00:00Toda a história da família de Joana d'Arc e Cordovil Neves está ligada à exclusão vivida pelos portadores da ranceníase.
00:07Tivemos sete irmãos. Desse grupo de sete irmãos, somente eu tive ranceníase.
00:12Eu fui separada, fiquei morando um pouco com a minha tia aqui na colônia, San Sabel.
00:17A partir dos anos 1920, foram construídas por todo o país colônias agrícolas onde os rancenianos eram internados.
00:24Até o fim da década de 80, a forma de tratamento da doença consistia em isolar os doentes.
00:30A maior das colônias foi a Santa Isabel, erguida em Betim, na Grande BH, em 1931 e que chegou a abrigar quase 4 mil pacientes.
00:39Aqui, por causa do preconceito, os trabalhadores não entraram.
00:43Então quem teve que tocar essa cidade, esse espaço, foram os próprios internos.
00:48Eles que tinham que fazer, que dar atenção a eles mesmos, cuidar das suas feridas.
00:53Eles que tinham que plantar, colher, cuidar da segurança, cuidar da administração.
00:58Então tinha o prefeito, então tinha o delegado.
01:02A colônia era tudo fechado. As pessoas não tinham convívio com outras, então elas ficavam aqui, só aqui.
01:08Mas aqui tinha muitas tarefas. Tinha cinema, tinha um grupo de amigas, tinha os pavilhões.
01:16Então sempre um encontrando com o outro. Inclusive eu trabalhei aqui na colônia.
01:20Os pais de Joana e Cordovil tiveram ranceníase e se conheceram após serem internados na Santa Isabel.
01:26Mas assim que geraram o primeiro dos sete filhos, eles decidiram fugir para uma vila ao lado, chamada Citrolândia.
01:32As crianças, ao nascer, eram sequestradas pelo Estado e levadas para um outro espaço, chamado Preventórios.
01:39E após os 18 anos, o Estado orientava para essa pessoa ir para a cidade, não voltar para os seus familiares.
01:46Essas pessoas tiveram o que o pessoal chama de alienação parental total, feito pelo Estado.
01:53A internação compulsória dos portadores de ranceníase só começou a ser revista na década de 1960,
01:59quando pesquisas mostraram que a doença não era tão contagiosa quanto se entendia.
02:04Ainda assim, após anos sob controle, os casos da doença voltaram a crescer em Minas Gerais.
02:09Tanto em 2023 quanto em 2024, o Estado rompeu a marca de 1.500 diagnósticos de ranceníase,
02:15patamar que não era registrado desde 2012.
02:18O infectologista João dos Reis Canella explica que o aumento de casos pode estar relacionado
02:23à falta de conhecimento sobre o contágio da doença e também à demora para se fazer um diagnóstico.
02:29Hoje, a Colônia Santa Isabel continua em funcionamento e tratando dos rancenianos, mas sem a internação compulsória.
02:49Um dos antigos prédios foi transformado num museu para preservar a história da colônia
02:53e evitar que as pessoas que ali viveram sejam esquecidas.
02:57Preconceito sempre existiu. As pessoas se afastam.
03:00Eu lembro uma época que eu fui fazer, eu estudava, estudava até na FAF BH.
03:05Quando eu contei que tinha ranceníase, somente duas pessoas que continuou a amizade e o convívio comigo.
03:12O resto afastou.
03:13Até umas décadas atrás, os moradores de Betim, a sociedade de Betim, não aceitava ninguém para trabalhar que fosse daqui.
03:19Eu, por exemplo, sou de uma primeira geração que os moradores conseguiram forçar o governo do Estado
03:25a aceitar que as crianças de Citrolândia ou da Colônia pudessem estudar numa escola do município de Betim.
03:32Isso foi agora. E o Estado que obrigou. Porque a escola, a direção não permitia.
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