00:00E hoje é sexta-feira e na coluna Olhar Espacial,
00:05Marcelo Zurita, astrônomo e colunista do Olhar Digital News,
00:09nos leva a uma viagem no tempo para entender os eclipses lunares.
00:15Vamos descobrir como a humanidade evoluiu nas explicações místicas
00:20a total compreensão desse fenômeno fascinante.
00:25Vamos agora com ele, Marcelo Zurita.
00:30Olá, pessoal! Saudações astronômicas!
00:40No próximo domingo, a Lua deve desfilar de vermelho pela noite diante dos nossos olhos.
00:44Um espetáculo cósmico tão impressionante quanto o previsível.
00:48Hoje sabemos explicar com precisão cada detalhe de um eclipse lunar.
00:52Mas para os nossos antepassados, esses eventos eram cercados de apreensão e mistério.
00:56A Lua, de repente, perdendo o brilho e se tornando avermelhada.
01:00Seriam os deuses irritados ou alguma fera cósmica atacando o astro?
01:05Hoje sabemos que não é nada disso,
01:07mas você sabe quando foi que esse enigma começou a ser desvendado?
01:11Os povos antigos tinham suas próprias explicações para o eclipse lunar.
01:15Para os chineses, um dragão celestial devorava a Lua durante os eclipses,
01:19exigindo tambores e gritos da população para espantar o monstro.
01:23Entre os incas, acreditava-se que era um jaguar cósmico atacando o nosso satélite.
01:27Já em outras culturas, eram sinais divinos, presságios de guerras, mortes de reis ou grandes catástrofes.
01:34O céu, para eles, era um palco de símbolos e a súbita transformação da Lua cheia
01:38em escuridão ou vermelho escarlate era, no mínimo, aterrorizante.
01:43Mas, pouco a pouco, a arte de pensar foi substituindo a superstição.
01:48Era preciso coragem para olhar para o céu e se perguntar
01:51será mesmo que os deuses e monstros estão lá em cima ou será apenas luz e sombra?
01:56Antes que qualquer ser humano desvendasse a natureza dos eclipses,
02:00por volta de 600 a.C., os antigos babilônios identificaram um padrão.
02:05Eclipses semelhantes se repetiam de forma cíclica a cada 18 anos e 11 dias.
02:10Essa percepção nos deu não apenas a capacidade de prever a ocorrência de eclipses,
02:15mas também a chave para a sua compreensão.
02:18Mais tarde, esse conhecimento chegou até o filósofo grego Tales de Mileto.
02:22E isso lhe permitiu prever a ocorrência do eclipse solar de 585 a.C.
02:27O chamado eclipse de Tales provavelmente não foi o primeiro a ser previsto,
02:31mas nenhum antes dele foi tão amplamente documentado.
02:35E, por isso, é considerado um marco na história da ciência.
02:38Tales não sabia exatamente como eles ocorriam,
02:41mas foi um dos primeiros a defender que eclipses eram fenômenos naturais e não divinos.
02:46Foi preciso filosofar por mais de 100 anos para que Anaxágoras, no século V a.C.,
02:52concluísse que os eclipses ocorriam pelo alinhamento entre Sol, Terra e Lua.
02:57Nos eclipses solares, a Lua se coloca entre a Terra e o Sol,
03:00e nos lunares, a Lua entra na sombra da Terra.
03:03No século seguinte, quase 2 mil anos antes da invenção do telescópio,
03:08Aristóteles fez uma observação crucial.
03:11A sombra da Terra projetada na Lua durante um eclipse lunar era sempre curva.
03:16Aquela era a prova fundamental de que a Terra só podia ser esférica.
03:20Aristóteles foi o primeiro a usar um eclipse para se fazer ciência,
03:24revelando um dos grandes segredos da natureza.
03:27E, como bônus, acabou se tornando também o precursor do terrabolismo.
03:31Ok, mas se não era o sangue da Lua atacada por um monstro cósmico,
03:35por que ela se tornava avermelhada durante um eclipse lunar?
03:38Pois é, esse mistério levou um pouco mais de tempo para ser desvendado.
03:42Mas o próprio Aristóteles já desconfiava que a atmosfera da Terra tivesse um papel nisso.
03:46Segundo ele, a luz do Sol sofria um desvio ao atravessar o ar
03:50e chegaria até a Lua levemente alterada.
03:53Uma explicação absolutamente correta elaborada 2.600 anos atrás,
03:58utilizando apenas os instrumentos fornecidos a Aristóteles pela natureza,
04:02os olhos e a mente.
04:04Mais tarde, estudiosos árabes medievais avançaram essa ideia
04:07sugerindo que a dispersão da luz era responsável pela tonalidade rubra.
04:12Mas quem explicou de forma definitiva esse fenômeno
04:14foi Lorde Rayleigh, somente no século XIX.
04:18Os gases da nossa atmosfera dispersam os tons azulados da luz do Sol
04:22e deixam passar mais livremente os tons avermelhados.
04:25E é por isso que o nosso céu é azul durante o dia,
04:28que o Sol fica alaranjado quando está perto do horizonte
04:31e que uma pequena quantidade de luz avermelhada que atravessa a nossa atmosfera
04:35pinta a superfície da Lua durante um eclipse lunar.
04:38Se pudéssemos contemplá-lo a partir da Lua,
04:41viríamos um fino anel avermelhado se formar ao redor da Terra no ápice do fenômeno.
04:46Um crepúsculo de 360 graus que Aristóteles adoraria ter visto,
04:50mas foi registrado pela primeira vez este ano pela sonda canadense Blue Ghost.
04:55Na era moderna, os eclipses deixaram definitivamente o campo do misticismo
04:59para se tornarem laboratórios naturais da ciência.
05:03Telescópios, câmeras de alta resolução e transmissões ao vivo
05:06nos permitem acompanhar cada detalhe.
05:08E graças às leis da gravitação universal desvendadas por Newton,
05:12hoje podemos prever a ocorrência de eclipses com precisão impressionante.
05:16Não apenas o dia e a hora, mas até os locais onde eles poderão ser observados.
05:21Sabemos, por exemplo, que o eclipse deste domingo, infelizmente, não será visível do Brasil,
05:27mas poderá ser acompanhado por telescópios do outro lado do mundo,
05:30e claro, ao vivo, aqui no Olhar Digital.
05:33E mesmo sabendo que nenhuma fera cósmica irá devorar a Lua,
05:36o fascínio pelos eclipses continua o mesmo.
05:38Um eclipse lunar permanece sendo um espetáculo que nos conecta à ciência
05:42e nos permite aprender mais sobre o Universo e a nossa própria história.
05:46No próximo domingo, quando estivermos diante de mais um belo eclipse lunar,
05:51teremos a certeza que se trata de um fenômeno natural,
05:54como defendido por Tales e explicado por Anaxágoras,
05:57como a passagem da Lua através da sombra da Terra.
06:00Veremos a dispersão de Rayleigh pintar o astro de vermelho,
06:03exatamente da mesma forma que Aristóteles explicou
06:06pela alteração da luz solar ao passar por nossa atmosfera.
06:09Vamos ter a chance de contemplar um fenômeno que por vários milênios
06:13intrigou a humanidade, mas que nos guiou a seguir o fascinante caminho do conhecimento.
06:18Bons céus a todos e até a próxima!
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