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  • há 1 ano
Em entrevista ao Estado de Minas, o neurocientista Sidarta Ribeiro aprofundou assuntos tratados no documentário “Criaturas da mente”, lançado recentemente numa parceria com o cineasta Marcelo Gomes.

O longa-metragem mostra a relação das pesquisas das ciências biológicas sobre o inconsciente humano junto dos saberes dos povos originários e de culturas afrodescendentes sobre o ato de sonhar.

Nesta edição do Pensar, caderno de literatura do EM, Sidarta convidou os leitores para uma reflexão sobre a maneira que a sociedade contemporânea trata o mundo dos sonhos.

Saiba mais: https://www.em.com.br/cultura/2025/05/7143452-sidarta-ribeiro-critica-o-desprezo-do-mundo-contemporaneo-pelo-sonho.html

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Transcrição
00:00Você se lembra do seu sonho na noite passada?
00:06Você parou pra pensar o que esse sonho significou?
00:09Em algum outro lugar, será que alguém teve o mesmo sonho que você?
00:12Ou será que pra você e pra todo mundo, dormir se tornou nada mais do que descansar antes de mais um dia corrido?
00:19Este é o Pensar, o caderno de literatura do estado de Minas.
00:22E na edição de hoje, vamos viajar pelo mundo do inconsciente com o neurocientista Siddhartha Ribeiro,
00:27estudioso dos sonhos há 20 anos.
00:30Siddhartha participou do recém-lançado documentário Criaturas da Mente, dirigido pelo cineasta Marcelo Gomes.
00:36No filme, o neurocientista explora como os sonhos podem transformar a experiência humana,
00:41unindo o que a ciência sabe sobre o inconsciente, mas também sobre como o ato de sonhar tem um caráter especial
00:47para os povos originários e os de origem africana.
00:50Sonhar, todo mundo sonha. Toda noite, várias vezes.
00:53A menos que você tenha uma lesão cerebral muito específica, você sonha.
00:56Agora, se lembrar do sonho é outra conversa.
01:00E eu diria que essa é a situação padrão hoje em dia.
01:03E tem a ver com o jeito como a gente dorme, o jeito como a gente sonha e o jeito como a gente lida com tudo isso,
01:10de manhã, ao despertar.
01:11Muita gente descobre com bastante surpresa que com um pouquinho de ajuste nas condições da entrada no sono,
01:19da saída do sono, é possível revolucionar essa experiência, é possível recuperar a capacidade de se lembrar dos sonhos.
01:25Mas não é o que a sociedade pede, assim, digamos.
01:30Tudo conspira para que você durma pouco e não se lembre dos sonhos.
01:33A experiência de sonhar é individual.
01:36Com os olhos abertos, todos visualizam o mesmo mundo.
01:39Mas com os olhos fechados, o que a mente cria fica restrito para cada pessoa.
01:44Sonhar não precisa ser assim.
01:45Tanto que o Criaturas na Mente explora justamente a ideia dos sonhos comunitários.
01:50Este é um conceito ainda preservado pelos povos originários e comunidades tradicionais,
01:55no qual as pessoas se reúnem para compartilhar aquilo que sonharam.
01:58Todos interpretam e opinam sobre o que o sonho de alguém pode significar,
02:03seja um presságio do futuro ou seja uma resposta para alguma situação do presente.
02:07Experienciar os sonhos assim, coletivamente, vai de encontro ao mundo contemporâneo fora das comunidades tradicionais.
02:14O sono é uma maneira de você repor a sua própria força de trabalho para gerar mais valia para alguém, para o seu patrão.
02:19Portanto, o sonho e o sono não são bem tratados na nossa sociedade.
02:23Eles são maltratados, destratados.
02:26O sonho é uma instituição para esses povos originários.
02:29É um espaço e um tempo em que você decide habitar.
02:34E os acontecimentos de lá são vida real como a vida da vigília.
02:38Isso é uma atitude radicalmente oposta à atitude da nossa sociedade,
02:41que pede que a gente desconsidere os sonhos,
02:44não tome eles em consideração para fazer nenhum tipo de tomada de decisão
02:48e durma o mínimo possível para poder voltar para o batente.
02:51Então, é uma atitude oposta e as consequências disso estão aí à mostra.
02:55É uma sociedade que, apesar de saber dos riscos de tudo o que está fazendo,
02:59coletivamente não consegue mudar de estratégia, de rumo.
03:02Estamos indo na mesma direção, inclusive aceleradamente.
03:04O estado de consciência também é formado pelo inconsciente coletivo.
03:08Esse é um conceito da psicologia que trata sobre símbolos, padrões e comportamentos comuns a todas as pessoas.
03:15Estudiosos da psique humana acreditam que isso ocorre,
03:18pois os indivíduos vivem situações semelhantes e maior ou menor grau ao longo da vida.
03:22As pessoas vivem a infância, a puberdade, o início da vida adulta, a velhice
03:27e cada uma dessas fases traz seus próprios desafios.
03:30Há ainda a questão da cultura, que produz símbolos que influenciam nos nossos sonhos
03:34e na interpretação que damos para eles.
03:36É, por exemplo, a ideia de que sonhar com cobras pode significar que a pessoa está sendo traída
03:41ou que sonhar com a queda de um lugar alto significa que algo ruim está prestes a acontecer.
03:46O que o filme também toca é que a pandemia, por ser uma crise global que envolveu muito medo da morte,
03:53ela coletivizou a experiência e coletivizou os sonhos.
03:56E os sonhos, eles ficam, então, com essa temporalidade que é a temporalidade do mito.
03:59Por quê?
04:00Porque se refere ao passado, a muitas camadas do passado, a muitas experiências do passado,
04:05a memórias que são, em algum grau, pessoais, em outro grau, coletivas,
04:09em algum grau, culturais, em algum outro grau, filogenéticas.
04:12E isso também desrespeitou o futuro, porque aquilo que aconteceu muitas vezes no passado
04:16provavelmente acontecerá muitas vezes no futuro.
04:19Não houve um dilúvio na história da humanidade, foram inúmeros, em muitos lugares diferentes,
04:23gerando uma grande memória coletiva do dilúvio, para dar um exemplo.
04:25E acho que a pandemia se encaixa nisso, num evento coletivo, planetário,
04:30e todo mundo, de alguma maneira, no mesmo barco, alguns no andar de cima,
04:34a maioria no andar de baixo, mas todo mundo com medo da morte.
04:36Isso gerou essa experiência que, para o mundo urbano contemporâneo, é tão rara,
04:41mas que, para muitos povos originários, é muito mais comum,
04:43que são sonhos que várias pessoas têm ao mesmo tempo.
04:46A partir deste amálgama de experiências individuais e coletivas, é que os sonhos se formam.
04:51E, assim, o documentário Criaturas na Mente leva o espectador para discutir a maneira
04:55que a sociedade contemporânea trata o ato de sonhar.
04:58Quem pode interpretar o significado do seu sonho é você.
05:01Agora, outras pessoas podem te ajudar nisso?
05:04Uma terapeuta? Um pajé? Sua família? Seus amigos?
05:08Claro, certamente. Inclusive, podem te ajudar te escutando.
05:12Porque só de falar você já começa a interpretar.
05:14E produzindo os sentidos possíveis para aquilo.
05:16Porque também o sonho não tem que ter uma interpretação apenas.
05:18Ele, frequentemente, é polissêmico, polissentido.
05:23Ele tem múltiplas perspectivas, abre múltiplas interpretações
05:26que podem te iluminar o caminho.
05:28E aí eu acho que cabe ao sonhador, à sonhadora,
05:30selecionar dentro desse repertório de possíveis interpretações
05:33aquilo que faz sentido, naquele momento que ajuda a navegar a vida.
05:36Os sonhos são a vida.
05:39São parte da navegação da vida.
05:41E são também parte da própria vida.
05:43O filme apresenta ainda relato das alurixás Mãe Bete de Oxum e Mãe Lu
05:47e do indígena Ailton Krenak
05:49sobre a importância do inconsciente coletivo em suas comunidades.
05:53Para Siddhartha, como a experiência de sonhar é subestimada no mundo atual,
05:58talvez valha olhar para dentro de si
05:59da mesma forma que os povos tradicionais tratam o inconsciente.
06:03As ciências dos povos originários, elas são tão legítimas e relevantes
06:07quanto a ciência acadêmica universitária.
06:09Devem estar lado a lado e, eventualmente, em alinhamento.
06:13Você pode alinhar perspectivas.
06:15Se os Yanomami entendem que o céu tem um buraco
06:20e que ele pode desabar,
06:22isso pode estar em alinhamento com a ideia do buraco da camada de ozônio.
06:27Se povos ayahuasqueiros da Amazônia Ocidental
06:33acreditam que todo mundo tem dentro de si serpentes enroladas
06:37que estão dentro de todos os seres,
06:39isso pode estar em alinhamento,
06:40que tem a ver com o livro do Jeremy Norbert,
06:42isso pode estar em alinhamento com a noção de que todas as células
06:44têm DNA dentro delas,
06:45que são fitas, que parecem serpentes, que estão dentro de todos os seres.
06:48Qual que é a verdade?
06:49Olha, as duas verdades têm sua legitimidade
06:52dentro do seu campo de atuação, digamos assim.
06:57Porque tanto no caso dos saberes dos povos originários,
07:00das ciências indígenas,
07:02quanto no caso da ciência acadêmica universitária,
07:04a gente sempre recorre a metáforas,
07:06a gente sempre recorre a modelos mentais,
07:09a gente sempre recorre a analogias, a comparações.
07:12Frequentemente na biologia a gente vai dizer
07:13que tal proteína funciona como se fosse uma alavanca,
07:16como se fosse, esse como se fosse é um processo mental
07:19que você vai encontrar nesses outros saberes.
07:22O Pensar é o caderno de literatura do Estado de Minas,
07:25publicado todos os sábados no Jornal Impresso
07:27e também em nosso site.
07:29Para acompanhar os textos, acesse em.com.br barra pensar.
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