00:00Meu apelido é Brasinha, agora meu nome de verdade é José Oswaldo dos Santos.
00:06E por que Brasinha?
00:07Brasinha é porque na escola eu não ficava quieto no banco da escola.
00:11Aí o pessoal fala, ô rapaz, fica quieto, levanta, toda hora eu levantava, parece que tem uma brasa aí na
00:17cadeira.
00:18Mas essa brasa, ela aqueceu um desejo muito grande que você sempre teve de ser um objeteiro, é isso?
00:26Exatamente.
00:27Como é que é isso?
00:27Foi esquentando, né?
00:29Esquentou.
00:29Você lembra que a gente brincava de pegar dor, de esconder, escondia uma coisa e falava, tá esquentando, tá quente,
00:34tá quente.
00:34Então alimentou o seu desejo?
00:36Alimentou isso.
00:37E como é que é essa história de ser objeteiro?
00:40Olha, eu desde criança ali, com uns 10, 12 anos, eu gostava de guardar as coisas.
00:47Guardei embalagem de picolé, guardei tudo.
00:50E as pessoas descobriram que eu tinha esse dom de ficar guardando as coisas e começaram a me dar as
00:55coisas.
00:55Às vezes eu estava na rua, a pessoa falou, ah, eu achei isso ali, você quer?
00:59E fui guardando.
01:00E fui crescendo e tal, aí fui ser comerciante, depois aposentei.
01:04Mas durante o tempo todo eu pensava, um dia eu vou juntar essas coisas todas no lugar, para as pessoas
01:11verem.
01:12Porque esses objetos é que contam uma história.
01:14Vocês viram o objeto ali dentro, que talvez você nunca comentasse sobre o assunto, você estava me contando a história
01:22do rádio, né?
01:23Você, o Guimarães Rosa, na obra dele, tem uma frase muito interessante dele, que ele fala,
01:29a gente esquece as coisas, mas as coisas lembram-se da gente.
01:33Quando você vê o rádio, você começa a contar uma história.
01:35E eu achei isso muito bonito, porque quando eu tinha, aí eu tinha a loja que vendia roupa, calçado, loja
01:41de verdade.
01:42Você fala, onde que é a loja do Brasinha, aqui em Codesburgo?
01:44Eles falam assim, a de verdade ou a outra?
01:46A outra é essa aqui.
01:48E essa bandeja que você está segurando, o que significa?
01:52Que frase, quando nada acontece, há um milagre que não estamos vendo.
01:56É do Guimarães Rosa?
01:57É do Guimarães.
01:57Você não acha que essa frase veio de bandeja para a gente?
02:00Opa!
02:01E você, então, faz a única coisa, você não dá, não empresta, não vende nada que está aqui?
02:06Não.
02:07Só placas que você faz com frases do Guimarães Rosa, é isso?
02:10É, e que as pessoas levam, e que é uma mensagem, né?
02:14O Guimarães Rosa, a obra inteira dele é uma mensagem de vida, de travessia de vida.
02:19Então, eu acho interessante que as pessoas levem.
02:21Agora, os objetos, não.
02:23Os objetos têm, a pessoa fala, você tem 20 bulos iguais.
02:26Me vende um, eu falo, mas cada um conta uma história.
02:30Se ele for embora, a história vai junto com ele.
02:32É muito interessante, porque tem um objeto que chega, que as pessoas mandam, trazem para
02:38mim, e eu não sei do funcionário, que objeto era aquele.
02:41E eu deixo ele ali exposto, até chegar uma pessoa que sabe o que é.
02:45Ah, eu trabalhei com isso.
02:47E várias pessoas se emocionam, claro, né?
02:50Porque quando vê um objeto que tinha em casa a vida inteira, né?
02:54Eles começam a contar a história e isso vai virando mil e uma noites, né?
Comentários