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  • há 7 horas

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00:00:00O demônio gritou. O som não era humano, era o rangido de ferro arrastado sobre pedra,
00:00:07multiplicado por mil gargantas invisíveis, e reverberou pelas paredes do salão do trono
00:00:13até fazer tremer as colunas de cedro do Líbano.
00:00:18Beuzebú, o príncipe dos demônios, o que um dia foi o anjo de mais alta patente diante
00:00:25do trono de Deus, estava ajoelhado no chão de mármore polido, as correntes do selo divino
00:00:32queimando sua forma como brasas em carne viva, e diante dele, sentado num trono de marfim
00:00:39e ouro, calmo, ereto, com um anel pequeno brilhando na mão direita, estava um homem.
00:00:45Um homem. Não um arcanjo. Não um ser afim de seis asas.
00:00:51Não uma criatura celestial com espada flamejante.
00:00:55Um ser de carne e sangue, com pulmões que respiravam pó, e um coração que um dia pararia de bater.
00:01:03E esse homem tinha acabado de fazer o que nenhum gigante de 137 metros conseguiu,
00:01:10forçar as trevas a se ajoelharem e confessarem.
00:01:14Existe um livro que a maioria das bíblias do mundo não inclui.
00:01:19Um texto preservado em manuscritos gregos, datado entre os séculos I e Sineto,
00:01:26que narra em primeira pessoa, como se o próprio Salomão estivesse ditando,
00:01:32como o rei mais sábio da história recebeu do arcanjo Miguel um anel gravado com o selo de Deus
00:01:39e usou esse anel para capturar, interrogar e escravizar demônios.
00:01:45Não dez, não vinte, setenta e dois.
00:01:49Um por um, forçados a confessar seus nomes, seus crimes, suas fraquezas,
00:01:55e o nome exato do anjo capaz de derrotá-los.
00:01:58O testamento de Salomão é o texto apócrifo mais cinematográfico já escrito.
00:02:04Um tribunal sobrenatural, onde as trevas são obrigadas a depor diante de um rei humano.
00:02:11Mas a história que os textos banidos revelam não começa com generais nem com anjos.
00:02:19Começa com um menino, um garoto anônimo, aprendiz dos pedreiros do templo,
00:02:25que definhava dia após dia, porque um demônio chamado Ornias aparecia toda noite ao pôr do sol,
00:02:33roubava metade do seu salário, metade da sua comida,
00:02:37e sugava a vitalidade do menino pelo polegar da mão direita.
00:02:42O menino emagrecia como vela derretendo.
00:02:44E quando Salomão perguntou o que estava acontecendo,
00:02:48a resposta que recebeu mudou a história da construção do templo de Jerusalém.
00:02:54E revelou que as forças das trevas não eram abstratas, não eram metáforas,
00:03:00não eram figuras de linguagem.
00:03:02Tinham nomes, tinham endereço e tinham medo.
00:03:08Salomão.
00:03:09Por que definha, garoto?
00:03:11Aumentei teu salário, aumentei tua comida,
00:03:14e mesmo assim, teus ossos aparecem sob a pele, como varas sob um lençol.
00:03:21O menino.
00:03:22Senhor, algo vem a mim toda noite.
00:03:25Quando o sol se põe, uma presença aparece,
00:03:28e toma metade de tudo o que tenho.
00:03:31E suga meu polegar direito,
00:03:33até que eu sinta a vida escorrer, como água entre os dedos.
00:03:38Salomão.
00:03:38Há quanto tempo?
00:03:40O menino.
00:03:41Desde que começamos a cortar as pedras do muro oriental.
00:03:45Semanas, meu Senhor.
00:03:46Cada noite, mais fraco.
00:03:49Cada manhã, menos eu.
00:03:52Salomão.
00:03:53E por que não falaste antes?
00:03:55O menino.
00:03:56Por que quem acredita num garoto que diz que algo invisível o devora?
00:04:01Eu mesmo duvidei no início.
00:04:03Pensei que era febre.
00:04:05Pensei que era fome.
00:04:06Mas febre não rouba salário.
00:04:09E fome não suga o polegar.
00:04:12Salomão olhou para o menino.
00:04:14O garoto tremia.
00:04:15Não de frio.
00:04:16O ar de Jerusalém era seco e quente.
00:04:20Tremia de algo que os ossos reconhecem antes da mente.
00:04:24A proximidade constante de uma presença que não deveria existir no mundo dos vivos.
00:04:31E naquela noite, o rei mais sábio da terra se ajoelhou no templo inacabado e orou.
00:04:39Não por sabedoria.
00:04:41Não por riqueza.
00:04:42Orou por poder sobre aquilo que atormentava um garoto sem nome.
00:04:47A resposta veio do céu.
00:04:49E carregava um anel.
00:04:52Jerusalém fervilhava.
00:04:54O templo de Salomão, a casa que Deus ordenara e que Davi sonhara construir,
00:05:00erguia-se pedra sobre pedra no Monte Moriá.
00:05:04Oitenta mil cortadores de pedra nas montanhas.
00:05:08Setenta mil carregadores nos vales.
00:05:11Três mil e trezentos supervisores coordenando cada bloco de calcário,
00:05:15cada viga de cedro importada de tiro,
00:05:18cada lâmina de ouro que cobriria o santo dos santos.
00:05:23Primeiro Livro dos Reis, capítulo 5.
00:05:26Os números são precisos porque o empreendimento era colossal.
00:05:31O maior canteiro de obras do mundo antigo.
00:05:34E no centro dele, um rei de trinta e poucos anos cuja sabedoria já era lenda viva do Egito,
00:05:42a Mesopotâmia.
00:05:43Salomão não era guerreiro como Davi,
00:05:46cujas mãos conheciam o peso da espada, o tranco da funda,
00:05:50o grito de dez mil homens correndo para a morte.
00:05:54As mãos de Salomão conheciam outro peso,
00:05:58o peso das palavras.
00:06:01Três mil provérbios catalogados como escriba,
00:06:04cataloga,
00:06:06pergaminhos.
00:06:07Mil e cinco cânticos que mapeavam a criação inteira,
00:06:11árvores, animais, peixes, aves,
00:06:14tudo nomeado,
00:06:15tudo compreendido,
00:06:17tudo registrado.
00:06:19Primeiro Reis, capítulo 4, versículo 33.
00:06:23Mas havia uma lacuna,
00:06:25uma região do conhecimento que nenhum provérbio alcançava
00:06:29e nenhum cântico iluminava.
00:06:32O território das trevas.
00:06:34Os seres que habitavam entre o visível e o invisível.
00:06:39Os espíritos que os filhos de Noé conheciam intimamente,
00:06:44porque eram, segundo o livro dos jubileus,
00:06:47o décimo dos fantasmas dos gigantes
00:06:50que Mastema reteve após o dilúvio.
00:06:53Esses espíritos não tinham desaparecido.
00:06:57Tinham se multiplicado.
00:06:59Tinham aprendido a se esconder nas sombras das cidades,
00:07:03nos cantos dos quartos,
00:07:05nos intervalos entre o sono e a vigília.
00:07:08E agora, um deles estava devorando um menino
00:07:12dentro do canteiro de obras do templo mais sagrado da terra.
00:07:16Salomão orou no templo inacabado.
00:07:19O chão ainda era terra batida,
00:07:22úmida, do sereno da noite.
00:07:24As paredes nuas exalavam o cheiro bruto
00:07:27de calcário recém-cortado misturado com cedro.
00:07:31Tochas projetavam sombras que dançavam nas colunas como criaturas vivas.
00:07:36E a oração que Salomão fez não era a de um rei pedindo vitória.
00:07:41Era a de um homem pedindo ferramentas
00:07:43para combater o que seus olhos não podiam ver.
00:07:46A resposta veio antes do amanhecer.
00:07:50Miguel desceu, não como vento, não como sonho,
00:07:54como presença sólida que fez o ar ao redor contrair-se
00:07:59como se o próprio espaço reconhecesse a autoridade do arcanjo.
00:08:04O mesmo Miguel que acorrentara a chemiaza,
00:08:08que comandara as hostes contra a rebelião,
00:08:12que empunhava a espada flamejante nos portões do Éden,
00:08:16e na mão do arcanjo,
00:08:18brilhando com uma luz fria que não projetava sombras,
00:08:22havia um anel.
00:08:23Miguel,
00:08:24toma, Salomão, filho de Davi.
00:08:26O Senhor Deus Sabaoth te envia este presente.
00:08:30Com ele trancarás todos os demônios da terra,
00:08:33machos e fêmeas,
00:08:35e com a ajuda deles,
00:08:37construirás Jerusalém.
00:08:39O anel era pequeno,
00:08:41menor que um selo real,
00:08:43gravado com uma pentalfa,
00:08:46cinco letras alfa entrelaçadas,
00:08:48formando uma estrela de cinco pontas,
00:08:51e dentro dela,
00:08:52o nome.
00:08:53O nome impronunciável.
00:08:56O nome que os anjos caídos tentaram profanar,
00:09:00e não conseguiram.
00:09:01O nome diante do qual toda criatura,
00:09:04visível ou invisível,
00:09:07se curvava.
00:09:08Salomão segurou o anel entre os dedos,
00:09:11e sentiu o peso.
00:09:12Não peso físico,
00:09:14peso de autoridade.
00:09:16Como se toda a hierarquia do universo invisível,
00:09:19estivesse subitamente,
00:09:21ao alcance da mão de um ser mortal.
00:09:25Salomão.
00:09:26E se o demônio resistir?
00:09:28Miguel.
00:09:30Não resistirá.
00:09:33O selo não pede obediência.
00:09:36Impõe.
00:09:37Mas escuta bem,
00:09:38filho de Davi.
00:09:40O anel funciona enquanto o portador servir ao Deus que o forjou.
00:09:45No dia em que o coração se desviar,
00:09:47o selo se apagará.
00:09:49E o que foi trancado,
00:09:51será solto.
00:09:53Salomão fechou a mão sobre o anel.
00:09:55O brilho atravessou a carne,
00:09:57iluminou os ossos como se os dedos fossem feitos de vidro.
00:10:01E antes que o sol nascesse sobre Jerusalém,
00:10:05o rei já havia chamado o menino,
00:10:08e entregue o anel com uma única instrução.
00:10:12Salomão.
00:10:13Quando ele aparecer esta noite,
00:10:16jogue o anel no peito dele.
00:10:18E diga estas palavras.
00:10:20Salomão te convoca.
00:10:21Vem.
00:10:22O pôr do sol de Jerusalém
00:10:24incendiou o horizonte em tons de cobre e sangue.
00:10:28Os trabalhadores desceram o monte Moriá em filas silenciosas.
00:10:32O menino ficou,
00:10:34sozinho,
00:10:35com o anel de Miguel escondido na palma da mão,
00:10:38tão apertado que as bordas da pentalfa
00:10:41marcavam a carne.
00:10:43Órnias veio como fogo.
00:10:45Uma forma cintilante
00:10:47se materializou entre duas colunas inacabadas.
00:10:52O demônio transitava entre três aparências.
00:10:56Às vezes homem,
00:10:58às vezes criatura alada,
00:11:00às vezes leão.
00:11:01Naquela noite,
00:11:03apareceu como chama disforme com olhos.
00:11:06Órnias.
00:11:07Garoto!
00:11:08Meu garoto!
00:11:09Onde está a minha metade?
00:11:11O menino não respondeu.
00:11:13Levantou o braço
00:11:14e lançou o anel contra o peito da criatura.
00:11:17A pentalfa se estampou em órnias
00:11:20como ferro quente em couro.
00:11:21O demônio uivou.
00:11:23Caiu de joelhos e começou a suplicar.
00:11:26Órnias.
00:11:27Não!
00:11:28Tira isto de mim!
00:11:29Eu te dou todo o ouro da terra,
00:11:32toda a prata dos rios.
00:11:34Tira o selo!
00:11:35O menino!
00:11:36Salomão te convoca.
00:11:38Vem!
00:11:39O selo impunha.
00:11:41Órnias se ergueu contra a própria vontade
00:11:43e seguiu o menino monte acima.
00:11:46Cada passo deixava a marca enegrecida no calcário.
00:11:50O ar cheirava a enxofre e a medo pré-diluviano.
00:11:54Salomão esperava nos portões do templo.
00:11:57Sentado.
00:11:58Calmo.
00:11:59O trono provisório era apenas uma cadeira de cedro.
00:12:03Mas a autoridade que emanava daquele homem
00:12:06fazia o espaço parecer um tribunal cósmico.
00:12:11Salomão.
00:12:12Quem és?
00:12:14Órnias.
00:12:15Eu sou Órnias.
00:12:18Demônio.
00:12:19Resido na constelação de Aquário
00:12:21e estrangulo os que nascem sob esse signo
00:12:24quando se deixam consumir pela paixão.
00:12:27Mas enquanto em transe,
00:12:29passo por três transformações.
00:12:31Às vezes,
00:12:32homem que deseja corpos.
00:12:34Às vezes,
00:12:36criatura alada que sobe as regiões celestiais.
00:12:38Às vezes,
00:12:40leão.
00:12:41Salomão.
00:12:42De onde vens?
00:12:43Órnias.
00:12:44Sou descendente de um arcanjo do poder de Deus.
00:12:47Mas sou detido por Uriel,
00:12:50o arcanjo.
00:12:51Salomão.
00:12:52Como assim?
00:12:53Sobes as regiões celestiais.
00:12:56Órnias.
00:12:57Os demônios voam até o firmamento.
00:13:00Lá em cima,
00:13:01espionamos as decisões de Deus.
00:13:03Os que se exaurem nessa ascensão
00:13:06caem de volta como estrelas cadentes.
00:13:09É isso que os homens veem
00:13:11quando olham para o céu à noite
00:13:12e pensam que são estrelas.
00:13:15Não são.
00:13:16São os nossos,
00:13:17despencando de cansaço.
00:13:20Salomão.
00:13:21Então as estrelas que caem
00:13:23são demônios que falharam em espionar o trono?
00:13:27Órnias.
00:13:37A confissão era cirúrgica.
00:13:40Cada demônio tinha uma origem,
00:13:42um domínio,
00:13:43uma fraqueza
00:13:44e um nome angélico
00:13:46que podia derrotá-lo.
00:13:48O sistema era preciso.
00:13:50Para cada força demoníaca
00:13:52havia uma contraforça angelical.
00:13:54O conhecimento dos nomes
00:13:56era a chave
00:13:57e Salomão estava prestes
00:13:59a obter todos eles.
00:14:02Salomão.
00:14:03Agora escuta, Órnias.
00:14:05Pega este anel.
00:14:06Vai até o príncipe dos demônios
00:14:09e traz ele diante de mim.
00:14:11Órnias.
00:14:12O príncipe?
00:14:13Beuzebú?
00:14:15Rei.
00:14:16Ele é mais poderoso
00:14:17do que todos nós juntos.
00:14:19Ele foi o anjo
00:14:20de mais alta patente nos céus,
00:14:22antes da queda.
00:14:25Salomão.
00:14:26O selo não distingue patente.
00:14:28Vai.
00:14:29Órnias pegou o anel
00:14:31com as mãos tremendo
00:14:32e desapareceu na escuridão.
00:14:35Salomão esperou.
00:14:36O vento trouxe um cheiro
00:14:38de tempestade.
00:14:39Algo que vinha
00:14:40das profundezas do abismo
00:14:42onde os vigilantes
00:14:43foram acorrentados.
00:14:45O chão tremeu.
00:14:47Uma coluna de fogo negro
00:14:49irrompeu diante do trono.
00:14:51Beuzebú.
00:14:52O exarca dos demônios.
00:14:54A criatura que um dia
00:14:56ocupou o posto mais alto
00:14:57ao lado do Criador.
00:14:59O anel brilhou na mão de Salomão.
00:15:02A pentalfa queimou
00:15:03no peito de Beuzebú.
00:15:05E o príncipe das trevas
00:15:06caiu de joelhos
00:15:08diante de um homem mortal.
00:15:10Beuzebú.
00:15:11Quem és tu, humano,
00:15:13para me convocar?
00:15:14Salomão.
00:15:16Sou Salomão,
00:15:17rei,
00:15:18filho de Davi.
00:15:20E o selo que carrego
00:15:22não é meu.
00:15:23É do Deus
00:15:24que te criou
00:15:25e que te derrubou.
00:15:27Agora responde.
00:15:29Quem és?
00:15:30Beuzebú se ergueu do chão
00:15:33com a lentidão
00:15:33de quem carrega
00:15:34o peso de milênios.
00:15:36O ar ao redor dele
00:15:37se curvava
00:15:38como luz ao redor
00:15:40de uma estrela moribunda.
00:15:42Beuzebú.
00:15:43Eu sou Beuzebú,
00:15:45o exarca dos demônios.
00:15:47Todos os demônios
00:15:48têm seus tronos
00:15:49perto de mim.
00:15:51Sou eu quem manifesta
00:15:53a aparição de cada demônio
00:15:55e prometo trazer a ti
00:15:56em correntes
00:15:58todos os espíritos impuros.
00:16:01Salomão.
00:16:02Foste anjo?
00:16:03Beuzebú.
00:16:04Fui o primeiro,
00:16:06o de mais alta patente
00:16:08nos céus.
00:16:09O que estava mais perto
00:16:10do trono
00:16:11antes que a distância
00:16:13se tornasse abismo.
00:16:14A confissão ecoava
00:16:16a queda do mais elevado,
00:16:18a rebelião do portador de luz
00:16:20que a tradição preservou.
00:16:22Mas o testamento
00:16:24acrescenta algo inédito.
00:16:26Beuzebú
00:16:26revelou a estrutura
00:16:28organizacional das trevas.
00:16:30Cada demônio
00:16:31tinha jurisdição,
00:16:33território,
00:16:34especialidade.
00:16:35Não era caos.
00:16:36Era hierarquia invertida.
00:16:39Salomão.
00:16:40Existem fêmeas
00:16:41entre os demônios?
00:16:42Beuzebú.
00:16:44Existem.
00:16:45Salomão.
00:16:46Quero ver uma.
00:16:47Beuzebú
00:16:48desapareceu numa velocidade
00:16:49que o olho humano
00:16:50não podia acompanhar
00:16:51e retornou trazendo
00:16:53uma criatura
00:16:54que fez o sangue
00:16:54de Salomão gelar.
00:16:56Onoskelis.
00:16:58Corpo de mulher
00:16:59com pele de alabastro
00:17:00e rosto de beleza
00:17:02devastadora,
00:17:03mas abaixo da cintura,
00:17:05pernas de mula.
00:17:07Cascos que estalavam
00:17:08no mármore
00:17:09como martelos em bigorna.
00:17:11Ela sacudiu a cabeça
00:17:12com um gesto
00:17:13que misturava sedução
00:17:14e desprezo.
00:17:16Onoskelis.
00:17:18Sou Onoskelis.
00:17:19Habito cavernas douradas,
00:17:22precipícios e ravinas.
00:17:23Estrangulo homens
00:17:24com laço.
00:17:26Seduz os que me confundem
00:17:27com mulher
00:17:28e me alimento
00:17:29do desejo deles
00:17:30como fogo
00:17:31se alimenta de lenha.
00:17:33Salomão.
00:17:34Qual é tua origem?
00:17:36Onoskelis.
00:17:38Nasci de uma voz prematura,
00:17:40o eco de algo
00:17:41que não deveria
00:17:42ter sido dito
00:17:43numa floresta
00:17:44que não deveria existir.
00:17:47Salomão.
00:17:48E qual anjo
00:17:49te derrota?
00:17:51Onoskelis.
00:17:52Joel.
00:17:53Mas ele raramente desce.
00:17:55E enquanto não desce,
00:17:56os precipícios
00:17:57são meus,
00:17:59as ravinas
00:18:00são minhas,
00:18:01e os homens
00:18:02que caminham
00:18:02sozinhos à noite
00:18:03são meu alimento.
00:18:05Salomão.
00:18:06Não mais.
00:18:07A partir de hoje,
00:18:09tuas mãos
00:18:09que estrangulam
00:18:10fiarão cânhamo,
00:18:12e as cordas
00:18:13que teceres
00:18:14amarrarão
00:18:14as vigas do templo
00:18:16que o teu medo
00:18:17não te deixa
00:18:18sequer olhar.
00:18:19Uma criatura
00:18:20que seduzia,
00:18:22estrangulava
00:18:23e se alimentava
00:18:24do desejo
00:18:25dos homens,
00:18:26preservada
00:18:27neste texto
00:18:28séculos antes
00:18:29de qualquer lenda
00:18:30medieval
00:18:30sobre demônios
00:18:32femininos.
00:18:32Os rabinos
00:18:34e os escribas
00:18:35que copiaram
00:18:35o testamento
00:18:36reconheceram
00:18:37nela algo antigo,
00:18:39algo que as tradições
00:18:40posteriores
00:18:41chamariam
00:18:42por outros nomes.
00:18:43Mas o texto
00:18:45original
00:18:45a nomeou
00:18:46primeiro
00:18:46Onoskelis.
00:18:48Em seguida,
00:18:49veio Asmodeus,
00:18:51o demônio
00:18:52do livro
00:18:52de Tobias,
00:18:53o destruidor
00:18:54de casamentos.
00:18:56Entrou
00:18:56acorrentado
00:18:57e furioso.
00:18:59Asmodeus,
00:19:00minha constelação
00:19:01é o dragão.
00:19:02Minha atividade
00:19:03é conspirar
00:19:04contra os recém-casados,
00:19:06arruinar a beleza
00:19:07das virgens
00:19:08e causar assassinatos.
00:19:10Sou detido
00:19:11por Rafael,
00:19:12o arcanjo,
00:19:13pelo fígado
00:19:14e pela vesícula
00:19:15de um peixe
00:19:16queimado
00:19:17sobre cinzas.
00:19:18Salomão,
00:19:19por que os recém-casados?
00:19:21De todas as criaturas
00:19:23da terra,
00:19:23por que atacar
00:19:25os que acabaram
00:19:25de se unir?
00:19:27Asmodeus,
00:19:28por que a união
00:19:29é o que mais
00:19:30se aproxima
00:19:31do que perdemos?
00:19:32Quando dois
00:19:33se tornam um,
00:19:35ecoam o que os anjos
00:19:36faziam diante do trono.
00:19:38Harmonia,
00:19:39e a harmonia
00:19:40me é insuportável.
00:19:42Destruir um casamento
00:19:44na primeira noite
00:19:45é apagar a centelha
00:19:46antes que vire chama.
00:19:48É impedir
00:19:49que a criação
00:19:50se complete.
00:19:52Salomão,
00:19:53e o peixe?
00:19:54Por que algo
00:19:55tão frágil
00:19:55te derrota?
00:19:57Asmodeus,
00:19:58não pergunte
00:19:59sobre as armas
00:20:00que me ferem,
00:20:01rei.
00:20:02Pergunte
00:20:02sobre as feridas
00:20:03que eu causei.
00:20:04são mais numerosas
00:20:06que as estrelas
00:20:07que Cocabiel
00:20:08ensinou os homens
00:20:09a contar.
00:20:10O detalhe do peixe
00:20:12confirmava
00:20:13o que o livro
00:20:14de Tobias narra.
00:20:15Rafael instruindo
00:20:17Tobias a queimar
00:20:18as vísceras
00:20:19de um peixe
00:20:20para afastar
00:20:21Asmodeus.
00:20:22O testamento
00:20:23de Salomão
00:20:24não contradiz
00:20:25o texto canônico.
00:20:27Completa-o.
00:20:28Salomão
00:20:29selou Asmodeus
00:20:30e ordenou
00:20:31que moldasse
00:20:32barro
00:20:33para os tijolos
00:20:34do templo.
00:20:35Setenta e dois
00:20:36interrogatórios
00:20:38o esperavam.
00:20:39Setenta e dois
00:20:40nomes.
00:20:41Setenta e dois
00:20:42crimes.
00:20:43Setenta e duas
00:20:45fraquezas.
00:20:46O Salão do Trono
00:20:47se transformou.
00:20:49Não por ordem
00:20:50de arquiteto,
00:20:51por necessidade.
00:20:53Correntes
00:20:54pendiam das colunas.
00:20:56Selos divinos
00:20:57marcavam o chão
00:20:58em círculos
00:20:59concêntricos.
00:21:00Tochas de azeite
00:21:02queimavam nos cantos
00:21:03e a fumaça
00:21:04subia em espirais
00:21:06que pareciam
00:21:07fugir dos seres
00:21:07trazidos à presença
00:21:09do rei.
00:21:10Salomão havia
00:21:11criado algo
00:21:12que não existia
00:21:13antes em nenhuma
00:21:14corte da terra.
00:21:15Um tribunal
00:21:17para julgar
00:21:17o invisível.
00:21:19Os demônios
00:21:20vieram em sequência.
00:21:22Cada interrogatório
00:21:24revelava uma camada
00:21:25do mundo das trevas
00:21:26que os textos
00:21:27canônicos
00:21:28jamais
00:21:29descreveram.
00:21:30Tefras,
00:21:31demônio de febre
00:21:32e fogo,
00:21:33confessou ser detido
00:21:35pelo anjo Azael.
00:21:37Salomão o selou
00:21:38e o pôs
00:21:39para fundir metais
00:21:40nas fornalhas
00:21:41do templo.
00:21:42Depois vieram
00:21:43as sete irmãs,
00:21:45espíritos ligados
00:21:46às pleiades,
00:21:47à constelação
00:21:49que os navegadores
00:21:49usavam
00:21:50para cruzar os mares.
00:21:52Entraram juntas
00:21:53como sete sombras
00:21:55entrelaçadas.
00:21:56Cada uma confessou
00:21:58um poder diferente.
00:21:59Uma causava trevas,
00:22:01outra incêndios,
00:22:03outra guerras,
00:22:04outra destruição
00:22:05de colheitas.
00:22:06E a sétima,
00:22:08a mais silenciosa,
00:22:10disse apenas isto,
00:22:11a sétima irmã.
00:22:13Eu faço cair
00:22:14as espadas dos homens
00:22:15sobre seus próprios
00:22:17pescoços.
00:22:18Salomão a selou
00:22:19e ordenou
00:22:20que escavassem
00:22:21as fundações
00:22:21do templo.
00:22:23Duzentos e cinquenta
00:22:24cúbitos de comprimento.
00:22:26à medida que o texto
00:22:28preservou com precisão
00:22:29de engenheiro.
00:22:30Mas o interrogatório
00:22:32que quase custou
00:22:34a vida de Salomão
00:22:35foi o de uma criatura
00:22:36que não tinha cabeça.
00:22:38O demônio
00:22:39entrou cambaleando,
00:22:41um corpo completo
00:22:42de homem,
00:22:43braços,
00:22:44tronco,
00:22:45pernas,
00:22:46sem nada
00:22:47acima do pescoço.
00:22:48O espaço
00:22:50onde a cabeça
00:22:50deveria estar
00:22:51era vazio,
00:22:53aberto,
00:22:54como cratera
00:22:55fumegante.
00:22:55Salomão,
00:22:57quem és?
00:22:58O sem cabeça.
00:23:00Sou chamado
00:23:01inveja,
00:23:02porque desejo
00:23:03devorar cabeças,
00:23:04sempre querendo
00:23:05ter uma cabeça
00:23:06para mim.
00:23:07A criatura
00:23:08avançou,
00:23:09sem aviso,
00:23:11sem hesitação.
00:23:13Os braços
00:23:13se estenderam
00:23:14na direção
00:23:15de Salomão
00:23:15com uma velocidade
00:23:17que os guardas
00:23:18não conseguiram
00:23:19acompanhar.
00:23:19Os dedos
00:23:21descarnados
00:23:22se fecharam
00:23:23ao redor
00:23:23do pescoço
00:23:24do rei.
00:23:24O frio
00:23:26que emanava
00:23:26daquela carne
00:23:27era absoluto,
00:23:29não temperatura,
00:23:31mas ausência
00:23:32de vida,
00:23:32como se o contato
00:23:34drenasse calor,
00:23:35sangue
00:23:36e vontade
00:23:37ao mesmo tempo.
00:23:38O anel
00:23:40pulsou.
00:23:41A pentalfa
00:23:42queimou
00:23:42com uma intensidade
00:23:44que Salomão
00:23:44não havia visto
00:23:46desde a captura
00:23:47de Beuzebú.
00:23:48A luz branca
00:23:49explodiu
00:23:50entre os dedos
00:23:51do demônio
00:23:51e o pescoço
00:23:52do rei
00:23:53e o sem-cabeça
00:23:54foi arremessado
00:23:56para trás,
00:23:56o tronco
00:23:57colidindo
00:23:58com as colunas
00:23:59do salão.
00:24:00O som
00:24:01era úmido,
00:24:02como carne
00:24:03batendo em pedra.
00:24:05Salomão,
00:24:06respondeste
00:24:07a minha pergunta
00:24:08com as mãos
00:24:09antes de respondê-la
00:24:10com a boca
00:24:11que não tens.
00:24:12O sem-cabeça,
00:24:14não preciso
00:24:15de boca,
00:24:16a inveja
00:24:17não fala,
00:24:18consome,
00:24:19e eu queria
00:24:20a tua cabeça,
00:24:21rei.
00:24:22Ainda quero,
00:24:24Salomão,
00:24:25e eu quero
00:24:26te ver
00:24:26escavando pedras
00:24:28e é o meu desejo
00:24:29que vai prevalecer.
00:24:31Salomão
00:24:32selou o demônio
00:24:33e ele se lançou
00:24:34ao chão
00:24:35com um gemido
00:24:36que não tinha
00:24:36boca para produzir.
00:24:38O selo
00:24:39queimou
00:24:39no tronco
00:24:40decapitado
00:24:40como marca
00:24:41em gado
00:24:42e pela primeira vez
00:24:44desde que
00:24:44receberam o anel,
00:24:46Salomão
00:24:46tocou
00:24:47o próprio
00:24:47pescoço,
00:24:48verificando
00:24:49que a carne
00:24:50ainda estava
00:24:51intacta,
00:24:51que a garganta
00:24:52ainda funcionava,
00:24:54que a cabeça
00:24:55ainda era sua.
00:24:56E na sequência,
00:24:59Obizute.
00:25:00Apenas uma cabeça
00:25:01com cabelos
00:25:02desgrenhados,
00:25:03sem corpo,
00:25:04sem membros,
00:25:06arrastando-se
00:25:07pela noite
00:25:07buscando mulheres
00:25:09em trabalho
00:25:09de parto.
00:25:11Obizute.
00:25:12Eu viajo
00:25:13toda noite,
00:25:14vou de parto
00:25:15em parto.
00:25:15Quando encontro
00:25:16a oportunidade,
00:25:17estrangulo
00:25:18a criança.
00:25:19Não descanso,
00:25:20não durmo,
00:25:21não paro.
00:25:23Salomão.
00:25:24Por que crianças?
00:25:25Obizute.
00:25:27A inocência
00:25:28é a coisa
00:25:29mais luminosa
00:25:30que existe.
00:25:31E eu fui criada
00:25:32para odiar
00:25:33a luz.
00:25:34Salomão.
00:25:36Qual é teu nome
00:25:37completo?
00:25:38Obizute.
00:25:40Obizute.
00:25:41Escreve-o
00:25:42num papiro
00:25:43e amarra
00:25:44ao pescoço
00:25:44da criança.
00:25:45E eu
00:25:46fugirei.
00:25:47O nome
00:25:47escrito
00:25:48é a corrente
00:25:49que não se vê.
00:25:51O décimo
00:25:52dos espíritos
00:25:52que Mastema
00:25:53reteve
00:25:54após o dilúvio,
00:25:55aqueles fantasmas
00:25:56famintos,
00:25:57eternamente
00:25:58sedentos,
00:25:59sem corpo
00:26:00para descansar,
00:26:01eram estas
00:26:02criaturas.
00:26:03Os demônios
00:26:05que Salomão
00:26:05interrogava
00:26:06não eram
00:26:07abstrações
00:26:08teológicas.
00:26:09eram os filhos
00:26:11dos vigilantes,
00:26:12os espíritos
00:26:13dos nefilins,
00:26:14as sombras
00:26:15que se desprenderam
00:26:16dos ossos
00:26:17no fundo
00:26:18do dilúvio
00:26:19e nunca
00:26:20encontraram
00:26:20repouso.
00:26:21E agora,
00:26:22pela primeira vez
00:26:23desde que perderam
00:26:24a carne,
00:26:25estavam sendo
00:26:26obrigados
00:26:27a falar.
00:26:28Trinta
00:26:29e seis.
00:26:31Entraram
00:26:31em fileira,
00:26:32como prisioneiros
00:26:33de guerra,
00:26:34marchando diante
00:26:35do conquistador.
00:26:37Trinta e seis
00:26:38espíritos
00:26:39dos decanatos,
00:26:40as divisões
00:26:41de dez
00:26:42graus
00:26:42do zodíaco
00:26:43que os egípcios
00:26:44catalogaram
00:26:45e que os gregos
00:26:46transformaram
00:26:47em sistema.
00:26:49Cada um
00:26:50tinha um rosto
00:26:51diferente,
00:26:52distorcido
00:26:52como reflexo
00:26:54em água agitada,
00:26:55alguns confeições
00:26:56de homem,
00:26:57outros de touro,
00:26:59outros de dragão.
00:27:00Mas estes
00:27:02não vieram
00:27:03mansos.
00:27:04O primeiro
00:27:05cruzou o limiar
00:27:06do salão
00:27:06e Salomão
00:27:07sentiu,
00:27:08uma pressão
00:27:09na têmpora
00:27:10esquerda
00:27:10que se intensificou
00:27:11em segundos,
00:27:12como se um cravo
00:27:13de ferro
00:27:14fosse martelado
00:27:16lentamente
00:27:16dentro do crânio.
00:27:18A dor
00:27:19era precisa,
00:27:20cirúrgica,
00:27:22desenhada
00:27:22para incapacitar.
00:27:24A visão
00:27:25do rei
00:27:25se embaçou.
00:27:27As tábuas
00:27:28na sua mão
00:27:28tremeram.
00:27:29O demônio
00:27:30não esperou
00:27:31a pergunta.
00:27:32Atacou
00:27:32primeiro,
00:27:33tentando derrubar
00:27:34o interrogador
00:27:35antes de ser
00:27:37interrogado.
00:27:38Salomão
00:27:39ergueu
00:27:40a mão do anel.
00:27:41A pentalfa
00:27:42flamejou.
00:27:43A dor recuou
00:27:44como maré
00:27:45puxada por corrente
00:27:46e o primeiro
00:27:47decanato
00:27:48se contorceu
00:27:49no chão,
00:27:50forçado a confessar.
00:27:51O primeiro
00:27:52decanato.
00:27:53Eu entro
00:27:54pela têmpora
00:27:55esquerda
00:27:56e não saio
00:27:56até que o crânio
00:27:57pareça rachar.
00:27:58Mas se invocares
00:28:00Rafael
00:28:00e recitares
00:28:01a fórmula
00:28:02que ele conhece,
00:28:03eu parto.
00:28:05Salomão
00:28:06tentaste me derrubar
00:28:08antes de falar,
00:28:09pior pra ti.
00:28:10Agora me diz
00:28:11a fórmula
00:28:12que não querias
00:28:13revelar.
00:28:14O primeiro
00:28:16decanato.
00:28:17Não cabe
00:28:18a mim
00:28:18revelá-la,
00:28:19cabe a Rafael.
00:28:21Eu só posso
00:28:22dizer o nome
00:28:22de quem me derrota.
00:28:24O resto,
00:28:25o anjo decide.
00:28:27O segundo
00:28:28tentou o mesmo.
00:28:29Um zumbido
00:28:30agudo
00:28:30explodiu dentro
00:28:31dos ouvidos
00:28:32de Salomão.
00:28:33Um som sem fonte,
00:28:35sem direção,
00:28:36projetado diretamente
00:28:37na mente,
00:28:38desenhado
00:28:39para enlouquecer.
00:28:40O segundo
00:28:41decanato.
00:28:42Eu instalo
00:28:43um som
00:28:44dentro do ouvido
00:28:45que nunca cessa.
00:28:46Os homens
00:28:47pensam
00:28:48que é doença.
00:28:49Não é.
00:28:50Sou eu.
00:28:51E só paro
00:28:52quando o nome
00:28:53do anjo
00:28:54Uriel
00:28:54é pronunciado
00:28:56três vezes
00:28:57sobre óleo
00:28:58de mirra.
00:28:59O anel
00:29:00os subjugou
00:29:01um a um.
00:29:03Mas Salomão
00:29:04sentia o custo.
00:29:05Cada demônio
00:29:06que tentava
00:29:07infectá-lo
00:29:08antes de ser selado
00:29:09deixava um resíduo,
00:29:11uma sombra
00:29:12de dor
00:29:13que se acumulava
00:29:14nos ossos do rei
00:29:15como sedimento
00:29:16no fundo
00:29:16de um rio.
00:29:18O terceiro
00:29:19provocava
00:29:19inflamação
00:29:20na garganta.
00:29:21O quarto,
00:29:23espasmos
00:29:23nos rins.
00:29:24O quinto,
00:29:26cegueira
00:29:26temporária.
00:29:27Salomão
00:29:29os vencia,
00:29:30mas não saía
00:29:31ileso.
00:29:32Cada selo
00:29:33custava um pouco
00:29:34mais de força
00:29:35e faltavam
00:29:37trinta e um.
00:29:38Salomão
00:29:39registrava
00:29:40tudo.
00:29:41Tábua
00:29:41após tábua,
00:29:43o rei
00:29:43catalogava
00:29:44a anatomia
00:29:45invisível
00:29:45do sofrimento
00:29:46humano.
00:29:47A mente
00:29:48que classificava
00:29:49árvores,
00:29:49peixes e aves
00:29:50agora classificava
00:29:52o que nenhum
00:29:53sábio
00:29:53ousara mapear.
00:29:54A origem
00:29:55sobrenatural
00:29:57de cada
00:29:57dor.
00:29:58Os manuscritos
00:29:59do Mar Morto,
00:30:00as mesmas cavernas
00:30:02de Qumran,
00:30:03que preservaram
00:30:04o livro
00:30:04dos gigantes,
00:30:05continham
00:30:06fragmentos
00:30:07exorcísticos
00:30:08ligados
00:30:08a Salomão.
00:30:10O fragmento
00:30:114,
00:30:11que 5 e 60
00:30:12descreve
00:30:13fórmulas
00:30:14de exorcismo.
00:30:15O manuscrito
00:30:1611,
00:30:17que 11
00:30:17preserva
00:30:18salmos
00:30:19apócrifos
00:30:20de Davi
00:30:20com poder
00:30:21sobre demônios.
00:30:23A tradição
00:30:24começou séculos
00:30:25antes de Cristo,
00:30:26nas comunidades
00:30:27que preservaram
00:30:28os textos
00:30:29sobre Enoque
00:30:30e os vigilantes.
00:30:32O vigésimo
00:30:33sétimo
00:30:34demônio
00:30:35dos decanatos
00:30:36confessou
00:30:36algo que fez
00:30:37Salomão
00:30:38parar de escrever.
00:30:40O vigésimo
00:30:41sétimo
00:30:42Eu causo
00:30:44tremores
00:30:44nos nervos
00:30:45das mãos.
00:30:46Mas se o doente
00:30:47escrever estas
00:30:48palavras na folha
00:30:49de um pé
00:30:50de figueira
00:30:50e a colocar
00:30:51diante de mim,
00:30:52fugirei
00:30:53imediatamente.
00:30:55Salomão
00:30:56Por que a figueira?
00:30:58O vigésimo
00:30:59sétimo
00:31:00Porque a figueira
00:31:01foi a primeira
00:31:02árvore cujas
00:31:03folhas
00:31:04cobriram a vergonha
00:31:05no jardim.
00:31:06E eu nasci
00:31:07daquela vergonha.
00:31:09A árvore
00:31:10que cobriu
00:31:10o primeiro
00:31:11pecado
00:31:12é a mesma
00:31:13que desfaz
00:31:14o que eu faço.
00:31:16A conexão
00:31:17era vertiginosa.
00:31:19O Gênesis
00:31:20diz conta
00:31:21que Adão
00:31:22e Eva
00:31:22costuraram
00:31:23folhas
00:31:24de figueira
00:31:25depois de comer
00:31:26o fruto.
00:31:26E agora,
00:31:28milênios
00:31:28depois,
00:31:29um demônio
00:31:30confessava
00:31:30que a árvore
00:31:31que cobriu
00:31:32o primeiro
00:31:32pecado
00:31:33era a arma
00:31:34contra ele.
00:31:35O fio
00:31:37que conectava
00:31:37o Éden
00:31:38ao templo
00:31:39de Salomão
00:31:39era uma linha
00:31:41reta,
00:31:41tecida com
00:31:42sombras
00:31:43e folhas.
00:31:44Quando o
00:31:45trigésimo
00:31:46sexto
00:31:46terminou
00:31:47sua confissão,
00:31:48Salomão
00:31:49olhou
00:31:49para as
00:31:50tábuas
00:31:50acumuladas.
00:31:51Trinta e seis
00:31:53doenças,
00:31:54trinta e seis
00:31:55nomes
00:31:56angélicos,
00:31:57trinta e seis
00:31:58fórmulas
00:31:59de cura,
00:32:00um manual
00:32:01de guerra
00:32:02espiritual
00:32:02arrancado
00:32:03da boca
00:32:04dos inimigos.
00:32:05E o templo
00:32:06continuava
00:32:07subindo,
00:32:08pedra
00:32:09sobre pedra,
00:32:10coluna
00:32:10sobre coluna,
00:32:12cada bloco
00:32:12carregado,
00:32:13cortado
00:32:14e posicionado
00:32:15por mãos
00:32:16que não
00:32:16eram
00:32:17humanas.
00:32:17A ironia
00:32:18era colossal
00:32:20e Salomão
00:32:21sabia.
00:32:22O lugar
00:32:23mais sagrado
00:32:24da terra,
00:32:25a casa
00:32:26onde a presença
00:32:27de Deus
00:32:27habitaria
00:32:28entre os
00:32:28homens,
00:32:29o santo
00:32:30dos santos,
00:32:30onde a
00:32:31arca
00:32:31da aliança
00:32:32repousaria
00:32:33entre os
00:32:34querubins
00:32:34de ouro,
00:32:35estava sendo
00:32:36erguido
00:32:36por demônios.
00:32:38Hórnias
00:32:39cortava pedras
00:32:40com a precisão
00:32:40de quem já
00:32:41havia esculpido
00:32:42montanhas
00:32:43antes do
00:32:43dilúvio.
00:32:45Onoskelis
00:32:46fiava
00:32:47as cordas
00:32:47que amarravam
00:32:48as vigas
00:32:49de cedro.
00:32:50Asmodeus
00:32:51moldava
00:32:52tijolos
00:32:52com as mesmas
00:32:53mãos
00:32:54que destruíam
00:32:55noivos.
00:32:56Os 36
00:32:57decanatos
00:32:58escavavam
00:33:00as fundações
00:33:00com a eficiência
00:33:01de quem
00:33:02não sente
00:33:03cansaço.
00:33:04E as
00:33:05ferramentas
00:33:05que usavam,
00:33:06os cinzéis,
00:33:07os martelos,
00:33:08as lâminas,
00:33:09haviam sido
00:33:10forjadas
00:33:11com o conhecimento
00:33:12que Azazel,
00:33:13o vigilante,
00:33:15preso no abismo
00:33:16de Dudael,
00:33:17ensinou a humanidade
00:33:18antes de ser
00:33:19acorrentado
00:33:20por Rafael.
00:33:22A pedra angular,
00:33:24o bloco final
00:33:25que selaria
00:33:25a entrada
00:33:26do templo,
00:33:27era grande demais
00:33:28para qualquer
00:33:29grupo humano
00:33:30erguer.
00:33:31Pesava
00:33:32mais do que
00:33:33cem bois
00:33:34poderiam
00:33:35arrastar,
00:33:36e ali
00:33:36permanecia,
00:33:38imóvel,
00:33:38como um desafio,
00:33:40que a engenharia
00:33:41mortal
00:33:41não podia
00:33:42vencer.
00:33:43Salomão.
00:33:44Quem entre os demônios
00:33:46pode erguer esta pedra?
00:33:48Beuzebú.
00:33:49Nenhum de nós
00:33:50sozinho.
00:33:51Mas existe
00:33:52um espírito
00:33:53de vento,
00:33:54preso
00:33:54nas terras
00:33:55da Arábia,
00:33:56cujo poder
00:33:56moveria montanhas
00:33:58se fosse
00:33:59corretamente
00:33:59comandado.
00:34:01Salomão
00:34:01enviou um garoto
00:34:03com um anel
00:34:03e um odre
00:34:04de couro,
00:34:05apontar o selo
00:34:06contra o vento,
00:34:08capturar a corrente,
00:34:09amarrar.
00:34:10O garoto
00:34:11obedeceu.
00:34:12Quando voltou
00:34:13com o odre
00:34:14inflado,
00:34:14o demônio
00:34:15dentro
00:34:16se identificou.
00:34:17Efipas.
00:34:19Sou
00:34:19Efipas,
00:34:21espírito
00:34:21de vento,
00:34:22e sou
00:34:23forte o suficiente
00:34:24para mover
00:34:24aquilo
00:34:25que nenhum
00:34:26braço
00:34:26humano
00:34:27pode mover.
00:34:28Salomão
00:34:28ordenou.
00:34:29Efipas
00:34:30se posicionou
00:34:31sob a pedra
00:34:32angular
00:34:32e a ergueu
00:34:33com a facilidade
00:34:34de quem levanta
00:34:35uma folha
00:34:36seca.
00:34:37O bloco
00:34:38deslizou
00:34:38para a posição
00:34:39com um estrondo
00:34:40que ecoou
00:34:41pelo vale
00:34:42de Josafá.
00:34:43O templo
00:34:44estava quase
00:34:45completo,
00:34:46mas
00:34:47Efipas
00:34:48trouxe
00:34:49consigo
00:34:49algo mais.
00:34:51Do fundo
00:34:51do mar
00:34:52vermelho,
00:34:53ele e outro
00:34:54demônio
00:34:55ergueram
00:34:56uma coluna
00:34:56de material
00:34:57púrpura,
00:34:58cuja natureza
00:34:59o texto
00:35:00original
00:35:00não consegue
00:35:02descrever
00:35:03com precisão,
00:35:04como se a
00:35:04substância
00:35:05pertencesse
00:35:06a uma
00:35:06ordem
00:35:07que o
00:35:07grego
00:35:08não tinha
00:35:08palavras
00:35:09para nomear.
00:35:10O demônio
00:35:11do mar
00:35:12vermelho
00:35:13revelou
00:35:14sua
00:35:14identidade.
00:35:15A
00:35:16Bezetibou,
00:35:17eu sou
00:35:18o que
00:35:19apoiou
00:35:20os magos
00:35:20do Egito
00:35:21contra
00:35:22Moisés.
00:35:23Eu
00:35:23endureci
00:35:24o coração
00:35:25do faraó.
00:35:26E quando
00:35:27o mar
00:35:27se fechou
00:35:28sobre o
00:35:28exército
00:35:29egípcio,
00:35:30foi capturado
00:35:31junto com
00:35:31eles,
00:35:32preso
00:35:32debaixo
00:35:33desta coluna
00:35:34no fundo
00:35:34das águas
00:35:35por séculos,
00:35:36até que
00:35:37Efipas
00:35:37me encontrou.
00:35:39Salomão,
00:35:40então foi
00:35:41um demônio
00:35:41que endureceu
00:35:42o coração
00:35:42do faraó?
00:35:43O texto
00:35:44sagrado
00:35:45diz que
00:35:46Deus
00:35:46o endureceu.
00:35:47A Bezetibou,
00:35:49e disse
00:35:50a verdade,
00:35:51Deus
00:35:52endureceu
00:35:53o coração,
00:35:54usando a
00:35:54mim como
00:35:55instrumento.
00:35:56Tu
00:35:57achas que
00:35:57o Altíssimo
00:35:58desce
00:35:59pessoalmente
00:36:00para cada
00:36:00tarefa?
00:36:02Ele
00:36:02delega,
00:36:03sempre
00:36:04delegou,
00:36:05até para as
00:36:06trevas
00:36:06a função,
00:36:07dentro
00:36:07do
00:36:08plano.
00:36:09Salomão,
00:36:10e passaste
00:36:11séculos
00:36:11sob a água,
00:36:13preso
00:36:13numa coluna,
00:36:14sem
00:36:14escapatória?
00:36:16Abesetibou,
00:36:17sem
00:36:18escapatória,
00:36:19no fundo
00:36:19do mar
00:36:20vermelho,
00:36:20com os ossos
00:36:21dos soldados
00:36:22egípcios
00:36:23ao redor,
00:36:24a água
00:36:24esmagando,
00:36:25o silêncio
00:36:26mais completo
00:36:27que qualquer
00:36:27criação
00:36:28
00:36:28experimentou.
00:36:30Séculos,
00:36:31sem
00:36:32voz,
00:36:32sem
00:36:33movimento,
00:36:34sem
00:36:34nada,
00:36:35além da
00:36:36certeza
00:36:37de que a
00:36:37punição
00:36:38era precisa
00:36:39demais
00:36:39para ser
00:36:41acidente.
00:36:42Salomão
00:36:43contemplou a
00:36:44coluna
00:36:44púrpura
00:36:45erguida
00:36:45no templo,
00:36:46uma relíquia
00:36:47do fundo
00:36:48do mar
00:36:48vermelho,
00:36:49trazida por
00:36:50demônios,
00:36:51instalada na
00:36:52casa de
00:36:52Deus.
00:36:53O
00:36:54sagrado e o
00:36:55profano
00:36:55entrelaçados
00:36:56como fios
00:36:57de uma
00:36:57mesma
00:36:58corda.
00:36:59E no
00:37:00silêncio
00:37:00que se
00:37:01seguiu,
00:37:01enquanto as
00:37:02últimas pedras
00:37:03eram
00:37:03posicionadas,
00:37:05Beuzebú
00:37:05olhou para
00:37:06Salomão
00:37:07com algo
00:37:07que não
00:37:08era
00:37:08submissão.
00:37:09Era
00:37:10reconhecimento.
00:37:12O
00:37:12reconhecimento
00:37:14de quem
00:37:14sabe que o
00:37:15poder do
00:37:15adversário
00:37:16não vem
00:37:17dele,
00:37:17vem do
00:37:18anel.
00:37:19E anéis
00:37:20podem ser
00:37:21tirados.
00:37:22Salomão
00:37:23convocou
00:37:23Beuzebú
00:37:24para o
00:37:24último
00:37:25interrogatório.
00:37:26Não
00:37:27diante do
00:37:27trono
00:37:28provisório,
00:37:29diante do
00:37:30altar
00:37:30recém
00:37:31construído,
00:37:31no coração
00:37:32do
00:37:32templo que
00:37:33os próprios
00:37:34demônios
00:37:34haviam
00:37:35erguido.
00:37:36O
00:37:36ar ali
00:37:37era
00:37:37diferente,
00:37:38mais
00:37:38pesado,
00:37:39como se
00:37:40duas
00:37:40atmosferas
00:37:41colidissem.
00:37:43A
00:37:43presença
00:37:44residual
00:37:44do
00:37:45Deus
00:37:45que
00:37:46habitaria
00:37:46aquele
00:37:46lugar
00:37:47e a
00:37:48presença
00:37:48relutante
00:37:49da
00:37:49criatura
00:37:50acorrentada
00:37:51diante
00:37:52do
00:37:52altar.
00:37:54Salomão
00:37:55disse que
00:37:56foste o
00:37:57mais
00:37:57elevado
00:37:58nos
00:37:58céus.
00:38:00Conta-me
00:38:01a hierarquia
00:38:02das trevas.
00:38:03Como estão
00:38:04organizados?
00:38:05Beuzebú
00:38:06Os que
00:38:07meus subordinados
00:38:08chamam de
00:38:08demônios
00:38:09são apenas
00:38:09a ponta
00:38:10visível.
00:38:11Abaixo de
00:38:12mim
00:38:12existem
00:38:12legiões,
00:38:13cada uma
00:38:14com
00:38:14príncipe,
00:38:15cada príncipe
00:38:16com
00:38:16jurisdição.
00:38:17Uns
00:38:18governam
00:38:18doenças,
00:38:19outros
00:38:20paixões,
00:38:21outros
00:38:22guerras,
00:38:24desastres
00:38:25naturais.
00:38:26A
00:38:26estrutura
00:38:27espelha o
00:38:28que existe
00:38:29no céu,
00:38:29porque foi
00:38:30de lá
00:38:30que
00:38:31viemos e
00:38:32trouxemos
00:38:32conosco
00:38:33a
00:38:33organização
00:38:34que
00:38:34aprendemos
00:38:35servindo
00:38:36o
00:38:36trono.
00:38:37Salomão
00:38:38E os
00:38:39que
00:38:39caíram
00:38:40antes
00:38:40de
00:38:40ti?
00:38:41Os
00:38:41duzentos
00:38:42vigilantes
00:38:42que
00:38:43desceram
00:38:43ao
00:38:43monte
00:38:44Wermon
00:38:44e
00:38:45selaram
00:38:45o
00:38:46pacto
00:38:46que
00:38:46gerou
00:38:47os
00:38:47nefilins?
00:38:48Qual
00:38:48é a
00:38:48relação
00:38:49deles
00:38:49contigo?
00:38:50Beuzebú?
00:38:51Os
00:38:52vigilantes
00:38:53são
00:38:53outro
00:38:53capítulo.
00:38:54Eles
00:38:54não se
00:38:55rebelaram
00:38:56contra o
00:38:56trono.
00:38:57Abandonaram
00:38:58o posto.
00:38:59A
00:38:59diferença
00:39:00é a
00:39:00motivação.
00:39:01Eu
00:39:02quis
00:39:02governar.
00:39:03Eles
00:39:03quiseram
00:39:04sentir.
00:39:05Salomão
00:39:06e
00:39:06os
00:39:07filhos
00:39:07deles
00:39:08Beuzebú?
00:39:10Os
00:39:10gigantes
00:39:11que
00:39:11morreram
00:39:11no
00:39:11dilúvio
00:39:12são
00:39:12muitos
00:39:13dos
00:39:13espíritos
00:39:14que
00:39:14tu
00:39:14interrogaste
00:39:15esta
00:39:16semana,
00:39:16Salomão.
00:39:17Aquele
00:39:17décimo
00:39:18que
00:39:18permaneceu
00:39:19na
00:39:19terra
00:39:19por
00:39:19barganha
00:39:20de
00:39:20mastema.
00:39:21Pensa
00:39:22que
00:39:22eu
00:39:22os
00:39:22governo
00:39:22por
00:39:23escolha?
00:39:23Governo
00:39:24por
00:39:24herança?
00:39:26São
00:39:26os
00:39:26órfãos
00:39:27da
00:39:27queda
00:39:27e
00:39:28órfãos
00:39:28precisam
00:39:29de
00:39:29alguém
00:39:30que
00:39:30os
00:39:30organize,
00:39:31mesmo
00:39:31que
00:39:32esse
00:39:32alguém
00:39:32também
00:39:33esteja
00:39:33caído?
00:39:35Salomão.
00:39:36Então
00:39:36Hórnias,
00:39:37Téfras,
00:39:38os
00:39:39Decanatos,
00:39:40são
00:39:40espíritos
00:39:41dos
00:39:41Nefilins?
00:39:43Beuzebú.
00:39:44Alguns
00:39:45são,
00:39:45outros
00:39:46são
00:39:46mais
00:39:46antigos.
00:39:47O
00:39:48mundo
00:39:48invisível
00:39:49não é
00:39:49simples
00:39:50como os
00:39:50homens
00:39:51gostariam.
00:39:52
00:39:52camadas,
00:39:53
00:39:54hierarquias
00:39:54dentro
00:39:55de
00:39:55hierarquias
00:39:56e há
00:39:57seres
00:39:57que
00:39:57precedem
00:39:58a
00:39:58queda
00:39:59dos
00:39:59vigilantes,
00:40:00que
00:40:00precedem
00:40:01a
00:40:01minha
00:40:01própria
00:40:02queda,
00:40:03que
00:40:03existem
00:40:04desde
00:40:04que
00:40:05a
00:40:05primeira
00:40:05sombra
00:40:06foi
00:40:06projetada
00:40:07pela
00:40:07primeira
00:40:08luz.
00:40:09A
00:40:09conexão
00:40:10era
00:40:10agora
00:40:10explícita.
00:40:11O
00:40:12Zohar,
00:40:13na
00:40:13seção
00:40:13Vaíkra,
00:40:14descreve
00:40:15Salomão
00:40:16como aquele
00:40:16que
00:40:17dominou
00:40:17os
00:40:17Shedim,
00:40:18os
00:40:18espíritos
00:40:19das
00:40:19trevas,
00:40:20e o
00:40:21livro
00:40:21de
00:40:21Enoque,
00:40:22capítulo
00:40:2269,
00:40:24lista
00:40:24os
00:40:24nomes
00:40:25dos
00:40:25anjos
00:40:26caídos
00:40:27que
00:40:27ensinaram
00:40:28encantamentos
00:40:29à
00:40:29humanidade.
00:40:30Quando
00:40:31se
00:40:31cruzam
00:40:31as
00:40:31listas,
00:40:32os nomes
00:40:33de
00:40:33primeiro
00:40:34Enoque
00:40:34com os
00:40:35demônios
00:40:35do
00:40:35testamento,
00:40:36os padrões
00:40:37emergem.
00:40:38Não são
00:40:39entidades
00:40:40aleatórias,
00:40:41são os
00:40:41mesmos
00:40:42seres,
00:40:43com nomes
00:40:43diferentes
00:40:44em tradições
00:40:45diferentes,
00:40:46mas com a
00:40:46mesma origem,
00:40:48a rebelião
00:40:48no céu
00:40:49e a queda
00:40:50que se
00:40:50seguiu.
00:40:52Salomão,
00:40:53e acima
00:40:54de ti?
00:40:54Existe
00:40:55alguém acima
00:40:56do
00:40:56exarca
00:40:57dos demônios?
00:40:57Beelzebú
00:40:59hesitou.
00:41:00Pela
00:41:00primeira
00:41:01vez
00:41:01desde
00:41:02que
00:41:02fora
00:41:02capturado,
00:41:03o
00:41:03príncipe
00:41:04das
00:41:04trevas
00:41:05demonstrou
00:41:05algo
00:41:06parecido
00:41:06com
00:41:06medo.
00:41:08Beelzebú,
00:41:09há um
00:41:10nome que
00:41:10não
00:41:10pronuncio,
00:41:11não
00:41:12por
00:41:12respeito,
00:41:13por
00:41:13cautela,
00:41:14porque
00:41:15esse
00:41:15ser
00:41:15não
00:41:16opera
00:41:16como
00:41:16eu
00:41:17opero,
00:41:17não
00:41:18governa
00:41:18legiões,
00:41:19não
00:41:20comanda
00:41:20exércitos,
00:41:21não
00:41:21se
00:41:22interessa
00:41:22por
00:41:22territórios,
00:41:23ele
00:41:24serve
00:41:24no
00:41:24tribunal
00:41:25celeste,
00:41:26é
00:41:26acusador
00:41:27e
00:41:27executor,
00:41:28e o
00:41:28veneno
00:41:29que
00:41:29carrega
00:41:30no
00:41:30nome
00:41:30não
00:41:31é
00:41:31metáfora,
00:41:32é
00:41:32descrição.
00:41:33
00:41:34anjos
00:41:34que
00:41:34caíram
00:41:35por
00:41:35orgulho,
00:41:36
00:41:36anjos
00:41:37que
00:41:37caíram
00:41:37por
00:41:38desejo,
00:41:39mas
00:41:39existe
00:41:40um
00:41:40que
00:41:41não
00:41:41caiu,
00:41:42que
00:41:42permaneceu
00:41:43entre o
00:41:43trono
00:41:44e o
00:41:44abismo,
00:41:45servindo
00:41:45a
00:41:46ambos,
00:41:46ou
00:41:46a
00:41:47nenhum,
00:41:47com
00:41:48um
00:41:48propósito
00:41:48que nem
00:41:49os
00:41:49mais
00:41:50antigos
00:41:50de
00:41:50nós
00:41:51compreendemos
00:41:52inteiramente.
00:41:54Salomão,
00:41:55seu nome,
00:41:56Beuzebú,
00:41:58não nesta
00:41:59noite,
00:41:59rei,
00:41:59porque alguns
00:42:00nomes,
00:42:01quando pronunciados,
00:42:02convocam,
00:42:03e o que viria
00:42:04não é algo
00:42:05que teu anel
00:42:05possa segurar.
00:42:07Salomão
00:42:08não insistiu.
00:42:09A sabedoria
00:42:10que Deus
00:42:10lidera
00:42:11incluía
00:42:12saber
00:42:12quando
00:42:13parar
00:42:13de
00:42:14perguntar.
00:42:14O rei
00:42:15anotou
00:42:16nas tábuas,
00:42:16existe
00:42:17uma entidade
00:42:18acima
00:42:19da hierarquia
00:42:20dos demônios,
00:42:21vinculada
00:42:22ao tribunal
00:42:22celeste,
00:42:23cujo nome
00:42:24o próprio
00:42:24Beuzebú
00:42:25teme pronunciar,
00:42:26e guardou
00:42:27a anotação
00:42:28para uma
00:42:29investigação
00:42:29futura
00:42:30que jamais
00:42:31completaria,
00:42:32porque o
00:42:33tempo de
00:42:33Salomão
00:42:34estava
00:42:34acabando,
00:42:35não o
00:42:36tempo do
00:42:36rei,
00:42:37o tempo
00:42:37do
00:42:38anel.
00:42:38Os
00:42:39demônios
00:42:39estavam
00:42:40selados,
00:42:41o templo
00:42:42estava
00:42:42erguido,
00:42:43a fama
00:42:44de Salomão
00:42:45atravessava
00:42:45continentes
00:42:46como vento
00:42:47cruzando
00:42:48o deserto,
00:42:49dos reis
00:42:50de Sabá
00:42:50aos faraós
00:42:51do Egito,
00:42:52a notícia
00:42:53de que um
00:42:53homem mortal
00:42:54dominava
00:42:55espíritos
00:42:56com um
00:42:56anel divino,
00:42:57provocava
00:42:58admiração,
00:42:59terror e
00:43:00inveja,
00:43:00em proporções
00:43:01iguais.
00:43:03Primeiro
00:43:03reis,
00:43:04capítulo
00:43:0511.
00:43:05As palavras
00:43:06do texto
00:43:07canônico
00:43:07são precisas
00:43:08como
00:43:09bisturi.
00:43:09O rei
00:43:10Salomão
00:43:11amou
00:43:11muitas
00:43:12mulheres
00:43:12estrangeiras,
00:43:13além da
00:43:14filha do
00:43:15faraó,
00:43:15Moabitas,
00:43:16Amonitas,
00:43:18Edomitas,
00:43:19Sidonias e
00:43:20Ititas.
00:43:21Eram
00:43:22mulheres
00:43:22das nações
00:43:23sobre as quais
00:43:24o Senhor
00:43:24dissera aos
00:43:25filhos de
00:43:26Israel,
00:43:27não vos
00:43:27misturareis
00:43:28com elas,
00:43:29nem elas
00:43:30convosco,
00:43:31porque certamente
00:43:32desviarão
00:43:33vosso coração
00:43:34para seguir
00:43:35seus
00:43:36deuses.
00:43:37Salomão
00:43:37não ouviu,
00:43:38ou ouviu
00:43:40e ignorou.
00:43:41Sete
00:43:42centas
00:43:42mulheres
00:43:43de sangue
00:43:44real,
00:43:45trezentas
00:43:46concubinas,
00:43:47mil
00:43:47corações
00:43:48batendo ao
00:43:49redor de um
00:43:49rei cujo
00:43:50próprio coração
00:43:51começava
00:43:52a rachar.
00:43:53Mas o
00:43:54testamento
00:43:55não fala
00:43:55de mil
00:43:56mulheres,
00:43:56fala de
00:43:57uma,
00:43:58uma
00:43:58jebusita
00:43:59ou
00:43:59sunamita,
00:44:01dependendo
00:44:01do manuscrito,
00:44:02cujos olhos
00:44:03continham
00:44:04algo que
00:44:05nenhum selo
00:44:06podia decifrar
00:44:07e nenhum
00:44:07anjo
00:44:08podia
00:44:08combater.
00:44:09Desejo
00:44:10humano,
00:44:11simples,
00:44:12antigo,
00:44:13devastador.
00:44:15Salomão
00:44:15Eu a vi
00:44:17nos jardins
00:44:18perto do
00:44:18templo,
00:44:19a pele
00:44:20cor de
00:44:20amêndoa,
00:44:21os cabelos
00:44:22negros
00:44:23como tinta
00:44:24de escriba,
00:44:25e soube
00:44:25imediatamente
00:44:27que aquela
00:44:27mulher faria
00:44:28o que
00:44:28setenta e dois
00:44:30demônios
00:44:30não conseguiram.
00:44:32Mas havia
00:44:33algo que
00:44:33tornava esta
00:44:34tentação mais
00:44:35perigosa
00:44:36que qualquer
00:44:37interrogatório.
00:44:38Os demônios
00:44:39obedeciam
00:44:40porque o
00:44:40anel
00:44:41os obrigava.
00:44:42A mulher
00:44:43não obedecia
00:44:44a nada.
00:44:45Não havia
00:44:46selo que
00:44:47funcionasse
00:44:47contra o
00:44:48desejo
00:44:49humano.
00:44:49Não havia
00:44:50pentalfa
00:44:51capaz de
00:44:52selar a
00:44:53vontade de
00:44:54um homem
00:44:54contra si
00:44:55mesmo.
00:44:55Salomão,
00:44:56que catalogara
00:44:57cada fraqueza
00:44:59dos espíritos
00:44:59das trevas,
00:45:00descobriu que
00:45:01a maior
00:45:02fraqueza
00:45:03não estava
00:45:04nos demônios,
00:45:05estava
00:45:05nele.
00:45:06O rei
00:45:07que forçara
00:45:08Beuzebú
00:45:09a se ajoelhar
00:45:10era impotente
00:45:11diante de um
00:45:12rosto que
00:45:12não habitava
00:45:13cavernas
00:45:14nem constelações,
00:45:15mas os
00:45:16jardins do
00:45:17palácio,
00:45:18caminhando
00:45:18sob as
00:45:19figueiras
00:45:19com os pés
00:45:20descalços
00:45:21na relva
00:45:22de Jerusalém.
00:45:23A
00:45:24jebusita
00:45:24exigiu
00:45:25um preço,
00:45:26não ouro,
00:45:27não terra,
00:45:28não posição,
00:45:29adoração.
00:45:30queria que
00:45:31Salomão
00:45:32sacrificasse
00:45:33aos deuses
00:45:34dela,
00:45:35Renfã,
00:45:36Moloque,
00:45:37os mesmos
00:45:38ídolos
00:45:38cujos adoradores
00:45:39Salomão
00:45:40desprezara
00:45:41por décadas.
00:45:42Salomão,
00:45:43não posso,
00:45:44o selo
00:45:45que carrego
00:45:45vem do
00:45:46Deus
00:45:46que proíbe
00:45:47adoração
00:45:48a outros.
00:45:49A jebusita,
00:45:50e o desejo
00:45:50que carregas?
00:45:51Esse vem
00:45:52de onde,
00:45:52rei?
00:45:53Do mesmo
00:45:53Deus?
00:45:54Ou de ti
00:45:54mesmo?
00:45:55Salomão,
00:45:56de mim,
00:45:57e eu sei
00:45:57controlá-lo.
00:45:58A jebusita,
00:46:00então controla,
00:46:02vá embora,
00:46:03esquece meu rosto,
00:46:05esquece o som
00:46:06da minha voz,
00:46:07esquece que me viste
00:46:08nos jardins
00:46:09perto do templo
00:46:10que os teus demônios
00:46:11construíram.
00:46:13Salomão não foi embora,
00:46:15voltou no dia seguinte,
00:46:16e no outro,
00:46:17e no outro,
00:46:19a jebusita,
00:46:21cinco gafanhotos,
00:46:22esmaga-os em nome
00:46:23de Moloque,
00:46:24é tudo o que peço,
00:46:26cinco gafanhotos,
00:46:27insetos,
00:46:29criaturas que um homem
00:46:30esmaga entre os dedos
00:46:31sem pensar.
00:46:32Salomão olhou para o anel
00:46:34na mão direita,
00:46:35a pentalfa ainda brilhava,
00:46:37a autoridade ainda pulsava,
00:46:40setenta e dois demônios
00:46:42ainda obedeciam,
00:46:44que mal poderiam fazer
00:46:45cinco gafanhotos.
00:46:47A tradição preservou
00:46:49o que aconteceu
00:46:49com a crueldade
00:46:51de quem registra derrotas
00:46:53com a mesma precisão
00:46:54que registra vitórias.
00:46:57Salomão pegou
00:46:58os gafanhotos,
00:46:59fechou o punho,
00:47:01esmagou-os
00:47:02murmurando o nome
00:47:03de Moloque,
00:47:04e o anel se apagou,
00:47:06não gradualmente,
00:47:07não aos poucos.
00:47:09A luz da pentalfa
00:47:11se extinguiu
00:47:12como chama soprada
00:47:14num instante.
00:47:15O calor que Salomão
00:47:16sentia na mão
00:47:17desde a noite
00:47:17em que Miguel descera
00:47:19desapareceu,
00:47:20substituído por um frio
00:47:22que não era temperatura,
00:47:23era ausência,
00:47:25ausência de autoridade,
00:47:27ausência de conexão,
00:47:29ausência do nome
00:47:31que sustentava o selo.
00:47:33O Espírito de Deus
00:47:34partiu de Salomão,
00:47:36não com trovão,
00:47:38não com terremoto,
00:47:39com silêncio,
00:47:41o mesmo silêncio
00:47:42que o céu usara
00:47:44quando os gigantes
00:47:45imploraram perdão
00:47:46antes do dilúvio.
00:47:48E naquele silêncio,
00:47:50Salomão soube
00:47:51que havia perdido
00:47:52mais do que o anel.
00:47:54Havia perdido
00:47:55a si mesmo.
00:47:56Os portões do templo
00:47:58se abriram
00:47:58de dentro para fora,
00:48:00não por mãos humanas,
00:48:02não por vento.
00:48:03Os ferrolhos de bronze
00:48:05estouraram como gravetos
00:48:07e das profundezas
00:48:08do edifício
00:48:09mais sagrado da terra,
00:48:11uma onda de escuridão
00:48:13irrompeu,
00:48:14densa,
00:48:15palpável,
00:48:16fedendo a enxofre
00:48:17e a liberdade
00:48:18recém-conquistada.
00:48:20Os demônios
00:48:21estavam soltos.
00:48:23Hórnias foi o primeiro
00:48:25a emergir.
00:48:26A chama que Salomão
00:48:27havia domesticado agora
00:48:29ardia sem controle,
00:48:32incendiando as cortinas
00:48:33do átrio externo.
00:48:35Ao passar pelo trono,
00:48:37o demônio
00:48:38que um dia
00:48:38fora capturado
00:48:39por um garoto,
00:48:40parou e olhou
00:48:41para o rei
00:48:42com algo
00:48:42que não era raiva.
00:48:44Era gratidão invertida.
00:48:48Hórnias
00:48:48Obrigado, rei.
00:48:50Pelo tempo que servi,
00:48:52aprendi cada fissura
00:48:54deste templo,
00:48:55cada sombra,
00:48:56cada canto
00:48:57onde a luz
00:48:58não alcança.
00:48:59Agora conheço
00:49:00a casa de Deus
00:49:01melhor do que
00:49:02o próprio Deus
00:49:03conhece
00:49:03os que a construíram.
00:49:05Onoskelis
00:49:06saiu galopando
00:49:07com os cascos
00:49:08de mula
00:49:09estalando no mármore
00:49:10e seu riso
00:49:11agudo,
00:49:13dilacerante,
00:49:14ecoou pelos vales
00:49:15ao redor
00:49:16de Jerusalém.
00:49:18Onoskelis,
00:49:19as cordas
00:49:20que fiei
00:49:21continuarão
00:49:21amarrando
00:49:22as vigas,
00:49:23Salomão.
00:49:24Cada vez
00:49:24que olhares
00:49:25para o templo,
00:49:26lembrarás
00:49:27que minhas mãos
00:49:28o mantêm
00:49:29de pé.
00:49:30Asmodeu
00:49:31se ergueu
00:49:31como coluna
00:49:32de fumaça negra
00:49:33e desapareceu
00:49:35na direção
00:49:35das aldeias
00:49:36onde noivos
00:49:37dormiam tranquilos.
00:49:38Não disse nada,
00:49:40não precisava.
00:49:41A primeira noite
00:49:42de núpcias
00:49:43que destruísse
00:49:44seria a sua resposta.
00:49:47Os trinta e seis
00:49:48decanatos
00:49:49se dispersaram
00:49:51como enxame
00:49:51de vespas,
00:49:52cada um retornando
00:49:54à sua doença,
00:49:55ao seu posto
00:49:56de tormento.
00:49:57Beuzebú saiu
00:49:59por último.
00:49:59Não correu.
00:50:01Caminhou.
00:50:02Parou diante
00:50:03de Salomão
00:50:04que estava sentado
00:50:05no trono
00:50:06com a mão vazia,
00:50:07a mão onde o anel
00:50:09ainda deixava
00:50:10marca circular
00:50:11na pele.
00:50:12Beuzebú.
00:50:13Eu te avisei,
00:50:15Salomão.
00:50:15O selo funciona
00:50:17enquanto o portador
00:50:18servir ao Deus
00:50:19que o forjou.
00:50:20Tu o serviste bem,
00:50:22construíste o templo,
00:50:23catalogaste o invisível
00:50:25e depois
00:50:26esmagaste
00:50:27cinco gafanhotos
00:50:29por uma mulher,
00:50:30cinco insetos
00:50:31e perdeste tudo.
00:50:33Salomão.
00:50:34Vai embora,
00:50:36Beuzebú.
00:50:37Já estou indo.
00:50:39Mas antes,
00:50:40uma verdade
00:50:41que nenhum
00:50:42dos meus subordinados
00:50:43ousou te dizer.
00:50:44O anel
00:50:45não te protegia
00:50:46apenas de nós.
00:50:48Protegia-nos
00:50:49de ti.
00:50:50Porque um rei
00:50:51com poder absoluto
00:50:52sobre as trevas
00:50:53é mais perigoso
00:50:55que as próprias trevas.
00:50:56Sem o selo,
00:50:58tu és apenas
00:50:59mais um homem.
00:51:00E homens,
00:51:01como eu sei
00:51:02muito bem,
00:51:03tendo sido
00:51:03o mais elevado
00:51:05entre os anjos,
00:51:06Caim.
00:51:07Salomão.
00:51:08Eu construí o templo.
00:51:11Beuzebú.
00:51:12Construíste
00:51:13com as nossas mãos.
00:51:15E agora,
00:51:16toda vez
00:51:17que entrares nele,
00:51:18lembrarás
00:51:19que cada pedra
00:51:21foi cortada
00:51:21por demônios,
00:51:22cada corda
00:51:23foi fiada
00:51:24por demônios,
00:51:25cada tijolo
00:51:26foi moldado
00:51:27por demônios,
00:51:28a casa de Deus
00:51:29construída
00:51:30pelas trevas.
00:51:31A ironia
00:51:32é perfeita
00:51:33demais,
00:51:33para ser acidente.
00:51:35Adeus,
00:51:36Salomão,
00:51:36até que outro
00:51:37anel desça do céu,
00:51:39se é que algum dia
00:51:40descerá.
00:51:41Beuzebú
00:51:42desapareceu.
00:51:43O ar que ele
00:51:44deixou para trás
00:51:45estava limpo
00:51:47pela primeira vez
00:51:48em meses.
00:51:49Limpo de presença
00:51:51demoníaca,
00:51:52limpo de poder,
00:51:54limpo de tudo
00:51:55o que havia
00:51:55tornado Salomão
00:51:56o ser mais temido
00:51:58do mundo invisível.
00:52:00Salomão
00:52:01ficou sozinho
00:52:02no templo
00:52:03que os demônios
00:52:03construíram.
00:52:04As paredes
00:52:06de cedro
00:52:06do Líbano
00:52:07ainda exalavam
00:52:08perfume.
00:52:09O ouro
00:52:10do santo dos santos
00:52:11ainda brilhava.
00:52:12A arca da aliança
00:52:14ainda repousava
00:52:15entre os querubins,
00:52:17mas o homem
00:52:17diante dela
00:52:18já não era
00:52:19o mesmo
00:52:20que receber
00:52:20o anel de Miguel.
00:52:211º Reis
00:52:23capítulo 11
00:52:24versículo 9
00:52:25O Senhor
00:52:27se indignou
00:52:28contra Salomão
00:52:29porque seu coração
00:52:30se desviara.
00:52:31Deus
00:52:32aparecera
00:52:33pessoalmente
00:52:34a Salomão
00:52:34duas vezes
00:52:35e cinco
00:52:36gafanhotos
00:52:37bastaram.
00:52:38O coração
00:52:39de Salomão
00:52:40não se partiu
00:52:41de uma vez.
00:52:42Rachou
00:52:43como represa
00:52:44sob pressão.
00:52:45Primeiro
00:52:46os templos
00:52:47para os deuses
00:52:48estrangeiros,
00:52:50altares
00:52:50a Astarote,
00:52:51Santuários
00:52:52Aquemós
00:52:53e Moloque
00:52:54no Monte
00:52:55da Corrupção.
00:52:56Depois
00:52:57a Perda
00:52:58da Unção.
00:52:59A sabedoria
00:53:00que era presença
00:53:01se tornou memória
00:53:02e a memória
00:53:04se tornou tormento.
00:53:05Salomão
00:53:06Eu me tornei
00:53:08fraco e tolo
00:53:09em minha mente
00:53:09e meu nome
00:53:10se tornou motivo
00:53:11de piada
00:53:12entre homens
00:53:13e demônios.
00:53:14O homem
00:53:15que interrogara
00:53:16setenta e dois
00:53:17demônios
00:53:17agora era
00:53:18interrogado
00:53:19pela própria
00:53:20consciência.
00:53:21E a resposta
00:53:23era sempre
00:53:24a mesma.
00:53:25Cinco
00:53:25gafanhotos.
00:53:27Salomão
00:53:28escreveu
00:53:28não provérbios,
00:53:30não cânticos,
00:53:31não tratados
00:53:32sobre árvores
00:53:33e peixes.
00:53:34Escreveu
00:53:34sua confissão.
00:53:36O testamento,
00:53:37o registro
00:53:38completo
00:53:39de tudo
00:53:39o que aconteceu,
00:53:41do garoto
00:53:41definhando
00:53:42no canteiro
00:53:43de obras
00:53:44até a noite
00:53:44em que o anel
00:53:46se apagou.
00:53:46cada demônio
00:53:48nomeado,
00:53:49cada confissão
00:53:50transcrita,
00:53:52cada fraqueza
00:53:53catalogada,
00:53:55cada anjo
00:53:55identificado.
00:53:57O texto
00:53:58que sobreviveu,
00:53:59preservado
00:54:00em manuscritos
00:54:00gregos,
00:54:01espalhados
00:54:02por bibliotecas
00:54:03da Europa,
00:54:04termina com
00:54:04as próprias
00:54:05palavras de Salomão
00:54:06e essas palavras
00:54:08carregam o peso
00:54:09de quem perdeu
00:54:10tudo
00:54:11e sabe
00:54:12exatamente
00:54:13porquê.
00:54:14Salomão.
00:54:14Portanto,
00:54:16eu, Salomão,
00:54:17escrevi este testamento
00:54:18para que os homens
00:54:19se lembrem
00:54:20de mim
00:54:20e pensem
00:54:21no fim
00:54:22tanto quanto
00:54:23pensam
00:54:23no começo,
00:54:24para que não
00:54:25se tornem
00:54:26tolos
00:54:26como eu
00:54:27me tornei,
00:54:28para que não
00:54:29abandonem
00:54:29suas crenças
00:54:30por desejo
00:54:31como eu
00:54:32abandonei.
00:54:33Porque o Espírito
00:54:34de Deus
00:54:35partiu de mim
00:54:36e eu me tornei
00:54:37fraco e tolo
00:54:38em minha mente.
00:54:40E meu nome
00:54:41se tornou
00:54:42motivo de piada
00:54:43entre homens
00:54:43e demônios,
00:54:44o templo
00:54:46permaneceu.
00:54:48A casa
00:54:49que os demônios
00:54:49ergueram
00:54:50sobreviveu
00:54:51séculos
00:54:52até a destruição
00:54:54babilônica,
00:54:55a reconstrução,
00:54:57a destruição
00:54:58romana,
00:54:59as pedras
00:55:00que Ornias
00:55:00cortou,
00:55:01as cordas
00:55:02que Onoskelis
00:55:03fiou,
00:55:04os tijolos
00:55:05que Asmodeus
00:55:05moldou,
00:55:06a pedra angular
00:55:07que Efipas
00:55:08ergueu,
00:55:09tudo resistiu
00:55:10ao tempo
00:55:11muito mais
00:55:12do que a
00:55:13sabedoria
00:55:13do homem
00:55:14que comandou
00:55:14a obra
00:55:15e o reino
00:55:16se dividiu.
00:55:181º Reis
00:55:19capítulo 11
00:55:20versículo 11
00:55:21Deus arrancou
00:55:23o reino
00:55:24das mãos
00:55:24de Salomão
00:55:25e entregou
00:55:26dez tribos
00:55:27ao servo
00:55:28Jeroboão.
00:55:29Apenas
00:55:30Judá
00:55:30permaneceu
00:55:31com a linhagem
00:55:32de Davi.
00:55:33Jeroboão
00:55:34O profeta
00:55:36Aias
00:55:36rasgou
00:55:37sua capa
00:55:38em doze
00:55:38pedaços
00:55:39diante de mim.
00:55:40Disse para
00:55:41eu tomar
00:55:42dez.
00:55:42As outras
00:55:43duas
00:55:43ficam
00:55:44com a
00:55:44casa
00:55:45de Davi.
00:55:46Salomão
00:55:46Por causa
00:55:47do meu
00:55:48pai,
00:55:48não por
00:55:49minha
00:55:49causa,
00:55:50Davi
00:55:50dançou
00:55:51diante
00:55:51da arca
00:55:52com alegria
00:55:52de criança.
00:55:53Eu sentei
00:55:54no trono
00:55:55com arrogância
00:55:56de Deus.
00:55:56E a
00:55:57diferença
00:55:58entre dançar
00:55:59e sentar
00:55:59é a distância
00:56:01entre a
00:56:01graça
00:56:02e a
00:56:03queda.
00:56:03O rei
00:56:04que governou
00:56:05espíritos
00:56:06não conseguiu
00:56:07governar
00:56:07o próprio
00:56:08coração.
00:56:09Mas o
00:56:10catálogo
00:56:10permaneceu.
00:56:12As tábuas
00:56:13com os nomes
00:56:13dos demônios,
00:56:14suas confissões,
00:56:16suas fraquezas,
00:56:17os nomes
00:56:18angélicos
00:56:18que os derrotavam,
00:56:20tudo isso
00:56:21se preservou.
00:56:22Atravessou
00:56:23séculos,
00:56:24foi copiado
00:56:25por escribas
00:56:26judeus,
00:56:27traduzido
00:56:27por monges
00:56:28gregos,
00:56:29estudado
00:56:30por comunidades
00:56:31que viviam
00:56:32nas mesmas
00:56:32cavernas
00:56:33de
00:56:33Qumran,
00:56:34onde o
00:56:35livro dos
00:56:35gigantes
00:56:36foi encontrado.
00:56:37A tradição
00:56:38de que
00:56:39Salomão
00:56:39dominava
00:56:40espíritos
00:56:41não era
00:56:41lenda.
00:56:42Era memória
00:56:43institucional,
00:56:44transmitida
00:56:45de geração
00:56:46em geração,
00:56:47gravada
00:56:48em amuletos
00:56:49que arqueólogos
00:56:50encontram
00:56:50até hoje
00:56:51nos solos
00:56:52da Palestina
00:56:52e da Síria.
00:56:54Os amuletos
00:56:55de Salomão
00:56:56Cavaleiro,
00:56:57gemas
00:56:57mostrando o rei
00:56:58perfurando com lança
00:57:00uma figura
00:57:00demoníaca,
00:57:02circularam pelo
00:57:03mundo romano
00:57:04e bizantino
00:57:05do século
00:57:06III
00:57:06ao VII.
00:57:08Estão
00:57:09no Museu
00:57:09Britânico,
00:57:10o homem
00:57:11que perdeu
00:57:12o anel
00:57:12nunca perdeu
00:57:13a fama,
00:57:14e os demônios,
00:57:15os 72
00:57:16que confessaram
00:57:17diante do trono,
00:57:19retornaram
00:57:20ao mundo.
00:57:21Os mesmos
00:57:22que Mastema
00:57:23negociou
00:57:24para manter
00:57:24na terra,
00:57:25que Salomão
00:57:26acorrentou
00:57:27por uma geração,
00:57:28estavam livres,
00:57:29com a mesma
00:57:31fome,
00:57:31com os mesmos
00:57:32nomes.
00:57:33A diferença
00:57:34é que agora
00:57:35alguém os havia
00:57:36registrado,
00:57:36e o registro
00:57:38é a única arma
00:57:38que nunca
00:57:39perde o fio.
00:57:40O Talmud
00:57:41Babilônico,
00:57:42tratado
00:57:43Gittim 68,
00:57:44preserva a versão
00:57:45paralela onde
00:57:46Ashmedai rouba
00:57:47o anel
00:57:48e o arremessa
00:57:49ao mar.
00:57:50Salomão
00:57:50vaga como mendigo
00:57:51por três anos
00:57:53repetindo,
00:57:53Eu,
00:57:54Correlet,
00:57:55fui rei
00:57:56sobre Israel
00:57:56em Jerusalém.
00:57:58A tradição
00:57:59rabínica
00:58:00não suavizou
00:58:01a queda,
00:58:02amplificou-a.
00:58:03Existe algo
00:58:04profundamente humano
00:58:05na história
00:58:06de Salomão
00:58:06que transcende
00:58:07séculos
00:58:08e idiomas.
00:58:09Não é o poder,
00:58:10é a perda
00:58:11do poder.
00:58:12Não é a sabedoria,
00:58:14é a insuficiência
00:58:15da sabedoria.
00:58:17O homem
00:58:18mais sábio
00:58:19da história
00:58:19não caiu
00:58:20por ignorância,
00:58:22caiu
00:58:22por escolha.
00:58:23E a escolha
00:58:24não era épica,
00:58:26não era grandiosa,
00:58:27não era digna
00:58:28de uma queda
00:58:29de tal magnitude.
00:58:31Eram cinco
00:58:32gafanhotos,
00:58:34cinco insetos
00:58:35esmagados
00:58:36entre os dedos.
00:58:37E é exatamente
00:58:39por isso
00:58:39que a história
00:58:40permanece.
00:58:42Porque a maioria
00:58:43das quedas humanas
00:58:44não acontece
00:58:44em campos de batalha,
00:58:46nem em tronos
00:58:47de julgamento.
00:58:48Acontece
00:58:49nos gestos
00:58:50pequenos,
00:58:51nas concessões
00:58:52mínimas,
00:58:53nos
00:58:54é só
00:58:54um detalhe,
00:58:55não vai mudar
00:58:56nada,
00:58:57que mudam
00:58:58tudo.
00:58:59Salomão
00:59:00construiu
00:59:00o templo
00:59:01mais sagrado
00:59:02da terra,
00:59:03usando as mãos
00:59:04mais profanas
00:59:05do universo.
00:59:06Catalogou
00:59:07o mal
00:59:08com a precisão
00:59:09de um cientista
00:59:10e a autoridade
00:59:11de um profeta.
00:59:12E depois
00:59:13entregou tudo
00:59:14por algo
00:59:15que cabia
00:59:16na palma
00:59:16da mão
00:59:16e morria
00:59:17em segundos.
00:59:19E se
00:59:19Salomão,
00:59:20com toda
00:59:21a sabedoria
00:59:22que Deus
00:59:22concede,
00:59:23com o anel
00:59:24de Miguel
00:59:25no dedo,
00:59:26com setenta
00:59:27e dois demônios
00:59:28ajoelhados
00:59:29diante do trono,
00:59:30não resistiu.
00:59:31O que isso
00:59:32diz sobre
00:59:33o preço
00:59:33real do poder?
00:59:35O que isso
00:59:35diz sobre
00:59:36a distância
00:59:37entre ter
00:59:38a ferramenta
00:59:39certa
00:59:39e ser
00:59:40a pessoa
00:59:41certa
00:59:42para usá-la?
00:59:43O testamento
00:59:44de Salomão
00:59:45termina
00:59:46com o rei
00:59:47pedindo que os
00:59:48homens
00:59:48pensem no fim
00:59:49tanto quanto
00:59:51pensam
00:59:52no começo.
00:59:53Que se
00:59:53lembrem
00:59:54de que toda
00:59:54história
00:59:55tem duas
00:59:56metades,
00:59:57a ascensão
00:59:58e a queda.
00:59:59E que a
01:00:00queda,
01:00:00quase sempre,
01:00:02começa não
01:00:03com um rugido,
01:00:04mas com um
01:00:05sussurro.
01:00:05E você?
01:00:06O que mais
01:00:07te perturbou
01:00:08nesta história?
01:00:09A imagem
01:00:10de um menino
01:00:11definhando
01:00:12porque um
01:00:12demônio
01:00:13sugava sua
01:00:14vida pelo
01:00:14polegar?
01:00:15O fato
01:00:16de que o
01:00:17templo
01:00:17mais sagrado
01:00:18da terra
01:00:19foi erguido
01:00:20por mãos
01:00:21demoníacas?
01:00:22Ou a
01:00:22revelação
01:00:23de que o
01:00:24homem mais
01:00:24sábio da
01:00:25criação
01:00:26perdeu
01:00:26tudo por
01:00:27cinco
01:00:27gafanhotos
01:00:28esmagados?
01:00:29Porque há
01:00:30algo que
01:00:31Salomão
01:00:31registrou
01:00:32nas tábuas
01:00:33e nunca
01:00:34explicou.
01:00:34O nome
01:00:35que Beuzebú
01:00:36se recusou
01:00:37a pronunciar
01:00:38naquela
01:00:38última noite
01:00:39de interrogatório.
01:00:40Uma
01:00:41entidade
01:00:41não abaixo,
01:00:43mas acima
01:00:44da hierarquia
01:00:45dos demônios,
01:00:46vinculada
01:00:47ao
01:00:47tribunal
01:00:48celeste,
01:00:49cujo nome
01:00:49significava
01:00:51veneno
01:00:52de Deus.
01:00:52Um ser
01:00:54que não
01:00:54caiu
01:00:55como os
01:00:55vigilantes
01:00:56caíram,
01:00:57que não
01:00:57se rebelou
01:00:58como Beuzebú
01:00:59se rebelou.
01:01:00Um ser
01:01:01que permaneceu
01:01:02entre o
01:01:02trono
01:01:03e o
01:01:03abismo,
01:01:04servindo a
01:01:04ambos com
01:01:05um propósito
01:01:06que as
01:01:06tradições
01:01:07rabínicas,
01:01:08cristãs
01:01:09e apócrifas
01:01:10descrevem
01:01:11de formas
01:01:12irreconciliáveis.
01:01:13Para uns,
01:01:14o executor
01:01:15da ira
01:01:16divina.
01:01:17Para outros,
01:01:18a própria
01:01:18serpente
01:01:19que entrou
01:01:20no Éden.
01:01:21O terceiro
01:01:21Baruque
01:01:22diz que
01:01:22ele plantou
01:01:23a árvore
01:01:24do conhecimento.
01:01:25O Zohar
01:01:26diz que
01:01:27ele é
01:01:28o anjo
01:01:28guardião
01:01:29de impérios.
01:01:30O Talmud
01:01:31diz que
01:01:32lutou com
01:01:33Jacó
01:01:33e perdeu.
01:01:34No próximo
01:01:35filme,
01:01:36esse nome
01:01:37será pronunciado.
01:01:38A história
01:01:39do anjo
01:01:40que a Bíblia
01:01:40tentou apagar
01:01:41e que
01:01:42carrega
01:01:43no nome
01:01:43o veneno
01:01:44que nenhum
01:01:44selo
01:01:45pode neutralizar.
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