:35Meu pai era o meu melhor amigo.
06:38Meu pai me ajudava em tudo.
06:39A minha irmã...
06:43Ai, gente, é muito triste.
06:46É muito triste.
06:50Desabei
06:53porque
06:54a minha família não aguenta mais perder ninguém.
07:02Eu me sinto culpada de ter sobrevivido.
07:06Essa é a verdade.
07:07Eu não sei como a internet vai me julgar
07:11quando eu falo isso.
07:14Mas eu me sinto culpada de ter sobrevivido sozinha.
07:18Entende?
07:20Por que eu sobrevivi?
07:23Entendeu?
07:24Então, assim...
07:25E quando eu falo isso, a minha família fica triste.
07:28Mas é o que eu sinto.
07:29Eu me sinto culpada.
07:32E, obviamente, eu vou fazer tratamento psicológico
07:35para estar superando tudo isso
07:38sobre essas questões psicológicas e espirituais.
07:42Gente, é fisicamente...
07:49Humanamente impossível uma pessoa sobreviver
07:52a um desabamento daquilo sem quebrar nada.
07:56Sem sair aleijada.
07:59Eu saí com cortes.
08:03Só...
08:05Foi um milagre.
08:06Eu sei que foi um milagre.
08:09Só que...
08:10Nas questões espirituais...
08:12E todas as pessoas que eu encontrei na rua
08:15que me encontraram...
08:16Ah, Deus tem um propósito na sua vida
08:18para só você ter sobrevivido.
08:21Só que eu ainda não sei qual é esse propósito.
08:24E eu ainda estou nesse questionamento de...
08:27Precisava a minha família morrer
08:29para o meu propósito se cumprir.
08:31Então, assim...
08:33É uma questão pessoal.
08:37Religiosa.
08:39E que se alguém falar...
08:41Nossa, que a Larissa é tão ingrata
08:43de ter sobrevivido.
08:45E falar que...
08:47Se sente culpada de ter sobrevivido
08:49porque talvez outra pessoa
08:50queria ter sobrevivido.
08:53Mas...
08:54É muito difícil, gente.
08:56É muito difícil você...
08:59Você não saber qual é o propósito disso.
09:02Qual o propósito na morte
09:04de uma menina de 15 anos?
09:06Qual o propósito na morte
09:08de uma menina de 15 anos?
09:10Que era uma criança.
09:15Outra coisa importantíssima.
09:18A vaquinha que a Patrícia fez.
09:21Foi com a vaquinha dela
09:23que eu comprei o celular.
09:25É a vaquinha dela que vai me ajudar
09:27a recomeçar na questão material.
09:31Que é na questão psicológica.
09:33Ninguém pode fazer nada por mim.
09:35Entendeu?
09:36O que vocês estão fazendo por mim
09:38é na questão material.
09:40Porque eu realmente perdi tudo.
09:42Tudo que eu demorei 37 anos
09:45pra conquistar.
09:47Eu perdi.
09:48Mas tudo bem.
09:49Isso não é o problema.
09:50Porque eu perderia tudo
09:52só pra ter meu pai, minha irmã,
09:53minha sobrinha de volta.
09:55Mas a vaquinha que a Patrícia fez,
09:59ela pensou no meu recomeço.
10:01Porque até material de trabalho
10:03eu perdi.
10:03Então, por exemplo,
10:05se eu quisesse começar a fazer doce amanhã,
10:07eu não tinha como.
10:08Porque eu não tenho material pra fazer.
10:10E algumas pessoas ficaram até na dúvida
10:13de se a vaquinha que ela tava fazendo
10:15realmente era pra mim.
10:18Mas é pra mim.
10:20Ela fez pra mim.
10:22Ela já transferiu parte do dinheiro
10:24que foi o dinheiro que eu comprei o celular.
10:26E eu não tô gastando dinheiro à toa, gente.
10:28Porque realmente eu não tenho onde morar.
10:31Eu recebi propostas de casas emprestadas.
10:36E eu nem consegui ver isso ainda.
10:39Entende?
10:40Tipo,
10:42a vaquinha é legítima.
10:45Infelizmente,
10:46a gente sabe como que a internet é cruel.
10:49Teve gente
10:51achando que...
10:52Eu chamo ela de Pipi, tá, gente?
10:54O nome dela é Patrícia.
10:56Mas a gente cresceu junto.
10:57A gente tem a mesma idade?
10:58A gente cresceu muito junto.
11:00Porque prima, né?
11:02A mãe dela é irmã da minha mãe,
11:04que já é falecida.
11:06A gente cresceu junto.
11:07A gente teve a nossa infância junto.
11:12Ela fez pra mim e não faria, gente,
11:15sentido nenhum ela fazer vaquinha no meu nome.
11:18Porque eu nem...
11:20Pra que conta vocês iam mandar dinheiro pra mim?
11:23Tipo, não tinha sentido, entendeu?
11:26Com que cartão?
11:28Não tinha sentido nenhum.
11:31Sabe?
11:31Então, ela fez o nome dela.
11:33A vaquinha é legítima.
11:35A vaquinha continua.
11:37A vaquinha continua.
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