00:00A gente continua com essa repercussão, vamos ouvir também o nosso correspondente, o Luca Bassani,
00:05que tem acompanhado essas movimentações até aqui.
00:10Esse acordo que será assinado amanhã, Lula não vai estar no acordo,
00:14porque há ali um entendimento sobre Javier Millet, inclusive, da Argentina, do lado do Mercosul.
00:20Luca, nós estávamos aqui acompanhando o discurso do presidente Lula.
00:24Qual é a sua avaliação sobre essas recentes falas em relação a esse acordo,
00:30que ainda antes de ser assinado, de ser votado, já é comemorado como uma grande vitória, uma articulação de Lula.
00:39O que ainda será necessário, muita articulação antes do voto, né?
00:44Exatamente, Bruno. Primeiro, é importante dizer que caso o acordo seja implementado,
00:49ele seria, obviamente, benéfico para os dois lados do Atlântico.
00:52Todos aqueles que entendem um pouco de economia sabem que, de fato, seria benéfico para os brasileiros,
00:58argentinos, uruguaios e paraguaios e para os europeus, de maneira geral, os consumidores.
01:03Não estou dizendo para os setores e, especificamente, individualmente,
01:06mas para a população que compra alimentos todos os dias, quer comprar uma coisa diferente,
01:11um produto industrializado, óbvio que seria positivo.
01:13Mas a gente não pode esquecer dos aspectos jurídicos que podem, ao meu ver, ainda inviabilizar este acordo.
01:20Juridicamente, o acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia é um acordo chamado de misto,
01:26ou seja, ele não é decidido integralmente pela União Europeia.
01:30Ele depende dos estados nacionais individualmente.
01:34O que temos agora é o aval da Comissão Europeia.
01:37A primeira fase aprovada, algo positivo.
01:40Mas ainda faltam dois pontos extremamente importantes.
01:43O Parlamento Europeu votar, o que deve ser encaminhado ainda no primeiro semestre,
01:48mas depois cada um dos 27 países, os parlamentos regionais,
01:54também elegerem essa questão como prioritária e aprovarem.
01:58Basta um único país não aprovar que o acordo vai por água abaixo.
02:02É importante a gente passar esse aspecto realista para a nossa população.
02:06Em 2016, algo muito parecido acontecia entre o Canadá e a União Europeia,
02:11também o acordo de livre comércio.
02:13E naquele momento, a Valônia, a região francófona da Bélgica,
02:17que é muito pequena, quase inviabilizou o acordo para toda a União Europeia
02:22e os seus 450 milhões de habitantes.
02:25Por quê?
02:25Como o Parlamento Regional da Valônia não aprovou,
02:28o Parlamento Nacional da Bélgica não aprovou,
02:30sendo um dos 27 países, inviabilizou, de acordo com os aspectos jurídicos,
02:36todo o acordo.
02:37Então, é importante a gente ter cautela e dizer que faltam ainda convencimentos,
02:42conversas de bastidores que, provavelmente, Ursula von der Leyen,
02:45o chanceler alemão, o premier espanhol,
02:47que tem interesse que esse acordo passe,
02:50devem fazer com o presidente Macron,
02:51devem fazer com o primeiro-ministro Tusk, da Polônia,
02:55entre outros países que têm as suas ressalvas.
02:57Então, por enquanto, é a expectativa, é simbolicamente aquilo que representa,
03:02muito positivo, o multilateralismo não está morto,
03:05mas implementar o acordo e fazer com que os preços sejam baixos
03:09ainda vai demorar um pouco, pelo menos na minha visão.
03:12É, Luca, inclusive eu queria que a gente detalhasse um pouco mais
03:15esse ponto importantíssimo que você trouxe.
03:18Se um país for ali contra o acordo, tudo vai por água abaixo,
03:23teria que recomeçar tudo.
03:24Eu quero que você explique mais ou menos como é que vai acontecer
03:27essa próxima fase do parlamento, da aprovação no parlamento,
03:31e quais seriam os países que podem colocar água nesse chope aí do Brasil,
03:36do Mercosul, quais são os países que estão mais rejeitando,
03:41e se há uma negociação interna para que Ursula von der Leyen
03:45vá pessoalmente negociar, que o presidente Lula converse,
03:48como é que a diplomacia entra nesse momento então,
03:52sabendo que alguns países estão com o pé atrás e não querem deixar isso passar, Luca?
03:58Exatamente, Márcia, você levanta dois pontos fundamentais.
04:01O primeiro, voltando um pouco na explicação, é um acordo misto.
04:05Há acordos dentro da União Europeia que basta a Comissão Europeia
04:08ou o Parlamento Europeu aprovarem que isso vale para todos os países.
04:13Neste acordo com o Mercosul, esse acordo em questão discutido há 25 anos,
04:19ele é um acordo misto, ou seja, a União Europeia tem as suas competências,
04:22mas os países individualmente também têm as suas competências.
04:26Aquilo que temos por hora é a aprovação dentro da União Europeia
04:30quanto instituição, a Comissão Europeia liderada por Ursula von der Leyen.
04:34O próximo passo é o parlamento europeu,
04:37é o membro legislativo da União Europeia que também provavelmente não terá resistência
04:43porque precisa apenas de uma maioria simples,
04:46ou seja, mais de 50% dos países o que temos neste momento.
04:51Mas, em seguida, isso segue para os 27 parlamentos nacionais.
04:55Cada país com seu próprio legislativo, sua própria Câmara dos Deputados,
04:59seu próprio Senado deve votar favoravelmente ou não a essa questão.
05:03E basta um país ser contra para que tudo volte ao início.
05:07Nós sabemos que tem países específicos que têm as suas ressalvas,
05:11França, Polônia, Irlanda, Áustria e Bélgica,
05:15e que provavelmente serão aqueles que deverão passar por essa conversa de bastidores
05:20com Ursula von der Leyen para que haja um convencimento a cada um desses líderes
05:24para os seus próprios deputados internamente e para depois ter a aprovação.
05:29Ou seja, é um caminho longo e é importante a gente se ater a esses detalhes
05:33porque tudo depende disso.
05:34Agora, numa retrospectiva, Luca, olhando no retrovisor Lula,
05:39quando fez uma campanha eleitoral, quando era só um candidato,
05:42disse que se fosse eleito e conseguiu se eleger,
05:45iria conseguir retomar essas articulações, as negociações no mundo inteiro.
05:52Inclusive, nos primeiros anos, ele fez uma agenda extensa,
05:55internacional, viajando, dialogando,
05:58na tentativa de abertura de novos mercados, inclusive.
06:01Hoje, chegando no último ano de mandato de Lula,
06:05na sua avaliação, ele conseguiu, com esse acordo, de fato,
06:09retomar essas negociações?
06:11Isso é símbolo de um esforço diplomático do governo brasileiro
06:15para retomar essas negociações internacionais?
06:19Olha, Bruno, eu acho que tem um aspecto simbólico e outro aspecto prático.
06:24Simbolicamente, as viagens do presidente Lula, de fato,
06:27reacenderam a vontade de muitos países irem até o Brasil,
06:32muitos líderes irem até o Brasil,
06:34ter o maior contato com as lideranças globais,
06:37falando sempre da questão amazônica, etc.,
06:39o que dá muitas manchetes no exterior e internamente.
06:42Ou seja, o Brasil se projetando como uma potência regional,
06:45tem esse aspecto do marketing político muito bem feito,
06:49mas, no aspecto prático, algumas dessas conquistas
06:52não vão poder ser colhidas até o final deste mandato do presidente Lula,
06:56considerando que ele participará dessas eleições.
07:00Em questão do acordo Mercosul-União Europeia,
07:03todos esses preços mais baixos,
07:05poder os brasileiros, por exemplo, comprar carros alemães mais baratos,
07:09comprar um vinho italiano ou português mais barato,
07:11um queijo francês mais barato,
07:13isso não vai se concretizar durante este ano de 2026.
07:17Portanto, tem o aspecto que é a mídia bem feita
07:20e tem o aspecto prático que é o resultado no bolso de cada um dos brasileiros,
07:24ver os efeitos desses acordos de forma prática,
07:28de forma mais contundente e concreta,
07:30algo que não acontece.
07:31Então, haverá provavelmente essa cobrança da oposição,
07:34acredito eu, durante essas eleições,
07:37principalmente em outros assuntos da política externa,
07:39no qual o governo brasileiro foi bastante seletivo na sua indignação,
07:44condenando muitas guerras, por exemplo,
07:46entre Israel e Hamas, a postura de Netanyahu,
07:49mas não falando tanto sobre a questão do Irã
07:51ou da questão da Rússia.
07:53Então, esses pontos específicos,
07:55acredito que serão explorados nas eleições desse ano
07:57para a própria problemática da política externa e o Brasil,
08:01como se situa em todo esse cenário.
08:03É, Luca, até a questão da Venezuela também,
08:06pisando em ovos sempre ali, né,
08:07o presidente Lula, a oposição já está batendo bem forte também nesse tema.
08:11Obrigada pelas suas análises,
08:13a gente volta com você ainda hoje.
08:15Agora, 3 horas e 9 minutos,
08:17a gente vai para um rápido intervalo
08:18e na volta tem muito mais informação
08:20de Brasília, de São Paulo
08:22e de todos os lugares do mundo.
08:24Onde tem informação, você assiste aqui em tempo real com a gente.
08:27Então, não sai daí, volto já já.
08:28Tchau.