00:00Não posso me curtar a expressar meu pássimo diante da reação desproporcional e desmesurada da sociedade em geral em face
00:10da conduta imputada à acusada Monique, na modalidade homicida, claramente discriminatória de gênero,
00:18influenciada pela cultura patriarcal que lamentavelmente ainda norteia e permeia a mentalidade e as práticas faciais.
00:27Não à toa, encontra-se tanta dificuldade de se extirpar de nosso universo cultural o status quo de inferioridade feminina,
00:38em que pesem os moitosos movimentos que o combatem.
00:41A oposição a este setor das lutas identitárias, no mais das vezes, opera de forma sutil, daí a dificuldade de
00:50se eliminá-la pela via da conscientização.
00:53Mas, atualmente, chegou ao extremo da misoginia declarada.
00:58É o que parece ter se dado com relação à imputação dirigida à regra.
01:02Antes de mais nada, Esther consignar que fosse o pai, e não a mãe, na mesma situação, nem sequer teria
01:10sido ele processado, como é regra nos processos de igual natureza.
01:14É que o papel culturalmente reservado à mulher nos maus patriarcais não só dela exige ser mãe, mas muito além,
01:24a mãe perfeita.
01:25Mãe suficiente não basta.
01:28Desde a investigação, Monique não mereceu o benefício da dúvida, e ao longo do processo, embora fosse apontada como mãe
01:37zelosa e não ter sido acusada de infligir diretamente agressões físicas a seu filho,
01:43a revolta evoluiu rapidamente para franco massacre nas redes sociais, com ataques muito mais virulentos do que aqueles dirigidos ao
01:53autor direto.
01:54E os ataques não se limitaram ao público, em geral.
01:59Estenderam-se alguns profissionais envolvidos com a causa, incluindo as responsáveis por sua custódia,
02:05passando pelas demais detentas, que se recusavam a dividir o mesmo espaço com a ré,
02:11chegando ao ponto de agredi-la no cárcere, pelo que o isolamento foi o que lhe restou.
02:18Incomensurável o sofrimento de quem, além de perder seu único filho,
02:22para o que de resto não contribuiu intencionalmente,
02:25viu-se algo durante cinco longos anos de uma percepção implacável contra sua honra e sua autoestima como mãe,
02:35para não falar do completo desprezo pela dor do seu luto.
02:39Por todas essas razões, tenho como medida de justiça mais acertada,
02:43relativamente ao crime de homicídio culposo para o qual foi desclassificada,
02:48a imputação original, a extinção de sua punibilidade pelo perdão judicial.
03:15Venho para vocês falar que me mataram o meu filho pela terceira vez.
03:18Eu, Leniel, posso ter sido a pior pessoa do mundo, mas eu não estava dentro daquele apartamento.
03:25Quem estava dentro daquele apartamento se chama Jairo e Monique, a mãe.
03:31Quem deveria proteger, garantir a proteção do filho dela?
03:37Estamos satisfeitos com a condenação do Jairo.
03:40Entretanto, vivemos uma das maiores aberrações jurídicas do nosso país com essa desclassificação de Monique.
03:51O conselho de sentença reconheceu a materialidade, a autoria e reconheceu que Monique agiu por força de dolo eventual.
04:04Entretanto, a juíza, ao perceber que Monique tinha sido condenada, criou uma situação e colocou novamente a questão para ser
04:18votada.
04:19Enquanto Monique não teve uma posição favorável, a juíza não se deu por satisfeita.
04:27A juíza deu perdão judicial com o discurso de gênero.
04:31Eu não tenho a menor dúvida de que vamos anular essa decisão no TJ e Monique será submetida a um
04:41novo conselho de sentença.
04:42Ocorreram uma série de nulidades no decorrer do julgamento e certamente esse júri será anulado e ele será submetido a
04:51um novo julgamento.
04:53E a gente espera que dessa vez seja respeitado todas as garantias no sentido até que a gente tenha acesso
04:59a todos os elementos probatórios e que se tome uma decisão baseada naquilo que tem de prova.
05:05Porque o que ficou claro no processo é isso, que no decorrer do julgamento é que ele deveria ter sido
05:10absolvido, assim como Monique.
05:12Nunca vi um julgamento tão bizarro na minha vida.
05:17Julgamento bizarro a todo dia, a cada instante.
05:21Era uma nulidade.
05:23Claramente o próprio juízo, ele impedia a defesa de Jairo de fazer o seu trabalho.
05:31Dando um tratamento totalmente diferente para a defesa da Monique.
05:36Então a resposta dos jurados é o que a sociedade precisava, porque eles entraram lá pressionados com a expectativa de
05:43corresponder à sentença já dada pela sociedade.
05:47E hoje eles mostram, e eu disse isso a eles, que poderiam, eles tinham a oportunidade de mostrar com clareza
05:52à sociedade que de fato não houve omissão por parte da Monique.
05:56Não se tinha no caderno processual, desde o início das investigações, nenhuma certeza, nenhum elemento de convicção que traduzisse que
06:07Monique era uma mãe ruim.
06:10Sim, pelo contrário, o caderno procedimental, as provas que foram arrecadadas no inquérito policial e na ação penal traduziram que
06:22Monique foi uma mãe extremamente zelosa.
06:27Que Monique foi a melhor mãe, e eu sempre disse isso.
06:31Que Monique foi a melhor mãe que o Henrique poderia ter.
06:40Que Monique foi a melhor mãe que o Henrique tem, que o Henrique Control vai ter.
06:44Obrigado.