00:00Primeiro, falar que essa característica, na verdade, tem muito a ver com o secretismo religioso.
00:05E esse secretismo é resultado da resistência negra, da resistência afro.
00:12A gente está falando aqui de seres humanos que foram traficados para ser escravizados na colônia,
00:19está falando no período de escravidão, em que o culto, o seu próprio culto,
00:25o seu culto religioso, não era permitido a prática na nova terra, que vieram como escravizado.
00:34Então, com o processo de resistência, os negros, os africanos, eles utilizavam,
00:44identificavam nas imagens dos santos católicos a possibilidade de manter o seu culto.
00:51Então, o Gumpo, por ter a característica do orixá de guerra, orixá da batalha, orixá do ferro,
01:00orixá da agricultura, e era da agricultura por conta de que ele era ferreiro,
01:04então fazia os instrumentos para utilizar a agricultura.
01:08Foi identificado na figura de São Jorge, essa imagem, esse imaginário.
01:15E aí, até hoje, a gente mantém, inclusive, essa tradição, é uma tradição já, não é só uma resistência.
01:24E como se fazia esse culto?
01:28Era colocada a imagem do santo católico em cima do assentamento do orixá afro.
01:35Então, você tinha a imagem do São Jorge e, embaixo, escondido, o assentamento de Ogum.
01:42A área é uma área que, naturalmente, os escravocados não acessavam, porque a divisão social, enfim.
01:50Então, ao olhar de longe, só via a imagem de São Jorge, mas, no fundo, o culto ali era Ogum,
01:56auxílio da guerra, orixá da guerra.
01:58Então, essa associação é muito mais o resultado da resistência negra,
02:04que a gente, até hoje, vive, inclusive, fazendo muita resistência.
02:07E é importante falar que, inclusive, parte do racismo religioso que a gente vive tem muito com isso,
02:14porque, para poder, inclusive, esse culto não se perpetuar, não conhecer os escravocados,
02:22os brancos, naquele momento, os europeus, diziam que era um culto ao demônio,
02:28onde não existe nem, para a nossa concepção, essa dualidade do bem e do mal, do demônio, de Deus, enfim.
02:35Não tem essa forma.
02:36Então, essa associação se cantinha muito mais o fruto da resistência,
02:42para manter um culto milenar do que, de fato, uma relação entre as duas religiões.
02:49Hoje, a gente tem que ter muitos avanços e consegue convivir com uma pluralidade nessa sociedade,
02:55de forma muito mais humana, ainda que tenha que resistir ao racismo religioso, à intolerância.
03:03Por conta desse secretismo, a gente comemora, não existe o dia de Ogum, na verdade.
03:09Dia de Ogum, inclusive, para a gente, às terça-feiras.
03:12Por um acaso, hoje é porque esse a gente está... não existe o dia de Ogum.
03:16Por conta desse secretismo, a gente sempre está atrelado às comemorações ao dia.
03:23Por exemplo, a Xócia, a gente comemora São Sebastião.
03:27E a Xã, comemora Santa Bárbara.
03:29Ogum, a gente comemora São Jorge.
03:31Agora, São Jorge, por ser um santo popular,
03:33acaba que essa mistura de Ogum com São Jorge,
03:38acaba refletindo muito mais,
03:40por ser um santo muito mais popular.
03:42um santo da igreja católica popular, enfim.
03:46E acaba tendo esse entrelaço maior.
03:51O interessante é que é o seguinte,
03:52se eu contar uma história que é interessante.
03:57O Papa João VI, inclusive, da igreja católica,
04:01na década de 60, no final da década de 60,
04:06não descanonizou,
04:07São Jorge continua sendo canonizado,
04:09mas diminuiu o culto a São Jorge
04:12por conta de poucas provas da sua existência.
04:17Hoje, a gente sabe que São Jorge,
04:19para quem busca um pouco a história,
04:22é um soldado romano, turco,
04:24mas tem pouca prova da sua existência.
04:26Então, ainda lá na década de 60,
04:29mas é um santo tão popular que continuou o culto,
04:32que não se dominou a população.
04:35E o culto continua.
04:36Então, é muito comum, inclusive,
04:38ver essa relação,
04:40não só para nós, a afro-indigosa,
04:43mas para a população,
04:44para entender a relação popular
04:45de São Jorge com Ogum.
04:48Eu sou filho de Ogum,
04:50sou zelador da casa,
04:51então, essa casa é regida por Ogum.
04:54A gente está, desde essa semana,
04:56desde ontem,
04:58em rituais preparativos
05:00para a nossa celebração.
05:02Nós, o dia 23,
05:04que, aliás, é meu olho pensado,
05:06que é interessante,
05:08que eu nasci no dia de Ogum.
05:10E aí, no dia 23,
05:11por ser um dia da semana,
05:15e fica muito complicado
05:17para a gente ter qualquer tipo de atividade,
05:18porque a gente tem
05:19as nossas atividades profissionais,
05:21a gente comemora,
05:22neste ano,
05:23a gente vai comemorar no domingo
05:24com um festejo,
05:27com um tambor,
05:27servindo a sua feijoada
05:29de Ogum aos convidados,
05:31enfim,
05:32a gente vai fazer
05:33esse festejo no domingo,
05:34dia 26.
05:35A característica, não,
05:37porque a gente está falando,
05:38de fato,
05:38de duas divindades.
05:40Está falando de uma divindade católica,
05:42e está falando de uma divindade
05:43da diáspora africana.
05:46Então, no fundo,
05:48esse entrelaço é muito popular.
05:50Ogum é uma divindade
05:52do panteão africano,
05:54orixá,
05:56que, segundo o Itam,
05:58segundo a lenda,
05:59da Nigéria,
06:01que, ao voltar da batalha,
06:05enfiou sua espada,
06:07e ali ele sumiu,
06:08ali ele se encantou,
06:10ali ele...
06:10E o São Jorge
06:11é um soldado da Turquia,
06:13que foi,
06:16na época da sua vivência,
06:21tentaram obrigar ele
06:23a não aceitar o cristianismo
06:24e ele resistiu,
06:25por conta disso,
06:26a igreja canonizou.
06:27Então, são duas figuras diferentes.
06:29Essa relação,
06:31ela é muito mais
06:32uma relação popular.
06:34É muito mais popular
06:35do que, de fato,
06:36da religioso.
06:38São duas figuras diferentes.
06:40E nós mantemos essa relação
06:42pela tradição
06:44e respeito,
06:45inclusive,
06:45a esse processo de resistência.
06:47Mas a gente cultua Ogum,
06:49e a igreja católica
06:50cultua São Jorge.
06:51Nós respeitamos São Jorge,
06:53a igreja católica
06:54deve respeitar Ogum,
06:56e a gente entrelaça.
06:58Aliás,
06:59no dia 26,
07:00nós vamos ter aqui,
07:02em toda abertura
07:03que a gente faz
07:03de Ritório do Tambor,
07:05a gente
07:07faz as nossas
07:08orações iniciais,
07:09enfim,
07:10pedindo
07:11proteção,
07:11paz,
07:12e no dia 26,
07:14nós vamos ter a presença
07:14de um padre católico
07:15fazendo isso pra gente.
07:18o que demonstra,
07:19inclusive,
07:19que a gente está começando
07:20a avançar nesse diálogo
07:22do terreno religioso.
07:24Então,
07:24nós vamos ter o padre
07:24Jesus Aldo,
07:25aqui,
07:25que já veio no terreno
07:26outras vezes,
07:27pra fazer a abertura
07:28pra gente,
07:29com a oração inicial,
07:30a São Jorge,
07:31pra que depois a gente
07:31entre no culto afro,
07:35do Tambor,
07:38do Orixá,
07:39e depois chamar
07:40nossas entidades
07:40da Umbanda,
07:41pra que possa fazer
07:43sua festa também.
07:43Eu tinha
07:45muita ligação
07:46com São Jorge,
07:49né,
07:49que antes
07:50eu conheci a Umbanda,
07:52né,
07:53era muito forte,
07:53não sei explicar como,
07:55mas era muito,
07:55não que eu seja,
07:56porque eu era
07:57que eu me senti
07:57na igreja católica,
07:59não frequentava muito não,
08:01mas eu tinha
08:01aquela ligação
08:02muito forte com ele,
08:04com São Jorge.
08:05Aí,
08:05já depois que eu
08:07vim conhecer o pai Robson,
08:08vim conhecer a Umbanda,
08:09que aí,
08:10quando foi fazer
08:11o meu batismo,
08:13que foi,
08:13jogar os busos
08:14que deu,
08:15né,
08:16o meu Orixá de Frente,
08:17que foi o Umbanda.
08:18Na minha vida,
08:19ela representa
08:19muita coisa,
08:20tudo que eu já passei,
08:22aquela força,
08:24né,
08:24aquela batalha
08:27que eu tive,
08:28muito, assim,
08:28pessoal,
08:30e tudo, assim,
08:32relaciona a ele.
08:34Tudo que vem
08:35relacionando a ele,
08:36a força,
08:37a batalha,
08:39a justiça,
08:40tudo representa a ele.
08:42Era São Jorge,
08:44mas,
08:45é como se diz,
08:45ele estava ali,
08:47perto,
08:48junto,
08:49né,
08:49depois que eu fui entender
08:51que ele,
08:52que era o meu chefe,
08:52aquele que estava ali comigo,
08:54guerreando junto,
08:55no que eu passei,
08:57na vida,
08:58né,
08:59que foi muita perreira,
09:00muita coisa,
09:01muita vibração,
09:02e ele ali comigo,
09:03para não desistir,
09:05porque tem horas,
09:06assim,
09:06que às vezes,
09:06você passa por todas as situações,
09:08que você quer desistir,
09:09quer parar,
09:10mas nem aquela força,
09:11não sabe dizer de onde,
09:13quando você não conhece a onda,
09:15a banda,
09:15que você vai buscando,
09:18e vai vindo,
09:18aí depois que você,
09:19depois que eu conheci,
09:21né,
09:21a banda que eu fui conhecer,
09:23que eu fui,
09:23fui,
09:24tipo assim,
09:25encaixando,
09:26as coisas,
09:27que eu fui entendendo,
09:29não estou entendendo até hoje,
09:30estou aprendendo,
09:31porque a gente nunca sabe tudo,
09:32e sai sempre um pouquinho,
09:34a gente vai um pouquinho,
09:35buscando um pouquinho ali,
09:36um pouquinho ali,
09:37para a gente poder entender,
09:38que tudo,
09:39tudo tem,
09:40ao seu redor tem,
09:42tinha ali do meu lado,
09:44tinha algum do meu lado,
09:45como tem até hoje.
09:46A pior,
09:47antes de entrar na casa,
09:49eu não me considerava uma pessoa,
09:51particularmente religiosa,
09:53assistia,
09:54né,
09:55eu falo de realmente assistir,
09:56porque era um lugar,
09:57onde eu estava,
09:58vendo a religiosidade,
09:59me cercando,
10:00especialmente a afro-religião,
10:01mas nunca cheguei,
10:02a participar,
10:03de fato.
10:04A figura de Ogum,
10:07desse orixá,
10:07para mim,
10:08era até então,
10:10tão conhecida,
10:11e quando entrei na casa,
10:12assim,
10:13foi algo,
10:15muito revelador para mim,
10:16enquanto padroeiro dessa casa,
10:18conhecer essa figura,
10:20que é o senhor dos metais,
10:22dos caminhos,
10:23das guerras,
10:24né,
10:25e a importância dele na minha vida,
10:28é um constante aprendizado,
10:30sabe,
10:31de procurar Ogum,
10:32entender,
10:32por exemplo,
10:34como a gente já conversou aqui dentro da casa,
10:36assim,
10:36algumas vezes,
10:37né,
10:37em algumas conversas que a gente teve com o nosso Pai de Santo,
10:40sobre como,
10:40às vezes,
10:42Ogum lhe dá o caminho,
10:44e o que lhe falta não é sorte,
10:45o que lhe falta é coragem,
10:47é seguir apesar de tudo,
10:49é continuar enfrentando a batalha,
10:51mesmo não tendo a certeza de eu estar pronto,
10:54que é,
10:56é de uma beleza muito vasta,
10:58sabe,
10:58eu acho que é de se permitir,
11:00ser humano,
11:02se permitir entender a pluralidade do,
11:05não só da religião,
11:07né,
11:07mas das diversas formas que a gente tem de expressar a nossa vida nesse plano,
11:12de entender que,
11:13por exemplo,
11:13da mesma forma como eu posso ser um devoto de São Jorge,
11:17ter respeito para essa figura desse santo,
11:18desse mártir católico,
11:20eu também posso respeitar a figura de Ogum.
11:27Legenda por Sônia Ruberti
Comentários