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00:00:25A CIDADE NO BRASIL
00:00:44A CIDADE NO BRASIL
00:01:01A CIDADE NO BRASIL
00:01:02Pior é continuarmos vivendo o pecado
00:01:04Carregando os pecados de Chica
00:01:12Pense, pense
00:01:14Se Chica não existisse, como seria a vossa vida?
00:01:18Vivendo na casa do contratador
00:01:21Carregando no pescoço as joias que lhe oferecem escravo
00:01:26Senhorinha Violante
00:01:27Me dê pena o papel
00:01:30E eu escreverei
00:01:37Mas você tem coração de uma sada
00:01:50Amor
00:01:52Amor
00:01:52Amor
00:01:55Amor
00:02:13É aqui o arraial do Tijuco, e em outras terras não está, senhor Faradina.
00:02:19Por que tantos mortos?
00:02:22Os negros do Quilombo atacaram o arraial.
00:02:25Mas o regimento deve ter sido avisado.
00:02:27Estava avisado porque estava preparado. De tocaia.
00:02:32Bem sabia que nas terras do Tijuco há grande violência.
00:02:37Perdoai-me, senhora. Vós não sei quem é, está de passagem.
00:02:41Não. Tijuco é o meu destino.
00:02:44Vim para cá a pedido da Santa Madre Igreja e do Rei de Portugal, Dom José Primeiro.
00:02:49Pois então, senhora... Estou sob as ordens do Santo Ofício.
00:02:57Mas eu vejo que tem um oiabo, cheio de paz.
00:03:02Fico-lhe grato, senhora. Dizem-me quem és.
00:03:07Chica da Silva.
00:03:13Chica da Silva?
00:03:16Ouvi muito falar do vosso nome.
00:03:20Por bem ou por mal?
00:03:22Se é para o bem ou para o mal, descobriremos juntos.
00:03:26Mas há algo que já descobri.
00:03:30És bela, como dizem.
00:03:33E agora, senhor padre, peço-vos hospedagem.
00:03:36Sim, será um gosto.
00:03:38Eu apenas estranho que vós me ser não fale um português castiço como o meu.
00:03:42Nasci no Brasil, mas fui criado em Portugal.
00:03:45Mas não perdi o jeito de falar dessas terras tão suaves.
00:03:49Sim. Vinde comigo, faz favor. Vinde comigo.
00:04:02Continua o vosso ofício, senhores.
00:04:04Ajuda essas pobres almas a encontrarem o Criador.
00:04:07Se é que, como defendem alguns, os negros têm alma realmente.
00:04:11Conc Explorer?"
00:04:30Quem és?
00:04:32Paz, eu sou a Gina.
00:04:36Não sou padre, mas freio.
00:04:39E vós, quem sois? Por que tantas velas?
00:04:43Eugênio acometeu o mais belo dos sacrifícios.
00:04:46Pregou-se na cruz.
00:04:48Veja, ainda tem as marcas, os estigmas.
00:04:54Que ato mais santo.
00:04:57Castigar o corpo é uma prova de fé.
00:05:00Eu mesmo tenho um prazer, um gosto pelos castigos do corpo que aplacam o pecado.
00:05:07Nada mais belo que uma mulher com o corpo marcado pelo chicote como prova de fé.
00:05:12Desde os sacrifícios de Eugênia, muitos rumeiros vêm até cá.
00:05:17Eles dizem que ela faz milagres, curas em nome do senhor.
00:05:20O primeiro milagre de Eugênia foi com a vó de Chica, que era entravada e começou a andar.
00:05:26Prega, melhor dizendo.
00:05:29Não prega nada que possa ser um desvio da religião.
00:05:33Eugênia reza.
00:05:34Rezar da felicidade.
00:05:38Vejo que minha missão aqui no Arraial será mais fácil do que parecia.
00:05:42Se todos tiverem a fé pura dessa menina.
00:05:46E a beleza desses olhos selvagens.
00:05:53A arca pode ficar aqui?
00:05:55Não acredito que seja melhor, senhor Freire.
00:06:05Não, não se espante ao ver minha barriga.
00:06:07Sei que já se nota.
00:06:09Mais tarde, contarei a minha história.
00:06:11Vejo por seus olhos
00:06:13que há de ser muito triste.
00:06:15Para as mulheres, sempre há de ser triste, senhor.
00:06:18Eu percebo pelo esforço dos frados que há de ser pesada.
00:06:21o que o senhor carrega dentro dela.
00:06:26Instrumentos de tortura?
00:06:28Sim, eles como obter uma confissão.
00:06:48Conheceis?
00:06:50A simples visão dos instrumentos
00:06:52faz-me desculpa a desconfessar.
00:06:54Não tenho dúvida, senhor.
00:07:07Eu apenas posso cumprir os seus ditames.
00:07:10Quem sois?
00:07:12Sou eu quem escreveu ao rei
00:07:13implorando que enviasse o senhor
00:07:15com de Valadares e alguém como o senhor.
00:07:17Um homem da igreja.
00:07:19Sua senhorinha Violante Cabral.
00:07:22Ah, sim.
00:07:23A senhorinha foi-me especialmente recomendada.
00:07:26Só não esperava que tivesse a texta ansiedosa
00:07:29com a suavidade de uma vela.
00:07:34Ah.
00:07:36São muitos os pecados nesse arraial, senhor inquisidor.
00:07:38Eu nem...
00:07:39nem sei por onde começar a tanta coisa errada.
00:07:43Mas, sim, a pior de todas,
00:07:45a mulher que mais merece a vossa atenção
00:07:48é Chica da Silva.
00:07:49Ela enfeitiçou o contratador João Fernandes.
00:07:52Foi prevenido.
00:07:53Mas na corte portuguesa também foi prevenido
00:07:56de que não atacasse o contratador João Fernandes
00:07:58no Chica sem provas.
00:08:00Sem evidências reais do mal que ela causa.
00:08:03Ou evidências de feitiçaria.
00:08:06Minha palavra não basta.
00:08:08Por mais que o rei esteja insatisfeito com o contratador,
00:08:11sempre lembrará que ele enviou rios de diamantes a Portugal.
00:08:15Nunca roubou isso para o rei é o mais importante.
00:08:18Por isso pedi-me cautela.
00:08:21Embora, é claro, eu esteja livre para agir como quiser.
00:08:26Eu conseguiria as provas para o senhor.
00:08:29Não demorará muito.
00:08:31Esteja certo.
00:08:48Se é a Chica ou não está lá na casa de vossa unceira.
00:08:51Quem?
00:08:52O inquisidor. É ele.
00:08:56Não tem a voz, me sei, que quase foi enforcada por bruxaria.
00:09:00Deus enviou um sinal e a corda se rompeu.
00:09:17Um sinal apropriado da vontade dos céus.
00:09:21Eu mesmo não vos faria matar tão pouco.
00:09:24Porque se Deus a for tão perfeita de corpo,
00:09:27é de ter orgulho de sua criação.
00:09:29Mas você me confunde.
00:09:41O inquisidor, diga-me, por que veio até cá visitar-me?
00:09:45Eu queria ver o menino que dizia ser o filho do demônio.
00:09:54Parece um homem comum.
00:10:04Mas você tem uma marca suspeita, sim.
00:10:10Pode ser a marca do mal.
00:10:13Ah, você tem medo.
00:10:19Pois o medo é um péssimo sinal.
00:10:22Pois o medo é curva.
00:10:24Não é apenas a morte, mãe.
00:10:35Muito bom dia, senhor inquisidor.
00:10:37Senhora Dona Chica.
00:10:39Vim fazer uma visita à senhora
00:10:41e senhora das dores que vivem aqui.
00:10:44Uma visita?
00:10:46E o que é que você pretende ver?
00:10:50Estou a visitar todas as casas do Arraial.
00:10:54A conhecer os moradores.
00:10:58E é apreciar as qualidades e defeitos de cada um.
00:11:07Para um pátrio,
00:11:08mas você tem um olhar que eu não entendo, não.
00:11:11Ora, senhora Dona Chica.
00:11:14Eu apenas observo
00:11:16onde se esconde a tentação.
00:11:20E onde é?
00:11:21Nas formas bonitas de um corpo de mulher.
00:11:24Como o vosso colo, senhora.
00:11:27Nesses seios que parecem ter sido modelados
00:11:29como barra original de onde todos saímos.
00:11:33Vós me ser a conta do que ele está de mulher?
00:11:36Eu penso que muitas vezes,
00:11:38para se eliminar o feitiço,
00:11:41é preciso destruir o corpo.
00:11:45Até mais ver.
00:11:50Eu acho que esse homem altera nós mulheres.
00:11:58Ele diz que nós atraímos o demônio.
00:12:00Eu soube que ele quase matou o padre Eurico
00:12:02de tanto torturar.
00:12:03O que será de lá, Chica?
00:12:05Não se preocupe das duas.
00:12:07Ele é um homem estranho,
00:12:09mas ele é um homem.
00:12:10E homem nenhum.
00:12:11Nunca nesse mundo.
00:12:12Há de acabar com ele.
00:12:16Depois de vos conhecer melhor,
00:12:18cheguei à conclusão
00:12:18que há diestes por demais
00:12:20vou a sair do convento.
00:12:21Bem, sabe que quero fazer
00:12:22companhia ao meu tio,
00:12:24padre Aguiar.
00:12:25Sinto tristeza em pensar
00:12:26em deixá-lo só.
00:12:28Pois muito que bem.
00:12:30Já não estamos sozinhos,
00:12:31pois eu estou cá.
00:12:32Mas não é a mesma coisa.
00:12:34Certamente que não.
00:12:36Minha presença é melhor
00:12:37porque eu sou religioso como ele.
00:12:38e juntos podemos servir
00:12:40a Deus igualmente.
00:12:42Quanto a vós,
00:12:43quase estivestes casada,
00:12:46fostes alvo de chismes,
00:12:49escândalos,
00:12:50basta.
00:12:51Eu só quis servir a Deus
00:12:53e se fui mal interpretada,
00:12:54Deus saberá me perdoar.
00:12:57Escrevi a um convento
00:12:59que não é longe de cá
00:13:00e hoje recebi a resposta.
00:13:03Sim.
00:13:04E o que diz?
00:13:06Estás aceita?
00:13:09Poderes arrumar
00:13:10o vosso baú
00:13:10e partir.
00:13:13Com a maior felicidade,
00:13:15senhor inquisidor,
00:13:16sinto-me florescer.
00:13:19Senhor inquisidor,
00:13:21podemos falar só?
00:13:25Permita-me por rezar.
00:13:30É uma visita surpreendente,
00:13:32o senhor contrata agora?
00:13:34O que desejais
00:13:34com a minha pessoa?
00:13:36Eu é que quero saber.
00:13:38O que pretende fazer com Chica,
00:13:40senhor inquisidor?
00:13:41Não entendo o porquê
00:13:42de vossa pergunta,
00:13:44pois bem saberes
00:13:44que não tem acusações contra ela.
00:13:47Toma-me por uma criança,
00:13:49senhor inquisidor.
00:13:50Sei muito bem
00:13:51que a senhora inviolante
00:13:51está muito próxima do senhor
00:13:53e está a preparar alguma.
00:13:56Sobre a boca pequena
00:13:57que a bruxa
00:13:57que foi queimada viva,
00:13:59havia prometido
00:14:00denunciar Chica
00:14:01publicamente
00:14:02por feitiçaria,
00:14:03mas a voz não saiu.
00:14:06O que talvez
00:14:07seja a prova
00:14:07de feitiçaria.
00:14:09Por que a voz não saiu?
00:14:12Sem especulações,
00:14:13senhor inquisidor.
00:14:14Diga-me apenas
00:14:15a verdade.
00:14:20O senhor não me mete
00:14:21em medo,
00:14:21senhor contratador.
00:14:23Bem sabeis que a igreja
00:14:24e a coro portuguesa
00:14:25mantêm estreitas relações.
00:14:27Mudai esse tom de ameaça.
00:14:29Mas Chica é minha mulher
00:14:30e tem o direito de saber.
00:14:34Pois muito bem.
00:14:36Há acusações de feitiçaria.
00:14:38Isso é uma bobagem.
00:14:40Não há provas
00:14:41nem a variar
00:14:41porque Chica não é feiticeira.
00:14:43Dizem que o primeiro
00:14:44efeitiçado é o senhor.
00:14:45Por debaixo desse hábito
00:14:47o senhor ainda é um homem
00:14:49e sabe como o corpo
00:14:50de um homem
00:14:50se incendeia
00:14:51diante de uma mulher
00:14:52que ama.
00:14:53Não é feitiço.
00:14:55É desejo.
00:14:57Não aceito
00:14:58que o senhor fale
00:14:58dessa maneira comigo.
00:15:00Não.
00:15:01Eu não sei
00:15:02como o corpo de um homem
00:15:03se comporta
00:15:04diante da mulher que ama.
00:15:07Pois muito bem.
00:15:10Eu posso ter perdido
00:15:11a autoridade
00:15:12mas ainda tenho amigos
00:15:13na corte.
00:15:15Sou rico,
00:15:16senhor inquisidor.
00:15:17Muito rico.
00:15:18E meus diamantes
00:15:19juntamente com meu nome.
00:15:21Pode comprar a ajuda
00:15:22de gente superior
00:15:23a mais me ser.
00:15:24Minha família
00:15:25conhece cardeais importantes
00:15:27superiores
00:15:28de várias ordens.
00:15:29Tente fazer algo
00:15:30contra ela
00:15:31e eu dedicarei
00:15:32minha vida
00:15:33a destruir
00:15:33mais me ser.
00:15:48Seu Pereira,
00:15:50é um senhor preso?
00:15:52É um judeu.
00:15:54E o que tem
00:15:55em ser um judeu
00:15:55se é boa pessoa?
00:15:56Um homem honesto
00:15:58que sempre cumpriu
00:15:58seus deveres.
00:16:00Vendia mantimentos.
00:16:02Quem fornecerá
00:16:03comida ao arraial
00:16:03com ele preso?
00:16:05O senhor fala
00:16:05de uma maneira estranha,
00:16:06senhoras da Maria.
00:16:08Pois todos sabem
00:16:09que os judeus
00:16:09assassinaram Cristo.
00:16:12Horas,
00:16:12isso foi há tanto tempo
00:16:13e não creio
00:16:15que os judeus
00:16:15sejam culpados
00:16:16pela morte de Cristo.
00:16:17Pelo contrário,
00:16:18Cristo morreu por nós
00:16:19para que nos salvássemos.
00:16:21Os judeus
00:16:22o condenaram
00:16:23segundo a Bíblia.
00:16:25Mas o senhor mesmo
00:16:26não condena a gente
00:16:27todos os dias?
00:16:30Não vos prendo agora
00:16:31por heresia
00:16:32em deferência
00:16:33da posição
00:16:33que ocupa no arraial.
00:16:51senhora infelante.
00:16:53Eu esperei
00:16:54que terminasse de rezar,
00:16:55senhor inquisidor.
00:16:58Vejo que estás pálida.
00:17:02São os nervos,
00:17:03as preocupações.
00:17:06ainda não falamos
00:17:08sobre muitos assuntos
00:17:09muito graves
00:17:09que ocorrem
00:17:10aqui no arraial.
00:17:12Ontem o senhor mesmo
00:17:13viu a barriga
00:17:14de Dona Elvira
00:17:14que provou ser falsa
00:17:16pois o marido que tem
00:17:16não é homem realmente.
00:17:18Sim,
00:17:19hoje ainda cedo
00:17:20o senhor Conde
00:17:21Valadares
00:17:21procurou-me
00:17:22para falar a respeito.
00:17:24E o que disse?
00:17:26Pide-me que esperasse
00:17:27algum tempo
00:17:28pois ainda acredita
00:17:29que o rapaz
00:17:29formará família
00:17:30como se deve.
00:17:32E o senhor aceitou?
00:17:33Sim.
00:17:34porque ele não tem
00:17:35opinião formada
00:17:36a respeito.
00:17:43Não quero ver
00:17:44você aflita,
00:17:45senhorinha infelante.
00:17:47Sorria.
00:17:49sim.
00:17:51Agora estás bem.
00:17:54Rezava para ter inspiração
00:17:56pois agora vou interrogar
00:17:57o padre Eurico.
00:17:59Onde?
00:18:00Forneceram-me uma sala
00:18:02na tendência
00:18:03por falta de local
00:18:04mais apropriado.
00:18:07até mais tarde.
00:18:09Até mais tarde.
00:18:25A CIDADE NO BRASIL
00:18:39Senhor inquisidor, eu tenho algo a dizer
00:18:44Eu confesso que
00:18:46Cheguei a verificar a possibilidade
00:18:48De deixar a patina
00:18:51Porque eu gostava
00:18:55E gosto da menina Eugênia
00:18:57Mais do que posso
00:18:57Devido aos votos que fiz
00:19:01Soube que não há dispensa
00:19:03Dos votos religiosos
00:19:05E me conformei
00:19:06Tanto que me afastei dela
00:19:08E estava cada vez mais distante
00:19:12Como sabeis que falaremos
00:19:13Da menina Eugênia?
00:19:16Eu descobri o crime
00:19:17De que sou acusado graças aos dragões
00:19:19Que me guardam
00:19:21Pois muito bem, senhor inquisidor
00:19:23Eu estou revoltado
00:19:27Eu estou com a arma em pedaços
00:19:28Porque fizeram isso com Eugênia
00:19:31E sou o primeiro a querer punir o culpado
00:19:35Nem mesmo o sentimento do perdão
00:19:36Eu consigo fazer desaprochar
00:19:40A menina Pia afirma ter visto o senhor
00:19:46Há dias eu dei por falta
00:19:47De uma velha patina, senhor
00:19:50No momento eu prestei atenção
00:19:51Mas agora eu sei
00:19:55Roubaram a minha patina
00:19:58Quem fez o que fez
00:19:59Queria se passar por mim
00:20:03Se és inocente
00:20:05Já saberemos
00:20:06Pois vastiriza a verdade
00:20:10Como?
00:20:13Eu conheço os métodos da inquisição
00:20:19Através da tortura
00:20:20Não
00:20:21Não é tortura
00:20:25Apenas
00:20:26Uma maneira de fazer com que
00:20:28Vossa alma revele o que tem por dentro
00:20:31Que vossas palavras
00:20:33Se transformem num regato límpido
00:20:36Através do qual
00:20:37Possa se vislumbrar a verdade
00:20:44A dor, padre Eurico
00:20:47A dor
00:20:50A dor é a minha para a verdade
00:21:13Jair
00:21:15Jair
00:21:16Jair
00:21:30Por tudo o que és mais sagrado, senhor.
00:21:34Não fui eu.
00:21:39Eu esperava que, por ser despadre,
00:21:41terias mais vontade de contar o que realmente aconteceu.
00:21:48Eu trouxe o mecanismo nessa mesa de Lisboa.
00:21:51E logo que eu cheguei, pedi ao senhor Conde Valadares
00:21:54que providenciasse sua execução.
00:21:56Pois é um apetrecho indispensável para a boa obra do santo ofício.
00:22:02Eu a conheço, senhor.
00:22:05Mas por mais que o senhor me faça sofrer,
00:22:08a verdade continua a mesma.
00:22:12Eu nada fiz com a menina Eugênia.
00:22:16O que mais me doai é não estar solto
00:22:19para ajudá-la a superar esse sofrimento.
00:22:25A dor fará com que diga a verdade, Padre Eurico.
00:22:32Tirem as roupas dele, pois na mesa não se rasgariam.
00:22:35Não tem dia.
00:22:43Não tem dia.
00:23:06Diga agora.
00:23:08Confessa que ela está comendo o gênero.
00:23:11Não fui eu. Eu já disse que não fui eu.
00:23:14Tragão.
00:23:22Tragão.
00:23:23No
00:23:26No
00:23:27No
00:23:54Mas, senhoria, é verdade.
00:23:57Mas, BCH veio me salvar, certamente.
00:24:01Só o senhor pode salvar-se, Padre Eurico.
00:24:06Eu sou inocente, senhoria.
00:24:09Inocente?
00:24:10Eu não violei a menina Eugênia.
00:24:13Jamais tocaria nenhum fio de cabelo dela.
00:24:17Ora, senhor padre, a senhora violou mil vezes, pelo menos em pensamento.
00:24:22Senhor, a senhora possuiu mil vezes em vossos sonhos, não diga que não.
00:24:27Eu fui traído pelo pensamento.
00:24:30Não.
00:24:31O demônio entre os meus corações, senhor padre, não negará isso.
00:24:37Senhor violante, ao ver ela, eu pensei que vós me sentariam em um bálsamo com sua mão.
00:24:45Agora eu vejo que quer me ver sofrer.
00:24:48Eu jamais o perdoarei por amar aquela selvagem.
00:24:51Não só por ser padre, mas também por...
00:24:53Eu não pude amar, faz-me ser...
00:24:55Cale-se.
00:24:56Como ousa.
00:24:58Eu sou honesta.
00:25:00Agora eu vejo, senhoria.
00:25:04O demônio está em vossos olhos.
00:25:08O demônio se instalou em vosso coração.
00:25:13E eu não percebi a tempo.
00:25:16Ou jamais ter aceitado fazer o que queria.
00:25:20São tantos os desejos insatisfeitos em vosso coração.
00:25:25Que eles se transformaram em ódio.
00:25:27Acalhe-se, senhor.
00:25:29Quem pecou foi o senhor, não fui eu.
00:25:38A visão de um corpo machucado não mexe com vós me ser.
00:25:43Um corpo jovem, viril.
00:25:46Um corpo desnudo, como o de Cristo na cruz.
00:25:50O senhor fala de maneira estranha.
00:25:56De tanto ver o demônio tomar a luz, senhoria, violente.
00:25:59Eu aprendi a perceber o desejo.
00:26:03Eu posso sentir vossa respiração.
00:26:06Nosso tremor.
00:26:08Nosso cheiro.
00:26:11Após-me ser, tem o cheiro das velas queimando no altar.
00:26:15Do incenso que sai do turíbulo.
00:26:25Agora eu devo continuar com o meu santo aviso.
00:26:57Não, eu não sou.
00:27:01Não, eu tô muito bem.
00:27:03Não, eu não sou.
00:27:03Eu não sou.
00:27:05O que é isso?
00:27:21Ele confessou.
00:27:23Vestiu a batida do padre para atacar a menina.
00:27:26É um crime contra a igreja, pois a batida é sagrada.
00:27:31Veja que não faltam confissões.
00:27:35Embora uma contradiga a outra,
00:27:38pois seu padre Eurico culpado, como pode o capitão Morseier também.
00:27:42Ele disse também o que já havia afirmado ontem à noite quando bêbado.
00:27:46A seu irmão Santiago é uma decaída que foge de vesteis da ideia.
00:27:51E o obrigasteis a cometer o crime.
00:27:54Sente-se, senhora, violente.
00:27:57Não, prefiro não me sentar. Eu não quero sujar minha roupa de sangue.
00:28:01Nunca ninguém se portou tão calmamente diante de um inquisitor.
00:28:07Eu não tenho medo do senhor.
00:28:27Eu admiro vossa coragem.
00:28:30Não é coragem, é certeza.
00:28:32Estou sendo acusada de algo que eu não fiz.
00:28:35Pelo contrário, eu vos ajudei.
00:28:38Se o que me dizes é verdade, não devo interroga-la como se deve.
00:28:44Arranque as minhas unhas, senhor inquisitor.
00:28:51Eu não poderia destruir irmãos do Macias.
00:28:59Meus inimigos estão contra mim.
00:29:01Porque eu sim pedi que o senhor viesse.
00:29:03Que é prova maior da minha fé, da minha inocência.
00:29:07Mas desde que cheguei, não entregaste nenhum pecador.
00:29:10Entreguei, sim. Padre Eurico.
00:29:13Muito bem.
00:29:16Suponhamos que o Capitão Morto tenha violado essa menina,
00:29:18coisa que eu não creio, porque de Santa ela não tem nada.
00:29:20Isso não é um crime contra a ferra.
00:29:22Reconheço que o que dizes é verdade.
00:29:25Se todos os dragões, sargentos e capitães que violam mulheres fossem presos,
00:29:29não haveria nenhum solto.
00:29:32Sim, o que me dizes é verdade.
00:29:36Creio que já sabeis, nasci nessa terra e fui criada em Portugal.
00:29:39Sim.
00:29:41Já reparei que não tem sotaque tão carregado.
00:29:43Nunca se perde a maneira musical de se falar dos trópicos.
00:29:47Eu sei que a Cassie vive de maneira mais selvagem, sim.
00:29:52E eu devo defender a fé.
00:29:54Não me prender aos desatinos de um Capitão Morto.
00:29:57Sim, a fé.
00:29:59O senhor veio proteger a fé.
00:30:00Padre Eurico traiu a fé.
00:30:03Pergunte-lhe frontalmente.
00:30:04Ele lhe dirá que ama a Eugênia.
00:30:06A senhora tem certeza?
00:30:10O que importa é se ele violou ou se ele deixou de violar,
00:30:12se ele já saiu de tornar mil vezes em pensamento.
00:30:16O senhor deve esquecer o Capitão Morto.
00:30:19Deixe-o com desvalidade.
00:30:20Quando voltar, curte de sua punição.
00:30:22Agora peça ao Padre Eurico.
00:30:24Exija que ele lhe seja entregue.
00:30:26Dê a ele a punição merecida.
00:30:38A senhora me convenceu.
00:30:40Não só por vossas palavras,
00:30:43mas pelo brilho em vossos olhos.
00:30:50Por seu arido quente que me toma tudo.
00:30:54A senhora está do meu lado, eu sei.
00:30:57E não se luta contra um aliado.
00:31:04Eu vou exigir que me entregue a Padre Eurico.
00:31:27A senhora está quase morta.
00:31:33Mais uma outra estoura no coração
00:31:36Mas por que, senhora?
00:31:40Eu confessei, senhor Srinivir
00:31:44Eu confessei
00:31:45Embora eu não tenha feito o que isso te ter feito, mas
00:31:49Eu confessei porque eu não suportei mais a dor
00:31:55Veja
00:31:59Ele me tirou as unhas
00:32:03Ele esticou o meu corpo a tal ponto
00:32:06Que tenho a impressão de que algo se rompeu dentro de mim
00:32:12Eu sinto os meus nervos povos, sinto uma dor tão grande
00:32:19Deus me perdoe, mas eu queria ter morrido
00:32:24Mas a gente sempre precisa de ajuda
00:32:28Já não há lugar mais pra mim no céu e na terra, senhor Srinivir
00:32:33Pois aqui na terra
00:32:37Sou considerado um padre que rompeu os votos sagrados
00:32:41E no céu serei julgado como mentiroso
00:32:47E a mentira é duplamente vivo
00:32:53Pois
00:32:54Eu menti para salvar-me da dor
00:32:58E ao mentir
00:33:00Impedir que o verdadeiro criminoso seja procurado
00:33:04Nós torturamos, padre Olíaco, nós torturamos mais
00:33:07Mas você foi apenas humano
00:33:11E um de nós suporte sofrimento
00:33:20Vai embora, Eugênia
00:33:21Eu devo pedir auxílio a Deus
00:33:23Que é quem poderá me salvar
00:33:26Eu estou em grave perigo, Eugênia
00:33:29Eu sei
00:33:31Eugênia não suporta a vida
00:33:33Sem saber a resposta de uma pergunta
00:33:39Padre Olíaco, faz-me ser
00:33:41Nunca disse pra Eugênia
00:33:44Diz, Padre Olíaco
00:33:48Faz-me ser
00:33:49Amo, Eugênia
00:33:51Eu a amo sim, Eugênia
00:33:54Mas não a amo com maldade
00:33:56Com luxúria
00:34:00Eu a amo
00:34:01Como amo o frescor da manhã
00:34:05O sol batendo no meu rosto
00:34:09Os pingos da chuva
00:34:12Aliviando a cantora do dia
00:34:14É dessa maneira que eu amo
00:34:17E não tenho vergonha desse amor
00:34:21Pois eu sei que não há pecado nele
00:34:26Eugênia, amoreco
00:34:31A Eugênia era escura por dentro
00:34:33Sem Eurico
00:34:34Não tinha luz
00:34:39Eurico foi o raio do sol
00:34:40Que iluminou o coração de Eugênia
00:34:49Agora sim ouvi o que queria ouvir
00:34:52Padre Eurico
00:34:54O senhor está condenado
00:34:58Hoje eu fui considerado inocente
00:34:59Pela lei dos homens
00:35:03Dizem-me agora
00:35:04Qual é o crime de que sou acusado
00:35:06E se o senhor mesmo
00:35:07Conseguiu extrair do Capitão Mora
00:35:09A confissão da culpa
00:35:10Da violação da menina Eugênia
00:35:12Se o senhor não violou
00:35:13A menina Eugênia
00:35:14Foi porque não pude
00:35:15Mas o que ouvi agora
00:35:18Foi a prova que necessitava
00:35:21O senhor declarou amor
00:35:22A essa menina
00:35:24Rompeu os votos sagrados
00:35:26Não
00:35:27Não, não rompi
00:35:28Pelo contrário
00:35:31Antes de conhecer Eugênia
00:35:34Meu coração era cheio de raiva
00:35:36E de rancor
00:35:38Ela me ensinou a tênue
00:35:39Era o senhor inquisidor
00:35:40E eu aprendi a chorar
00:35:42Em nome do santo ofício
00:35:45Eu vos considero culpado
00:35:49Qual é a minha sentença?
00:35:53Serás emparedado vivo
00:35:55Ficarás em um quarto próximo ao regimento
00:35:58Que será fechado por pedras
00:36:01Onde deixaremos apenas uma abertura
00:36:03Pela qual serviremos todos os dias
00:36:05Um prato de comida
00:36:07Até o fim de seus dias
00:36:12Tchau
00:36:18O que é isso?
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