00:00O que a gente está vendo na Rússia e na Ucrânia hoje é resultado de um contexto maior que já
00:04vem acontecendo desde o fim da Guerra Fria
00:06em que a gente observa a OTAN, Estados Unidos e outros aliados da Europa Ocidental, avançando para uma área que
00:15tradicionalmente era uma zona de influência da Rússia.
00:18Esse contexto geral que vem perdurando desde então, ou seja, nos últimos 30 anos, fez com que a Rússia, depois
00:27de décadas e décadas, enquanto ainda na União Soviética,
00:31de construção de uma rivalidade, décadas de rivalidade com os Estados Unidos, começasse a se sentir cada vez mais ameaçada.
00:40O posicionamento de forças militares da OTAN ali no leste europeu nunca agradou a Rússia e a Rússia não conseguia
00:47ficar feliz e satisfeita e muito menos segura com isso.
00:50O que acontece? A Rússia é o que a gente chama de uma potência revisionista.
00:55É uma potência que não está satisfeita com a ordem internacional do modo que está e que evidentemente quer transformar
01:02essa nova ordem internacional para o seu favor.
01:06Em todo esse contexto que a gente vem observando nos últimos 30 anos de expansão da OTAN rumo às áreas
01:14de influência tradicionalmente russas,
01:16a gente tem uma questão mais pontual e específica e diretamente ligada, que é a questão da Ucrânia.
01:22Primeiro, domesticamente existem movimentos na Rússia que nunca entenderam e nunca aceitaram a independência da Ucrânia,
01:30que sempre entenderam a Ucrânia como parte da Rússia.
01:33Não à toa, uma parcela importante da população ucraniana, ainda que minoritária, é de origem russa, fala russo e mora
01:41inclusive nas regiões,
01:43nas províncias de Donetsk e Lugansk que ficam próximas à Rússia e que são justamente as regiões e que tem
01:49as províncias separatistas que foram pivôs de toda essa questão.
01:52Desde 2014, quando há um movimento separatista de fato, a gente tem a tentativa de implementação dos acordos de Minsk
02:021 e 2, justamente tentando estabilizar a situação na Ucrânia.
02:07As negociações desses acordos acabaram não dando muito certo, já desde dezembro desse ano, quando a Rússia aumentou a pedida.
02:18A Rússia, justamente pensando na segurança e pensando na contrapartida doméstica que tinha que dar para os seus movimentos nacionalistas,
02:26começou a fazer demandas justamente que nenhum governante ucraniano poderia aceitar,
02:32que seriam demandas que praticamente garantiriam a independência das províncias de Donetsk e Lugansk.
02:39Como essas negociações não foram evoluindo, a Rússia começou a fazer uma escalada militar, começou com aquela movimentação de tropas
02:48perto da fronteira com a Ucrânia,
02:50no que ela estava passando uma mensagem clara, eu vou conseguir o que eu quero, seja pela via negociada, seja
02:56pela via armada.
02:58E começou a se perceber então que não se levava a ameaça séria, mas sim que se levava justamente a
03:04essa movimentação russa
03:05como uma espécie de intransigência russa, o que não deixa de ser verdade.
03:09O que acontece? Quando a Rússia percebe que nem isso basta, ela faz o movimento de entrar com as suas
03:17tropas primeiras
03:18e reconhece as províncias separatistas como independentes, justamente para mandar a mensagem de novo,
03:23eu consigo o que eu quero e, portanto, esta região é independente, não é mais Ucrânia,
03:29e prestem atenção que eu não estou satisfeito, que a Rússia não está mais satisfeita com a presença do leste
03:34europeu,
03:34da OTAN no leste europeu.
03:36A reação que veio disso foi muito forte, parece que o Ocidente não aceita a atitude russa
03:43e, justamente, até mesmo na ONU, em Conselho de Segurança, em Assembleia Geral, o que é bastante raro,
03:49e também por uma série de pacotes de sanções que não têm efeitos práticos,
03:54mas que têm uma mensagem muito clara passando,
03:57a Rússia entende que o Ocidente vai continuar numa postura mais para encurralar a Rússia nesse sentido
04:05e que, portanto, a OTAN ou o Ocidente não desistiriam dessa sua tentativa de ampliação da esfera de influência
04:12para onde a esfera de influência é russa.
04:13A Rússia, se sentindo acuada, age como uma fera encurralada.
04:19Como toda a fera encurralada, ela resorta, ela volta para o uso da força,
04:25que é exatamente esses primeiros ataques que a gente viu nessa noite e esses ataques que a gente está vendo
04:30hoje.
04:30É uma guerra que a gente pode chamar de guerra de posição.
04:33A Rússia talvez hoje não esteja pensando em anexar a Ucrânia.
04:39Talvez.
04:41A Rússia talvez hoje esteja realmente preocupada, principalmente, em dar uma mensagem para o Ocidente,
04:46em marcar a sua posição no tabuleiro de xadrez que é a política internacional,
04:52e dizendo, e vocês estão me encurralando, tomem cuidado,
04:56porque a Rússia está disposta a usar a sua força para garantir a sua segurança e a sua sobrevivência.
05:03É essa a principal mensagem que a Rússia está passando através dessa guerra.
05:07E resta saber se o Ocidente vai querer escutar isso e entender que,
05:13por mais que a Rússia pode ter sido intransigente,
05:16por mais que a Rússia possa ter violado o direito internacional,
05:20o que a Rússia está fazendo, na verdade, é uma reação a toda uma ofensiva diplomática e estratégica
05:26dos Estados Unidos e dos seus aliados da OTAN.
05:29A grande questão que fica para a gente é,
05:31vamos entender essa mensagem, acalmar os ânimos e sentar para negociar com a Rússia,
05:36ou vamos continuar provocando?
05:38Eu acredito que essas sanções vão permanecer do jeito que estão
05:43e que, sinceramente, a gente pode esperar um capítulo diplomático para os próximos dias,
05:50só que, enquanto esse capítulo diplomático se desenvolve,
05:53a gente vai observar o teatro de guerra na Ucrânia acontecendo com uma ofensiva russa.
05:59Isso é muito provável.
06:01A gente vai observar o teatro de guerra na Ucrânia acontecendo com uma ofensiva russa.
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