00:00Em 1956, Quimarães Rosa revolucionou a literatura brasileira ao publicar Grande Sertão Veredas.
00:0670 anos depois, o romance segue vivo entre leitores e escritores que encontram na travessia de Riobaldo
00:12uma reflexão profunda sobre linguagem, existência e destino.
00:16Para marcar as sete décadas da obra, reunimos depoimentos de autores contemporâneos
00:21sobre a força e a permanência desse clássico.
00:24Grande Sertão Veredas entrou na minha vida muito... eu era muito novo, né?
00:28Minha mãe é escritora e jornalista, Maria Leitão.
00:30Ela contava para a gente, ainda pequeno, as histórias do livro, né?
00:35E que eu só fui ler já adolescente, mas fiquei também completamente apaixonado.
00:40Quando minha mãe foi eleita para a Academia Brasileira de Letras, ela me convidou para estar ao lado dela
00:45e eu, antes, fui conseguindo um leilão, a quarta edição do livro.
00:49É a foto da posse dela na Academia, ela segurando esse livro.
00:52Então, o Grande Sertão, aquelas histórias fazem parte da nossa vida de uma forma muito profunda.
00:56O Grande Sertão Veredas, eu acho que é um livro de vanguarda, é um livro que realmente fez, né?
01:05E faz a diferença na literatura brasileira.
01:07Cordesburgo era pequenina terra sertaneja.
01:11Traz montanhas no meio de Minas Gerais.
01:14Só quase lugar, mas tão de repente bonito.
01:19Guimarães Rosa inaugura um tipo de linguagem que mistura a língua portuguesa com sertanejo, com invenção de palavras, né?
01:29E é um livro extremamente filosófico, exuberante e que mostra aí também o quanto é complexo e profundo a cultura
01:41brasileira.
01:42Pra mim, algo muito especial é essa miscelânea de uma certa maneira de um narrador que não tem a verdade
01:49sobre tudo,
01:51que às vezes se engana, desengana o leitor.
01:55Então, eu gosto muito, dentre outros fatores, dessa possibilidade de um narrador que questiona a verdade de si mesmo.
02:01Quando eu era criança, meu avô morava lá em casa e ele estava sempre lendo um livrão de capa dura,
02:08assim, azul.
02:09E um dia eu puxei o braço dele e eu vou, esse livro aí que você nunca termina, o que
02:12é isso?
02:14Aí ele falou, não, Léo, é porque eu termino aqui no final e começo de novo, e chego no final
02:18e começo de novo.
02:20E aí, durante 30 anos da vida dele, de 64, quando ele comprou essa edição, até 94, quando ele morreu,
02:28meu avô leu mais de 20 vezes o Grande Sertão Veredas.
02:32Quando ele morreu em 94, a minha avó falou assim, vou enterrar o livro com o seu avô.
02:36Eu falei, não, vó, eu quero esse livro pra mim, né?
02:39Resultado, roubei o livro, escondi debaixo, numa gaveta, joguei uns panos por cima e ele foi enterrado sem o livro.
02:47Eu li o livro inteiro uma vez só, mas com a minha avó a gente lia trechinhos pra lembrar do
02:52vô,
02:52ver as marcações dele e tal.
02:55Então, assim, pra mim é muito marcante, porque foi a primeira vez que eu, ainda criança, saquei que um livro
03:00é interminável, né?
03:01Um bom livro, você volta nele várias vezes e vai percebendo coisas novas e você também é outra pessoa.
03:07O Grande Sertão Veredas tem uma importância tão grande na literatura brasileira
03:12e na minha vida tem uma importância fundamental no meu desejo de escrever, no meu desejo de contar
03:20a partir da voz das pessoas do povo, da voz do sertão, do cotidiano, da vida,
03:29que traz, assim, aquelas questões mais profundas da humanidade, que o sertão tá mesmo dentro da gente.
03:36É falar sobre a possibilidade de pensarmos nos diferentes sertões que existem no Brasil.
03:42Eu, como filha de uma sertaneja da Bahia, aprendi muito com a linguagem
03:48e me conectei muito a partir de confluências desse livro.
03:54E penso muito sobre a possibilidade da invenção, mas também de um reconhecimento de linguagens que são pluriversais.
04:02Nós estamos comemorando os 70 anos dessa obra-prima, né, do Guimarães Rosa, que é o Grande Sertão Veredas,
04:10mas nós não podemos deixar de falar também dos 70 anos do Corpo de Baile,
04:16dos 80 anos do Sagarana e também dos 90 anos do Magma, que foi escrito por Guimarães Rosa em 1936.
04:30700 anos do Grande Sertão Veredas, não, 7 mil anos do Grande Sertão Veredas, não, 15 mil anos.
04:38Ah, gente, Grande Sertão Veredas vem de muito tempo.
04:42É um fogo muito antigo que é aceso por esse escritor mineiro extraordinário.
04:4670 anos que se multiplicam, porque ele será eterno.
04:50Daqui a 70 anos, 150 anos, sempre será eterno.
04:56Viva Guimarães Rosa, viva essa pedra fundamental da nossa literatura brasileira, da nossa literatura mundial.
05:02O material completo sobre os 70 anos de Grande Sertão Veredas,
05:06você pode acessar em www.em.com.br barra pensar.
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