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Esse documentário é um pequeno resumo da história de Raul Seixas, conhecido também como Maluco Beleza e considerado o pai do Rock Brasileiro.
Raul Seixas viveu como poucos ousaram viver.
Entre ocultismo, rebeldia, drogas, genialidade e autodestruição, Raul construiu uma das trajetórias mais intensas e controversas da música brasileira
#raulseixas #rockanos70
Raul Seixas viveu como poucos ousaram viver.
Entre ocultismo, rebeldia, drogas, genialidade e autodestruição, Raul construiu uma das trajetórias mais intensas e controversas da música brasileira
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Categoria
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MúsicaTranscrição
00:00Imagina acordar todo dia sentindo que existe uma guerra silenciosa acontecendo dentro do seu peito.
00:05De um lado, quem você é.
00:06Do outro, quem o mundo exige que você seja.
00:13E uma alma que parece viver numa frequência que o resto do planeta não ouve.
00:19Essa é a história de Raul Santos Seixas.
00:21Eu escolhi o caminho da música pela música ser o meio mais fácil de enxergar ao povo.
00:26Eu faço música comercial, botei 85 músicas na parada de sucesso e quero continuar botando.
00:33Nunca parar. Tá legal?
00:36Por fora o maluco beleza, o profeta do rock, o cara que falava com anjos, com diabo e com quem
00:43tivesse coragem de ouvir.
00:45No teu trabalho, você sempre tem um lado muito irônico, muito crítico e muito debochado em relação a alguns problemas.
01:01Mas por dentro existe um homem quebrado, inquieto, contraditório, genial e profundamente cansado.
01:15Pra alguns ele era um ídolo, pra outros um perigo.
01:18Eu nunca fiz música de protesto.
01:21Não dizem que faço, mas eu, na minha opinião, é negativa.
01:25Mas antes de ser mito, lendo ou tatuagem em parede de bar, Raul era um ser humano tentando sobreviver ao
01:31próprio caos.
01:38E quando você vive rápido demais, intenso demais, verdadeiro demais, a vida cobra.
01:45E cobra cedo.
01:46Fica comigo até o final, porque hoje você vai entender não só quem foi Raul Seixas,
01:51mas porque o homem por trás do mito viveu como um cometa.
01:55brilhante, indomável, caótico e rápido demais pra ser esquecido.
02:00Eu sou o Fefeu e você tá sintonizado na W4 Docs, fechou?
02:10Esse é só um pequeno resumo da história do pai do rock brasileiro.
02:14Mas antes de virar Raul Seixas, existia um garoto magro, cabelo lambido, sotaque de Salvador.
02:20E um brilho nos olhos de quem não ia caber ali.
02:23Ele cresceu assistindo o mundo tentando dobrar quem era diferente,
02:26e aprendeu cedo que algumas pessoas não se dobram.
02:29Elas quebram o mundo de volta.
02:31Mas pra entender o profeta do rock, o homem que mexeu com anjos, demônios e governos,
02:37a gente precisa voltar lá onde tudo começou.
02:40Um menino que conversava com sombras, inventava universos e tratava a própria imaginação
02:45como quem fala com um velho amigo.
02:48Porque antes de existir um maluco beleza, existia um garoto que já sabia que a realidade não bastava pra ele.
03:00Raul Seixas nasceu em 1945 em Salvador.
03:04Um sonhador compulsivo.
03:05Inventava histórias, construía mundos inteiros com meia dúzia de palavras.
03:10O pai trabalhava no governo, a mãe conduzia a casa,
03:13e ele vivia num planeta paralelo, respirando fantasia.
03:17Queria ser escritor, queria ser mágico, queria ser qualquer coisa que não fosse normal.
03:22E então, aos 10 anos, o destino dá um tapa na porta da casa dele.
03:27Um vinil contrabandeado do Elvis.
03:34O som de Elvis Presley foi decisivo pra que Raul se apaixonasse pelo gênero
03:39e inclusive o levou a criar o primeiro fã-clube do cantor no Brasil.
03:49E você sempre teve um contato muito grande com a cultura norte-americana, quer dizer, através do rock and roll
03:55desde criança.
03:56É, devido, eu morava perto do consulado americano, certo?
04:00É, lá na Bahia.
04:02Então eles traziam naquela latinha, bicho, uma latinha de, que eu sempre faço questão de frisar,
04:08nunca esqueço isso, uma latinha de alumínio.
04:11De criança leva pra colégio de merenda.
04:14Aí levava aquela latinha cheia de 45 rotações de Chuck Berry.
04:35A partir dali, era impossível segurar.
04:38Raul fundou o Elvis Roque Clube com o amigo Valdir Serrão.
05:06E aqui na W4 Docs a gente tá fazendo a mesma coisa, só que na era digital.
05:11Se você gosta de história, caos, música e verdade, considera virar membro do canal e entrar pro nosso clube secreto.
05:18Clica em Seja Membro e vem fazer parte da turma que me ajuda a manter viva a chama dos malucos
05:23beleza desse mundo.
05:25Te espero lá dentro, fechou?
05:26Enfim, Raul transformou fascina em febre, só que ninguém levava a sério.
05:30Mas ele já tinha entendido algo que ninguém mais via.
05:33O profeta tava a caminho.
05:40No início dos anos 60, nasce Raul Zito.
05:43Quase um disfarce de quem ainda não tinha coragem de ser grande, mas já sabia que ia ser.
05:49Com os amigos, ele cruza relâmpagos do rock, que num estalo viram Raul Zito e os Panteras.
05:54Banda pequena, sonhos enormes.
05:56Tocam Elvis, Little Richard, fazem show pra 12 pessoas, gravam um compacto que passa despercebido.
06:05E levou o meu bem, vem, vem, me leva também.
06:10E Raul Zito e os Panteras era o conjunto da época, bicho.
06:13Era o conjunto da época, era o conjunto mais quente da Bahia.
06:16Era assim, o Mascaro, o conjunto Mascaro.
06:19Conjunto que dava bailes por 50 cruzeiros na época, você tá entendendo?
06:25Então, esse conjunto era o conjunto da classe A da Bahia, tocava no iate.
06:30O povo ria, chamava de música de gringo, dizia que aquilo nunca ia dar em nada.
06:34Mas Raul já tinha aquele tipo de teimosia que não cabe no corpo.
06:39E esse período forja o Raul Casca Grossa, o cara que não desiste nem quando a plateia pede pra parar.
06:45Raul Zito e os Panteras tinham talento, tinham fama, tinham estrada,
06:49mas estavam numa cidade que não tinha tamanho suficiente pra abrigar aquele furacão disfarçado de homem.
06:55E foi nesse cruzamento de frustração e coragem que veio a decisão que mudaria tudo.
07:00pegar as malas, deixar a Bahia e apostar tudo no Rio de Janeiro.
07:04Eu saí da Bahia porque eu sempre tive vontade de sair, essa coisa na cabeça, a palavra é sair.
07:09Em qualquer lugar que eu estivesse, eu ia sair.
07:11Eu entrava numa coisa e eu queria sair logo.
07:13Meu negócio era não me afogar.
07:14Não que a Bahia fosse uma coisa afogante assim, de uma maneira, nesse sentido, né?
07:18Mas não tinha nada mesmo, não rolava nada.
07:20E eu digo, o que é que eu vou fazer aqui na Bahia?
07:22Tá doido?
07:24Não tinha nada o que fazer aqui.
07:26Até hoje não tem gravadora, não tem nada.
07:29Não é um centro musical onde você possa viver de música.
07:34E minha profissão, sendo música, eu não posso ficar aqui.
07:43Final dos anos 60, Raul chega no Rio de Janeiro achando que o sucesso está esperando por ele na central
07:49do Brasil.
07:50Não estava.
07:51Sua experiência no Rio foi marcada pela luta, pela fome, pela necessidade de se adaptar,
07:57compondo sucessos para outros artistas para sobreviver.
08:00O Eul marcou muito a minha vida, sabe?
08:04Eu levei dois anos aqui, penando, né?
08:07Ele queria gravadora grande, queria viver da música, queria ser ouvido.
08:11Eu fui no cantor por coincidência.
08:13Que coincidência?
08:15Eu vim me formar em filosofia aqui no ano, quando eu saí da Bahia do Rio de Janeiro, eu acabei
08:21cantando.
08:22Mas eu vim lançar com o propósito de lançar um livro, que chamasse O Verbalódio, falando sobre nossas cabecinhas.
08:32Entra na CBS, vira produtor, descobre gente como Sérgio Sampaio e o Daís José.
08:38Aqui no Rio, quando é que foi que o produtor Raul Seixas entrou numa de ser o Raul Seixas cantor?
08:46Como é que foi que você percebeu o que dava para nós?
08:47Foi através do Sérgio Sampaio.
08:48Eu contratei um cara chamado Sérgio Sampaio que fez...
08:50Eu quero botar meu bloco na rua...
08:57Eu contratei ele, meu senhor.
08:58Ele encachou ele para a primeira.
08:59Aí eu contratei o Sérgio e ele disse, canta, olha esse negócio de produtor.
09:04Aí eu falei com a Evanda Ribeiro na época, que me ensinou muito.
09:07A Evanda Ribeiro falou, ou você escolhe ser produtor ou cantor.
09:11Aqui não é lugar de gente.
09:14Esse período molda o Raul, estrategista.
09:16Ele percebe que o Brasil está pronto para algo novo, só não sabe disso ainda.
09:20Em 1973, lança os 24 maiores sucessos da era do rock, sob o nome falso Rock Generation, porque o disco
09:29que importava de verdade estava chegando.
09:38E é justamente nesse ponto em que música vira feitiço que entra o personagem que transforma o rock em magia.
09:50Em 1972, quando o Brasil ainda andava com medo da própria sombra, há o cruz do caminho de Paulo Coelho.
09:56Dois malucos brilhantes, um com guitarra como espada, o outro com a caneta como feitiço e um livro de Alistair
10:04Crowley debaixo do braço.
10:05Os dois se olham e entendem na hora.
10:08Eles queriam música que fosse feitiço.
10:10Queriam filosofia que chegasse no povão.
10:13Queriam rock com cheiro de enxofre e libertação.
10:16Raul entra no estúdio como quem entra num ringue.
10:19Olho vivo, pulso inquieto.
10:21Ele queria fazer um disco que não fosse só som, mas uma pancada na porta trancada da sociedade.
10:27Misturar rock, filosofia, deboche, nisticismo e crítica social num único caldeirão.
10:33Para ele era quase um ritual, quase alquimia.
10:36E quando o disco sai, Krieger Rabandolo não parece apenas música.
10:41Parece um rugido de alguém que finalmente decidiu existir em voz alta.
10:46Eu devia estar contente porque eu tenho um emprego.
10:49Sou o dito cidadão respeitável.
10:52Ouro de tolo explode, semanas em primeiro lugar.
10:55Eu devia estar feliz porque consegui comprar um corte, céu 73.
11:01Rádios enlouquecidas, Brasil em choque.
11:04E é ali, naquele instante, que Raul deixa de ser Raulzito.
11:14Ali ele vira Raul Seixas, dono de um universo próprio.
11:23Agora imagina ligar o rádio em 1973 e ouvir algo que mais parecia um feitiço narrado por um xamã elétrico.
11:31Guitarra, verdade e um maluco dizendo.
11:50Não era só refrão, era provocação.
11:54Se hoje eu sou estrela, amanhã já se apagou.
11:57Se hoje eu te odeio, amanhã lhe tem o amor.
12:01Metamorfose ambulante você gravou em 74.
12:04Gravei em 74, não, em 73.
12:07Mas eu já tinha feito isso, não.
12:08Eu já tinha escrito na parede lá de casa.
12:10Em 15 anos.
12:1114.
12:1114.
12:12Minha mãe não apaga até hoje.
12:15Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante do que ter uma opinião formada sobre tudo.
12:20É muito chato.
12:21O pai estava duro, cinza, vigiado.
12:25Estadura apertando tudo o que respirava diferente.
12:28Ô pai, o que é nacionalismo, hein?
12:32Nacionalismo?
12:33É.
12:34Bem, deixa eu ver se consigo desenhar nacionalismo pra você.
12:38O nacionalismo é um conjunto de ideias, meu filho.
12:42Para ação política, econômica e social, visando preservar o interesse da nação.
12:47Sei.
12:48O AI-5 ainda mandava calar quem ousasse pensar mais alto.
12:51Censura prévia em jornal, novela, música, teatro, piada de bar.
12:56Se a letra tivesse liberdade, sociedade, futuro, mudar, era tesouro, carimbo e silêncio.
13:02O ato público está proibido.
13:04Não admitimos parte de ato nem comício.
13:06Está todo mundo preso.
13:07E hoje vão ser enquadrados na lei de segurança nacional.
13:09Quantas pessoas foram presas?
13:10Não sei quantas.
13:11Quantas tiveram aqui.
13:12E então surge algo.
13:14Cabeludo, zombador, místico e indisciplinado.
13:18Totalmente fora da caixa que o sistema insistia em forçar.
13:22Eu sou a mosca que abusou em sua sopa.
13:27Eu sou a mosca que pintou para abusar.
13:32Eu considero essa música um tanto quanto ecológica.
13:35Porque eu sou um grande estudioso de ecologia.
13:38Quer dizer, por mais quantidade de DT que existem, que possa existir, né?
13:42Tem sempre mosca por aí.
13:43Ele não queria cantar músicas.
13:45Ele queria mexer em você.
13:47Na sua cabeça, na sua fé, na dúvida, no destino e, claro, no próprio sistema.
13:53O país cantava junto, mas odiava ser confrontado.
13:57Censura rosnava.
13:58Críticos tradicionais diziam que ele era, abre aspas, perigoso, fecha aspas.
14:03Mas os jovens ouviam e pensavam que finalmente alguém estava dizendo o que não podiam falar.
14:09Todo jornal que eu leio, me diz que a gente já era...
14:17E de repente, Raul não era só mais um artista.
14:20Ele era um símbolo.
14:21Um pregador armado apenas com uma guitarra e um sorriso torto.
14:25Mas toda luz que brilha demais, queima rápido demais.
14:28E Raul era intensidade pura.
14:31Verdade demais, rebeldia demais, excesso demais.
14:35Daí nasce a sociedade alternativa.
14:37Se você não está dentro da sociedade alternativa, a sociedade alternativa sempre esteve dentro de você.
14:44Rituais, velas, símbolos e a juventude pirou.
14:48Tatuou, simbola no braço, repetiu faz o que tu queres, como se fosse oração revolucionária.
14:55Faz o que tu queres, pois é tudo da lei, da lei.
15:00Parecia que Raul tinha aberto uma porta na mente de uma geração inteira.
15:04A ditadura entra em surto, revistam a casa dos dois e os dois que queriam transformar o Brasil tiveram que
15:10fugir dele.
15:11Foi me legado um terreno em Minas Gerais, onde eu ia construir uma cidade, uma anti-cidade, um projeto de
15:19uma anti-tudo.
15:20E aí nós íamos, nós estávamos tão loucos, embriagados pela ideia.
15:24Eu, Paulo Coelho, tinha um advogado, tinha um juiz, tinha pessoas importantes em cada área da sociedade alternativa.
15:31Foi tudo desativado porque eu fui expulso para Nova York, fiquei um ano exilado do Brasil.
15:38E eu fui pego na pista do aterro quando eu voltava de um show.
15:42O carro da DOPS barrou o meu táxi, né?
15:46E eu fiquei nu com uma carapuça preta na cabeça.
15:50Fui para um lugar, se não me engano, acho que foi realengo.
15:53Vinha cinco caras me interrogar.
15:55Eu não sabia quem vinha, eu só sentia os passos.
15:57Eu sabia quem estava se aproximando de ir, deve ser o cara que bate, é o cara que deu.
16:03E após três dias eu estava no aeroporto.
16:06Raul chegou em casa às três horas da madrugada, com a camisa, o bolero, tudo lascado e as costas, laqueada,
16:18correndo sangue.
16:20Eu disse, meu filho, não se importe, tire sua roupa, pique de cueca, que sua mãe lhe dá nada.
16:29Botei ele embaixo da torneira, tirei o sangue para passar as paladabras.
16:35Ele disse, olha, não demorem, não.
16:37Porque aí embaixo tem duas pessoas do exército me esperando.
16:46Eu estou com o passaporte assinado para sair do país, não vai lá.
16:53Em 1974, pegam um avião para os Estados Unidos.
16:57Guita nasce.
16:58Guita é o título do LP.
17:00E é um trabalho completamente diferente do Krig Rabandolo, tá entendendo?
17:05É um trabalho assim, mais dentro da sociedade alternativa, que é a coisa que a gente está jogando mais agora.
17:11Mais de 600 mil cópias vendidas.
17:14Cada faixa parecia uma paulada espiritual no estômago da ditadura.
17:18Eles já são carrascos e vinte, mas do próprio mecanismo que criar.
17:25O cara do consulado brasileiro bateu na porta lá de casa.
17:28Aí ele bateu e falou assim, você já pode voltar.
17:31O Brasil lhe chama, você agora é patrimônio nacional de um miserável.
17:35Fiquei nem com a cara dele.
17:36Voltei. Saudade, né?
17:38Voltei e disse que está o estouro, que está estourado já.
17:41Então, Guita.
17:42Viva a sociedade alternativa. Viva, viva.
17:47Raul vira líder espiritual sem querer.
17:49A juventude acha que ele tem respostas.
17:52Esse fenômeno mágico, esse interesse súbito, vamos dizer assim, para essa magia,
17:57para essa coisa toda que está pintando agora, como filme exorcista.
18:00Essa coisa está sendo considerada causa, quando na realidade é um efeito.
18:04Está entendendo?
18:05E a música Guita, que eu fiz agora, ela coloca bem isso, ela desperta em cada um o que a
18:11pessoa é.
18:12O bem e o mal como sendo uma coisa só.
18:15E desperta na pessoa Deus como um todo.
18:25Mas quanto mais ele brilha, mais a vida dele vira caos.
18:29Enquanto psicografava o Brasil em forma de música, ele dormia pouco, bebia muito, vivia no limite.
18:35Eu sou a luz das estrelas.
18:40E quando a mente ilumina demais, o corpo vira sombra.
18:49Raul e Paulo Coelho estavam vivendo no limite, rodeado de símbolos, velas, livros proibidos.
18:55E no meio disso tudo, um disco nasceu.
18:58Dezembro de 1975, chega Novo Aeon.
19:02Era pesado demais, denso demais, cheio de magia, deboches, símbolos, provocações.
19:09Rock do Diabo, Rock of the Devil.
19:11Pra mostrar que o Diabo não é tão feio como parece.
19:15Diabo!
19:17O Diabo é o pai do Rock!
19:21Parecia um ritual gravado em vinil.
19:23Parecia perigoso.
19:25E mesmo assim, venderia.
19:27Não diga que a canção está perdida.
19:32A imprensa pega fogo, os dois viram os bruxos do Rock.
19:41Só que o Brasil não sabia que por trás daquela estética toda, o clima já estava podre.
19:47Paulo queria disciplina de mago, hora marcada, jejum, austeridade, meditação.
19:53Raul queria viver no modo terremoto.
19:55A grana vira guerra e no começo de 1976 explode.
20:00E a sociedade alternativa que era pra ser eterna dura quatro anos cravados.
20:05Quatro anos de magia, caos, genialidade, excesso e agora silêncio.
20:11Toda linha ocultista que existe na obra do Raul, saiba que não é Raul Seixos, é Paulo Coelho.
20:16Paulo é a verve ocultista hermética.
20:20Mas o Raul não.
20:21O Raul nunca teve essa parada, velho.
20:23O Raul sempre foi um cara que questionou, que sempre teve na dúvida.
20:27A amizade que fez o Brasil gritar, faz o que tu queres, vira um abismo.
20:31E aí em 1977, no Rio de Janeiro, Raul estava dirigindo meio aéreo, meio que pensando na vida.
20:38E então acontece uma das coisas mais absurdas da vida dele.
20:42Absurda até pro padrão Raul Seixas.
20:45Eu vinha normalmente, vindo de lá da Barra da Tijuca, quando eu fui atropelado por uma onda.
20:51Uma coisa inédita na história, atropelado por uma onda.
20:55Quer dizer, isso deve ter uma manchete incrível, né?
20:58Atropelado por uma onda.
20:59Agora aí, olha aí.
21:00E quem dançou fui eu, que o meu carro, sabe?
21:03Foi jogado pra cima e arrebentou o carro todo.
21:06Quer dizer, ainda bem que isso é pra segurar a barra de onda, sabe?
21:09Eu tô a favor, a onda tá certa.
21:11A onda tá certa.
21:12O que tá errado é esse negócio de aterro, tá difícil.
21:15Tomara que eu arrebente esses edifícios todos aí.
21:16Não arrebente, você tá entendendo?
21:18Aí, tudo bem, velho.
21:20Eu sei que eu dancei com vidro aí, com tudo, mas tudo bem.
21:23A natureza tá certa.
21:25O homem que desafiava a sociedade agora tava tomando bronca da própria natureza.
21:30E se você tá curtindo essa loucura toda, já deixa o like aí pra ajudar a história do maluco beleza
21:35a chegar em mais gente.
21:36Fechou?
21:41Sem Paulo Coelho do lado, o Raul começa a brilhar de um jeito quase cruel.
21:46Ele lança há 10 mil anos atrás, em 76.
21:56O dia em que a terra parou em 1977.
22:00O dia em que a terra parou
22:07Depois, Mata Virgem
22:16Porque os sinos dobram, abre-te sésamo, os shows lotam, o dinheiro pinga, Raul tá no auge.
22:23Como é que você classifica a tua música?
22:27Raul seu xismo.
22:29Mas dentro do corpo dele tem um relógio quebrado andando pra trás.
22:32O álcool deixa de ser brinde e vira amuleta.
22:35Vira oração e castigo.
22:37Ele bebe pra escrever, bebe pra dormir, bebe pra acordar.
22:42E quando o uísque não dá conta, entra um cigarro e o que aparecer na frente.
22:46Como consequência, a saúde despenca.
22:49Ele tenta parar, mas o próprio corpo já cobra a conta atrasada.
22:58Raul se reinventa, se recompõe, desaba e tenta de novo.
23:02Mas cada nova música parece um pedaço dele pedindo socorro escondido dentro da poesia.
23:08Raul, você tem uma trajetória instável, não é?
23:12Você às vezes aparece, você explode, depois você some.
23:17O que é? É uma coisa sua de cabeça? É uma coisa de público?
23:21O que se passa com a sua carreira?
23:23Eu chamo isso de reciclagem, que eu dou pra mim mesmo.
23:27Eu me dou assim, é um...
23:30Sai o luxo de ter essa reciclagem.
23:33Toda vez que eu volto, eu desapareço.
23:35E quando eu volto, eu venho com novos caminhos abertos.
23:37É incrível isso.
23:39E aí vem 1982, em Calheiras, interior de São Paulo.
23:43Um show que parecia só mais uma noite,
23:45vira o retrato do absurdo que a vida dele tinha virado.
23:48Raul chega tão destruído, tão fora de si,
23:51que a plateia acha que é um cover ruim.
23:54Começam as vaias, depois garrafada, depois quase linchamento.
23:59Eu cheguei, tudo bem, ótimo.
24:01Quando começou o show, eu ouvi aquele burburinho,
24:03o povo começava a ficar agitado.
24:05E começaram a me jogar garrafas,
24:08a jogar lata de cerveja.
24:11Eu queria...
24:13Fiquei, comecei a ficar nervoso.
24:15Acho que foi um boato.
24:17Que houve, que não era eu que estava cantando,
24:19você está entendendo?
24:20Aí entra a polícia, ao invés de proteger,
24:23prende o próprio Raul Seixas por falsidade ideológica.
24:26Nem a polícia acreditava que aquele homem machucado
24:29era o verdadeiro profeta do rock.
24:31Segundo o cantor, os próprios promotores do show
24:34no Centro Esportivo Municipal da cidade,
24:37influenciaram a opinião do público,
24:39no sentido de que ele não seria o verdadeiro Raul Seixas.
24:42O motivo?
24:43Falta de dinheiro para pagamento do cachê de Raul
24:46de 700 mil cruzeiros,
24:48tendo recebido por conta um cheque de 500 mil sem fundos.
24:53Raul parecia, durante a coletiva,
24:55muito nervoso, confuso e visivelmente indignado
24:59com a agressão que sofreu
25:00por não portar documento que o identificasse.
25:03E lá na delegacia, como é que foi?
25:05Eu fiquei esperando o delegado chegar
25:09e ele chegou logo me batendo.
25:11Olhou para a minha cara e falou,
25:12não é ele não.
25:13Puxou minha barba para ver se é a verdadeira.
25:17Tirou meus óculos e começou a me bater.
25:20E aí no seu olho foi alguma pancada?
25:21Foi, me deram uma pancada aqui no olho
25:24e uma cotovelada aqui.
25:26E foi lá me batendo.
25:28E você vai recorrer à justiça
25:30para que os responsáveis por isso sejam punidos?
25:32Vou exigir do secretário de segurança
25:35que processem o delegado que me bateu,
25:39que espancou a mim.
25:41Exigir que processem na justiça,
25:44bravamente, os patrocinadores do show
25:47e quem quer que deturne os fatos
25:51que aconteceram de agora em diante.
25:53Mas Raul não desiste.
25:54No ano seguinte, ele surge com o renascimento,
25:57o dia em que a terra parou.
25:59Depois vem metrô linha 743.
26:02Cada disco é um Raul novo,
26:03metamorfose ambulante sim,
26:05tentando não morrer no meio do caminho.
26:13Imagina ter um ídolo.
26:14Agora imagina esse ídolo virar teu amigo.
26:17E depois virar uma espécie de missão de vida.
26:20Foi isso que aconteceu com Silvio Passos.
26:23Chegou com respeito,
26:25sem idolatria boba,
26:26sem puxar saco.
26:28É uma amizade improvável,
26:29mas funciona.
26:30Silvio vira companhia,
26:32vira parceiro de madrugada,
26:34vira conselheiro,
26:35vira aquele cara que não tem medo de dizer,
26:37abre aspas,
26:38você está se destruindo.
26:40Fecha aspas.
26:41E é nessa época que nasce o Raul Rock Club.
26:44E tem um detalhe bonito.
26:46Muita coisa que a gente sabe hoje sobre Raul
26:48só existe porque Silvio guardou.
26:52Mas por mais que Silvio fizesse de tudo
26:55pra segurar Raul,
26:56tem momentos da vida que nem amizade,
26:58nem fã-clube,
27:00nem magia seguram.
27:01Todo mundo sabe que meu pai
27:03tinha um problema de alcoolismo, né?
27:05De dependência química e de alcoolismo.
27:08Quando minha mãe conheceu ele,
27:09ela sabia que meu pai bebia e tal,
27:11mas ela não tinha noção
27:13de quão grave era o problema, né?
27:15Meu pai bebia desde pequenininho,
27:18desde moleque.
27:19Desde parou.
27:20A culpa, infelizmente,
27:23foi dele mesmo, sabe?
27:25Que não tentou fazer um tratamento,
27:29não se manteve no tratamento,
27:31não foi num ANA, num AA.
27:33E o próximo capítulo mostra exatamente
27:35quando o mundo começou a perceber
27:37que o profeta tava se partindo por dentro.
27:461984, Circo Voador.
27:49Raul tava na plateia apagado,
27:51cansado,
27:52flutuando entre vícios e ressacas eternas.
27:55No palco, uma banda punk detonando tudo.
27:58Camisa de Vênus.
28:00O líder, Marcelo Nova.
28:02Raul assiste e alguma coisa dentro dele acorda.
28:05Nasce ali uma amizade crua,
28:07sem contrato,
28:09sem glamour.
28:10Os anos passam e chega em 1988.
28:13Raul tá no fundo do fundo.
28:15A saúde em ruínas,
28:17grana curta,
28:18vícios mordendo ele por todos os lados.
28:21Enquanto o país inteiro que gritava
28:23toca Raul,
28:24virava as costas,
28:25Marcelo coloca Raul no palco de novo.
28:28E é essa parceria que desemboca em 89
28:30no disco que vira meio que testamento.
28:33É Raul vivendo os seus últimos dias
28:36do único jeito que sabia viver.
28:38Cantando o próprio abismo com coragem,
28:40humor e uma ferida aberta.
28:4283, nós estávamos tocando no Circo Voador.
28:46Quando a Jussar,
28:48que é a pessoa que toma conta do circo,
28:50já tomava naquela época,
28:51me disse,
28:52olha, Raul tá vindo aí que ele quer lhe conhecer.
28:54Eu digo, ah, conta outra.
28:55Raul falava mal de todo mundo,
28:56desculhambava com rock brasileiro.
28:59É, vai querer vir aqui, coisa nenhuma.
29:00E ele foi,
29:02se apresentou pra mim como se fosse necessário.
29:05Eu o convidei na maior cara de pau
29:08pra dar uma canja.
29:09Ele topou.
29:10Pô.
29:11Ele topou.
29:12Nós tocamos no Circo Voador.
29:14Depois...
29:15O que vocês tocaram?
29:16Tocamos um medley de canções dos anos 50.
29:19Biba Palula, Ginny Ginny,
29:21Blue Sweet Chutes, enfim.
29:22Nossa.
29:23E aí depois eu fui assistir um show
29:26aqui em São Paulo,
29:27que ele fez.
29:31Quando acabou o show eu fui no camarim,
29:34trocamos endereços e tal.
29:36Quinze dias depois,
29:38ele, a mulher dele,
29:40Tony Ozanar,
29:41que era o guitarrista dele,
29:42e a esposa de Tony,
29:43bateram na porta da minha casa
29:45num domingo, 11 horas da manhã.
29:46A partir daí, cara,
29:48surgiu uma série de...
29:50Surgiram afinidades entre nós
29:53que fizeram com que a nossa amizade
29:54só acabasse no dia que ele morreu.
29:57Marcelo não salvou Raul
29:59porque ninguém podia.
30:01Mas ele deu ao maluco beleza
30:02uma última chance de ser grande
30:04antes do fim.
30:05E isso vale mais do que qualquer salvação.
30:13No final dos anos 80,
30:15Raul já não era mais um profeta caminhando.
30:17Era quase um espírito lutando
30:19pra ficar aqui.
30:20Magro, tremendo,
30:22mas ainda com um brilho temoso nos olhos.
30:24Ele queria viver simples,
30:27queria só mais um disco.
30:28Mas um show onde pudesse provar
30:30que o fogo ainda queimava.
30:32Mas o corpo já tinha mudado de ideia.
30:35E espero acabar em Hollywood
30:38fazendo filme.
30:40É isso mesmo?
30:40Você tem esse sonho?
30:41Ave Maria.
30:42Eu tô te achando...
30:43Veja aí, me corrija se não for verdade.
30:47Você é tímido?
30:49Sou.
30:50Tô te achando nervoso aqui.
30:52Você tá...
30:53Não sou tímido mesmo.
30:55E como é que uma pessoa tão tímida
30:57quer acabar em Hollywood
30:58fazendo cinema?
31:00Anthony Perkins também é tímido.
31:02Bom, é verdade.
31:03Que é um bobo neurótico
31:05e faz bem ao cinema.
31:06Eu costumo dizer, Maria, assim,
31:07que eu sou um tão grande,
31:09tão bom ator
31:10que eu fiz o que sou cantor e compositor
31:12e todo mundo vai aonde eu acredito.
31:15A saúde viu a inimiga íntima
31:16puxando ele pra baixo
31:18a cada gole.
31:19A cada noite mal dormida,
31:21a cada recaída
31:22que abria a porta
31:23dos velhos fantasmas.
31:24Ele tava cansado,
31:26debilitado,
31:27doente,
31:28às vezes mal conseguindo
31:29ficar em pé.
31:30Subia no palco
31:31como um soldado ferido
31:32que se recusa
31:33a abortar na guerra.
31:35Mas a vida tem
31:35seu próprio cronograma
31:37e em agosto de 1989
31:39o corpo apagou,
31:41mas o mito não.
31:42O rock brasileiro
31:43está órfão.
31:44Morreu hoje em São Paulo
31:46o cantor e compositor
31:47Raul Seixas,
31:48o maluco beleza.
31:50Para muitos,
31:51considerado
31:51o pai do rock nacional.
31:53Ele era diabético
31:54e sofreu uma parada cardíaca
31:56de madrugada
31:56enquanto dormia.
31:58Raul Seixas
31:58completou 44 anos
32:00em junho.
32:01Em um clima
32:02de muita emoção
32:02e sempre cantando
32:03as músicas de Raul,
32:04os fãs paulistas
32:05prestavam sua última homenagem.
32:08Logo cedo,
32:09já havia muita gente
32:10querendo ver
32:10pela última vez
32:11seu ídolo.
32:12Centenas de fãs
32:13vieram de longe
32:14prestar a última homenagem
32:15a Raul.
32:16Cada um,
32:16a sua maneira,
32:17demonstrou o que sentia.
32:19Uns cantavam...
32:24Outros simplesmente olhavam
32:25e outros ainda
32:26deixavam uma lembrança.
32:28E ao mesmo tempo
32:29nasce de novo.
32:30Do jeito que as lendas nascem.
32:32No eco,
32:33no símbolo,
32:34no que fica.
32:35Porque a lenda não morre.
32:37Tem uma frase aqui
32:37muito legal
32:38que eu queria lhe mostrar.
32:39Existem tantos tipos de morte,
32:41um acidente de carro,
32:42um coração que se recusa
32:43a bater no próximo minuto,
32:45a anestesia mal aplicada,
32:46a vida mal vivida,
32:48a ferida mal curada,
32:49a dor já envelhecida,
32:50o câncer já espalhado
32:52e ainda escondida.
32:53Ou até, quem sabe,
32:55o escorregão idiota
32:56num dia de sol,
32:56a cabeça no meio fio.
32:58Aí eu começo a cantar
32:58ela lindo.
32:59Ô morte,
33:00tu és que é tão forte
33:01que matas o gato,
33:03o rato e o homem.
33:04Vista-se quanto
33:04a mais bela roupa
33:05quando vieres me buscar
33:06e que meu corpo
33:08seja cremado
33:08e que minhas cinzas...
33:10É um negócio assim
33:11que tem dois...
33:11tem dois lados da morte.
33:13Um eu rejeito,
33:15mas venha, minha filha.
33:17Só que...
33:17A venha é bonita.
33:18Trinta anos depois,
33:19é quase estranho
33:21pensar nisso.
33:22Adolescentes que nunca
33:23ouviram Raul vivo
33:24ainda citam o cara
33:25como se tivessem
33:26vivido ao lado dele.
33:28E Raul provou
33:29um troço horrável,
33:30que você pode ser estranho,
33:32místico,
33:32bagunçado,
33:33com tradição pura
33:35e mesmo assim,
33:36deixar um rastro capaz
33:37de mudar a cultura inteira.
33:39O cara não foi...
33:40O cara não foi ídolo.
33:41Ídolo é distante.
33:43Ele foi espelho.
33:44E o problema dos espelhos
33:45é simples.
33:46Quando você olha demais
33:48para eles,
33:49você acaba se vendo também.
33:50E agora eu quero saber
33:51qual a tua leitura
33:53dessa história.
33:54Qual Raul
33:54existe dentro de você?
33:56Comenta aí qual música
33:57te pegou de jeito,
33:58aquela que grudou
33:59para sempre.
34:00Muito obrigado
34:01por me assistir até aqui.
34:03Seu like,
34:03seu comentário,
34:04sua inscrição
34:05são um combustível
34:06que mantém esse trampo vivo
34:07e ajudam demais
34:08a promover meu trampo.
34:10E se você curtiu a jornada
34:11do Maluco Beleza,
34:12estou deixando na tela
34:13um vídeo sobre um cara
34:14que o Brasil ama odiar,
34:16odeia amar
34:17e que mesmo assim
34:19continua sendo
34:20um dos nomes
34:21mais polêmicos
34:22e geniais
34:23que essa terra já pariu.
34:24Tamo junto.
34:25Eu sou o Fefeu
34:26e te vejo
34:27no próximo vídeo.
34:28Fechou?
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