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  • há 2 dias
Um crime cruel que choca todo o Estado

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Transcrição
00:00Gente, essa história é muito triste, dá um nó na garganta, só da gente ouvir, só da gente relatar.
00:06Um homem foi preso, suspeito de abusar sexualmente da enteada e agredir a menina e também o irmão dela.
00:14Essa história aconteceu em Cariacica, a menina teria pedido socorro aos vizinhos e também a uma tia.
00:21E os relatos dessa adolescente são revoltantes.
00:26Além de abusar, de agredir essa menina, esse homem teria forçado a vítima a sair da escola para que ela
00:36não denunciasse a violência que sofria dentro de casa.
00:40Gente, essa menina vivia um verdadeiro pesadelo.
00:43E olha só esse dado, tá?
00:45Mais de 70% dos casos de violência sexual contra crianças e adolescentes acontecem ali, dentro de casa.
00:54E são crimes que muitas vezes ficam entre quatro paredes e acontecem, ó, por anos.
01:01Vamos bater um papo sobre isso?
01:02Gente, eu chego a me arrepiar.
01:04Vem cá, participa com a gente.
01:05Aqui no nosso estúdio eu recebo Marcos Paulo Fonseca, que ele é conselheiro tutelar, que foi que atendeu esse caso.
01:11Vai contar pra gente já já se essa família já vinha recebendo esse acompanhamento há quanto tempo.
01:17Luciana Infantini, que é psicóloga.
01:19Obrigada, Lu, também pela sua presença.
01:21E a gente recebe aqui a Clara Campos, que daqui a pouquinho também vai trazer o relato dela.
01:26Uma história muito forte de superação desse tipo de violência.
01:30Sejam todos bem-vindos.
01:31Mas antes, Marcos Paulo, você já, né, o Conselho Tutelar já fazia um acompanhamento desse caso.
01:38Há quanto tempo, mais ou menos?
01:40O que foi identificado inicialmente com essa família?
01:44Toda denúncia que chega é averiguada.
01:46Nem sempre quando o Conselho vai averiguar uma denúncia, às vezes naquele momento não esteja acontecendo.
01:53E lá atrás, quando foi feita uma denúncia de suposto maus tratos, não tinha sido identificado esse maus tratos.
02:04Mas o órgão estava acompanhando.
02:08E naquele momento, lá atrás, a criança também não relatava nada.
02:13Por mais que a gente conversasse lá.
02:16Eles moravam em outro território.
02:19E passou uns tempos, eles mudaram para outro território, que já não era de atendimento nosso.
02:27E a gente ficou incomunicável, porque a família também não procurou o órgão para relatar que tinha sido mudado.
02:37E aconteceu agora, depois de um ano e meio, essas violações aí.
02:44E o órgão recebeu a denúncia num dia.
02:48Aí, quando eles estavam se preparando para ir lá na residência, eles agora em novo território morando,
02:56nos deparamos na entrada do Conselho, a tia chegando com a sobrinha.
03:01Atendemos a criança.
03:03E dali ela informou os abusos que vinham sofrendo.
03:07Mas também informou que o irmão estaria em casa.
03:10Aí nós deixamos ela lá no Conselho e fomos até o local onde eles moravam.
03:17Lá identificamos também a presença do padrasto, de imediato, para não alarmar também.
03:25Porque ela tinha relatado que tinha sido abusado no dia anterior.
03:31Estava dando as 24 horas ainda.
03:33Então, eu achei por bem não alarmar para não se evadir, né?
03:39Ele não se evadir do local.
03:40E aí eu fui e acionei a Polícia Militar para nos dar apoio.
03:45E foi quando a polícia chegou e nos deu apoio.
03:48E aí ele foi conduzido para a delegacia, todos conduzidos para a delegacia da mulher.
03:53Nós passamos no Conselho, pegamos a criança e fomos para o atendimento lá.
03:58Lá na delegacia identificamos também outras...
04:01Perdão, te interrompi. Pode concluir.
04:03Lá na delegacia também, em atendimento lá também, ela se abriu mais também.
04:08Uma outra policial também nos ajudou no atendimento lá, uma policial feminina lá também.
04:15E lá também, ela nos relatou lá outras agressões físicas com cicatrizes que ficou de outras violências anteriores.
04:26Qual era o estado emocional dessa menina?
04:28Ela estava ainda em choque, mas ainda feliz e agradecida porque ela já estava se sentindo em segurança ali.
04:40Eu vou pedir para a nossa produção colocar imagens da casa onde essa menina, o irmão, viviam.
04:48Essas foram as condições que vocês se depararam?
04:52A menina, ela vivia nessa residência aí?
04:55Então, quando nós chegamos lá, eu não cheguei a entrar.
05:00Esse vídeo aí deve ter sido algum município que enviou os veículos de comunicação.
05:09Porque a nossa preocupação era em garantir de imediato ali a proteção dos dois.
05:15E quando eu cheguei lá e identifiquei na porta que o abusador estava lá,
05:21a minha preocupação foi em retirar o irmão e acionar a polícia militar.
05:27Então, não tive acesso dentro da casa.
05:30Mas você, como conselheiro tutelar, quando você vê essas imagens e que tem até xixi dentro da garrafa,
05:41que eles eram obrigados a fazer, a urinar dentro da garrafa, né?
05:45Qual a leitura que você faz como conselheiro tutelar diante dessas condições que a gente está mostrando agora?
05:53De horror, né?
05:55De imediato, essa situação aí de urinar dentro da garrafa ali, ela não nos relatou.
06:02Ela nos relatou que chegou na quarta-feira de manhã e aí ela foi abusada na quarta-feira de manhã.
06:11E foi amarrada com fios.
06:15E diz que vinha sendo abusada desde os 11 anos de idade e que fugiu até para não ser mais
06:27abusada,
06:27porque toda criança que ela é vítima de abuso, ela se tranca.
06:32Ela, às vezes, não se sente segura em contar o que está acontecendo até aos seus entes queridos ali,
06:38seus parentes e muitas das vezes acontece disso, de crianças elas se automutilarem,
06:46de crianças ficarem depressivas, de ela até em forma de desenho relatar,
06:52que nós já atendemos esse ano no Conselho Tutelar, uma criança de 8 anos relatou desenhando
06:58que o próprio genitor, o próprio pai estava abusando dela.
07:03Então, a criança, ela tem várias formas de se expressar de que está sendo abusada.
07:09É como se você colocasse um leite para ferver ali e em determinado momento ele vai o quê?
07:15Vai ferver e vai transbordar.
07:17Mesma coisa é a criança vítima de abuso.
07:20Ela vai indo, vai indo, ela estoura e ela conta para alguém.
07:25Então, assim, é muito preocupante os casos que a gente vem atendendo.
07:33Para você ter ideia, Cariacica, nós fechamos em 2023 com quase 400 casos de abuso quando é criança.
07:39Nós já começamos...
07:39Isso que foram denunciados, que vocês chegaram até esses casos.
07:42Isso.
07:43Foram que os que não foram.
07:44E que estão sendo investigados.
07:45E aí, eu chamo a atenção também para as autoridades, porque muitas das vezes a própria
07:54delegacia da criança, o DPCA, ela não tem nem material humano ali.
07:59Eu precisava de...
08:00Hoje nós precisaríamos ter uma DPCA, uma delegacia da criança, em cada município da
08:06Grande Vitória, porque a demanda é muito grande da Grande Vitória.
08:10Que seja feito, então, esse apelo, né?
08:12Mais de 400 casos só em Cariacica no ano passado.
08:16Isso porque as denúncias chegaram.
08:18Imagina aqueles casos que nem foram, né?
08:21Nem foram denunciados.
08:23Agora, olha um detalhe muito importante nesse relato que o Marcos Paulo trouxe para a gente.
08:28Essa menina, gente, de 12 anos, ela chegou a fugir de casa com um irmão de apenas 8 anos.
08:35Uma atitude sem saber o que fazer.
08:38Só que, infelizmente, bateu a fome, né?
08:39Aí, quando bate a fome, volta para onde?
08:41Volta para casa.
08:42Luciana Infantino, o que essa atitude dessa adolescente representa?
08:47Boa tarde, Roberta.
08:48Boa tarde, quem nos assiste.
08:49É revoltante a gente escutar uma história dessas, né?
08:51Saber que isso existe.
08:54Imagina o desespero de uma criança para sair do lar junto com o irmão, sabe?
09:00Sair sem norte, né?
09:02A gente vê isso acontecendo e a gravidade disso vai ficar marca para o resto da vida, né?
09:11Para o resto da vida.
09:13Não é só aquele momento ali, né?
09:15Então, a menina, claro, ela se sentiu segura quando vocês acolheram e fizeram todo esse tratamento,
09:20mas vai ficar cicatriz para o resto da vida, Roberta.
09:23E cicatrizes irreversíveis, né?
09:25Porque a noção que ela tem de família, sabe?
09:29Qual é?
09:30Os pais que deveriam proteger, cuidar, abusaram, traíram a confiança, machucaram, feriram, abusaram sexualmente, fisicamente.
09:39Então, assim, são diversas feridas que vão ficar nessas duas crianças, né?
09:43Nela e no irmão também.
09:45Acredito que a coisa também tenha sido bastante pesada.
09:47Ela já estava a ponto de pedir socorro mesmo, né?
09:50O que o Marcos Paulo falou, é o leite transbordando.
09:52Essa atitude dela é o quê?
09:54É desespero, né?
09:55É, Roberta, mas eu acredito que ela tenha chamado, ela tenha, antes disso, feito algumas tentativas de contar para as
10:04pessoas.
10:05É importante quem está perto ficar atento, Roberta.
10:08Como é que uma coisa dessa acontece sem que nenhum adulto ali, além desse padraço, pudesse ver o que está
10:13acontecendo?
10:14Então, teve negligência também por parte da família ali.
10:19E quem já passou por esse sentimento, sabe como é conviver com esse trauma, com essa dor, que foi o
10:27caso da Clara.
10:28Clara, qual é o sentimento que te traz quando a gente noticia mais um abuso contra uma criança?
10:35Sério, meu coração está pulsando aqui de ódio.
10:38Não sei se é ódio, né?
10:39Mas eu me coloco no lugar dessa criança.
10:44A negligência dos pais é muito grande, entendeu?
10:47Na minha época, 49 anos atrás, né?
10:53Estou com 56, né?
10:54Eu não tinha ninguém para me proteger.
10:57Eu só queria que aquilo acabasse, entendeu?
11:00Então, quando eu contei, ninguém acreditou.
11:03Aliás, eu ganhei uma surra bem dada.
11:05Eu apanhei muito.
11:09E, quando eu vejo falando isso assim, eu me pergunto qual o prazer um cara desse tem de abusar de
11:18uma criança, sendo filha, sendo tio, sendo o que for.
11:22Hoje eu tenho muito cuidado de falar sobre isso.
11:26Não tenho medo também, né, Roberta?
11:27Não tenho vergonha, porque eu sempre falo para mulheres que passaram por isso, você nunca foi culpada.
11:33O culpado foi ele, né, que tomou uma coisa que não era dele, né?
11:39E isso, como a psicóloga falou muito bem, te traz marcas na alma para o resto da vida.
11:45Não tem remédio, né?
11:46Não tem solução para essas coisas.
11:49Hoje você lembra, você lembra disso, já não é mais com dor, porque você passou um processo.
11:55No meu caso, na época, não existia conselho tutelar, né?
12:00Não existia polícia para isso.
12:02Hoje o cara pega uma detenção, acredito, né?
12:04Espera uma detenção boa.
12:06Mas, antigamente, a gente não tinha essa rede de apoio que a gente fala.
12:10Mesmo porque, na minha família, isso era cultura.
12:14Não foi só comigo.
12:17Então, eu tentei trazer isso para a minha vida futura, nos meus 23 anos de vida, depois,
12:24eu, quando o gatilho disparou, eu tive que resolver isso, assim, comigo mesma.
12:30Fiz, na época, não existia psicólogo, era psiquiatra, né, doutora?
12:33A gente era chamado de doido.
12:35Eu fui assistida, eu não podia ficar sozinha.
12:38Eu tive alguns surtos, né?
12:40Envergonhei algumas pessoas, né, com as minhas...
12:45Eu acho que foi um pouco de escape, né, doutora?
12:48Eu queria que alguém fizesse alguma coisa por mim quando eu criança e quando eu adulta também.
12:53Então, eu fiz um tratamento sério, né?
12:56Eu tive uma depressão profunda.
12:58Como eu falei da primeira vez, eu tentei o suicídio três vezes, né?
13:01Graças a Deus que Deus não permitiu que eu chegasse até o final.
13:06E, primeira coisa, a família, gente, família é tudo.
13:10Se você não tiver uma família que te apoie, você não sai dessa.
13:16Essa criança, por exemplo, essa criança aí, né, eu não sei a situação da mãe, dela, como é que foi,
13:23mas eu acredito que ela já vinha sofrendo isso há muitos anos, não é de agora.
13:27Ele só consumou o que ele queria, né, porque o estuprador, ele é assim.
13:31Primeiro, ele é macia para ver se você gosta.
13:35Se ele, num pensamento dele, achar que você gosta, então ele vai à frente.
13:39E, na minha época, eu ficava parada.
13:41Eu não me mexia, porque eu era muito pequena e ele era mais forte, claro, né?
13:46Nem se compara.
13:48Mas, tipo assim, eu só queria que aquilo acabasse.
13:51Eu acho que toda criança que passa por isso é o sentimento que ela tem.
13:55Acaba logo com isso que eu vou me ver livre.
13:56Mas, no outro dia, se repete de novo e no outro dia se repete de novo, até que, infelizmente, certas
14:03crianças, certos adultos cometem suicídio,
14:06porque essa pressão é muito grande.
14:08A doutora pode até falar melhor do que eu, né, Roberta?
14:11Olha só, a gente tem aqui algumas participações no Facebook.
14:14A Marisa Loureiro diz, a mãe não sabia do abuso, mas e as queimaduras?
14:19Ela não via?
14:20Que horas acontecia isso?
14:22A mãe estava onde?
14:23Né?
14:24E aí, a gente quer saber como é que fica a situação da mãe?
14:27O que vocês conseguiram identificar?
14:30Então, a respeito do abuso, a criança, ela relata que não contou para a mãe, não contava para ninguém, porque
14:40ela era ameaçada de morte.
14:42Esse é o perfil do abusador.
14:44Todo abusador, ele fala para a criança que vai matar pai, vai matar mãe, vai matar um irmão.
14:50Então, ela não se sentia segura.
14:57Se sentiu agora, depois que aconteceu tudo, que ela fugiu, retornou, e aí ela sentiu confiança, empoderamento de pegar e
15:06contar, encontrou para a tia.
15:08A respeito das lesões que vinha sofrendo, muitas das vezes ela nos relatou que a mãe entrava até em vias
15:18de fato com ele,
15:20mas a gente sabe também que poderia ter sido feito algo, é a mãe.
15:27Então, assim, a gente vai encaminhar todos os procedimentos que vão ser feitos, vai ser encaminhado para a delegacia, responsável,
15:35para a justiça,
15:36porque é eles que vão fazer essa parte enquanto criminal.
15:40A parte de proteção, nós já acionamos toda a rede de proteção.
15:44Então, ontem mesmo, de lá da delegacia, eu já entrei em contato com a Secretaria de Educação do município,
15:51providenciando a vaga para essa menina, para estar segunda-feira já estudando.
15:55De lá, foi...
15:56Ela estava realmente proibida de ir à escola?
15:58Sim, ele proibiu.
15:59E ela estava há mais de um ano sem ir para a escola.
16:04E já está sendo providenciada a matrícula dela e do irmão.
16:08Foi encaminhada também para a rede de saúde, porque ela disse que ela teve o ato sexual,
16:14que ele fez o ato sexual com ela.
16:18Então, foi encaminhada à saúde, ao Imaba, em um ou outro hospital, não lembro de cabeça,
16:26para tomar aqueles medicamentos, os coquetéis lá que falam.
16:31Também vai ser encaminhada também para a equipe psicossocial da rede de proteção,
16:36para ser acompanhada para uma equipe psicossocial, porque, como a doutora aqui falou,
16:43são violações que vão ficar na mente para o resto da vida.
16:49Então, a gente, enquanto rede de proteção, o conselho atuando ali na defesa dos direitos ali,
16:56a gente está acionando toda a rede de proteção para amenizar um pouco o sofrimento dessas crianças.
17:05Mas será acompanhada.
17:07A questão da parte criminal, a gente sabe que vai ser a polícia fechando seu inquérito lá,
17:14a justiça, eles que vão determinar.
17:16Elas estão hoje com a tia, inclusive nós vamos continuar o atendimento hoje ainda com a tia,
17:24que a tia está no trabalho.
17:25Como é que fica o futuro dessas crianças?
17:27Então, elas passaram ontem, quando a gente veio da delegacia,
17:34foi o dia todo o atendimento, porque teve que fazer vários procedimentos lá.
17:40E está com a tia, a gente vai continuar esse atendimento.
17:44Essa tia tem condições, por exemplo, de ter a guarda dessas crianças?
17:49Quem vai avaliar isso, de imediato, lá o local que nós fomos na casa dela, não tem problema nenhum.
17:57É uma mulher do bem, mulher trabalhadora.
17:59E aí a gente vai enviar toda essa documentação para a justiça.
18:03A justiça, ela tem a equipe técnica dela, a rede de proteção também é acionada nesses casos,
18:11para fazer o estudo de caso, para estar vendo.
18:14E assim a justiça vinha a determinar um ambiente seguro, um ambiente com carinho e amor
18:23para essas crianças que elas mais estão precisando nesse momento.
18:26E a gente vê que a relação dela, dessa jovem, dessa menina com essa tia, pelo visto,
18:34é uma relação de proximidade, porque foi para essa tia que essa menina foi pedir esse socorro.
18:41Agora a gente também se coloca no lugar dessa tia, Luciana Infantini.
18:44Imagina o emocional, nem que seja de forma mais imediata,
18:49em tentar abraçar, socorrer essa sobrinha com o sobrinho,
18:57depois de um caso como esse.
18:59E a gente também se pergunta como que nós podemos nos aproximar dos nossos filhos,
19:04porque essa menina sofria há mais de um ano, sofria calada, gente.
19:08Para que eles relatem para a gente, caso isso aconteça.
19:12Eu acho que esse é o ponto, né, Roberta?
19:14Estabelecer sempre relação de confiança com a criança,
19:18para que ela se sinta segura para falar.
19:23É claro que o abusador, como ele explicou muito bem,
19:27ele acaba ameaçando a criança.
19:29E na cabeça da criança, o abusador é um, né?
19:32Ele é todo poderoso, porque é uma relação de poder.
19:35Então a criança tem medo, mas eu acho que o ponto é a família estar atenta,
19:39observar com quem deixa a criança, né?
19:42O que está acontecendo, tem que ter uma atenção quando você tem filho, sabe, Roberta?
19:46Não é sair para trabalhar e qualquer um fica em casa.
19:49E outra coisa, Roberta, como é que essa menina pode ter ficado um ano sem ir para a escola
19:53e ninguém ter visto, sabe?
19:55São coisas assim, muito...
19:57Que relata mesmo, né?
20:00Que demonstra, aliás, negligência.
20:03A sociedade, né?
20:03A própria escola sentir falta da presença dessa aluna.
20:06Também, também.
20:08Aos pais, olha, cadê fulana, que fulana não veio para a aula hoje.
20:12Está um ano.
20:13E aí fulana também aparece com as marcas em casa.
20:16Nada é feito, ninguém vê nada.
20:17Quer dizer, olha o cuidado e proteção com essa criança durante esse um ano e pouco.
20:21Foi zero, né?
20:23Então, é muito preocupante.
20:24Você se sentiu amparada pela família em algum momento?
20:28Nenhum momento.
20:30E isso foi ainda pior para você?
20:34Essa falta de acolhimento, claro.
20:35Muito pior porque a rejeição também, né?
20:39Que naquela época, hoje é mais, né?
20:41Hoje não digo que seja uma coisa normal, gente, pelo amor de Deus.
20:44Mas naquela época tudo...
20:46Era velado.
20:47É velado, era conhecido na cidade.
20:49Então, nossa, se alguém descobrir o que vai ser de fulano, ciclante...
20:53Então, a gente deixou passar.
20:56Eu fui crescendo e esqueci aquilo, esqueci, né?
21:00Fui criança brincando.
21:03Na escola, eu sempre nunca fui bem na escola.
21:06Hoje, eu entendo por quê.
21:08Eu sempre fui atrasada em tudo.
21:11Mas, tipo assim, é que eu falo para as mães, para as avós.
21:16Fica esperta, fica alerta.
21:19Outro dia eu vi uma reportagem de um pai tomando banho com o filho.
21:22Entendeu?
21:23Eu sou meia...
21:26Meia rude...
21:27Meia...
21:27Como é que falam?
21:28Meia rude com isso, entendeu?
21:30Eu acho que tudo tem um limite.
21:32Como você vê tantos pais aí, pais de sangue mesmo, né?
21:35Que violentam seus filhos.
21:37Vai saber o histórico dele, quem ele era, quem foi ele, né?
21:41Para você ver o que ele é capaz de fazer.
21:44Eu falo que isso passa do normal.
21:48Isso é...
21:48Para mim é demoníaco, entendeu?
21:50Para mim é fora do natural que as coisas têm que surgir.
21:54Clara, quando aconteceu com você, qual era a sua idade na época?
21:57Eu acho que mais ou menos uns sete anos que eu me lembro.
22:14Uns sete anos.
22:19Aumenta muito.
22:20Aumenta para 92% dos casos acontecem com meninas.
22:25O que que explica isso?
22:28Tem a ver com a questão hormonal, né?
22:30Do corpo da menina já aparecendo um corpo de mulher, né?
22:34Então, a criança vai botando o corpo.
22:35Então, esse aumento se diz respeito a isso.
22:38Agora, a questão, né, do por que acontece mais com meninas do que com meninos, tem muito
22:43a ver com o perfil, né, da, vamos dizer assim, desse abusador.
22:48Em geral, é alguém que quer demonstrar poder sobre o mais fraco, sabe, Roberta?
22:55E aí eu sempre falo, não é uma doença não, sabe?
22:58É falta de caráter mesmo.
22:59Porque quando a gente fala que é uma doença, às vezes fica assim, ah, pode ser curado e
23:04tal.
23:04Não, é falta de caráter, é falta de, sabe, é uma questão cultural também, como
23:08ela falou lá no passado, na família dela, isso era aceito.
23:12Então, assim, são coisas absurdas que não podem mais serem aceitas, sabe, Roberta?
23:16E tem que acabar com isso.
23:18Ainda é reflexo, né, de uma cultura bem machista.
23:23A gente tem vários comentários chegando aqui no nosso Facebook.
23:26O Edson diz, cadê o Estatuto da Criança e do Adolescente para prevenir o direito, né,
23:30dessas crianças?
23:32Também tem aqui a Regiane fala, a mãe também, enfim, a gente está tendo aqui muitos comentários
23:37a respeito da mãe, né?
23:39É claro que a gente não está aqui para julgar, nós não somos juízes.
23:43A gente está aqui até agora repassando o que é fato, o que o Conselho Tutelar conseguiu
23:51relatar também para a polícia.
23:53Tem toda uma investigação por trás disso e se a mãe, gente, tiver culpa, né, ela vai
23:58responder sim por isso, mas a gente também não pode se antecipar no julgamento, viu?
24:05Fernandes diz coisas sem noção, né?
24:09Tem muita gente aqui falando, questionando, né, cadê a presença da escola, cadê a presença
24:15da mãe e os vizinhos também, que foi graças, então, aos vizinhos, às denúncias.
24:21É importante a gente convocar a sociedade, Marcos Paulo, para que preste atenção e realize
24:29essas denúncias.
24:30Às vezes a pessoa tem dúvida, igual as primeiras denúncias que vocês receberam, a princípio
24:33eram maus tratos, mas na dúvida é melhor denunciar?
24:37Sim.
24:40Desconfiou, denuncie.
24:43Há relatos de que vizinho falam assim, igual o marido e mulher, quando briga, não se mete
24:48a colher.
24:49Tem gente que pensa assim, quando está acontecendo alguma violência contra a criança.
24:55Ah, eu não vou denunciar porque eu tenho medo.
24:58Mas existe canais importantíssimos de denúncia.
25:01Exemplo desse, nós temos um canal de denúncia no nosso estado aqui, que é o 181, e não é
25:06canal só para denunciar homicídio, roubo.
25:09Ele é um grande canal que tem de violação de direito contra a criança.
25:13Diz que sem, Conselho Tutelar.
25:15Se tem um fragante acontecendo, polícia militar, 190 de imediato.
25:21Então, assim, tem que denunciar.
25:23É importante quando igrejas abrem o espaço, escola abre o espaço, para a gente estar falando.
25:31Eu mesmo sou uma pessoa que, em Cariacica, quem me conhece lá, sabe que eu não estou
25:36mentindo, que eu vou falar aqui agora.
25:38Eu sou chamado para ir à escola direto, quando tem dia da família na escola.
25:42Eu vou, eu falo sobre o abuso.
25:44Eu falo para os pais orientarem as crianças, desde pequenininha, que ninguém pode olhar
25:50a sua parte íntima, que ninguém pode tocar na sua parte íntima.
25:53Que se fizer isso, conte para alguém.
25:56Corre, conte para alguém de sua confiança.
25:58Nós temos relatos de crianças que elas não falam em casa que está sendo abusada.
26:03Elas contam na escola, elas contam na igreja.
26:07Se elas participam de algum projeto social em OS, elas denunciam lá também.
26:13Porque esses espaços que a criança vive, ali elas relatam, principalmente escola,
26:20tudo o que acontece de bem e tudo o que acontece de mal com ela.
26:24E daí da importância, quando falou um telespectador aí, falou sobre estatuto ali, aí da importância
26:32e da Constituição Federal também, de todos denunciarem.
26:35É dever de todos.
26:37Se eu estou passando ali na rua, estou vendo uma criança sendo vítima de alguma violação
26:41direita e eu não denuncio, eu só estou sendo omisso.
26:46Então, assim, na dúvida, denuncie.
26:48Às vezes, os órgãos de proteção, os órgãos de defesa, igual o Conselho Tutelar,
26:53ele pode, em primeiro momento, como eu falei com alguns moradores lá,
26:57em primeiro momento, a gente pode ir lá, averiguar e não constatar nada.
27:01Mas eu sempre falo que a mentira lá tem perna curta.
27:05A gente pode, às vezes, ir lá no primeiro momento não identificar,
27:08mas no segundo momento, a gente pode identificar e fazer valer os direitos ali
27:13acionar a rede de proteção, a segurança pública, para que os violadores, eles cumpram.
27:19E é importante também aumentar as penas.
27:21Infelizmente, uma pena para um cara que ele é preso, para um estrupo de vulnerável,
27:26é um absurdo isso.
27:27E aí, nós, enquanto população, nós temos que cobrar, sim,
27:31dos nossos políticos lá em Brasília para aumentar essas leis.
27:34Hoje, uma lei do estrupo de vulnerável, o cara pega de 8 a 15 anos só.
27:39Olha que absurdo.
27:39Ele faz uma ruaça com a criança, acaba com a vida de uma criança,
27:44que vai ter sequelas para o resto da vida, e quando vem a justiça ainda,
27:49de 8 a 15 anos.
27:51Olha só, Regina Guiar fala, Roberto, isso é terrível.
27:54Eu, com 8 anos, fui molestada por um indivíduo que morava dentro da nossa casa,
27:58e a família dele também, né?
28:00E meu pai quis ajudar.
28:01Ele dizia que se eu contasse para o meu pai, ele iria me matar.
28:05Também tem Juliana Santos, que falou que também já passou por isso,
28:08se sabe a dor que carrega na vida e na alma.
28:11Gente, se deixasse a gente continuar esse assunto, porque os comentários não param de chegar,
28:16e a gente sabe que é muito importante a gente levar esse alerta para as famílias,
28:20mas infelizmente o nosso tempo acabou.
28:22Obrigada, Clara.
28:23Obrigada a você, Roberta, pela oportunidade.
28:25Eu queria agradecer as mulheres que me apoiaram quando eu saí da primeira vez aqui.
28:29Eu encontrei na rua quatro me abraçaram, nunca vi na vida.
28:32Obrigada.
28:33Que passaram pela mesma situação que eu.
28:35Obrigada.
28:35Obrigada a você.
28:35Obrigada, Marcos Paulo, também, pela sua disponibilidade, está sempre com a gente.
28:38Luciana Infantini, também levando esse alerta.
28:41Uma boa tarde.
28:41Que bom que essas crianças têm a tia, né, Roberta?
28:44Que bom.
28:44Verdade.

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