00:00Essa dor que eu tô sentindo, ninguém mais sente, não.
00:02Entendeu?
00:03Porque o natural da vida é os filhos enterrar os pais, né?
00:06E a gente faz um negócio desse.
00:09É duro demais.
00:31Uma criança muito alegre.
00:34Não tinha tempo ruim nenhum pra ele.
00:37O pai dele levantava de manhã cedo, a primeira coisa que ele fazia que a gente dá rosta é a
00:40mani.
00:41Assim, se vai trabalhar, já fica...
00:44Eu chamo de uniforme, já fica a roupa de vestido no outro dia.
00:48Principalmente a calça.
00:49Ele tinha uma calça de moletom verdinha que o dele levantava, vestia a roupa dele,
00:54o Arthur partia atrás, retirava a roupa limpinha dele, vestia a calça suja, calçava uma bota.
00:58O boné não gostava, não.
01:00E partia aos Estados Unidos.
01:02Não tinha tempo ruim pra ele.
01:04Saudável, forte, entendeu?
01:07Guerreiro mesmo, igual da roça mesmo, entendeu?
01:10As crianças aqui, elas nascem mais fortes, brincam no barro.
01:15Gostavam de pescar.
01:17A vida dele era brincar, pescar, entendeu?
01:23Era alegria.
01:25Mais alegria ainda.
01:26Tudo que eu faço, eu lembro do Arthur, entendeu?
01:30Eu lembro como é que se ele estaria comigo aqui, como é que, entendeu?
01:34Ele estava, entendeu?
01:35Que aonde eu ia pra roça, ele ia comigo, me ajudava.
01:40Deu pai no rumo pra isso, pra comprar aquilo.
01:42Dói muito.
01:44Eu fico aquela, entendeu?
01:46Dentro do meu coração, aquela angústia, entendeu?
01:49Muita indecisão ainda, entendeu?
01:52É só Deus e o tempo que pode me sarar, entendeu?
01:57Se sarar, entendeu?
01:58Se tiver cicatriz pra isso, eu não sei se tem, entendeu?
02:00Porque eu nunca tinha.
02:02É difícil.
02:10Nunca.
02:11Nunca.
02:12Sempre chamava.
02:13Se ele fizesse alguma arte, chamava, conversava com ele.
02:16Ele já vinha pra estar certo.
02:20E assim era a minha vida, entendeu?
02:27Olhar pra aquela folha, ver daquele jeito.
02:31E sendo acusado de uma coisa que eu não fiz, entendeu?
02:34Que eu não sabia de nada, entendeu?
02:36Não sabia qual mente que tinha atendido a ele.
02:39Não sabia como aconteceu, entendeu?
02:41Eu não tenho, tem vezes que eu não tenho nem palavra pra falar pra senhora, entendeu?
02:45Do tanto de dor que tá aqui dentro, entendeu?
02:50De amargura.
02:51Dois anos e sete meses preso pra provar a nossa inocência, entendeu?
02:56Foi no dia 29 agora desse mês que tivemos a liberdade provisória do mês passado.
03:02Em março desse ano, eu sou advogado ali batendo, a teca batendo, o laudo, o laudo batendo, entendeu?
03:09E sofrimos, sofrimos pra provar a nossa inocência.
03:17Na roça a gente prende um passarinho, entendeu?
03:20Arisco.
03:22Ele bate o peito na gaiola, bate pra lá, bate pra cá, quer sair, né?
03:26Da mesma forma eu tava lá.
03:29Eu ia pra um lado da cela e pro outro, olhava na janela, igual um passarinho.
03:33Se me tirar eu da roça aqui, eu não aguento, não.
03:35Assim que eu cheguei, eu fiquei numa cela também com gente que vai chegando da rua pra depois subir pra
03:44galerinha em cima.
03:46Apanhei bastante.
03:49A gente falava que a gente não fazia, que não tinha feita.
03:53Aí falava, você fez sim.
03:56Aí sempre, igual ele falou também lá comigo também, sempre tinha gente que sentia que a gente tava falando a
04:03verdade e apoiava a gente.
04:08Mas foi muito difícil ficar esses dois anos e sete meses preso.
04:12Então, foi uma coisa que a gente não cometeu e não poder nem enterrar o filho da gente.
04:24Pra mim, eu falo que isso foi uma injustiça muito grande que fizeram.
04:28Mas o que levou eles a fazer isso, eu até hoje tendo a entender, eu não sei.
04:33Mas foi uma injustiça que fizeram com a gente.
04:41Minha filha, você pode ter certeza, pode demorar o tempo que for, mas os advogados lá fora e nós estão
04:48pedindo a Deus que tudo vai dar certo e a hora de vocês saírem daqui vai chegar o dia.
04:54Quando eu saí lá fora, depois de dois anos e sete meses, olhando pra cachoeiro, sentado lá na guarita do
05:00presídio, olhando lá pra lá e esperando minha mãe chegar.
05:03Mas o meu pai, foi uma emoção muito grande.
05:06Foi muito bom saber que nunca mais eu vou entrar naquele lugar.
05:13Que foi uma vitória muito grande que aconteceu.
05:16E eu não esqueço daquilo até hoje, da leitura da sentença da mãe que ela foi falada.
05:25Depois que nós saímos de lá, a mãe dele faleceu.
05:32Justamente ele foi, ela foi enterrada na rua.
05:35A minha mãe faleceu, entendeu?
05:37Aí, tem uns dois meses atrás, minha mãe faleceu, entendeu?
05:43Foi outro choque que eu tomei, estava em casa.
05:46Minha cunhada, que é uma segunda mãe pra mim, esposa do meu irmão que sempre acompanhou,
05:51falecendo a cunhada, pegou aqui.
05:54Minha mãe tinha falecido.
05:55Meu Deus.
05:57Outro choque, não tô aguditando não, pai.
06:01Porque só tá me castigando tanto desse jeito.
06:05Porque aí que eu fui, fui no cemitério que eu vi onde ele foi enterrado, entendeu?
06:11Essa dor que eu tô sentindo, ninguém mais sente, não.
06:14Entendeu?
06:16O que é natural da vida é os filhos enterraram os pais, né?
06:21E a gente faz um negócio desse.
06:24A gente dura demais.
06:32Meu pai, o que fez?
06:34Aí, o bichinho foi, fez uma casa pra...
06:36E eu sem poder, ele arrumou o jeito e falou assim, pode deixar que eu vou fazer uma casa pra
06:40vocês.
06:40E eu tenho...
06:41Eu agradeço muito, muito mesmo.
06:43Ele, a mãe, minha tia Bastiana, a minha tia Louresci, que sempre tava nessa luta com nós.
06:47E ele falou assim, eu vou fazer uma casa pra vocês morarem.
06:50E entregou a chave na nossa mão.
06:51Eu vi ela sendo construída assim, do chão, né?
06:54Porque o meu pai tava escolhendo um lugar, aí queria um lugar, queria no outro.
06:59Aí eu falava assim, aonde que se eu marcar, se eu quer a casa, eu só posso fazer do jeito
07:03que se eu quiser.
07:04Aí ele falou assim, não, vamos fazer aqui.
07:05Aonde que tá a minha casa lá hoje?
07:06Tinha um monte de pé de milha ainda, um pé de café.
07:08Ele tava com uma dó danada de arrancar um pé de café.
07:11Ele falou assim, nossa, eu vou arrancar um pé de café desse?
07:14Isso dá dinheiro.
07:15Aí ele falava assim, não, mas eu tenho que fazer um cantinho pra eles morarem.
07:17Aí depois arrumou o pedeiro, foi pro lado de pé da menina,
07:20ele contou os materiais da casa tudo.
07:22Porque ele planejou uma semana antes, com caderninho, fazendo a planta da casa.
07:29Vai ser desse jeito, vai ser quanto vai gastar.
07:32Aí ele ligava pra um...
07:34Bom, quantos que eu tava os materiais de construção aí?
07:36Aí tá pronto.
07:37Aí ele marca, ligava pra outro lugar, até que lá em pé da menina ele conseguiu.
07:41Aí ele foi lá, comprou tudinho, tudinho também.
07:43Depois não precisou ele buscar mais nada, comprou tudo.
07:45Não sabia nem onde colocar o material de construção dentro da tua e na outra tua que tem lá.
07:48A melhor coisa foi no dia que eu vi que ela tava ficando pronta.
07:52Eu, mas a minha mãe, Amanda, o meu esposo, todo dia que ele vinha aqui,
07:57nós fazia o caminhinho de lá ver como é que tava a casa.
08:00Os pedeiros mandavam até nós embora, começavam a nós enjoada.
08:03Mas foi uma felicidade muito grande.
08:06Primeira vez que nós dormimos na casa, né, de...
08:08de saber.
08:09Foi um presente que o pai deu pra nós.
08:12Que ele falou assim, minha filha,
08:14a vida de vocês não acabaram ainda não.
08:15A vida de vocês ainda continua.
08:17E entregou a chapa da casa pra nós.
08:20Agradeço muito a ele.
08:26Futuro eu tô vivendo.
08:28Agora que realmente, entendeu,
08:31eu não tenho dinheiro, mas eu faço pra comer, entendeu,
08:34minha vida é trabalhar.
08:35Futuro eu tô vivendo.
08:37Quando a senhora viu, tava põe café, entendeu,
08:39ia trabalhar.
08:40Trabalhar na terra, fazer o que eu gosto.
08:43Entendeu?
08:44Esse é o futuro pra mim.
08:45A gente pensa ainda de ter outro filho.
08:49Porque pra gente que é mãe,
08:55perder igual o que vai pedir o meu Arthur,
08:59nunca outro filho vai substituir o lugar dele.
09:03Se jamais.
09:04Mas eu ainda penso
09:07ainda ter outro filho
09:09e viver feliz.
09:11Penso ter outro filho,
09:12dar um irmãozinho,
09:13uma irmãzinha pra Amanda, né?
09:15Porque
09:15ela ama a criança.
09:19E viver feliz e simples,
09:21que nem nós somos da roça assim, simples.
09:24Porque
09:24dinheiro não traz felicidade.
09:28A felicidade vem de graça.
09:32A felicidade vem de graça.
09:33A felicidade vem de graça.
09:35A felicidade vem de graça.
09:36Oризime.
09:40A felicidade vem de graça.
09:40o too,
09:42A ci
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