00:00E essa mudança do uso do solo, ela tem um aspecto que é meio que histórico, cultural dentro da região,
00:10que é o uso do fogo.
00:11Então, o uso do fogo, ele vem desde sempre e é muito fácil de explicar,
00:18porque você tem grandes áreas, você tem a mata, a floresta,
00:22e a única forma de uma pessoa sem recursos para compra de maquinário, ou de calcário, para minério,
00:30enfim, de outros métodos para mudar, tirar essa floresta para fazer porte raso,
00:36é o fogo, ele é o mais barato, ele é o mais simples.
00:40Agora, as técnicas de controle de uso do fogo, elas nem sempre são dominadas pelas pessoas,
00:46até porque a gente tem um processo de que a maioria das pessoas que utiliza-se desse predicado
00:54acaba não sendo pessoas daqui.
00:56Então, você tem que, é cultural, é algo que já vem sendo feito há muitos anos,
01:02mas, em geral, ele é copiado e as pessoas às vezes não sabem como controlar,
01:05porque é realmente difícil, né?
01:07Na engenharia florestal, a gente tem uma ou duas disciplinas,
01:11a da academia do curso, que você está lá para aprender técnicos.
01:13E é muito difícil, é muito complexo de ser feito, mesmo para quem sabe fazer.
01:19E aí, dentro da Amazônia, você tem a situação onde as pessoas precisam do solo limpo,
01:25e esse solo só consegue ser limpo nessa época, porque não chove, ou chove muito pouco.
01:31Então, esse solo limpo, que é tirado não só de floresta nativa,
01:36mas de ciclos de produção, de agroflorestas,
01:41e aí voltado para do cuar, é voltado para atividades de plantio mesmo, né?
01:50Às vezes até florestais, mas principalmente de agroflorestas e de agricultura.
01:56Então, isso faz com que o solo mude,
01:59e a gente tenha esse processo de meses de agosto, setembro, outubro,
02:04e alguns anos até novembro.
02:05Se você for olhar nos mapas, os lugares onde queimam,
02:11eles são os mesmos.
02:14Ou seja, significa que isso é cíclico.
02:17Especialmente em propriedades maiores, né?
02:19Eu até discordo a gente deixar a agricultura familiar nesse trabalho.
02:23A gente precisaria ir lá e saber a origem desses incêndios,
02:28se elas, de fato, são por conta de agricultura familiar,
02:31se elas são por conta de atividades de maior porte.
02:34Mas o que se tenta fazer é isso, né?
02:40Buscar alternativas, fortalecimento de rede de apoio.
02:43Mas no momento, quando chega agora,
02:45o que a gente devia ter era um plano de ação.
02:49Parece-me que havia a ideia de fazer um plano de proteção de queimadas no Estado,
02:54mas esse plano parece que foi abandonado, ou não sei dizer.
03:00Mas esse plano tem que estar pronto em março,
03:03para que comecem as ações em março, em abril, né?
03:07E se for o caso de ter mais efetivo de bombeiros,
03:11se for o caso de ter lugares onde os bombeiros possam estar mais próximos,
03:15das áreas onde a gente já sabe que vai pegar fogo, né?
03:19Ou ter acesso à tecnologia, aviões, de fato,
03:25que possam pegar grandes áreas e apagar fogos rápido, né?
03:30E a tecnologia de previsão.
03:31A gente tem trabalhado em pensar a tecnologia de previsão para a qualidade do ar.
03:35E eu sei que o Ibama tem um projeto,
03:38o IPAM tem um projeto que também usa inteligência artificial
03:41para tentar prever onde vai vir o fogo.
03:44Mas não tem mistério, né?
03:46Os focos acontecem mais ou menos nos mesmos lugares.
03:50O Atlas da Periculosidade do Ar,
03:52ele começa olhando para um dado geral,
03:56que é o índice de qualidade do ar, né?
03:58Que aí ele vai medir as partículas finas,
04:00inferiores a 2,5 micrômetros,
04:04as partículas inaláveis,
04:06que vão até 10 micrômetros,
04:09e todas essas partículas,
04:10elas vão causar uma série de problemas, né?
04:12Cardiovasculares, respiratórios,
04:14algumas vão entrar no seu pulmão e você não vai sentir,
04:17outras vão entrar e você vai sentir na garganta e etc, né?
04:21Então ele faz essa medição,
04:23não só dessas partículas,
04:24como também de gases, né?
04:26Como o ozônio 3,
04:27que está diretamente relacionado à interação da luz solar, né?
04:31Com outros gases que já estão ali,
04:34como o próprio dióxido de enxofre,
04:36que ele surge dessa queima de combustíveis,
04:41mas também como o dióxido de enxofre
04:43e o próprio monóxido de carbono.
04:46E aí, através de todas essas análises,
04:50a gente tem esse índice, né?
04:51Que é o A e Q,
04:52que em português seria índice de qualidade do ar.
04:56E aí a gente analisa primeiro esse índice, né?
04:58Então, no Atlas, a gente consegue olhar para Manaus e ver,
05:01não só para Manaus,
05:02como para todo o estado do Amazonas,
05:04e ver onde estão as concentrações dos piores indicadores, né?
05:09Dos piores índices de qualidade do ar.
05:11A partir disso, a gente vai cruzando outros elementos, né?
05:16Junto com esse índice.
05:17Então, um deles é a corrente de vento,
05:19para a gente entender
05:20aonde a corrente de vento está mais intensa.
05:23Isso significa que, provavelmente,
05:26aquelas partículas, né?
05:27Aqueles gases vão ser levados muito mais rapidamente, né?
05:30Para fora daquela região.
05:32Assim como a gente analisa também
05:34aonde está a corrente de vento está mais fraca.
05:37Isso significa que naquele lugar
05:38vai concentrar por mais tempo aqueles gases.
05:41E aí soma-se a isso também
05:43a temperatura de superfície da região.
05:47Então, a gente analisa as ilhas de calor da cidade.
05:51A quantidade de vegetação que tem ali,
05:54porque a quantidade de vegetação também
05:56vai influenciar nesse processo
06:01de absorção desses gases
06:02e de troca com essas árvores,
06:04permitindo com que o ar seja renovado.
06:06A altura dos edifícios,
06:08que vai influenciar totalmente na corrente de vento.
06:11Então, no final das contas,
06:12acaba sendo uma simulação
06:13que a gente está fazendo,
06:14uma simulação climática.
06:16E aí a gente cruza com dados de renda.
06:18E se naquele local
06:19onde a renda é mais baixa,
06:21a gente pode considerar como uma favela
06:22ou comunidade urbana
06:23seguindo os dados do IBGE.
06:26E aí, a partir de todas essas análises,
06:29a gente consegue chegar numa métrica,
06:31de dizer, olha,
06:31essas são as comunidades que provavelmente,
06:33nesse exato momento,
06:35estão sofrendo muito mais
06:36do que outras da cidade.
06:38Então, uma pessoa que mora
06:39numa floresta de mata fechada,
06:43como um ribeirinho,
06:45talvez numa região
06:46que não é foco de incêndio,
06:47ele está numa região vulnerabilizada.
06:50Mas naquele momento,
06:51uma pessoa que mora
06:52numa comunidade de periferia mesmo,
06:56com uma compensa,
06:57em Manaus,
06:58ele vai estar sofrendo muito mais.
07:00E ali a gente já tem uma região
07:01que quase não é arborizada,
07:04com uma certa altura dos edifícios,
07:06considerável,
07:07que vão impedir
07:09que a corrente de vento seja fluida,
07:12e com uma alta concentração
07:14de gases prejudiciais para a saúde.
07:17A gente pode olhar quando ativa,
07:19no Atlas das Baixadas,
07:20esse Atlas da Periclosidade do Ar para Manaus,
07:23que a região sul de Manaus
07:24é muito mais impactada,
07:26essas comunidades que estão ali
07:28nessa região específica.
07:30No Atlas das Baixadas,
07:31você consegue, inclusive,
07:32sobrepor essas camadas.
07:34Você consegue sobrepor
07:35tanto as camadas
07:36de onde estão as favelas
07:37e comunidades urbanas,
07:38segundo o IBGE,
07:40quanto você pode sobrepor
07:41as camadas de renda.
07:42E aí você pode ter uma noção
07:45de que essas são as comunidades
07:46mais impactadas.
07:48E isso tudo
07:49levando em consideração
07:50todos esses outros elementos
07:51que não são tão sociais,
07:53digamos assim,
07:53são mais técnicos,
07:54como a própria quantidade
07:56de arbolização,
07:57que também é social,
07:59mas a temperatura de superfície
08:01do terreno,
08:03a corrente de vento,
08:04o próprio índice de qualidade do ar,
08:05eles vão dar essa calibração,
08:10digamos assim.
08:12Enfim, existem muitas comunidades
08:14vulnerabilizadas em Manaus,
08:15mas naquele exato momento
08:18pode ser que o índice
08:19de qualidade do ar
08:20seja muito pior
08:21em uma do que em outra,
08:22que a corrente de vento
08:23em uma seja muito melhor
08:24do que em outra.
08:25Então tudo isso
08:26vai nos dar formas
08:28de entender
08:29e de calibrar
08:30esses valores
08:31e tentar ali
08:32dar ao poder público
08:34e à sociedade civil
08:35uma noção
08:36de onde olhar
08:38com mais prioridade
08:39se a gente precisasse
08:41fazer uma ação
08:43de urgência agora,
08:44que é o que deveria
08:45estar sendo feito
08:46pelo poder público lá.
08:47E aí
08:48E aí
08:52E aí
08:53Legenda Adriana Zanotto