00:00Deus abençoe, tenha um ótimo dia, tá? Vai com Deus. Muito obrigada. Muito obrigada pela ajuda.
00:08Um ótimo dia pra vocês.
00:11Aos 28 anos e com o ensino fundamental incompleto, Suelen Casado de Andrade encontrou nos cruzamentos
00:17sob a terceira ponte na enseada do Suá, o ponto para tirar o sustento de sua família.
00:23Com pacotes de bala, chiclete e paçoca em uma mão e uma placa de apelo na outra,
00:27a jovem circula por entre os carros, buscando a solidariedade atrás de vidros fechados.
00:33Na verdade, na hora foi desespero, por causa da minha filha pequena, né?
00:39E o aluguel que eu tenho que pagar.
00:41Hoje em dia, graças a Deus, eu estou me mantendo muito bem com as pessoas me ajudando, né?
00:47Também, que às vezes as pessoas já conhecem a situação aqui da minha família e eles estão me ajudando bastante.
00:54No abrir e fechar do semáforo, muitos motoristas ignoram a presença dela e de outros que disputam espaço na região.
01:01Tem algumas que perguntam, não é pra usar droga não, né?
01:05Tem umas que falam que a gente devia ter vergonha de estar com placa, que não sei o que, se
01:11não tivesse que ajudava.
01:13Mas a placa é pra me transmitir porque eu estou trabalhando no sinal, entende?
01:19E também tem outras pessoas que fecham o vidro, que na hora, assim, olham, lê a placa, depois abaixam, parece
01:28que vai pegar alguma coisa pra ajudar a gente.
01:30Aí pega um álcool em gel e limpa a mão, como se estivesse dizendo, sem precisar de palavras.
01:35Tipo assim, tem nojo de pegar um doce nosso.
01:39E algumas pessoas dão um dedo também.
01:41São poucas, mas quando acontecem essas coisas é muito ruim.
01:45Muito ruim.
01:46Machuca demais.
01:47Mas Suelen não pode se abater com a indiferença, porque ela tem um propósito.
01:52Tenho minha casa própria.
01:54Tenho minha casa própria.
02:00Desculpa.
02:07Porque eu tenho medo de morar na rua de novo.
02:17Hoje eu trabalho com todas as minhas forças pra mim não correr o risco de não conseguir pagar um aluguel
02:26e ter que pedir alguém pra vigiar minha filha porque eu não tenho onde morar.
02:33Ela é um tesouro.
02:35Graças a ela eu tô encontrando forças pra trabalhar, pra pagar meu aluguel, pra dar de tudo pra ela.
02:44Não é pra não faltar nada.
02:47São cerca de oito horas de trabalho diário para arrecadar em média cem reais.
02:52E a cada dois dias gasta praticamente a mesma quantia para repor os produtos que vende no sinal.
02:58Debaixo de chuva, debaixo de sol, às vezes a gente tá incomodada porque muito suada, muito cansada, mas não pode
03:04parar, né?
03:05Porque a gente tem que comprar doces pra repor todos os dias e também, assim, a gente tem que sempre
03:15dar uma coisinha pra nossa filha, comprar uma frutinha, alguma coisa.
03:18Então sempre tá gastando ali.
03:19Aí na hora de juntar mesmo, é pouco.
03:23Tem gente, assim, que compra e não tem o dinheiro todo trocado pra me dar e mesmo assim eu não
03:28faço questão, entendeu?
03:30Aí essa pessoa vê minha atitude, vai lá e abre a carteira e pega uma quantia pra me ajudar.
03:36Às vezes a pessoa não tem na hora e depois aquela pessoa, depois de muito tempo, volta aquele dia, igual
03:41aconteceu ontem.
03:43Aí me ajuda e muitas pessoas aqui estão me ajudando com cesta básica.
03:49Igual hoje eu ganhei uma cesta básica no primeiro sinal que eu fui.
03:54E agora acabei de ganhar um bolo.
03:56Com o marido, que também vende doces no semáforo, junta mais um dinheirinho para pagar o aluguel e uma vizinha
04:03que cuida de sua filha Julie, de pouco mais de dois anos.
04:07Antes, a menina ia para a rua com os pais.
04:10Antigamente sim, que meu esposo tava operado do pé, né?
04:14Aí ele não podia trabalhar, ele trazia ela e olhava ela.
04:18Só que algumas pessoas já começaram a falar que eu tava usando a minha filha pra ganhar dinheiro, porque muita
04:23gente ajudava a gente, dava presente pra ela.
04:26E aí a gente conseguiu uma pessoa de confiança pra olhar ela e viu a nossa situação, então não cobra
04:34muito caro.
04:35E a gente consegue pagar, graças a Deus.
04:38A rotina pesada tem mais um complicador.
04:40Após uma queda, lesionou a coluna e fraturou a perna direita, que mesmo após cirurgia, deixou sequelas e dificuldades de
04:48locomoção.
04:49Tinha uma... como se diz?
04:52No INSS, né?
04:53O INSS.
04:55Só que eles me negaram lá, em 2018.
05:00E aí agora, eu tô tentando de novo com o advogado, porque ele falou que eu tenho todo o direito,
05:07né?
05:08Porque eu tenho duas cirurgias e minhas cirurgias não é uma coisinha simples.
05:13São cirurgias que hoje eu tô andando, pela graça de Deus.
05:17E assim, seria muito bom, por causa que eu sinto muitas dores.
05:21Eu ando o dia inteiro naquele sinal e dói demais, dói demais.
05:27Quando eu paro em casa, eu não consigo nem andar.
05:30A taxa média de informalidade no Espírito Santo em 2021, segundo o IBGE, foi de 39,4%,
05:38correspondendo a 749 mil ocupados informais, a exemplo da Suela.
05:43Sim, não dá pra parar.
05:45Não dá.
05:47Hoje em dia, eu não me vejo sem o meu trabalho.
05:51Eu não penso, porque não tem como viver sem ele.
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