00:00Bom, sobre a recente polêmica envolvendo o bloco Filhos de Gandhi, eu queria antes explicar dois conceitos importantes,
00:11que são os conceitos de discriminação negativa e discriminação positiva.
00:17A discriminação negativa vai acontecer quando um tratamento desigual é injustificado,
00:24ele é prejudicial para um grupo porque é uma discriminação que reforça preconceitos, que reforça estereótipos, violências simbólicas.
00:34Então é um tipo de discriminação que apenas vai reforçar desigualdades, que vai promover a exclusão social e a violação de direitos fundamentais.
00:42E é exatamente no contexto de enfrentamento a esse tipo de discriminação que surge o bloco Filhos de Gandhi.
00:50Em 1949 a gente tem um contexto de perseguição policial contra blocos afro-brasileiros que eram tratados como grupos subversivos pela polícia.
01:01Então as nossas leis penais, o direito penal, ele era utilizado naquele contexto histórico como instrumento de perseguição.
01:07A gente via a utilização da contravenção de vadiagem, do crime de quadrilha ao bando,
01:14como instrumentos políticos para inviabilizar praticamente a existência daqueles blocos afro-brasileiros.
01:22E é nesse contexto que o bloco Filhos de Gandhi surge com o discurso da paz, com uma forma de resistência,
01:28pregando uma postura mais conciliatória entre essas agriminações e as nossas políticas, as nossas autoridades.
01:35Mas a gente sabe que as nossas políticas e essas autoridades, elas serviam a uma elite branca baiana.
01:42E aí eu quero entrar num outro conceito importante, que é o conceito de discriminação positiva.
01:48A discriminação positiva é o que a gente chama de ação afirmativa.
01:53Então a gente está falando de medidas que são adaptadas para corrigir aquelas desigualdades históricas.
01:59Então para corrigir desigualdades raciais, para corrigir desigualdades de gênero.
02:05Então o objetivo da chamada discriminação positiva, por meio das ações afirmativas,
02:10é promover a inclusão social de grupos marginalizados.
02:14Então não tem ali o objetivo de prejudicar ninguém, mas sim de compensar essas desigualdades estruturais,
02:22para garantir uma igualdade substancial, uma igualdade verdadeira.
02:27E é nesse contexto que o Bloco Filhos de Gandhi surge com o propósito de promover uma ação afirmativa
02:34pela valorização do afoxé, pela valorização da cultura afro-brasileira,
02:39mas, por outro lado, sem brigar com essas elites,
02:43sem um enfrentamento violento, sem um enfrentamento mais combativo.
02:49Essa postura conciliatória foi criticada por diversos outros blocos afro.
02:54Então a gente tem críticas feitas pelo Iléaê, pelo Holodum, por tantos outros blocos,
03:00sobre até onde iria o limite desse não-confronto, dessa postura de conciliação.
03:07Porque isso acaba colocando a gente diante de um paradoxo.
03:10Quando a gente identifica no Filhos de Gandhi um bloco que surge com o propósito
03:15de promover a igualdade racial, de valorizar a cultura afro-brasileira,
03:21o sentido mais lógico seria uma ação afirmativa que passasse pela afirmação racial,
03:29por exemplo, sem permitir a presença de pessoas brancas.
03:32Mas o que a gente vai identificar com o critério de segregação do bloco é o gênero.
03:36Então é um bloco que só vai permitir ali o acesso de homens,
03:41sejam eles negros ou não negros.
03:45Então é um bloco que não fecha as portas para os homens brancos,
03:50mas fecha a porta para as mulheres, fecha a porta para as pessoas transexuais.
03:56Então eu identifico isso como uma possível contradição
04:02quando a gente percebe a nossa sociedade como uma sociedade
04:06em que o discurso hegemônico já é um discurso masculino,
04:12já é um discurso hegemônico transfóbico,
04:16LGBTQIAfóbico.
04:18Então que sentido faria adotar práticas que afirmem o que já está posto?
04:26E não é por acaso que nós mulheres observamos
04:30que os foliões de blocos que contam exclusivamente
04:34com a participação masculina, como é o caso dos muquiranas,
04:39dos filhos de Gandhi,
04:41é o que a gente observa, ainda que essa não seja
04:44uma proposta do bloco em si.
04:49Mas esses foliões desses blocos
04:51recorrentemente estão ali envolvidos em situações
04:55de assédio contra mulheres no Carnaval,
04:58de práticas discriminatórias, de práticas violentas.
05:03Então eu acho que se a gente fala em manter a tradição,
05:07eu entendo a tradição do Filhos de Gandhi
05:10como uma tradição que tem como propósito principal
05:13a busca da paz.
05:15Gandhi dizia que nós devemos ser a mudança
05:18que queremos ver no mundo.
05:19Então, se a mudança que queremos é pela paz,
05:24pela igualdade,
05:25uma sociedade livre de machismo,
05:27livre de transfobia,
05:29livre de racismo,
05:30a ideia é buscar estratégias de resistência
05:33que valorizem a inclusão em vez da exclusão,
05:36que valorizem a igualdade em vez da desigualdade.
05:40Eu arriscaria dizer que se Gandhi fosse vivo
05:42nos tempos de hoje,
05:44em que debates que naquela época não eram travados,
05:46hoje estão começando a ganhar espaço
05:50com uma luta contra a violência de gênero,
05:54contra o racismo,
05:56contra a LGBTfobia,
05:59talvez o próprio Gandhi apontaria
06:01como caminho de busca pela paz
06:03a inclusão desses grupos
06:05que já são grupos marginalizados,
06:07que já são grupos frequentemente violentados.
06:11Então, a ideia do manter a tradição
06:14não pode ser um escudo
06:17para livrar tanto o bloco Filhos de Gandhi
06:21quanto tantos outros
06:23desta autorreflexão.
06:26Em que medida esses grupos,
06:29e aqui eu não vou me restringir aos Filhos de Gandhi,
06:33podem eventualmente reforçar
06:35essas práticas hegemônicas
06:38que eventualmente são violentas.
06:41Então, a busca pela paz
06:43envolve práticas de não violência.
06:47Então, não é apenas o discurso.
06:49As práticas, todas as nossas práticas
06:52devem se guiar realmente
06:53por esse propósito
06:55de busca da igualdade,
06:57de busca da inclusão social.
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