00:00O Diogo mostrou aqui para a gente os números do Rio de Janeiro e a gente está vendo uma reviravolta
00:05em relação ao que as pesquisas mostravam.
00:07O Eduardo Paes, no começo da campanha, inclusive, era cotado para vencer no primeiro turno e, por enquanto, ele está
00:14perdendo já no primeiro turno, com pouco mais de 70% das urnas apuradas.
00:18A que se deve esse crescimento do Douglas Ruas?
00:22Ou será que as pesquisas não estavam capturando, de fato, o sentimento dos eleitores ao longo da campanha?
00:28Ou será que foi aquele boost que veio na reta final com a presença massiva do Flávio Bolsonaro na campanha
00:36do Douglas?
00:38Olha, é uma surpresa enorme, como vocês colocaram.
00:41Enfim, eu acho que isso tem que ser marcado.
00:43A expectativa era que havia até a possibilidade de uma vitória do Eduardo Paes no primeiro turno.
00:49Enfim, o Eduardo Paes já prefeito do Rio várias vezes, quatro vezes, uma figura conhecida da política,
00:57sobretudo carioca, mas também fluminense, já foi candidato a governador, enfim,
01:01se vincula a tradições políticas de longa duração no Rio de Janeiro.
01:06O Douglas Ruas, como vocês marcaram bem, enfim, ele teve um desempenho recente.
01:12Ele é filho do prefeito São Gonçalo, Nelson Ruas,
01:14que é uma liderança local de direita bem presente, mas também com acusações pesadas
01:24que acompanham sua trajetória anterior, enfim.
01:27Mas o Douglas Ruas, ele demorou até mesmo a ser escolhido como candidato, né?
01:33Enfim, você tinha outras opções, se pensou em indicar o Barcelar,
01:38não é isso que acabou envolvido com acusações de crime, está respondendo a processos criminais
01:44e acabou não podendo concorrer.
01:46Então, existe uma surpresa mesmo nessa escolha e uma surpresa nesse desempenho, né?
01:57E a que a gente pode atribuir isso, né?
01:59Enfim, se falou, ah, as pesquisas erraram?
02:02Olha, pode ser, claro, que as pesquisas não tenham conseguido perceber alguns movimentos, né?
02:09Mas também o caso parece muito semelhante ao que ocorreu com o Wilson Witzel há oito anos atrás, né?
02:16Num movimento que é muito difícil de você captar em pesquisas,
02:20que é um movimento de transferência de votos de última hora,
02:24um movimento que passa, enfim, por comunidades muito arraigadas,
02:29que passa, por exemplo, pela articulação da política das bases evangélicas do Rio,
02:35muito provavelmente, que passa, enfim, pela capacidade de articular localmente
02:40em vários lugares do Estado, como a própria região de São Gonçalo,
02:45que é um município muito populoso, com outros tipos de articulações,
02:47como lideranças locais fluminenses.
02:50Então, é um movimento que mostra os limites, enfim,
02:54das pesquisas de perceberem movimentos de última hora.
02:57Então, eu nem sei se a explicação passa pelo vínculo com o Flávio Bolsonaro.
03:02É claro que a onda que vem com o Flávio Bolsonaro ajuda,
03:05e pode ter ajudado e tira um papel relevante.
03:08Mas me parece que, assim como ocorreu anteriormente,
03:11tem, digamos, estruturas e vínculos profundos da política fluminense
03:16que não são facilmente percebidos e que não conseguem ser operados a partir da capital.
03:21E o Eduardo Paes, é claro que ele não é um político conhecido apenas na cidade do Rio de Janeiro,
03:26mas ele é uma figura cuja trajetória política passa muito pela cidade.
03:30Talvez essa trajetória esteja esbarrando em vínculos e articulações ou outras
03:35para conseguir se tornar governador.
03:37Jorge, eu quero fazer uma pergunta para você sobre a disputa do Senado aí no Rio de Janeiro,
03:43mas antes, deixa eu trazer uma informação aqui,
03:45que é oficial aqui do estado de São Paulo,
03:49o estado com o maior número de eleitores no Brasil.
03:51Eleição definida, Tarcísio de Freitas, do Republicanos,
03:55governador reeleito com 62,85% dos votos,
04:01já com 90% das urnas apuradas,
04:04cerca de 13 milhões de votos para o Tarcísio.
04:07Venceu, mais uma vez, Fernando Haddad,
04:09que teve 36,22% dos votos válidos,
04:14cerca de 7 milhões e meio de votos.
04:16E também aqui, já como acabei de informar,
04:20além de vencer o governo do estado em primeiro turno,
04:23o Tarcísio conseguiu fazer os seus dois senadores,
04:26Guilherme Derrite e André do Prado, também eleitos.
04:33E voltando para a nossa disputa do Rio de Janeiro,
04:36eu queria perguntar e também trazer,
04:40que foi surpreendente, além da disputa para o governo do estado,
04:44a disputa para o Senado.
04:45A gente tinha a candidata do PT, Benedita da Silva,
04:47uma apetite histórica, liderando as pesquisas.
04:49A gente sabe que as pesquisas para o Senado não são muito precisas,
04:52o eleitor não sabe muito bem o número do candidato,
04:55a campanha é casada.
04:56Mas, no Rio de Janeiro, Carlos Portinho,
04:59que é atual senador pelo estado já e conseguiu a vaga,
05:03era suplente, e agora concorre à reeleição.
05:07Está aqui o Carlos Portinho com 27,16,
05:103 milhões de votos.
05:12E o Carlos Jordi, que foi líder do governo Bolsonaro na Câmara,
05:17líder da oposição, perdão, agora no governo Lula,
05:1924,9%, superando a Benedita, por enquanto, que tem 20%, né?
05:25E o Pedro Paulo, que era outro candidato que compunha a chapa ali do Eduardo Paes,
05:30com 11%.
05:32Sei que você falou bastante já um pouco sobre o Douglas Ruas,
05:37mas eu queria uma análise sua sobre essa disputa pelo Senado.
05:42Essa disputa eu acho menos surpreendente,
05:44pelo ponto de que, não apenas em 18,
05:48mas em eleições anteriores,
05:50a direita se mostrou mais hábil em conseguir casar esse voto.
05:54Como você falou muito bem,
05:56é muito difícil que pesquisas eleitorais consigam pegar,
05:59sobretudo, o segundo voto para o Senado,
06:01que é um voto que, muito perto da eleição,
06:04há um número enorme de indecisos.
06:05Então, os movimentos são de última hora,
06:08e as pesquisas, claro que elas indicam algo,
06:11mas elas indicam pouco.
06:12Então, nesse cenário, como a dobradinha,
06:17Portinho e Jordi,
06:18era uma dobradinha muito montada,
06:20em que quem vota em um, vota no outro, não é isso?
06:22E a Benedita, ela não tinha uma dobrada tão evidente,
06:25uma parte vinculava ao Pedro Paulo,
06:28mas que é um candidato também que tem dificuldades
06:30de ampliar seu voto,
06:31outra parte vinculava a uma candidata do PSOL,
06:33a Bônica Benício.
06:34Então, não me parece surpreendente.
06:37Claro que havia a possibilidade da Benedita,
06:39eventualmente, conseguir uma segunda vaga,
06:41como já ocorreu anteriormente,
06:43mas era uma eleição que, já para mim,
06:45se afigurava como bem difícil.
06:48E aí também passam razões essas colocadas.
06:52No Rio de Janeiro,
06:54o bolsonarismo consegue se articular
06:57com forças tradicionais
06:59que estão longamente presentes
07:01na política local do Rio de Janeiro,
07:03e, com isso, conseguem se, digamos,
07:06conseguem chegar e impactar a política estadual.
07:09Eu acho que a eleição do Senado demonstra isso
07:11e, claro, a eleição do Douglas Ruas
07:13demonstra isso muito bem.
07:16Tatiana, no Rio de Janeiro,
07:18a gente vê uma influência muito grande
07:19do bolsonarismo, né?
07:20Então, o presidente Jair Bolsonaro
07:24fez carreira no Rio de Janeiro,
07:26seus filhos, Carlos, Flávio,
07:29também se elegeram sempre pelo Rio de Janeiro,
07:30Carlos agora foi para Santa Catarina,
07:32Eduardo Bolsonaro nasceu no Rio de Janeiro,
07:35mas fez carreira aqui em São Paulo,
07:36e agora estão conseguindo colocar
07:38um candidato ao governo com força ali.
07:42Talvez seja o grande centro do bolsonarismo
07:45o Rio de Janeiro hoje,
07:46será que a gente pode falar isso?
07:48Não, que o Rio de Janeiro é muito importante
07:51para o bolsonarismo, certamente,
07:53mas eu diria que não se restringe ao Rio de Janeiro, né?
07:57Então, a gente tem aqui em São Paulo
07:59um candidato que foi reeleito agora,
08:02em primeiro turno,
08:03dois senadores que também são da base bolsonarista,
08:07claro, derrite muito mais o André do Prado,
08:09uma direita um pouco mais moderada, enfim,
08:13mas todos apoiados pelo bolsonarismo.
08:16Então, esse movimento bolsonarista,
08:18ele está conseguindo hegemonizar a direita.
08:22Eu acho interessante a gente pegar uma imagem
08:24que a gente viu mais cedo, enfim,
08:27veiculando em vários canais,
08:29que era uma imagem do Geraldo Alckmin,
08:31com a Simone Tebet e Marina Silva.
08:34Então, o Alckmin já havia sido candidato a presidente,
08:39em 2018 contra Lula,
08:41passa a ser o vice do Lula,
08:42eles disputaram várias vezes o Geraldo Alckmin candidato
08:46e eleito no Estado de São Paulo também, muitas vezes.
08:50Marina Silva, uma petista histórica,
08:54e depois saiu do PT,
08:55mas também disputou contra o PT em 2014,
08:592010.
09:01E a Simone Tebet, que foi candidata na última eleição,
09:05todos eles juntos.
09:06Isso é muito interessante para a gente começar a observar
09:09essa reconfiguração das forças políticas e partidárias no Brasil.
09:13Essa eleição é uma eleição que a direita,
09:15a extrema-direita, sai muito vitoriosa.
09:18A gente já tinha algumas...
09:20A gente já sabia um pouco que isso ia acontecer,
09:22porque o PL tem recursos de fundo partidário e fundo eleitoral
09:27muito substantivos.
09:29E a gente tem observar...
09:31Eu acho que é interessante a gente observar não apenas isso,
09:35como que os recursos de fundo partidário e fundo eleitoral
09:38estão distribuídos nesses partidos de direita,
09:41porque tem, além do PL, também podemos falar do União Brasil,
09:45União Progressista, a federação.
09:48Mas essa mudança no que a gente...
09:52Da disputa eleitoral, da disputa política,
09:56em termos de lideranças.
09:57Então, nós temos, de um lado, lideranças que são...
10:00Que a gente poderia falar antes de 2018 e depois de 2018.
10:05Então, candidatos que são desse antes de 2018 perdendo,
10:12não conseguindo ser vitoriosos em Senado, em governo.
10:15E essas lideranças que são formadas a partir...
10:19E aí não só 18, eu iria até um pouquinho antes,
10:22a partir do impeachment de Dilma.
10:23Então, desde o impeachment, você tem ali uma movimentação MBR,
10:27vem para a rua, uma série de lideranças que vão se formando ali
10:31e que elas vão sendo cada vez mais competitivas.
10:35Então, em São Paulo, nós temos um candidato que é eleito
10:39com um número expressivo de votos, que é o Pavanato,
10:42em Minas Gerais, Nicolas Ferreira,
10:43que todos eles são dessa geração.
10:47E não estou falando em termos de idade, estou falando de formação de lideranças mesmo.
10:53É algo a se pensar muito.
10:56Então, a gente tem, em termos presidenciais, Lula, de outro lado,
11:02todos esses candidatos.
11:04Então, Zema, que é eleito em Minas Gerais, depois reeleito antipolítica,
11:09sou gestor, Renan Santos, um dos fundadores do MBL.
11:15O Cury, que, enfim, apareceu mais aqui.
11:18E o Caiado, que ainda é a sobra ali da Nova República.
11:21Então, a gente está discutindo o que é a democracia no Brasil,
11:25o que é a República no Brasil.
11:28E uma crise que se inicia em 2013,
11:31que, de alguma maneira, a gente está observando essa década crítica acontecendo,
11:36tendo resultados até hoje.
11:37Então, essas eleições, com essa avalanche de votos na direita e na extrema-direita,
11:43filho de Bolsonaro, outro filho de Bolsonaro, esposa de Bolsonaro,
11:48apoiados por Bolsonaro, quer dizer,
11:50e uma máquina do PL muito forte.
11:54Que vai se reabastecendo, né?
11:57Claro.
11:57Porque quanto mais candidatos conseguem se eleger,
12:00mais dinheiro que vai entrando e a máquina vai se retroalimentando.
12:03Então, né?