00:00Eu acho que existe essa pressão e esse pensamento de tudo ou nada porque o mundo opera em binários.
00:05Ou você é isso, ou você é aquilo. Ou você está, ou você não está.
00:09Existe pouquíssimo espaço pra falar sobre o meio termo, sobre simbiose, sobre existir de todas as maneiras que a gente
00:15puder.
00:16O mercado e a indústria tem a mania de nos emprateleirar, de querer colocar a gente em um só espaço,
00:21em um só lugar.
00:22E ao mínimo sinal de nos humanizar, parece que a gente abriu mão de absolutamente tudo que criou enquanto persona,
00:27enquanto empresa.
00:28Isso não é verdade. A verdade é que nós somos seres humanos por trás de toda a montação e que
00:32nós, como seres humanos, também merecemos espaço, respeito, admiração.
00:36E que o nosso ser humano não determina se a drag acabou, se a drag morreu. Isso é uma ilusão
00:41e um pensamento extremamente binário e pobre.
00:45E depois de anos de carreira, tem algo que você aceitou no começo e hoje que você não aceita, tanto
00:51como pessoa, como artista?
00:52Acho que eu tô aprendendo muito melhor a como impor limites. Isso é uma coisa que eu tive que aprender
00:57no passar do tempo.
00:59Eu tinha uma característica muito de tentar sempre agradar e sempre me certificar de que estava agradando.
01:05Eu acho que uma lição que ficou comigo pra sempre é nunca sair do ensaio ou da passagem de som
01:09sem se certificar de que tudo foi conversado, de que você apontou todas as coisas.
01:14Isso eu aprendi do jeito mais difícil, assim, tendo que fazer coisas ao vivo na televisão e não dando certo,
01:19sabe?
01:19A gente vai aprendendo conforme a profissão vai nos ensinando que vale muito a pena você bater o pé e
01:25garantir que o jeito que você quer que as coisas aconteçam é o que vai realmente acontecer.
01:29Acho que foi a minha grande lição profissional, não me calar.
01:32Obrigada, amiga, última aqui.
01:33Agora, há 10 anos que a gente começou, a gente tinha uma cena drag super forte no Brasil, tipo, florescendo.
01:38E veio você e veio muitas outras artistas juntos.
01:41Hoje, com essa onda conservadora, sente que esse espaço diminuiu?
01:43Como você se enxerga quanto artista nesse cenário?
01:46Eu sinto que o espaço pra novas artistas drag queens chegarem nesse mesmo patamar que eu e o Pablo chegamos
01:51realmente é uma coisa que vem se bifurcando, vem se afunilando com o passar do tempo.
01:55O que é uma pena, porque o que não falta no nosso país são talentos incrivelmente foda esperando pra serem
02:02descobertos.
02:03E eu espero que a gente consiga viver num Brasil muito mais democrático, muito mais convidativo
02:09e que crie muito mais espaço pra novas figuras LGBTQIPS, nós, no Recorte Drag Queen, conseguirem chegar, invadir a cena
02:16e mostrar tudo que a gente tem de maravilhoso pro nosso país, que é muito rico.