00:00Todo mundo me pergunta isso. Eu fui para os estúdios no dia 5, depois da eleição,
00:06e todos os jornalistas perguntavam isso. E eu acho isso muito curioso.
00:10Porque a gente está falando de um país ainda extremamente LGBTfóbico,
00:14um país que ainda é profundamente racista, um país que ainda trata a presença do meu corpo na política
00:19com muita hostilidade, com muito ódio, com muita violência.
00:22Não é fácil ocupar o parlamento sendo mulher, sendo preta, sendo travesti,
00:26saindo dos lugares de onde eu saí. Mas essa pergunta sempre ecoa,
00:31não só nos meios jornalísticos, mas nos atos que eu faço Brasil afora.
00:36Eu rodei muitos estados do país nesse segundo turno, rodei muitas cidades do interior do meu próprio estado,
00:43e não teve uma cidade ou um estado que eu não fosse recebida pelas pessoas,
00:47e eu estou dizendo de multidões, de massa de gente que estava lá para defender o país,
00:51para defender o futuro, para a reeleição do presidente Lula, que não dissessem esses gritos.
00:55Eu não vou dizer da minha vontade, porque eu não pensei ainda sobre isso.
00:59Eu não tenho idade ainda, nem para ser candidata à presidenta do Brasil,
01:03e quando eu penso no que foi o processo com a presidenta Dilma, eu fico,
01:06meu Deus, o que será de mim? Mas o que eu posso responder é o seguinte,
01:10o Brasil é um país que mata com requintes de crueldade mulheres como eu.
01:15O Brasil é um país que nega a mulheres como eu a escolaridade, a família, o trabalho, o afeto, a
01:22religiosidade.
01:23Quando eu vejo esse país ser questionado, se perguntar para uma mulher como eu,
01:28se eu tenho vontade, se eu tenho desejo, ou estas vozes, de maneira voluntária, gritarem,
01:33presidenta, presidente, eu acho que o mais importante não é se eu serei,
01:37ou se uma como eu será, porque isso é importante, mas é secundário,
01:41diante da possibilidade de devolver o sonho, a esperança para as pessoas.
01:45Um país que nos quer ver pelas costas, que roubou de nós tudo,
01:49e a gente começa a reconstruir um processo imaginário,
01:52a devolver no imagético social uma figura preta, travesti, vinga da rua, expulsa de casa,
01:58no lugar de presidente.
01:59Isso é mais importante para mim nesse momento do que o fato se eu vou ser, se eu não vou
02:03ser, se eu vou...
02:03Isso aí é... o tempo vai dizer.
02:06Mas olhar para a minha comunidade e ver os olhos da minha comunidade brilhar de esperança,
02:11olhar para a minha comunidade e ver a minha comunidade acreditar que ela pode mais,
02:14que ela pode deixar de ser retratada só nas manchetes policiais, nos discursos de dor, de mazela, de sofrimento,
02:21e pode acreditar que um dia ela pode subir a rampa do Palácio do Planalto.
02:25Isso para mim não tem preço.
02:26Isso para mim é o que fica.
02:27E aí eu estimulo mesmo esse sonho.
02:29Eu estimulo essas vontades, porque o sonho também é um privilégio.
02:32Poder sonhar também é um privilégio.
02:34E nós, durante muitos anos, não tivemos esse privilégio,
02:37e parece que estamos conseguindo retomar, ou começar um processo de retomada desse lugar.
02:41Então que a gente sonhe, que a gente se imagine em lugares que para nós eram impensáveis,
02:46porque isso impulsiona as possibilidades.
02:48E aí se chegar esse momento, quem sabe, vou estar pronta.