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TecnologiaTranscrição
00:00E como hoje é terça-feira, chegou a hora da nossa coluna, fala aí!
00:12Então, vamos receber ele, Roberto Fena Spinelli, físico pela USP, especialista em Machine Learning por Stanford
00:20e colunista do Olhar Digital. Vamos lá? Deixa eu ver se o Pena já está aqui a postos para falar
00:26com a gente. Vamos ver.
00:29Olá, Pena! Muitíssimo! Boa noite! Seja muito bem-vindo!
00:35Tudo bem, Marisa? Como é que você está? Tudo bem, pessoal?
00:38Tudo ótimo, Pena! Vamos lá para a nossa coluna, fala aí dessa semana.
00:43Temos assuntos interessantes por aqui, como sempre, né?
00:46Vamos começar, Pena, falando sobre a evolução da IA, que foi frequentemente associada ao sucesso nos modelos em jogos.
00:55À medida que as ferramentas se tornaram mais sofisticadas, elas passaram a dominar não apenas jogos de tabuleiro,
01:03como também videogames.
01:05Mas, apesar disso, Pena, a tecnologia ainda não consegue competir com pessoas, com humanos.
01:11Por que isso acontece, é verdade?
01:14É verdade. Na maioria dos jogos, a IA se dá melhor do que os humanos.
01:19Claro que, quando você pega jogos que a gente já aplicou algumas soluções de machine learning à exaustão,
01:26como, por exemplo, o xadrez, aí, nesse caso, não.
01:29As máquinas, as IAs que jogam xadrez jogam muito melhor do que o ser humano, não tem como competir.
01:35Mas a IA que joga xadrez, Marisa, ela só joga xadrez.
01:38Se você mudar o jogo, colocar para ela jogar, sei lá, um joguinho do Atari, ela já não consegue jogar.
01:45Então, a questão é, a gente consegue fazer hoje IAs que elas são super especializadas
01:50e elas conseguem jogar alguns tipos de jogos muito bem, mas não todos.
01:55Esse é um dos desafios que a IA não chegou lá, porque ela consegue fazer um monte de atividades muito
02:02boas.
02:02Mas o que acontece? Jogos, para você poder jogar qualquer tipo de jogo,
02:07você precisa ter uma inteligência muito específica.
02:10Você vai ter que conseguir abstrair muitas coisas, criar, se adaptar, aprender em tempo real,
02:15porque você vai jogando, vai sacando qual que é a melhor estratégia, vai se adaptando.
02:20Você tem que ter flexibilidade, criatividade.
02:22E esse conjunto, ainda, o ser humano faz melhor do que a IA.
02:28É por esse motivo, inclusive, que um dos benchmarks para avaliar a inteligência das máquinas,
02:33que chama Arcade IA, e a gente já falou aqui em algumas outras semanas,
02:38é a ideia de você propor algum desafio que é fácil para o ser humano fazer,
02:43mas é muito difícil para a IA fazer.
02:46Então, o cara, o criador desse desafio, ele já tinha proposto um,
02:49que as IAs depois conseguiram tirar nota 100, ou foram muito bem, melhor do que o ser humano.
02:55Depois ele criou um segundo, também com essa proposta,
02:58agora as IAs não vão conseguir, porque esse desafio aqui vai ser impossível para elas fazerem.
03:03Deu aí um ano, elas já ganharam do ser humano.
03:07E agora ele propôs o nível 3.
03:09E o nível 3 é jogos.
03:10É justamente ele perceber que, olha, vamos fazer o seguinte,
03:14eu vou criar jogos, milhares de jogos que ele cria,
03:18só que não tem regra, você não tem como ler o manual de regra.
03:22Você tem que jogar e descobrir, jogando, qual que é a regra do jogo.
03:25O que dá ponto, o que faz, e conseguir vencer os jogos.
03:28Ou seja, um desafio que precisa ter esse conjunto que a gente falou,
03:32de habilidades aí para vocês sacando, testando, avaliando, aprendendo,
03:37um monte de coisa que você vai fazer num jogo.
03:40Então, esse desafio foi lançado agora.
03:42A gente ainda, as máquinas estão indo muito mal nesse desafio.
03:45O que reforça esse estudo.
03:47Então, o que a gente tem visto?
03:49Jogar jogos diferentes é um ótimo teste para a gente avaliar a inteligência das máquinas.
03:55E, por enquanto, o ser humano está bem melhor.
03:58Mas a dúvida é, Maris, até quando?
04:01Nos outros testes que a gente, né, o pesquisador disse,
04:05olha, isso aqui não vai nunca conseguir resolver, deu um ano e resolveu.
04:08Então, a minha dúvida é, até quando a gente vai poder se gabar
04:11que é melhor do que a máquina para jogar qualquer, um jogo geral, assim, um jogo genérico?
04:16Pois é, eu fiquei curiosa porque tem jogos que tem o blefe, por exemplo, num pôquer.
04:22Como será que uma IA se sairia na mesa?
04:26Olha, hoje, Marisa, as IAs jogam pôquer melhor do que o ser humano.
04:30Mesmo com o ser humano blefando.
04:32Ela saca melhor os blefes.
04:34Mas, como eu falei, é uma IA especializada em pôquer.
04:37Já existe.
04:38Por isso que, inclusive, esses cassinos, esses jogos online,
04:42têm mecanismos para impedir, né?
04:44Supostamente, para impedir que você use a IA para jogar pôquer online.
04:48Porque dá uma grande vantagem.
04:50Ela tem uma habilidade de análise sensacional.
04:52Então, veja, mesmo nesse caso, que parece que, né, o blefe...
04:56Mas não.
04:57Mesmo para pegar a blefe, a IA é melhor num caso específico.
05:01Num caso geral, já é mais difícil.
05:03Pois é, bastante curioso.
05:06Agora, a pena.
05:07A atriz Mila Jovovich, que é famosa por atuações no filme
05:12O Quinto Elemento e também na série Resident Evil,
05:15Ela criou um sistema de IA de memória a longo prazo.
05:20A pergunta é, essa invenção tem o potencial de mudar a forma como as máquinas lembram, Pena?
05:28E olha que curioso, Marisa.
05:30É uma atriz de Hollywood que não é conhecida por desenvolver código ou desenvolver aplicativos, né?
05:39Ela é conhecida por atuar, por ser uma grande atriz.
05:41Mas ela criou o sistema.
05:44Claro que ela não fez isso sozinha.
05:47Ela se juntou junto com outro engenheiro de computação.
05:50Mas, assim, o que dá para entender é que foi uma parceria mesmo.
05:53Ela foi a arquiteta desse sistema e essa outra pessoa foi o engenheiro por trás.
06:00Mas já é algo surpreendente pensar que uma pessoa de uma certa carreira
06:05atuou numa outra carreira com um enorme sucesso.
06:08O que eles fizeram?
06:08Eles criaram um sistema que você utiliza inteligência artificial em cima desse sistema
06:14para dar, digamos, a memória a longo prazo.
06:17A gente sabe que as nossas IAs hoje, eles são um dos grandes calcanhares daqueles das nossas IAs de hoje.
06:23Porque elas não conseguem lembrar de coisas para sempre, assim.
06:27Elas têm uma janela de contexto que você vai falando com elas,
06:30chega uma hora que não tem mais como você pôr informação ali dentro.
06:33Ela limita ali e aí ela vai esquecendo.
06:38Não tem como você, digamos, em princípio, ter como ela lembrar da sua vida toda,
06:42de todas as suas interações.
06:43No caso, a Mila estava querendo fazer algum projeto que envolvia ter memória a longo prazo.
06:48Ela não contou que projeto era esse.
06:51Eu imagino que ela conseguiu, sei lá, criar às vezes um roteiro de um filme inteiro.
06:55Eu não sei direito, ela não contou.
06:57Entendi que tinha a ver com cinema.
06:58Só que ela disse assim, olha, eu estava lá fazendo e aí eu encontrei um problema.
07:02As IAs não conseguiam ter memória a longo prazo.
07:04Então eu resolvi.
07:07Resolveu o problema.
07:08Eu achei genial.
07:09E ela falou assim, aí eu descobri que o problema talvez era mais importante do que o meu próprio projeto.
07:14Então, Marisa, nós temos hoje o chamado MemPalace.
07:19Esse é o nome do repositório, o nome do programa que eles criaram.
07:22Que dá a ideia de palácio de memória.
07:26MemPalace.
07:27E está, primeiro, disponível para todo mundo baixar no GitHub.
07:30Então ela disponibilizou de graça para todo mundo.
07:33Super interessante.
07:35Ele é, hoje, o sistema que tem a maior nota no benchmark de memória a longo prazo, Marisa.
07:41Ou seja, ela criou o melhor sistema do mundo de memória a longo prazo de A.
07:47Ela junto com esse outro programador, com esse outro técnico, enfim.
07:51Tem que dar o valor para os dois, mas não importa.
07:53Ainda assim, é algo surpreendente que, só por isso, pensar assim, uma atriz de Hollywood,
08:00de repente, fala assim, eu tinha um problema, eu resolvi meu problema, fazer uma inovação absurda.
08:04Então, parabéns, Tamila, que se tudo der errado na carreira dela, ela pode se tornar aí uma grande inovadora.
08:12Mas é algo de um avanço importante também para nós, viu, Marisa?
08:15Além disso, além de todo esse fato inusitado, ainda assim, está mostrando que é um problema sério que a gente
08:21está enfrentando.
08:22E ela, de algum jeito, resolveu.
08:24Agora, vamos ver as pessoas baixando, usando, para ver se isso se torna robusto mesmo.
08:28Se precisa ter melhorias, possivelmente ainda é um progresso.
08:31Mas não deixa de ser algo surpreendente e extraordinário.
08:34Com certeza.
08:35Agora, realmente, as grandes ideias, muitas vezes, vêm de problemas que você não encontra uma solução pronta no mercado.
08:41Aí vem a ideia de você produzir algo, como é o caso da Mila, né?
08:44Parabéns para ela mesmo.
08:46Agora, pena, deixa eu aproveitar que você está aqui conosco hoje,
08:49porque ontem nós falamos aqui no Olhar Digital News sobre mercado de trabalho,
08:54sobre um levantamento do banco Goldman Sachs, que aponta que profissionais em início de carreira
09:02estão entre os mais impactados pela adoção de IA.
09:06Eu queria que você falasse a respeito disso.
09:08Por que esses cargos são mais vulneráveis, pena?
09:12Então, Marisa, olha que curioso.
09:14Eu já vinha falando sobre isso em algumas das minhas falas por aí,
09:19que eu acreditava.
09:20Até no meu LinkedIn eu publiquei um texto contando sobre como eu achava que seria a substituição de empregos,
09:28caso ela aconteça, com a IA melhorando.
09:31Como eu imaginaria um cenário desse?
09:33E eu falava, né?
09:34Eu falei que eu imagino que é justamente nos empregos de entrada que vai acontecer.
09:41Por quê?
09:41E aí, de fato, esse estudo corrobora tudo que eu falei lá atrás.
09:45Então, eu fiquei bem feliz.
09:45Eu falei, caramba, acertei essa aqui.
09:47Eu posso dizer que eu acertei.
09:48Porque o estudo mostrou exatamente.
09:50Então, qual que é o mecanismo por trás, Marisa?
09:54Primeiro, quando uma empresa tem que tomar uma decisão de demitir,
09:58é sempre uma decisão dolorosa, né?
10:02Embora elas façam isso.
10:04Mas a gente sabe porque as empresas, elas sabem que tem um monte de gente que dependem dela.
10:09Elas sempre buscam tentar primeiro outras alternativas antes de fazer uma demissão em massa,
10:14de realmente tirar as pessoas.
10:16Aproveitam, trocam de lugar, fazem capacitação, fazem novos treinamentos.
10:21Enfim, existe tudo.
10:22É doloroso uma empresa demitir um funcionário.
10:26Agora, o que não é doloroso é ela não contratar.
10:29Isso não tem dor.
10:31Então, é comum as empresas terem ciclos de contratação.
10:35Por quê?
10:35Porque os seus funcionários, eles vão subindo de cargo, vão ficando mais sêniores,
10:39os sêniores vão se aposentando.
10:41Ou, porque existe uma troca normal, às vezes as pessoas que saem da empresa.
10:45Então, é normal as empresas terem ciclos de contratação.
10:50E elas contratam, digamos, uma vez por ano, duas vezes por ano, estagiários ou júniores
10:55para fazer os empregos de entrada.
10:57E depois, essas pessoas vão progredindo nessa carreira, nessa escada,
11:01e vão se tornando os plenos e os sêniores mais para frente.
11:05Pois bem.
11:06Então, se é doloroso demitir, não é doloroso deixar de contratar.
11:11Então, o que acontece?
11:12Essas empresas, elas...
11:13Olha, esse ano a gente contrataria 10 estagiários ou 10 júniores.
11:18Mas a IA já está fazendo.
11:21A IA hoje, ela não é boa para tomar grandes decisões, fazer grandes planejamentos.
11:25Mas para fazer atividades do dia a dia, que possivelmente são aquelas
11:29mais que um estagiário ou um júnior consegue fazer,
11:32que é uma tarefa repetitiva, que é uma tarefa ali de processar,
11:36às vezes, uma grande quantidade de trabalho mais braçal.
11:40Ou que, enfim, ainda de preparação, ela faz muito bem hoje, Marisa.
11:44Então, o que está acontecendo?
11:44O que eu previ é...
11:46As empresas vão falar assim, olha, não, vou contratar.
11:48Se eu contratava 10, vou contratar 1.
11:51Porque talvez os outros funcionários já plenos conseguem, usando IA,
11:56já fazer a tarefa do que os estagiários e os júniores fariam.
12:01E é isso que está acontecendo.
12:03Agora, a questão toda é...
12:05Quem vai sofrer primeiro esse baque?
12:08As pessoas que estão buscando empregos.
12:09Os jovens, justamente essa nova geração, que vai sofrer porque vai ser mais difícil
12:15concorrer contra a IA, também fazendo esse serviço de entrada.
12:19Aí, o desdobramento que eu imagino é, se não temos esses empregos de entrada
12:24sendo populados por humanos, também não vamos ter depois a formação
12:28de pessoas do nível pleno nem sênior, porque elas não vão conseguir entrar na escada.
12:34Elas precisam entrar nessa fila para subir a escada.
12:36Se você não entrar na base da escada, você nunca sobe.
12:39E aí, no futuro, Marisa, eu imagino que a IA, resolvendo com a Mila Iomovic,
12:44fazendo o sistema de memória a longo prazo e tudo mais,
12:47a gente vai ter a IA melhorando nas tarefas, inclusive nas tarefas mais difíceis.
12:51Então, o que eu acho que vai acontecer é...
12:54Os seres humanos que já estão empregados, muitas empresas não vão demitir, vão conseguir aproveitar,
12:59eles vão conseguir nessa carreira, mas não vão ter humanos na base.
13:03Aí, mais pra frente, quando esses funcionários estiverem se aposentando ou subindo,
13:08vai ser a própria IA que vai já ter capacidade de fazer subir.
13:12É a IA que entrou na escada.
13:14A IA vai entrar na escada do trabalho.
13:16E pode ser que em algum momento ela suba até o final.
13:19Então, Marisa, era isso que eu achava que era o mais provável da gente ver nos próximos anos.
13:25Claro que, dependendo da evolução da IA, pode ser que a gente até veja também
13:29outros níveis de substituição mesmo.
13:31Mas eu acho que seria a forma mais fácil de uma empresa abraçar a tecnologia
13:37sem ter a dor de demitir, de fazer essa grande mudança.
13:41E é isso que está acontecendo, que isso tudo mostra.
13:43Então, temos que estar muito espertos, porque quebrando essa carreira,
13:46quebrando essa escada de carreira das pessoas,
13:49isso pode estar por trás de um grande problema estrutural,
13:52um grande problema no final de Seguridade Social.
13:54Porque as pessoas não vão conseguir entrar no mercado de trabalho,
13:58vão ter mais dificuldade.
13:59Então, o que se implica para a nossa sociedade?
14:01Como a gente resolve isso?
14:03Aí é mais problemático.
14:05Pois é, uma equação difícil de resolver mesmo.
14:09Num primeiro momento parece ser simples,
14:11mas é como você disse, com o passar do tempo, como que faz?
14:15A pessoa não vai entrar numa empresa sem ter aquele expertise,
14:18sem ter experiência, já pleno, sênior, para dar continuidade.
14:21Realmente é uma equação bastante difícil, que só o tempo dirá.
14:25Vamos acompanhando, Pena, e você sempre trazendo esse panorama para a gente toda semana.
14:31Muitíssimo obrigada, Pena.
14:33Tenha uma excelente semana.
14:34Nos encontramos na próxima terça.
14:36Obrigado, Marisa.
14:38Foi muito legal bater esse papo com você mais uma semana.
14:40Então, até a próxima.
14:42Até mais, pessoal.
14:43Até.
14:44Boa noite, Pena.
14:45Está aí Roberto Pena Spinelli participando mais uma vez aqui do Olhar Digital News no quadro.
14:51Fala aí, trazendo esses pensamentos sobre esses momentos que a IA tem se apresentado no dia a dia.
14:59Semana que vem teremos mais assuntos para trazer para vocês aqui em mais um quadro.
15:04Fala aí.
15:05Tchau.
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