00:00A beleza da desobediência civil. Como um diplomata rebelde ajudou a salvar milhares de judeus do holocausto.
00:07E sua visão libertária, sua fonte de informações descentralizadas e distribuídas com viés libertário.
00:13Contrariando as determinações do governo de Salazar, 80 anos atrás um cônsul português
00:19deu vistos a milhares de pessoas que fugiam dos nazistas invasores na França.
00:23Como um indivíduo deve agir diante de uma ordem manifestamente injusta,
00:27pode a norma aprovada pelo legislador atentar indiscriminadamente contra pessoas inocentes?
00:33Essas são questões bastante recorrentes na filosofia
00:36e diferentes pensadores vêm oferecendo suas contribuições intelectuais a essas questões,
00:41pelo menos desde a Grécia Antiga.
00:43Infelizmente, porém, algumas pessoas acabam enfrentando bem mais do que um problema teórico ao longo de suas jornadas.
00:50Esse é o caso do diplomata Aristides de Sousa Mendes,
00:53que no contexto da Segunda Guerra precisou optar entre obedecer as ordens do governo
00:58ou ouvir a sua própria consciência e fornecer aos judeus os vistos que lhes permitiriam escapar do avanço das forças alemãs.
01:05Acontece que apesar de Portugal ter ficado neutro na Segunda Guerra,
01:08os vistos deveriam ser concedidos a judeus refugiados e apátridas somente com permissão expressa de Lisboa.
01:14Em Bordeaux, o cônsul havia feito amizade com um rabino.
01:17Shane Kruger também havia fugido da ofensiva nazista na Bélgica.
01:21O cônsul ofereceu ao rabino e à sua família passagem imediata e segura pela fronteira espanhola.
01:27Mas Kruger recusou a oferta, pois não podia abandonar os milhares de outros refugiados judeus em Bordeaux.
01:33Alguns dizem que o dever de um diplomata é obedecer as ordens de cima,
01:37mesmo que essas determinações não sejam morais.
01:40O que quer que tenha passado pela cabeça do diplomata,
01:43Sousa Mendes acordou, na segunda-feira, dia 17 de junho, imbuído de um novo espírito.
01:48De acordo com o filho, Pedro Nuno de Sousa Mendes, ele saiu do quarto e anunciou em voz alta,
01:55de agora em diante, estou dando visto a todos, não haverá mais nacionalidades, raças ou religiões.
02:01O risco assumido resultou em perseguição do governo português,
02:05que inclusive cortou sua aposentadoria e o reduziu a um estado lastimável de pobreza,
02:09precisando posteriormente sobreviver à base de sopas oferecidas pelos judeus.
02:14A partir desse admirável exemplo, resta evidente que o julgamento entre o agir lícito e o ilícito,
02:20entre o certo e o errado, e tudo mais que diz respeito à justiça,
02:24são critérios sobre os quais o estado não deve de forma alguma ter um monopólio de decisão.
02:29Voltando ao nosso questionamento inicial,
02:31como o indivíduo deve agir diante de uma ordem manifestamente injusta?
02:35Pode a norma aprovada pelo legislador atentar indiscriminadamente contra pessoas inocentes?
02:40A resposta para você pode parecer óbvia, mas durante os últimos 150 anos,
02:45houve na filosofia uma tremenda resistência a qualquer coisa que se parecesse com uma tese jus natural,
02:51principalmente depois do advento do cientificismo e da crise da metafísica,
02:55em que para expurgar o mundo dos juízos de valores, passou-se a adotar teses das mais estapafúrdias,
03:01como as de Augusto Conte, que era louco segundo a própria acepção do termo.
03:05Mas assim como o jus naturalismo entrou em crise com o advento do positivismo,
03:09o positivismo também entrou em crise no contexto do pós-segunda guerra,
03:13e justamente em razão das muitas normas odiosas promulgadas pelo estado,
03:17normas essas que pessoas como Aristides de Sousa Mendes fizeram bem em descumprir.
03:22A derrota mais significativa do positivismo foi nos julgamentos de Nuremberg,
03:26onde os nazistas foram julgados pelos crimes de guerra.
03:29A grande questão nesse julgamento é que, de acordo com o positivismo,
03:33os nazistas que mataram e torturaram pessoas a mando de Hitler
03:36estavam simplesmente cumprindo ordens, seguindo a risca as normas e preceitos jurídicos
03:40aprovados pelo legislador alemão.
03:43Diante de tal impasse, para condenar os nazistas, o tribunal teve de recorrer ao bom e velho jus naturalismo,
03:49implicando que os soldados do eixo violaram direitos cuja validade não depende de um papel rabiscado por burocratas.
03:56A reflexão que fica é, quanto sangue e quanto sofrimento não foram resultado de se ignorar inteiramente
04:03uma tradição que enxergava o indivíduo como detentor de direitos básicos invioláveis?
04:08Muito disso poderia ter sido evitado apenas atentando para pérolas da sabedoria
04:13contidas nas obras de escritores como John Locke e Tomás de Aquino.
04:17Lamentavelmente, heróis realmente antifascistas como Aristides de Sousa Mendes
04:21não recebem atualmente o prestígio que seus nomes merecem.
04:25Em contrapartida, assassinos como Che Guevara e Carlos Marighella
04:28são celebrados em filmes estampados em camisetas.
04:32Combater essa desinformação é o mínimo que a gente pode fazer
04:35para exorcizar o mundo da maléfica presença do estatismo e do fascismo.
04:40Obrigado por sua audiência.
04:42Esse artigo foi sugerido por Rodolfo Andrello,
04:44escrito por Rodolfo Andrello,
04:46revisado por J. J. Taliber e narrado por Salander.
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