00:00Bombeiros trabalham para controlar as chamas em pelo menos 14 incêndios florestais
00:05que atingem a Espanha nesta semana,
00:09em um dos piores verões no continente nas últimas duas décadas.
00:13A situação é pior no norte do país, onde neste fim de semana
00:16as temperaturas devem bater a marca dos 40 graus Celsius,
00:20temperatura alta até mesmo aqui para o Brasil.
00:23Só neste ano, a área queimada no país já é o equivalente a toda a cidade de Londres,
00:28capital do Reino Unido.
00:28O caso é bem parecido em Portugal,
00:31onde o governo precisou acionar o mecanismo da União Europeia para a ajuda emergencial
00:35e solicitou quatro aviões para combater o fogo em áreas de mata.
00:40E outros países na Europa, principalmente na região do Mar Mediterrâneo e nos Balcãs,
00:45têm sofrido com os mesmos problemas.
00:46Mas da Europa, a gente vai para a Ásia,
00:48porque na Índia e no Paquistão, mais de 280 pessoas morreram entre quinta e sexta-feira
00:54depois de enchentes atingirem os dois países.
00:57Além dos mortos, dezenas de pessoas estão desaparecidas
01:01e mais de 1.500 precisaram ser resgatadas das próprias casas.
01:06As autoridades declararam estado de emergência
01:09e a previsão é de mais chuvas e enchentes nos próximos dias
01:12em uma região onde as chamadas chuvas de monção
01:15são extremamente comuns nessa época do ano.
01:18Mas apesar de ser comum, um estudo divulgado nesta semana
01:22pela Atribuição Climática Global, a WWA, revelou que as chuvas no Paquistão
01:27entre os dias 24 de junho e 23 de julho
01:31foram até 15% mais fortes do que a média por conta das mudanças climáticas.
01:36E para piorar, tudo isso acontece na mesma semana
01:40em que a ONU não conseguiu chegar a um acordo pelo Tratado dos Plásticos,
01:44que a gente já tratou sobre esse assunto aqui no Jovem Pan Internacional
01:47na semana passada.
01:48Para falar mais sobre isso, a gente recebe o climatologista Carlos Nobre,
01:52cientista, pesquisador, que vai conversar um pouquinho com a gente
01:56sobre esse assunto.
01:57Carlos Nobre, seja muito bem-vindo ao JP Internacional.
02:00A primeira pergunta que eu queria te fazer é o seguinte.
02:03Um ano de, mais uma vez, muitos fenômenos globais climáticos
02:07acontecendo ao redor do mundo.
02:09Na Europa, calor intenso.
02:11Na Índia e no Paquistão, essas chuvas de monção, mais uma vez, preocupando.
02:16Isso esquenta o debate para a COP lá em Belém?
02:20Sem dúvida, Rodrigo.
02:21Isso mostra com clareza, pela primeira vez na história da humanidade recente,
02:28desde que nós criamos as civilizações, 10, 11 mil anos,
02:32nunca o clima atingiu esse nível de aquecimento.
02:35Nós chegamos 21 meses, segundo semestre de 2023, até abril de 2024,
02:44a gente passou de 1,5 grau mais quente em relação a antes, 1850, 1900.
02:51Quando a temperatura aquece, quando os oceanos aquecem muito,
02:55batemos todos os recordes de temperatura dos oceanos.
02:59Então, por exemplo, os oceanos evaporam muito mais água.
03:02Isso é jogar energia na atmosfera.
03:07Os gases de efeito estufa muito mais na atmosfera, também absorvem calor.
03:11Tem muito mais energia na atmosfera.
03:14Isso é o que explica todos os eventos meteorológicos extremos.
03:19Ondas de calor, secas, chuvas excessivas e até incêndios na vegetação,
03:25incêndios florestais, estão batendo recordes em todo o mundo.
03:28Então, a ciência já vinha prevendo.
03:31Quando a temperatura atingisse esse nível 1,5 graus mais quente,
03:35sem dúvida, todos esses eventos extremos bateriam recordes.
03:39E a gente está cada vez mais próximo daquele point of no return?
03:43Quer dizer, aquele momento onde não tem mais volta para o planeta em relação ao clima?
03:47Isso está, de fato, acontecendo?
03:49Olha, nós estamos muito próximos de muitos pontos de não retorno.
03:56A ciência mostra mais de 23 pontos de não retorno.
04:01Sistemas biológicos, por exemplo, quando as temperaturas tropicais dos oceanos todos
04:06passarem de 2 graus mais quente, nós vamos extinguir praticamente todas as espécies
04:13de recifes de corais.
04:16Isso pode acontecer a partir de 2050.
04:19E aí, em menos de 100 anos, mais de 99% das espécies de corais vão desaparecer.
04:25Os corais, os recifes mantêm 25% da biodiversidade oceânica.
04:30Vai ser um desastre biológico.
04:33Esse é um ponto de não retorno.
04:34Mas nós temos, como eu falei, a ciência mostra até 23 pontos de não retorno.
04:39E eu quero mencionar aqui dois super perigosos.
04:43Além do que eu mencionei dos recifes de corais, nós vamos, se a temperatura passar de 2 graus,
04:50nós vamos começar a derreter o solo congelado da Sibéria, norte do Canadá, norte do Alasca,
04:56chamado permafrost.
04:57E até 2100, o descongelamento desse solo vai liberar uma gigantesca quantidade de gás de efeito estufa.
05:06O metano, que é 28, 30 vezes mais poderoso de reter o calor no efeito estufa.
05:12O gás carbônico, mais de 200 bilhões de toneladas.
05:16E um ponto de retorno muito, muito perigoso para todos nós aqui na América do Sul.
05:23Amazônia.
05:24Se nós passarmos de 2 graus até 2050 e continuarmos com o desmatamento,
05:30os nossos estudos mostraram, se o desmatamento chegar a 20% da Amazônia,
05:34está em 18%, e o aquecimento global passar de 2 graus,
05:38nós estamos aí muito próximos de 1,5 grau,
05:42nós vamos passar do ponto de retorno à Amazônia
05:44e nós vamos perder até 70% da floresta amazônica entre 30 e 50 anos.
05:51Se chegarmos em 2050 no ponto de retorno, até 2100 nós vamos perder até 70%.
05:58Isso vai perder a maior biodiversidade do planeta e também a Amazônia armazena uma gigantesca quantidade de carbono no solo e na vegetação.
06:08E nós vamos jogar mais de 250 bilhões de toneladas de gás carbônico na atmosfera.
06:15Então só o permafrost e a Amazônia vão jogar mais de 500 bilhões de toneladas de gás de efeito de estufa,
06:22tornando totalmente impossível manter a temperatura abaixo de 1,5 grau.
06:27Então esses são riscos desses pontos de não retorno.
06:30Eu só mencionei aqui três, mas tem muito mais pontos de não retorno.
06:35Tudo isso deixa a gente muito preocupado, né, professor?
06:38Eu queria te fazer uma última pergunta em relação ao tratado dos plásticos lá na ONU, né,
06:41que os países não chegaram ao acordo para reduzir a produção.
06:46O quão significativo isso acaba sendo em um momento como esse que a gente está acompanhando do planeta em relação ao clima?
06:52Olha, também, né, os microplásticos, eles se tornaram um problema de poluição geral, principalmente urbana,
07:01tão grande que é difícil encontrar um ser humano que não tenha microplásticos.
07:06A gente está respirando e ele está vindo para dentro.
07:09E também todos esses plásticos que vão para os oceanos, para os rios,
07:14afetando demais as espécies, a biologia, principalmente dos oceanos.
07:21Então, é muito importante ter uma super redução dos plásticos em geral em todo o planeta, né?
07:30Nós temos que realmente aperfeiçoar muito mais, principalmente os bioplásticos também,
07:35que tem um grau muito mais rápido de decomposição.
07:41Os plásticos feitos com petróleo, eles ficam décadas e décadas para se decompor.
07:46Então, nós temos que ir para os bioplásticos e que vão se decompor muito mais rápido
07:55e realmente zerar muito rapidamente os plásticos feitos de petróleo.
08:00Bom, conversamos com o cientista, climatologista Carlos Nobre.
08:03Muito obrigado pela sua participação aqui no Jovem Pan Internacional.
08:06Volte sempre, hein?
08:08Conte comigo, um grande prazer.
08:10Até a próxima.
08:11Tchau.
08:12Tchau.
08:13Tchau.
08:14Tchau.
08:15Tchau.
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