00:00Vizinhos da família disseram que Agnaldo José Alves, de 39 anos de idade, avisava há muito tempo que iria matar a mulher, Isabelle Gomes de Macedo, de 40 anos, e os filhos do casal.
00:14Ele sempre disse que qualquer dia, desde que eu pego e toco fogo na casa, eu vou embora e mato mulher, menino com tudo. Ele sempre dizia. Era bebê, durante a semana era um excelente pai de família, dono de casa, não saía do trabalho para casa, quando faltava energia na casa de um, prestava serviço. Isso aí eu não tenho o que falar dele, mas sobre isso ele...
00:33Mas um bom pai de família e um bom pai não mata os filhos, né, senhor Valdir?
00:36Com certeza, claro que não, né. E a mulher, primeiramente, ela é vulnerável, sabe que ia apanhar todo dia do marido.
00:45Ele batia nela?
00:46Com certeza, né.
00:47Ele deu uma polada na cabeça dela, aí botou ela no banheiro, amarrou ela todinha e deu uma polada em todos os meninos, que ela estava grávida também.
00:55Aí pronto, ele saiu e foi embora. Depois deu um tempo que o fogo estava muito pegando, ele voltou para conferir se ela estava morta.
01:02Ao voltar na comunidade, depois de matar a mulher e os filhos queimados, Aguinaldo foi pego pela população.
01:09A polícia militar impediu que ele fosse enlixar.
01:13Não vai não, não vai não, não vai conseguir não.
01:16Olha, olha, a população não vai deixar não, tá aí, olha.
01:20Olha, vai matar no pau, não vai não, olha.
01:24Olha, vai matar no cacete.
01:26Aguinaldo então foi levado para o Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa.
01:34Neste domingo, ele seguiu para o IML do Recife, onde passou por exame de corpo delito.
01:41O incêndio começou por volta do meio-dia.
01:44Quando as chamas se alastraram, a família de Dona Adriana começou a alertar os moradores da comunidade e a retirar crianças do local.
01:52Quando os outros gritam fogo, fogo, fogo, aí eu fui lá para ver como é que estava.
01:56Aí quando eu fui lá, aí já estava o caminho pegando fogo assim, aí eu já estava a correr, porque eu olhei para trás, aí só tem o caminho só.
02:03Aí a casa do caminho já está pegando fogo, aí eu peguei as crianças que estavam aqui, tudo brincando, correu lá por conta da parede.
02:08Aí como não tem nenhuma saída, aí eu já vim correndo, peguei ela e já vim correndo as duas crianças e já botei para o lado de fora.
02:15Daí quando eu estava tentando ajudar, eu levantei os telhados para ver se tinha gente, aí eu nem vi gente, nem escutei gritos também.
02:23Eu acho que o fogo já pegou e tudinho, aí eu nem fiquei sabendo.
02:27Eu fiquei sabendo depois quando o policial apagou o fogo, o policial disse que morreram quatro pessoas.
02:32A casa de Dona Adriana foi uma das poucas da comunidade que ficou de pé.
02:37Aí a gente só escutou os gritos, aí meus dois especial saiu para fora, a gente viu só a fumaça preta.
02:43Aí os dois tentou arrombar a porta, a gente fez o que pôde, mas não teve como, porque as crianças estavam todas presas dentro de casa.
02:53Aí ele tentou ajudar, ele queimou só o ladinho do pé dele, foi socorrido na UPA, ele fez o que pôde, se acordou hoje, né, 10 de ontem ele se acordou hoje.
03:03Isso aí não faz nenhum, sei lá, eu não tenho nem, nossa, 10 de ontem eu não estou sem dormir, porque a gente só escuta os gritos quando a gente fecha os olhos.
03:14Bichinha pedindo ajuda, eu não pude fazer nada, meu filho não pude fazer nada.
03:19Eu dentei de tudo, te ajudar, mas não teve como, eu ia perdendo meu filho também, não teve nem como você fazer nada ali.
03:30Naquele momento ali eu pensei, eu digo, meu Deus, a gente não sabia nem o que ajudar.
03:35Trinta e duas famílias perderam tudo aqui na comunidade Icauã.
03:41Vocês veem que o cenário é de destruição total.
03:44A gente está chegando aqui, onde ficava a casa da Juliana, filha dela está aqui chorando, né, sua filha está emocionada.
03:52Esse era o seu fogão?
03:53Era meu fogão, minhas coisinhas, né, a máquina de lavar que eu tinha acabado de comprar.
03:59E até assim, né, perdeu tudo, acabou tudo.
04:02Juliana, estou vendo que sua filha está muito emocionada, na sua família é você e quantas pessoas?
04:08Eu e três, uma criança e duas adolescentes, porque ela está assim emocionada que ela tentou também, né, ajudar a nossa vizinha e não conseguiu.
04:19Na hora também ela tentou entrar dentro de casa, porque ela estava dentro de casa com o meu filho dormindo.
04:26Estavam todos os dois dormindo, ela e o menino de 11 anos.
04:30Aí na hora, meu pai e minha mãe chegou gritando, chamando elas.
04:33Mas na hora que ela ia sair, o fogão já estava atrás de casa, entrando, tomando tudo.
04:38Aí ela tentou voltar para tentar pegar alguma coisa, o que ela pudesse pegar.
04:44Por isso que ela está desesperada.
04:45E também ela tentou ajudar, né, a vizinha, a nossa vizinha e não conseguiu, minha gente.
04:50Foi isso, é por isso que ela está, porque ela escutou a zoada das crianças pedindo socorro.
04:55Aí ela está assim.
04:57Tragédia, né?
04:58Tragédia.
04:59Só Deus para nos ajudar nesse momento.
05:01E o que a gente vê aqui são restos.
05:05Restos de tudo.
05:07Restos da casa, restos de mobília, restos de eletrodomésticos, dos poucos que tinham.
05:15Restos de roupas das crianças.
05:18Foram todas encontradas, carbonizadas aqui nesse local.
05:24E a mãe foi encontrada amarrada no banheiro.
05:29Não sobrou nada aqui na comunidade de Cauã.
05:32No dia seguinte à tragédia, as doações começaram a chegar na comunidade.
05:38Água, alimentos, roupas e até material de construção foram entregues por organizações voluntárias e por moradores que vivem próximo à comunidade.
05:49Eu trouxe telha e trouxe umas roupas.
05:53E estou arrecadando mais.
05:54Acho que amanhã eu chego por aqui para entregar mais roupas ainda.
05:57Roupas, alimentos, essas coisas que eu estou pedindo a minhas parceiras e colegas para a gente ajudar.
06:02Pegamos logo o que nós tínhamos, trouxemos hoje para cá.
06:05Fizemos um trabalho aqui, distribuímos a cesta a cada família que estava necessitada, que não tinha recebido ainda.
06:11E são poucas, foram poucas.
06:13Não foram o suficiente para a gente atender a comunidade toda.
06:15Aqui a situação é precária. Não foi só a família que foi cometida pelo assassinato, mas sim as famílias ao redor.
06:22Então isso é um tudo, é um conjunto.
06:25E nós temos que atender essa pessoa, dar um suporte. Na verdade, nós temos que dar um acolhimento.
06:29Você que tiver roupa aqui em bom estado, que não esteja usando, pode levar lá na Avenida Malacom, 3.000, a Casa Maré, que a gente vai receber com todo o coração.
06:37Trazer tudo para cá.
06:38Isso, e vamos trazer tudo para cá.
06:40Toda a nossa doação, todo o nosso pedido de campanha, que a gente está fazendo doação, vai ser destinado aqui, para a Comunidade Nova Morada.
06:47Além de receber as doações, muitas famílias voltaram ao local da tragédia.
06:52Em meio às cinzas, eles procuravam tentar recuperar qualquer coisa.
06:57Essa moção é porque perdeu tudo?
06:59Tudo.
07:00A sua casa ficava aqui?
07:01Era a minha geladeira, meu micro-ondas, o fogão.
07:06Isso aqui, depois que eu entrava, acabou o seu mundo lá fora.
07:11Os problemas eram esquecidos, né?
07:14Dos meus cantinhos, deitar aqui, onde vocês estão.
07:18Sabe, depois do banho, pegar as crianças na escola, fazer uma janta, um cuscuz, um ovo e assistir.
07:25Ligar o ventilador, acabou o seu mundo.
07:28Como é que vai ser daqui para frente?
07:29Vai, de força a Deus, começar de novo.
07:34Né?
07:35Eu me perdoa, Senhor, que eu estou viva.
07:37Minhas filhas, minhas crianças escaparam.
07:41Mas é isso, moça, começar de novo.
07:43Limpar, tirar.
07:47Sou hipertensa.
07:49Tenho ansiedade.
07:51Está muito difícil.
07:53Ter que controlar na brasa da cetralina, do diazepam.
07:56É, assim, muito triste.
07:59Você não acredita, mesmo vendo.
08:02Mas estão vivos, né?
08:03É.
08:04Jesus nos deixou com vivos.
08:06Infelizmente, o maldito tirou a vida das crianças dele.
08:10A mulher, a gente nem sabia que ela estava grávida.
08:13Foram cinco.
08:15Tinha uma barriga.
08:17Disse ao policial que me levou lá.
08:20Disse que ela estava no banheiro.
08:22Amarrada.
08:24Amarrada.
08:25Uma criança não desceu numa cama e as outras carbonizadas.
08:28Era ali, assim.
08:30O que dizer do homem que fez isso?
08:32É um monstro.
08:34Não tem cachaça que faça isso.
08:37Você arruma um B.O. com o vizinho, uma discussão por besteira.
08:42É família.
08:44Ele, no dia a dia, ele era uma ótima pessoa.
08:47Bebia, ela apanhava.
08:49De quinta a domingo, de quinta a segunda.
08:52Eu me arrependo por nunca ter ligado por 190.
08:56Eu estava ontem na central de flagrante, me sentindo culpada pelas crianças.
09:03Porque ela saia aqui, de favela fora, todo dia de manhã com dois no carrinho.
09:09Um penduradinho para deixar no colégio, os outros na creche.
09:13E era dentro de casa.
09:14Eu não sei, Jesus, se o senhor está voltando, mas a crueldade, a ruindade.
09:21Foram quatro crianças já vivas de uma vez, moça.