00:00Azurrina, a menina azul de Montebello. Por toda a Itália, existem castelos que guardam segredos
00:21de batalhas e traições. Mas há um, no topo de uma colina, na região da Emília Romanha,
00:28que guarda a memória de uma dor diferente, mais delicada, mais aguda e infinitamente
00:34mais triste. Este é o castelo de Montebello, e esta é a história da sua pequena residente
00:41eterna, Azurrina. O ano era 1375. Um inverno rigoroso chegou mais cedo, isolando o castelo
00:52num silêncio gelado. Aqui vivia o senhor feudal o golinúteo, com a sua família e a sua filha
00:59mais nova, uma menina chamada Gendalina. Ela era albina. Os seus cabelos eram tão claros
01:06que pareciam feitos de prata, e os seus olhos de um vermelho pálido e sensível. Numa época
01:12cheia de superstições, ser diferente era perigoso. Para protegê-la do preconceito e da crueldade
01:19das pessoas, a sua mãe tingia os seus cabelos com extratos de plantas. O resultado não era
01:25loiro, nem preto. Era um tom estranho, um azul etéreo. E por isso, carinhosamente, a chamavam
01:32de Azurrina, a pequena azul. No dia 21 de junho de 1375, o solstício de verão, uma tempestade
01:41violenta caiu sobre a região. Os homens estavam nas muralhas de guarda. Azurrina brincava nos
01:48aposentos internos, vigiada por dois guardas e pela mãe. A sua bola de trapos, o seu brinquedo
01:55mais precioso, escapou das suas mãos e rolou escada abaixo, em direção às masmorras. A menina
02:03correu atrás dela. Os guardas viram-na entrar na passagem que levava às adegas subterrâneas.
02:10Ouviram os seus passinhos leves descendo os degraus. E então, ouviram um único grito,
02:17curto, agudo, como um susto. Eles correram para ajudá-la. A passagem era uma escadaria
02:24única, sem saída. Não havia portas secretas, nem janelas, nem buracos. Mas Azurrina tinha
02:32desaparecido. Simplesmente sumiu. A sua bola de trapos estava parada no último degrau, como
02:40se esperasse por ela. O corpo da menina nunca foi encontrado, nem vivo, nem morto. A lenda
02:47diz que a sua alma, tão pura e incompreendida, não conseguiu partir. Ficou presa nas pedras do
02:54castelo, no local do seu último momento de alegria. E assim nasceu uma condição, quase
03:00uma maldição. Azurrina só consegue manifestar-se, só consegue tentar ser ouvida, a cada cinco
03:08anos, no aniversário exato do seu desaparecimento. 21 de junho, em anos que terminam em zero ou
03:16cinco. E é aqui que a lenda deixa os livros de história e entra no reino do inexplicável.
03:23Durante décadas, testemunhas, historiadores e até equipas de televisão documentaram fenômenos
03:30estranhos. Em 21 de junho desses anos específicos, algo acontece. Às vezes são risadas infantis,
03:39outras são passinhos a correr nos corredores superiores. Mas o evento mais famoso, o mais
03:45assustadoramente documentado é o som da bola. Em 1990, uma equipa de investigadores paranormais
03:53instalou um gravador de fita na sala das masmorras. Deixaram o local trancado e completamente vazio.
04:02Na gravação, é possível ouvir, com uma clareza arrepiante, o som de uma bola a saltar.
04:08Toc, toc, toc. O som vem de longe, aproxima-se, passa pelo microfone e depois afasta-se, como
04:15se alguém a estivesse a perseguir. No final da gravação, depois do último toque, ouve-se
04:21um suspiro infantil. E então, uma risada cristalina que se apaga no ruído da fita.
04:28Essa gravação existe, você pode ouvi-la. Dizem que Azurrina não é um fantasma hostil.
04:34Ela é uma criança perdida, presa num eterno jogo de esconde-esconde num dia de tempestade.
04:41A sua energia é de tristeza e solidão. Quem a sente relata um frio intenso, um cheiro
04:48à terra molhada e uma opressão no peito, como um choro que não consegue sair.
04:54Muitos castelos têm fantasmas de guerreiros ou de damas traídas.
04:59Montebello tem o fantasma de uma criança que só queria brincar. E que, a cada cinco anos,
05:06ainda espera que alguém a encontre e a leve de volta para casa.
05:11No nosso próximo episódio, vamos mergulhar em águas muito mais profundas e escuras.
05:18Para um lago que esconde não só segredos, mas uma forma ancestral de pavor.
05:23A lenda do Lariosauro, o monstro do lago de Como.
05:28Inscreva-se, ative as notificações e nunca subestime o som de uma bola a saltar no silêncio
05:35de um lugar antigo. Pode ser só o vento ou pode ser Azurrina a tentar chamar a sua atenção.
05:53A lenda do Lariosauro é um lugar antigo.
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