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01:57Inácio, onde anda aqui? Nunca ouve o que lhe digo.
02:04E de contar tudo ao seu pai, para que ele sacuda a preguiça do corpo com uma boa vara de
02:09marmelo ou um pau.
02:13É o que eu vou fazer.
02:41Primeiro que acorde é preciso quebrar-lhe os ossos.
02:48Amanhã, hei de acordá-lo a pau de vassoura.
02:59Passava-se-se na rua da Lapa, em 1870.
03:05Durante alguns minutos, não se ouviu mais que o tinir dos talheres e o ruÃdo da mastigação.
03:12Borges abarrotava-se de abarrotava-se de alface, nunca ele pôs os olhos nos braços de dona Severina, que não
03:29se esquecesse de si e de tudo.
03:31Também a culpa era, antes de dona Severina, em trazê-los assim nus, constantemente.
03:38Via só os braços de dona Severina, ou porque sorrateiramente olhasse para eles, ou porque andasse com eles, impresso na
03:46memória.
04:03Inácio demorou café o mais que pôde.
04:06Homem, você não acaba mais.
04:14Não havia remédio.
04:16Inácio bebeu a última gota, já fria, e retirou-se, como de costume, para o seu quarto, nos fundos da
04:23casa.
04:28Cinco minutos depois, à vista das águas próximas e das montanhas ao longe, restituÃ-lhe o sentimento confuso, vago, inquieto,
04:37que lhe doÃa e fazia bem.
04:40Tinha vontade de ir embora e de ficar.
04:45O pai barbeiro na Cidade Nova, e polo de agente, escrevente, ou o que quer que era, do Borges, com
04:51esperança de vê-lo no foro.
04:56Havia cinco semanas que ali morava, e a vida era sempre a mesma.
05:02Sair de manhã com Borges...
05:13Andar por audiências e cartórios, correndo, levando papéis ao selo, ao distribuidor, aos escrivães, aos oficiais de justiça.
05:35Voltava à tarde, jantava, e recolhia-se ao quarto e ia dormir.
05:45Cinco semanas de solidão, de trabalho sem gosto, longe da mãe e das irmãs, cinco semanas de silêncio.
05:55Deixe estar, pensou ele, um dia fujo daqui e não volto mais.
06:04Não foi.
06:06Sentiu-se agarrado e acorrentado pelos braços de Dona Severina.
06:13Nunca vira outros tão bonitos e tão frescos.
06:21A educação que tivera não lhe permitia encará-los logo abertamente.
06:26Parece até que, a princÃpio, afastava os olhos, vexado.
06:29Encarou-os pouco a pouco.
06:32Ao ver que eles não tinham outras mangas.
06:35E assim, os foi descobrindo, mirando e amando.
06:39No fim de três semanas, eram eles, moralmente falando, as suas tendas de repouso.
06:52Aguentava toda a trabalheira de fora, toda a melancolia da solidão e do silêncio,
06:56toda a grosseria do patrão, pela única paga de ver, três vezes por dia, o famoso par de braços.
07:09Dona Severina, na sala da frente, recapitulava o episódio do jantar e, pela primeira vez, desconfiou alguma coisa.
07:18Rejeitou a ideia logo, uma criança.
07:21Mas há ideias que são da famÃlia das moscas teimosas.
07:25Por mais que a gente a sacuda, elas tornam e pousam.
07:32Criança, tinha quinze anos.
07:38Não admira que começasse a amar.
07:42E não era ela bonita?
07:44Esta outra ideia não foi rejeitada.
07:48Antes, afagada e beijada.
07:54E recordou, então, os modos deles, os esquecimentos, as distrações.
07:59E mais um incidente, mais outro.
08:03Tudo eram sintomas e concluiu que sim.
08:08Você vê, Nina?
08:10Você vê, Nina?
08:12O que a senhora tem?
08:13Está pálida?
08:15O que eu preocupa? Sente alguma coisa?
08:18Não tenho nada. Estava apenas descansando.
08:23Descansando.
08:25Parece que, nesta casa, todos estão dormindo.
08:29Pode deixar.
08:31Eu sei de um bom remédio para tirar o sono aos dorminhocos.
08:35Engano seu.
08:36Eu não estava dormindo.
08:39Estava pensando na comadre Fortunata.
08:43Não a visitamos desde o Natal?
08:44Por que não vamos lá uma noite dessas?
08:47Ah, não.
08:48Pô, Deus.
08:49Estava cansado. Estou trabalhando muito.
08:52A comadre é uma faladeira.
08:53Eu não a suporto.
08:55Não fale uma coisa dessas, coitada.
08:59Fala assim.
09:01Fala pelos cotovelos.
09:03E é maledicente.
09:05Ao contrário do marido, que não fala nada porque ela não deixa.
09:07Tudo isso é implicância tua.
09:10Pois tens um bom coração.
09:11Isso é o que a senhora acha.
09:14Estamos pobretões.
09:15Toda aquela gente tem muito a ver com o nosso Inácio.
09:19Porque agora é nosso.
09:21Por culpa minha.
09:22Não fale essas coisas feias.
09:25Eu não sei por que a senhora defende tanto aquela gente.
09:28Porque todos nós temos defeitos, meu querido.
09:31E eu estou aqui para apontá-los.
09:34Inclusive os nossos.
09:36Não me venha a senhora querer calar.
09:37Shhh.
09:38Shhh.
09:39Não se irrite.
09:41Onde está aquele sorriso?
09:44Hum?
09:45Onde?
09:48Agora que já sorri, vamos comer qualquer coisa.
09:53Trabalhaste tanto.
09:55Que tal dormimos mais cedo?
10:01A noite caÃra de todo.
10:04Borges, cansado do dia, pois era realmente um trabalhador de primeira ordem,
10:09foi, fechou os olhos e pegou no sono.
10:13E deixou-a só na sala, às escuras, consigo e com a descoberta que tinha feito.
10:24Tudo parecia dizer a dama que era verdade, mas essa verdade, desfeita a impressão de assombro,
10:31trouxe-lhe uma complicação moral.
10:39Já nesse dia, Dona Severina mirava por baixo dos olhos os gestos de Inácio.
10:44Não chegou a achar nada, porque o tempo do café era curto e o rapazinho não tirou os olhos da
10:50xÃcara.
11:05No dia seguinte, pôde observar melhor.
11:14E nos outros, otimamente, percebeu que sim, que era amada e temida.
11:27Já se persuadia bem que ele era criança e assentou de o tratar tão secamente como até ali, ou ainda
11:34mais.
12:08Desculpe incomodar, Dona Severina.
12:10Não foi nada.
12:13Chegava a casa e não se ia embora.
12:16Os braços de Dona Severina fechavam-lhe um parênteses no meio do longo e fastidioso perÃodo da vida que levava.
12:27E essa oração intercalada trazia uma ideia original e profunda, inventada pelo céu unicamente para ele.
12:37Deixava-se estar e ia andando.
12:40Afinal, porém, teve de sair e para nunca mais.
12:46Inácio, não beba água fria depois do café.
12:49Não faz bem.
12:50A rudeza da voz parecia acabada e havia mais do que brandura.
12:55Havia desvelo e carinho.
13:02A agitação de Inácio é crescendo, sem que ele pudesse acalmar-se nem entender-se.
13:08Não estava bem em parte alguma.
13:17Acordava de noite, pensando em Dona Severina.
13:28Na rua, trocava de esquinas, errava as portas, muito mais que dança.
13:37E não via a mulher ao longe ou ao perto que não lhe trouxesse a memória.
13:49Ao entrar no corredor da casa, voltando do trabalho, sentia sempre algum alvoroço, às vezes grande.
14:02Inácio!
14:06Inácio!
14:10Boa tarde, Dona Severina.
14:26Boa tarde, Dona Severina.
14:48Inácio percebeu pela primeira vez uma fragilidade em seu olhar e sentiu-se mais forte.
15:18Boa tarde, Dona Severina.
15:35Boa tarde, Dona Severina.
15:53What's up?
15:55What did you say?
15:56It was a disaster.
15:57Sorry, Mr. Borges.
16:00I'm here.
16:03Here at the forum,
16:05you just call me Dr.
16:06Dr.
16:09What's up there?
16:13You gave me the procura?
16:16I did it, Dr.
16:18Ainda bem.
16:19And all of you were distributed?
16:21All of you, Dr.
16:23Let's see.
16:25You see these three processes here?
16:29This, but this.
16:31Yes, of course, Dr.
16:33Take them home tonight.
16:35I need to study them.
16:37These are very important cases.
16:39Guard them as if they were your own life, you know?
16:42I don't have any doubt, Dr.
16:44So go.
16:50I'll take a moment.
16:51coming home.
16:53Thanks, gentlemen.
16:54moon
16:55Moon
16:55Moon
16:56Moon
17:04Moon
17:09Moon
17:10Moon
17:11Moon
17:45Onde é que ele está?
17:47Eu acabo com ele.
17:49Calma, por favor, calma.
17:51Eu mato esse imbecil.
17:53Olha o que ele fez.
17:55Eu espolo.
17:56Calma.
17:57Deseja um papo d'água.
18:01Processos que estavam sob minha responsabilidade.
18:04Não tenta ficar...
18:05DestruÃdos, destruÃdos.
18:09Eu pedi para que ele trouxesse os processos para casa.
18:11Eu confiei nele.
18:13E se a gente tem pra se explicar?
18:18O que eu faço agora?
18:20Como é que eu fico perante os escrivães?
18:24Perante os advogados?
18:26O juiz?
18:28Se ele aparecer na minha frente e eu escano, eu passo uma loucura.
18:33Calma.
18:34Senta aqui.
18:35Descanse um pouco.
18:37Eu vou tentar secá-los.
18:39Se ele aparecer para jantar, eu expulso ele daqui a pontapés.
18:44E se a gente tentar secar?
18:48Na seta estava flanando à beira-mar.
18:53Estava...
18:54Deixou voar os papéis.
18:58Que parvo!
19:23Desculpe.
19:25Sim, dona Severina.
19:26Eu pensei que...
19:27Borges está lá furioso consigo.
19:30Não falemos alto para que não nos ouça.
19:32Eu só vim dizer ele que não apareça a janta até que ele se acalme.
19:36Está bem?
19:38Está bem.
19:40Vou ver o que posso fazer.
19:42De preferência, só vá ao café amanhã.
19:46Tenha cuidado.
19:49Durma bem.
20:07Onde é que ele está?
20:09Ele não vem tomar café?
20:12Com os gritos de ontem, deve estar assustado.
20:16Além de tudo, ainda tem medo.
20:20Isso é desfeita.
20:23Por final de contas, eu sou amigo do Euvécio.
20:27Ele é meu barbeiro há anos.
20:29Eu lhe devo uma satisfação.
20:32Sabe de uma coisa?
20:34Eu vou chamá-lo.
20:37É isso a�
20:40Pensei que não vinha mais.
20:42Senta.
20:46Com licença.
20:55Escute bem.
20:59A respeito do acidente à beira-mar.
21:03Não se fala mais nisso sob pena de eu esganá-lo.
21:12Dona Severina sentiu-se orgulhosa,
21:15pois que salvara Inácio das garras do Borges.
21:18Tchau, tchau.
21:30E aÃ
21:32E aÃ
21:32E aÃ
21:52Inácio, please, take that water and bring it here.
22:21And so he continued,
22:23enjoying the sweet presence of Ginásio to his side.
22:55¶¶
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23:16¶¶
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23:53¶¶
23:54It was an immense, universal day.
24:24I love you.
25:04¶¶
25:44Inácio passou o resto do dia ali no quarto,
25:47relendo um dos folhetos que trouxera consigo contos de outros tempos.
25:59Nunca pôde entender por que é que todas as heroÃnas dessas velhas histórias
26:04tinham a mesma cara e talhe de Dona Severina.
26:07Mas a verdade é que os tinham.
26:12Ao cabo de meia hora, deixou cair o folheto e pôs os olhos na parede.
26:26Donde, cinco minutos depois, viu sair a dama dos seus cuidados.
26:33O natural era que se espantasse, mas não se espantou,
26:38embora com as pálpebras cerradas, viu a desprender-se de todo.
26:43Era ela mesma, eram seus mesmos braços.
26:47É certo, porém, que Dona Severina tanto não podia sair da parede
26:50que estava justamente na sala da frente,
26:53ouvindo os passos do solicitador que descia as escadas.
27:21De repente, lembrou-se que Inácio comerá pouco ao almoço
27:25e tinha um ar abatido e advertiu que podia estar doente.
27:30Podia ser até que estivesse muito mal.
27:33Dona Severina sentiu bater-lhe o coração com veemência e recuou.
28:04Uma criança, disse ela a si mesmo, naquela lÃngua sem palavras
28:09que todos trazemos conosco.
28:16Parece que o sono dava à adolescência de Inácio
28:19uma expressão mais acentuada, quase feminina, quase poeril.
28:29Sonhara de noite com ele.
28:31Pode ser que ele estivesse sonhando com ela.
28:34Desde madrugada que a figura do mocinho andava-lhe diante dos olhos
28:38como uma tentação diabólica.
28:58Fartou-se de vê-lo com a cabeça inclinada,
29:01o braço caÃdo,
29:03mas ao mesmo tempo que eu achava criança,
29:05achava-o bonito, muito mais bonito que acordado.
29:09E uma dessas ideias corrigia ou corrompia a outra.
29:20Música
29:22Música
29:30Música
29:31Música
29:57Música
30:06Música
30:10Música
30:33Voltou devagarinho e o espiou.
30:38Música
30:46Viu que dormia profundamente.
30:49Tinha um sono duro a criança.
30:52O rumor que abalara tanto não o fez sequer mudar de posição.
30:57Música
30:57E ela continuou a vê-lo dormir,
31:00dormir e talvez sonhar.
31:04Música
31:12Que não possamos ver os sonhos uns dos outros.
31:19Música
31:30Dona Severina teria se visto a si mesmo na imaginação do rapaz.
31:35Teria se visto diante da cama, risonha e parada.
31:40Depois, inclinar-se, pegar-lhes nas mãos,
31:44levá-las ao peito, cruzando ali os braços,
31:48os famosos braços.
31:51Música
31:52Música
31:54Duras, três e quatro vezes, a figura esvaÃa-se
32:00Música
32:02Para tornar logo,
32:04vindo do mar ou de outra parte.
32:12Música
32:40E tornando-o, inclinava-se,
32:42pegava-lhe outras vezes das mãos e cruzava-lhe ao peito os braços.
32:50Música
32:52Até que inclinando-se, ainda mais, muito mais,
32:57abrochou os lábios e deixou-lhe um beijo na boca.
33:01Música
33:02Aqui, o sonho coincidiu com a realidade
33:05e as mesmas bocas uniram-se na imaginação e fora dela.
33:11Música
33:14Música
33:22A diferença é que a visão não recuou
33:25e a pessoa real, tão depressa a cumprir o gesto,
33:29como fugiu até a porta,
33:30fechada e medrosa.
33:34Música
33:49Na verdade, a criança tinha um sono duro.
33:52Nada lhe abria os olhos, nem os fracassos contigos,
33:56nem os beijos de verdade.
34:01Música
34:07Mas se o medo foi passando, o vexame ficou e cresceu.
34:11Música
34:12Dona Severina não acabava de crer que fizesse aquilo.
34:17Música
34:18Fosse como fosse, estava confusa, irritada,
34:22aborrecida mal consigo e mal com ele.
34:25Música
34:40Mas a verdade é que dormiu ainda muito e só acordou para jantar.
34:49Música
34:53Sentou-se à mesa lépido, enquanto achasse Dona Severina calada e severa,
34:59e Borges, tão rÃspido como nos outros dias,
35:03nem a rispidez de um, nem a severidade da outra,
35:07podiam dissipar-lhe a visão graciosa que ainda trazia consigo,
35:11ou amortecer-lhe a sensação do beijo.
35:15Música
35:16Não reparou que Dona Severina tinha um chale que lhe cobrile os braços.
35:21Música
35:22Reparou depois, na segunda-feira,
35:25Beijo, um pedaço de queijo?
35:27Música
35:27E na terça também.
35:30Música
35:31E até sábado, que foi o dia que Borges mandou dizer ao pai
35:35que não podia ficar com ele.
35:40Música
35:40Música
35:54Se precisar de mim para alguma coisa, procure-me.
36:00Sim, senhor.
36:02A senhora Dona Severina?
36:05Está lá para o quarto.
36:07Muita dor de cabeça.
36:09Amanhã ou depois, venha se despedir.
36:23Música
36:45Inácio saiu sem entender nada.
36:48Música
36:49Não entendia a despedida, nem a completa mudança de Dona Severina.
36:55Música
36:56Não importa, levava consigo o sabor do sonho.
37:02Música
37:03E através dos anos, por meio de outros amores, mais efetivos e longos,
37:09Nenhuma sensação achou nunca igual a daquele domÃnio, na rua da Lapa, quando ele tinha quinze anos.
37:18Música
37:19Ele mesmo exclama às vezes, sem saber que se engana.
37:25Música
37:28Foi um sonho, um simples sonho.
37:31Música
37:33Música
37:44Música
37:46Música
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38:08Música
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